O DESENCANTO
“E
OS QUE USAM DESTE MUNDO, COMO SE DELE NÃO ABUSASSEM, PORQUE A APARÊNCIA DESTE
MUNDO PASSA”. CORÍNTIOS
I 7:31
“20MAS DEUS LHE DISSE: LOUCO! ESTA NOITE
TE PEDIRÃO A TUA ALMA; E O QUE TENS PREPARADO, PARA QUEM SERÁ? 21ASSIM É AQUELE QUE PARA SI AJUNDA
TESOUROS, E NÃO É RICO PARA COM DEUS.” LUCAS 12:20-21
“POIS
QUE APROVEITA AO HOMEM GANHAR O MUNDO INTEIRO, SE PERDER A SUA ALMA? OU QUE
DARÁ O HOMEM EM RECOMPENSA DA SUA ALMA?” MATEUS 16:26
A gente se defronta na caminhada terrena
com um grupo grande de pessoas que se julga forte. Um deposita sua fortaleza
nos recursos financeiros vultosos, esquecido de que estes surgem e depois vão.
Ou na propriedade de terras, que amanhã ou mais tarde transferir-se-ão para as
mãos de novos donos. Aquela se considera poderosa e melhor do que os outros pelo
fato de possuir percentual elevadíssimo de beleza física, desatenta de que esta
beleza, como a flor, floresce, brilha e passa. E aquele se julga acima de
muitos em razão dos amigos e parentes que tem e que se encontram em posição de prestígio
e destaque nos círculos sociais. Por fim, diversos exemplos poderiam ser
enumerados.
O que não podemos esquecer em momento algum
é que a experiência terrena, confrontada com a eternidade, não passa de um
simples sonho ou pesadelo de alguns minutos.
E que, independente de onde estivermos e
como estivermos, tudo na vida é por um pouco de tempo. Nada mais que isso. Que
tudo favorece ou aflige a criatura terrestre simplesmente por um pouco de
tempo. Que o destino é um campo restituindo invariavelmente o que recebe, e que
pela demonstração do pouco é que caminhamos para o muito de felicidade ou de
sofrimento, e que muita gente, valendo-se da mínima fração do que tem
complica-se por longo período.
O apóstolo Paulo nos diz com extrema
sabedoria: “E os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a
aparência deste mundo passa.”
De fato o mundo fica, permanece, a
aparência é que passa. E nem sempre, segundo a nossa visual deficitária e
incorreta, os que aparentam ser vitoriosos o são realmente. Por esta razão, ante
o caminho eterno, não podemos nos embrenhar na selva humana despreocupado de
nossa habilitação à luz espiritual.
Temos que aprender a enxergar melhor a essência,
despir da nossa mente a roupagem dos enganos materiais, caminhar sem trocar a
realidade pelas aparências.
Não são poucos os que buscam a paz nas
conquistas dos bens materiais, que por sinal são necessárias e fundamentais e
carecemos delas. O problema é quando a busca limita-se unicamente a essa forma
de êxito, o que não raras vezes ocasiona a frustração e o desencanto. Exemplo
disto é o número de pessoas que vivem cercadas pelos recursos amoedados e ainda
alimentam no coração aquele vazio de alma. Tem tudo o que precisam, e bem mais
do que precisam, todavia não são felizes. Desconhecem a felicidade na sua
acepção legítima.
E o pior é que grande percentual dessas pessoas sente que o
fato de não terem alcançado uma satisfação íntima duradoura, embora as inúmeras
realizações no campo material, significa que o preenchimento do vazio se fará
automaticamente mediante o alcance de realizações materiais ainda mais
vultosas. Não é fácil. A conta bancária cheia de moedas, quando o titular tem a
alma vazia de educação, significa roteiro seguro para a morte dos valores
espirituais.
Acabamos de dizer agora que tudo é por
pouco tempo. Aliás, o tempo passa célere e diariamente retiram-se da Terra
criaturas cujo passo se imobiliza nos angustiosos tormentos da frustração. Por
trás do sepulcro, ponto de chegada de todos os que saíram do berço, a verdade
aguarda o homem e o interroga: “O que trouxeste?”
O materialista pensa, reflete, analisa e
responderá que reuniu inúmeras vantagens materiais. Não só isso, óbvio. Que
trabalhou muito, também, para dar boa condição aos seus. Que se esforçou sem
medidas para assegurar uma posição tranquila a si mesmo e aos dependentes. Que
tudo fez em prol daqueles que ama. Entretanto, analisada a bagagem do que levou
consigo quase sempre notará que suas vitórias foram derrotas fragorosas. Não
constituíram valores da alma e tampouco trouxeram o selo dos bens eternos. Ele estende
os braços para o ouro que amontoou, contudo esse ouro apenas lhe assegura o
mausoléu em que se lhes guardam as cinzas. Alonga a lembrança ao nome em que se
ilustrou nos eventos humanos, porém quase sempre a fulguração pessoal de que se
viu objeto apenas lhe recorda o coração para a dor do arrependimento tardio.
Contempla o campo de luta em que desenvolveu transitório domínio, mas não
enxerga senão a poeira da desilusão que lhe soterra os sonhos mortos.
É triste, mas é a verdade. Situações assim não
ocorrem com pouca frequência como podemos imaginar, pelo contrário. Os anos
passam e o evangelho continua a questionar as almas humanas nos momentos de culminância:
“E o que tens preparado, para quem será?” (Lucas 12:20) Nem todos sabem responder
com exatidão. Muitos, infelizes, percebem que o grande percentual dos seus
lucros não passou de perdas desastrosas. Circularam no mundo em carros de
triunfo na política, na fortuna, nas artes, na ciência, na religião e no poder,
entretanto, incapazes do verdadeiro serviço aos semelhantes enganaram a si
próprios no culto ao egoísmo e ao orgulho, à intemperança e vaidade que lhes devastaram
a vida. E despertam, além da morte, sem recolher a luz.
Há muita gente que supõe vencer hoje para
acabar vencida amanhã. Quer ganhar a vida, e acaba perdendo-a no seu sentido
intrínseco de bem estar e harmonia pessoal. Poderá guardar inúmeros títulos de
posse sobre as utilidades terrestres, mas se não for senhor de tua própria alma
todo o seu patrimônio não passará de simples introdução à loucura. Empilhará
moedas de ouro e prata, à sombra das quais falará com autoridade e influência
aos ouvidos do próximo, todavia, se os teus haveres não se dilatarem, em forma
de socorro e trabalho, estímulo e educação, em favor dos seus semelhantes, será
apenas um viajante descuidado, no rumo de pavorosas desilusões. “Assim é aquele
que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus” (Lucas 12:21). E “que
aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?” (Mateus 1:26).
É preciso analisar com cuidado. O mestre divino
não recomendou que o homem deva movimentar-se despido de objetivos e aspirações
de ganho. Não tem nada disso. Isso não existe no evangelho. Ele salientou
apenas a necessidade de se conhecer o que procura, avaliar que espécie de lucros
almejamos, a que finalidade nos propomos em nossas atividades e trajetórias terrestres.
É importante abrirmos os tesouros da alma para
que não nos iludamos com as fantasias da inteligência quando procuramos agir sem
Deus. Os títulos e valores materiais constituem-se em prova ímpar, capaz de aferir
as verdadeiras disposições de desprendimento do ser em sua atividade espiritualizante.
Os interesses imediatistas do planeta clamam
o tempo todo que tempo é dinheiro, para, em seguida, recomeçarem todas as obras
incompletas na esteira das reencarnações. O munda grita o tempo todo, e pelos
perigos que corremos o criador nos adverte da nossa fraqueza e fragilidade de
nossa existência. Mostra-nos que entre suas mãos está a nossa vida e que ela se
acha presa por um fio que pode se romper no momento em que menos esperamos.
Jesus define “eu venci o mundo”, pois precisamos
viver com o mundo, estar integrados no mundo, mas o mundo não pode ser o gerenciador
das nossas decisões.
Pare e pense. Se teus
desejos repousam nas aquisições factícias, relativamente a situações
passageiras ou a patrimônios fadados ao apodrecimento, renova, enquanto é
tempo, a visão espiritual, porque de nada vale ganhar o mundo que não te pertence
e perderes a ti mesmo, indefinidamente, para a vida imortal. Recorda os que padecem
na derrota de si mesmos, depois de se acreditarem vencedores, dos que choram as
horas perdidas, e procura, enquanto é hoje, enriquecer o próprio espírito para o
amanhã que te aguarda. Afinal, conforme o ensino de Jesus, nada vale reter por fora
o esplendor de todos os impérios do mundo, conservando a treva no coração.









