8 de out de 2018

Cap 62 - A Caridade (3ª edição) - Parte 9

A ESSÊNCIA DA CARIDADE 1

“DAI ANTES ESMOLA DO QUE TIVERDES.” LUCAS 11:41

“E DISSE PEDRO: NÃO TENHO PRATA NEM OURO; MAS O QUE TENHO ISSO TE DOU. EM NOME DE JESUS CRISTO, O NAZARENO, LEVANTA-TE E ANDA.” ATOS 3:6

Eu não sei se você já parou pra pensar, mas o nosso amor ao próximo por enquanto é um amor todo convencional. Todo sistematizado, enquadrado, certinho, mecanizado. E todo periférico também.

Sim. Porque a ideia de caridade para muita gente ainda está voltada às convenções puramente humanas. E é a pura verdade. O tempo passa e continuamos preocupados com o conteúdo objetivo.

A nossa caridade continua circunscrita ao aspecto material, físico. Continua no sentido literal. É o copo de água que se dá, o pedaço de pão que se oferta, a roupa que não serve ou ficou usada e a criatura fornece. Quando na verdade o assunto caridade é mais abrangente, ele se dá em outras bases.

Daí a gente depreende que é preciso acabar com essa ideia de trabalhar somente na periferia.

Tem muitas pessoas que estão trabalhando na periferia. E estão fazendo o bem. Não está errado não. Mas vamos ter conosco que o que manda é a nossa estruturação reeducacional. Ficou claro?

Vamos falar de uma coisa importante: o mecanismo da cooperação e da manifestação do amor se dá através de um processo não de valores tangíveis, mas que se expressa dentro de um sentido de irradiação. Ok? Isso é fundamental de ser entendido, e muito bem entendido.

Em outras palavras, é comum a gente achar que a transferência de um componente tangível que nós ofertamos representa a efetiva doação para alguém, quando no fundo esse componente não representa o valor transferido. Quer dizer, o valor material transferido foi apenas o condutor da essência canalizada. Deu para acompanhar ou compliquei? Andei falando grego aqui? Então, fique tranquilo que nós vamos clarear.

Temos enfatizado constantemente que caridade é a aplicação do amor. Caridade é a dinâmica do amor. Certo até aí? E para que ela se manifeste, nós vamos pegar a sua essência, que é vibracional, e vamos transferi-la por meio do pão, por meio de uma roupa, de um dinheiro, por meio de um conselho, de um abraço, etc.. De forma que é preciso saber separar o que seja o componente material da beneficência do que é a essência sutil da caridade. Percebeu? Separar o que é o instrumento didático, que funciona como veículo, do que seja o conteúdo essencial.

A pessoa, às vezes, vem com o dinheiro e o dinheiro não é a caridade. Com o pão dado é a mesma coisa. Ele é o veículo, é o instrumento da caridade, mas não é a caridade. Esses dois componentes usados como exemplo representam instrumentos canalizadores da caridade. Eles vão servir para direcionar a caridade, que na sua essência não é material. Ficou claro agora?

Eles vão ser apenas os instrumentos usados para transferir a essência que é a vibração do amor manifestada naquela ação. O dinheiro e o pão, entre tantos outros componentes, não são os elementos de sustentação finalística e, sim, os elementos canalizadores do amor. São componentes que vão ser usados para levarem a essencialidade. De forma que o amor manifestado, que é a essência, vai ser transferido através do dinheiro, do pão, de um abraço, de um conselho, e por aí afora.

Está dando para notar como o assunto é mais abrangente do que parece? Todas as vezes que nós buscamos exercitar o bem, de fora para dentro, nós podemos chamá-lo, sem exagero, de meio bem.

Não deixa de ser um bem, claro, mas o bem legítimo é aquele que auxilia o semelhante edificando-o, melhorando a estrutura dele. Então, uma coisa que vigora nesse processo é a vibração. A criatura que faz vibra com aquilo.

A conclusão é a seguinte: o que manda é a vibração. Ok? O valor vibracional ou a carga de emoções implementada em uma ação no bem é que vai determinar o grau que define a linha qualitativa. Que premia, felicita e eleva a criatura, ou a entristece, jogando-a para baixo e a onerando.

E vale lembrar que ninguém é obrigado a atender os caprichos de alguém. De forma alguma. Mas sempre se pode deixar algo benéfico no coração de quem pede ou precisa. Logo, não importa a condição em que se encontre a criatura que quer ofertar. Independente das circunstâncias exteriores ela sempre tem algo de positivo a oferecer àqueles que lhe batem à porta. Aos que surgem em sua órbita, ainda que estes cheguem agressivos, contrariados, para agredir, maltratar, ou desprezar.

Tem gente que acha que amar é dar a sua vida ao outro. E fazer tudo o que o outro quer. E é enfático: "Quem ama é aquele que dá a sua vida pelo semelhante!" Tudo bem, cada qual pensa da maneira que quer. Mas tem gente que dá a vida pelo outro e faz tudo que o outro quer, mas não ama o outro. Percebeu? Não tem carinho pelo outro. Faz, mas não sente prazer nisso, não vibra com isso. Não sente aquele gostinho bom de interagir com aquela criatura, com o fato, com a situação. Deu para entender? Não sente o melhor. Faz, mas não sente alegria íntima no fazer.

Daí, fica um recado para todos nós: vamos amar o próximo sim, todavia vamos procurar fazer de modo que o nosso campo mental sinta prazer nisso. Porque se eu faço o bem e não sinto prazer nisso eu fico me desgastando. Fico andando na contramão. E o amor é o inverso do desgaste. O amor não desgasta. Pelo contrário, refaz. O amor preenche, nutre, alimenta a alma. E o amor, bem lá no fundo, significa fazer bem pelo amor ao próprio bem.

5 de ago de 2018

Cap 62 - A Caridade (3ª edição) - Parte 8

CARIDADE PERIFÉRICA 2

Pode acontecer da pessoa passar grande parte da sua vida servindo e ajudando, aqui e ali, no entanto, sem alterações íntimas. Ela trabalhou muito no campo exterior, chega no fim da encarnação com a contabilidade em dia e diz: "Na minha vida eu abri o coração e doei. Fiz mais de quinhentas campanhas de doação e doei para muitos necessitados". Não pode acontecer?
           
Só que tem um detalhe: não conseguiu dobrar determinadas estruturas que estão dentro dele a muito tempo. Não utilizou a luz da religião para efetivar o clareamento do próprio coração.
                                              
Quer dizer, ele ajudou, com certeza fez amigos, mas não melhorou a sua condição íntima. Às vezes, até pelo contrário, está cheio de resistência no passado dele. No fundo, todas as lutas por que passou não lhe modificaram a personalidade. Ele continua sendo o mesmo indivíduo por anos. Com as mesmas trevas, as mesmas dificuldades, as mesmas complicações, as mesmas emoções desvairadas.
                                                          
Isso sem contar aqueles que não se modificam e ainda justificam a ausência de mudança: "Não tem jeito. Eu sou assim mesmo. Não vou mudar. Eu nasci assim e vou morrer assim". 

Fazer o que, não é?! Esses não se abrem para mudar para melhor. Não se esforçam no testemunho das mudanças. Não raras vezes, a mesma pessoa que vai chegar no plano espiritual, quando do desencarne, é a mesma que chegou aqui quando reencarnou. Percebeu? Vai voltar pra lá com a mesma luzinha íntima que chegou aqui.

Então, nós precisamos ficar atentos. Se fizermos muito lá fora e pouco dentro de nós mesmos, no sentido de melhoria, é claro que vai haver um resultado positivo. Isso é óbvio. Mas de que natureza? Ganhamos amigos, mas continuamos tateando. Continuamos às escuras. Assim, pode acontecer do indivíduo ter feito muitos amigos na doação de pão para os necessitados, mas não ter feito luz em seu interior, o que, aliás, é o desafio que nós estamos tentando entender e apropriar aqui.

E olha que nem mencionamos que tem muita gente operando em termos de caridade por aí e que é verdadeiro verdugo dentro de casa. Não tem? Eu disse em casa, mas esse "em casa" pode ser estendido a outros ambientes também. Acho que todo mundo conhece pessoas assim. O elemento complica demais. A sua presença já chega a pesar negativamente no ambiente.

Complica na administração do dinheiro, complica no ambiente familiar, complica no trabalho, no campo social. Complica aqui, complica ali, complica não sei onde, e no final das contas ainda leva a virtude de ter dado o pão para o necessitado e ter sido uma pessoa caridosa.

Pense comigo, não adianta a pessoa distribuir um caminhão de cesta básica e ficar indisposto com aquele que está ajudando a descarregar o caminhão. Adianta? Ou, então, fazer uma distribuição no natal e durante a distribuição ficar falando palavrão, ficar de cara fechada, reclamando com um, reclamando com outro, brigando com os meninos. O que você acha? Dessa forma, com essa maneira endurecida, ele enche o estômago dos outros, mas não vibra com o que faz. 

E não chega a alcançar o plano de harmonia e euforia íntima. Quer dizer, a sua mente pode estar voltada ao campo da cooperação, da ajuda, mas o seu plano educacional passa longe de um atestado de melhoria, deixa muito a desejar.

Nas relações sociais, o pedido de providência material tem o sentido e a utilidade oportuna. Faz parte do movimento de trocas no organismo da vida. De forma que a caridade começa em cima da esmola. Nós sabemos que os instrumentos materiais não são os valores de sustentação finalística (pois caridade é a vibração de amor que circula), todavia funcionam como elementos canalizadores. E é por aí o grande começo. Afinal de contas, quem não exercita em dar alguma coisa dificilmente chegará um dia a doar-se.

E ao abordar esse assunto é preciso cuidado para não achar que quem está fazendo esse trabalho externo não está correto ou está simplesmente perdendo o seu tempo. A gente também não pode dizer que não exista mérito nessas atividades. De forma alguma. Existe mérito sim. A bem da verdade, elas são instrumentos operacionais que condicionam a nossa tendência à solidariedade e ao amor que nós temos que ter. 

Vamos tentar clarear isto. Veja bem, se eu noto que não tenho sensibilidade para dar um passe, por exemplo, ou de atender ao necessitado na carência ou fome que ele apresenta, seja ela de qualquer natureza, ao sair de casa e ir à campanha em que estou engajado eu começo a me adestrar, gradativamente, ao campo da solidariedade. Deu para acompanhar?

Nós estamos ainda tão distantes dessa capacidade de sensibilização no nosso dia a dia que temos que mergulhar nas atividades externas. Temos que participar de algumas duas ou três vezes por semana, temos que evangelizar, participar ali, participar aqui. Percebeu? Ir trabalhando o nosso amor dentro de parâmetros restritos, marcados, circunscritos, de forma a irmos criando condições condicionáveis de bem e de amor. Então, não está errado não. Nós necessitamos dessas atividades.

É preciso ter em conta essa questão. Se formos analisar bem, o que a esmola faz? A esmola trabalha a intimidade do ser. Razão pela qual as obras da caridade material só alcançam a feição divina quando proporcionam a espiritualização do cooperador, renovando-lhe os valores íntimos. De forma que a prática do bem exterior é ensinamento e apelo para que cheguemos à prática do bem interior.

2 de ago de 2018

Cap 62 - A Caridade (3ª edição) - Parte 7

CARIDADE PERIFÉRICA 1

Um casal de uma cidade grande passeia por uma cidadezinha do interior. Um lugar bem pobre. Um lugarejo como se costuma dizer. O casal elegante desce do carro luxuoso e começa a caminhar por uma estradinha de terra, quando se depara com um menino descalço. Um morador da região. Cabeça baixa, roupinha simples e sujo de poeira, que fala ao homem bem vestido:

- Moço, me dá um trocado?
- Quê isso, menino. Sai pra lá!
- Ô moço, só um trocado. É que eu estou com fome. Só um trocado, pra eu comprar um pão na venda do seu João.
- Sai prá lá, menino! Já falei. Não tenho dinheiro não!
- Eduardo Alberto (diz a esposa, a essa altura indignada com a insensibilidade do marido), pára com isso! Não vê que o menino está com fome? Dá logo um trocado pra ele!
O homem enfia a mão no bolso da calça, remexe os dedos e tira de lá algumas moedas.
- Toma, menino!

Aí eu pergunto, a nível de esclarecimento: Nesse caso, houve caridade? O que você acha? A resposta é simples e eu acho que nem é preciso pensar muito: Não! De modo algum. Caridade é que não houve.

Veja bem, nós já entendemos que caridade é o amor na sua faixa de aplicação. Certo? Daí, o indivíduo deu a esmola, mas a caridade não circulou. Ele deu para ficar livre. Então, o que ocorreu? Houve apenas uma transferência de valores, nada mais que isso. De onde podemos notar que em certas situações pode acontecer da própria moeda dada significar um desastre para nós.

Porquê? Porque a vibração do amor não se manifesta. E isso acontece demais. A pessoa dá o trocado no sinal de trânsito, dá o pedaço de pão na esquina, mas dá com má vontade, dá para ficar livre ou coisa parecida. De onde é possível concluir que em muitos casos o indivíduo pode ter feito caridade a vida inteira e, no entanto, não ter sido caridoso um dia sequer.

Então, nós damos de um lado e desativamos do outro. E, se bobear, até dando um presente nós podemos estar dando somente a manifestação da nossa vaidade. Não pode acontecer? Quantos não atiram moedas ao faminto ou necessitado que passa apenas para ficar livre da presença dele ou demonstrar uma pretensa superioridade?

A luta íntima, que é a fundamental, é de uma beleza extraordinária. Não é? Mas ela tem um preço. 

Preço, por sinal, que muita gente não quer pagar. Repare que muita gente, em se tratando de caridade, e você deve conhecer pessoas assim, prefere fazer o bem lá fora. Não acontece disso no campo das religiões? E justifica: "Enquanto aquele povo lá fica estudando o evangelho, eu quero é fazer a minha campanha de auxílio. Doar alimentos. Porque o povo está com fome." Aliás, tem muita gente envolvida nas diversas religiões que trabalha só para a assistência social. Não adianta querer mostrar o outro lado, a importância do estudo, a importância de ser renovar, a importância de ler. "Ler? Quê isso. Isso é perder tempo. Você tem é que ajudar o próximo!"

Chegam a dizer que o que gostam é o trabalho social: as visitas, as campanhas, as atividades externas. Segundos esses companheiros, trabalhos externos são os melhores. E alguém pode tirar essa razão deles? Não. Só que investem na caridade periférica e costumam misturar o que é ação periférica com a proposta essencial.

E quer saber de uma coisa? Para a maioria esmagadora de pessoas, às vezes é melhor mesmo. É preferível as atividades dessa natureza do que ter que mexer na própria intimidade, rever conceitos, alterar concepções e reformular posturas como o evangelho propõe. Mais fácil é ficar nas ações externas. É bem mais fácil lidar lá fora do que ter que mexer dentro do coração.

A parte da mudança íntima não interessa a muita gente. Veja para você ver. A criatura ouve uma palestra bonita e profunda do evangelho. Para ela foi um sucesso: "Nossa, eu nunca ouvi falar isso". Ou, então, abre o novo testamento e lê algumas passagens. Se emociona e chega até as lágrimas. Aí torna a fechar. Não é assim que acontece? Essa tem sido a metodologia adotada.

E tem também aqueles que adoram ler. Muitos destes conhecem, conhecem e conhecem. Mas no fundo ainda não se abriram e não entenderam a necessidade do plano reeducacional. Por isso, a gente precisa de calma para analisar as questões que envolvem o campo espiritual.

É claro que essa postura de buscar o extrínseco é válida e apresenta seus méritos. Mas cá para nós, venhamos e convenhamos, é a condição mais tranquila e serena, porque a luta reeducacional não é uma luta fácil. De forma nenhuma. Se ficamos só nisso nós nos mantemos na condição mais fácil. Porque o duro sabe o que é? A gente ter que engolir muita coisa, ter que redimensionar uma séria de posturas e metabolizar tantas questões no campo da nossa proposta de mudança.

28 de jul de 2018

Cap 62 - A Caridade (3ª edição) - Parte 6

A BENEFÍCIO PRÓPRIO

Um ponto da maior importância, e que precisa ser bem entendido, é que nós auxiliamos os outros a benefício de nós mesmos. Quer dizer, o que fazemos ao próximo, com sinceridade de propósitos, fazemos a nós mesmos. 

A frente ou a linha operacional nossa, antes de ser um instrumento saneador das necessidades dos semelhantes, é um desbloqueio e campo libertador da nossa própria intimidade. E estamos frisando porque isso precisa ficar muito claro.

No exercício da caridade, independente de qual seja a tarefa executada ou a extensão em que ela ocorra, eu não resolvo o problema do outro. Eu estou para resolver o meu problema. Na manifestação do amor aplicado (porque caridade é a aplicação do amor), cada qual dá a si próprio, não ao outro.

E por que é assim? Por uma razão simples. Não podemos esquecer que cada criatura transporta consigo questões essenciais e necessidades intransferíveis. Concorda? E não vai ser o meu auxílio, o seu auxílio ou o auxílio de quem quer que seja que vai resolver o campo cármico de alguém. Percebeu? Não tem nenhum de nós que seja capaz de mudar as linhas cármicas de quem quer que seja.

No plano da estrutura evolucional cada um tem que passar a sua dificuldade, e o serviço do próprio resgate é pessoal e intransferível. De forma que no fundo, se pensarmos bem, nas leis de cooperação ninguém ajuda outrem de modo finalístico.

Agora, preste atenção. Vamos dar uma ilustração para clarear. Veja bem, tudo que nos chega, que nos alcança vindo de fora para dentro, vem como justiça. Certo? Funciona como instrumento de toque, de indução, componente de sensibilização, de despertamento. E o que sai da gente é amor. Está dando para acompanhar?

Continuando o raciocínio, o que nos chega é (in)formação. Percebeu? Vem antes da formação.

Ou seja, não modifica a minha estrutura interna, não forma nada, não altera nada, não muda. 

Apenas me prepara, me potencializa. Tanto é assim que o simples conhecimento intelectivo, a simples arregimentação de valores informativos, não altera em nada o meu ser, não modifica minha personalidade um milímetro sequer. Apenas me prontifica para a mudança. E como eu só possuo o que dou, então o que eu recebo é apenas processo instaurador de estímulos no campo da aprendizagem.

E o que sai de mim, o que eu faço, o que eu realizo, o que eu aplico, isso sim, produz formação, muda, altera. Então, imagine que no exercício da caridade A → auxilia → B.

Percebeu o sentido das setinhas? 

Repare que A auxilia, é o auxiliador, o elemento que oferece, e B é o auxiliado, o elemento que recebe. Deu uma ideia?

A deu, saiu dele, ao passo que B recebeu.

Daí, a caridade de A foi efetuada em seu próprio benefício, embora ele tenha auxiliado o companheiro B de alguma forma. Moral da história: a caridade constitui um amparo e auxílio fraternal, de modo a que o recebedor (o que recebe se informa) se desperte e se levante a fim de entrar no plano de ação (o que sai forma) capaz de lhe propiciar o equilíbrio que caracteriza o que o auxiliou.

Em todos os núcleos religiosos, sem exceção, fala-se bastante em caridade e na necessidade de se praticá-la. 

Os espíritos de luz também comumente nos recomendam a sua prática. E até dizemos mais, o fazem com uma certa insistência. E não é à toa, pois fazendo assim eles nos orientam no sentido de investirmos na nossa própria evolução. Afinal de contas, somente o amor tem suficiente poder de salvar e elevar.

25 de jul de 2018

Cap 62 - A Caridade (3ª edição) - Parte 5

AMAR AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO

“36MESTRE, QUAL É O GRANDE MANDAMENTO NA LEI? 37E JESUS DISSE-LHE: AMARÁS O SENHOR TEU DEUS DE TODO O TEU CORAÇÃO, E DE TODA A TUA ALMA, E DE TODO O TEU PENSAMENTO. 38ESTE É O PRIMEIRO E GRANDE MANDAMENTO. 39E O SEGUNDO, SEMELHANTE A ESTE, É: AMARÁS O TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO.” MATEUS 22:36-39

“12PORTANTO, TUDO O QUE VÓS QUEREIS QUE OS HOMENS VOS FAÇAM, FAZEI-LHO TAMBÉM VÓS, PORQUE ESTA É A LEI E OS PROFETAS.” MATEUS 7:12

Porquê existe um sentimento egoísta muito grande dentro de nós? É coisa para pensar.

É porque com o primeiro mandamento, que sintetiza "amar a Deus e ao próximo como a ti mesmo", nos foram concedidas experiências ao longo do tempo para que aprendêssemos a nos valorizar, a nos amar. Valorizar a nós mesmos, identificando o que é bom e sabendo buscar aquilo que a gente quer. De forma que no primeiro mandamento, "amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e ao próximo como a ti mesmo", esse "como a ti mesmo" já define que somos acentuadamente amantes de nós mesmos.

Isso que vamos falar pode parecer estranho à primeira vista, e também um pouco esquisito, mas o amor fraterno e universal que almejamos, o amor incondicional a todas as criaturas que temos por meta alcançar na intimidade do coração, ele se estrutura no grande egoísmo que nós tivemos.

E a questão é que o ser humano comumente deturpa o preceito do amor "ao próximo como a ti mesmo". Como? Amando-se em primeiro lugar, que é o certo, que é o correto, mas amando-se com exclusividade. E é aí que está o problema. Percebeu? Isolando-se do Pai celestial e dos seus irmãos de humanidade.

De fato, muitos extrapolam o amor próprio a ponto de entrarem no egoísmo e a linha egocêntrica de favorecimento pessoal ainda é o grande grito da nossa personalidade.

Na aplicação do sentimento de amor a Deus e ao próximo nós costumamos entrar em terreno adentro do processo egoístico, passando a amar a nós mesmos bem mais, ou melhor, imensamente mais do que ao próximo. E cá pra nós, o amor não tem nada a ver com egoísmo. Pelo contrário, o egoísmo ou egocentrismo é uma coisa muito triste. Muito triste mesmo. É uma exaltação complicada. Uma vibração distorcida que instaura problemas contundentes e que gradativamente vai diluindo a nossa paz e subtraindo a nossa alegria, de forma silenciosa.

A proposta básica e fundamental é que nós temos que nos amar. O amor próprio e a auto-estima é fundamental. Esse amar a nós mesmos não significa a vulgarização de uma nova teoria de auto-adoração, mas é fator imprescindível.

Eu não quero embaralhar a sua cabeça, mas se esse amor próprio for retirado, se ele for extirpado, sabe o que acontece? Cessa a evolução. Pára tudo. Afinal de contas, é "amar a Deus e ao próximo como a si mesmo". Percebeu? Não podemos querer ser tão altruístas e tão caridosos a ponto de nos apagar de maneira complicada, de maneira, vamos dizer, de nos anularmos. Isso não pode acontecer de forma alguma.

Nós podemos ter ótimos planos e ótimas ideias. Querer resolver problemas e ajudar muitas pessoas, mas no fundo nós temos que nos amar. E temos que nos amar muito. Com muito carinho mesmo. Temos o direito de zelar por nós mesmos, não temos? Aliás, o próprio fato de estarmos buscando estudar, buscando tentar aprender, já demonstra isso. E mais uma coisa: se eu não me amo, como eu vou amar o próximo?

Pense comigo: para chegar ao próximo, o que é que teve antes? "Amar a Deus e ao próximo como a si mesmo". Para poder amar ao próximo nós temos que ter aprendido a nos amar muito, temos que ter uma identidade de amor a nós mesmos muito elevada. Se nós não nos amarmos, sabe o que estamos fazendo? Contrariando o primeiro mandamento. 

O próprio mandamento, "amar ao próximo como a si mesmo", define que temos que nos amar muito para nos candidatar a amar ao próximo com efetividade. Temos que nutrir um amor grande por nós próprios.

Aliás, isto nós já aprendemos. Essa parte nós sabemos muito bem, já tiramos de letra. Temos uma capacidade grande de saber o que é bom, de querer o melhor para nós.

Então não tem jeito, nós temos que nos amar muito mesmo. Às vezes, até de maneira distorcida para podermos valorizar o que pode ser bom para o semelhante. Entendeu? Se eu não me amar, se não estiver situado dentro de uma auto-estima bem definida, como é que eu vou poder amar o semelhante? Como, se eu não sei o que ele gosta?

Se você não se amar, você não sabe o concepção do amor para com o próximo.

Percebeu? Por nutrir esse sentimento egoísta por longo tempo nós aprendemos a querer o melhor para nós mesmos, o que é perfeitamente normal. Então, eu tenho que ter ideia do que é bom para mim, do que representa reconforto para mim, do que é bem estar para mim, para eu poder adotar o que é "amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo".

Além do que, se nós nos amarmos, dentro do que o evangelho propõe, seremos instrumentos mais dignos e mais úteis na mão da espiritualidade superior em favor dos que necessitam.

E precisamos de uma alta dose de amor a nós próprios, também, para conseguir entender o que pode estar se passando no coração do indivíduo, o que tem na intimidade dele. Conseguir entender o que se passa na sua intimidade, saber o que ele pode gostar. 

Assim, vamos ter condições e coragem de levar o melhor em favor daqueles que nos cercam. Para poder sentir e cooperar com o semelhante, na hora certa, no exteriorização do pensamento divino na nossa área, nós temos que ter vivido muito, ter chorado e adotado um amplo sorriso, para saber o que o próximo está querendo e que é válido.

Guarde o seguinte: é imprescindível mantermos a euforia dentro da gente. Nutrirmos um estímulo, alguma coisa que nos interessa, que esclareça e nos dê forças, até mesmo para que possamos lutar de modo a que o próximo sorria. Está entendendo? Porque o dia em que descuidarmos dos nossos anseios, das nossas buscas e dos nossos momentos de euforia, o nosso trabalho fica neutro, perde o amor. Pense nisso.

O dia em que eu perder a alegria naquilo que eu estou buscando, naquilo que me agrada, como é que eu vou identificar o que agrada o semelhante? Se eu não tiver uma auto-estima bem atuante e segura sabe o que acontece? Eu dificulto e impeço todos os mecanismos. Transformo até a minha capacidade operacional de amor em uma capacidade operacional ao nível das conveniências ou das leis de maneira bem triste, desalentadora, desconfortante, complicada.

Logo, essa expressão de auto valorização nossa é natural. Amor ao próximo como a nós mesmos é a extensão do primeiro mandamento. Quer dizer, a gente precisa primeiro começar por saber o que é o gostoso da vida. Buscar aquilo que pensa, que acha que deve, para depois isso ser naturalmente desativado, esse apego, mas sem a perda da substância que mantém a euforia da vida. 

E uma coisa é fato: quanto mais uma criatura ama a si própria, mais expectativa surge por parte da espiritualidade superior no sentido de que quando essa tônica mudar ninguém a segura. Se nós trabalharmos no parâmetro do amor, do trabalho e da realização com base naquilo que a gente gosta e sabe que é bom para nós, já imaginou quando resolvermos fazer para o próximo aquilo que sabemos que nos agrada? Já pensou nisso? Ninguém vai segurar a gente. Porque isso acaba acontecendo.

Mais cedo ou mais tarde o nosso interesse pessoal vai ter que se identificar com a linha básica que irradia amor. De modo que o nosso interesse pessoal tem que ser reduzido, mas nunca eliminado. Isso tem que ficar claro, porque ele é fator da evolução. E o dia que em que pensarmos nos outros como pensamos em nós mesmos nós vamos ser verdadeiros baluartes no amor, porque a dificuldade toda nossa está exatamente nessa reversão. Estamos custando demais a escapar dessa velha e cansada concha do individualismo. Mas não vamos nos entristecer não, nem ficar apavorados. Fiquemos tranquilos, porque chegamos lá!

13 de jun de 2018

Cap 62 - A Caridade (3ª edição) - Parte 4

A CADA QUAL A SUA COTA

Enquanto não levantarmos a bandeira da mudança e começarmos a fazer algo de concreto nós ficamos como mendigos da evolução.

Isso mesmo, como mendigos. Cheios de ideias, cheios de informação, cheios de conhecimento e reclamando de tudo. Reclamando disso, reclamando daquilo, que o mundo está errado, que isso está errado, que aquilo não presta, e daí por diante.

De onde observamos que a luta de redenção, que é de uma beleza extraordinária, exige cooperação, determinação e amor. Aliás, essa faixa operacional que se estende para além da justiça espera um pouco mais de cada um de nós.

E as pessoas à nossa volta representam o quê? São componentes que nós precisamos delas e elas de nós. Isso é fato. E tanto é que muitos já entendem o sentido científico da caridade em termos de bem viver. É o que a gente precisa saber: o porque temos que exercê-la, o que ela pode nos proporcionar de bom, o que nos propicia de positivo, qual o seu significado prático na nossa vida.

E para início de conversa, caridade é um exercício espiritual e quem a pratica movimenta forças da alma.

Outro ponto interessante é que o serviço de Jesus é infinito. O que significa isso? Que na sua órbita há lugar para todos. Sem exceção. Cada criatura recebe determinado talento da providência divina para servir no mundo. Velho ou moço, com saúde física ou sem ela, ninguém é tão pobre que nada possa dar de si mesmo.

Não existe aquele que não tenha alguma informação. Já observou? E por menor que seja essa informação, é uma informação que nos convida à serenidade, ao equilíbrio, à capacidade de operar no bem, ao chamado para respeitar o semelhante e ajudar naquilo que for possível, em maior ou menor escala. O necessário é movimentar o dom que recebemos do Supremo criador para avançarmos na direção da grande luz. Porque se a gente pensar bem, receber da vida nós sempre recebemos, e continuamos recebendo. O momento agora é  de doar.

Pensar em caridade pode parecer algo filosófico para muitas pessoas, mas no fundo representa reverter o mecanismo dos nossos desejos e interesses. Está dando para acompanhar? Quem está pensando em crescer, quem está querendo seguir adiante, mudar o rumo da caminhada e encontrar uma parcela maior de reconforto pessoal, isolado da caridade e do interesse de cooperação, vai ter uma grande frustração.

Vai se frustrar.

Todos nós vamos concluir, mais dia ou menos dia, que a prática do bem é apenas simples dever.

Esse é o conceito que temos aprendido e a opinião que temos recolhido dos espíritos elevados. Quando começarmos a sair dessa massa dos atritos e dos movimentos naturais de vinculação à retaguarda, e passarmos a entrar em uma proposta de melhoria pessoal, quando utilizarmos essa compreensão e melhorarmos a nossa linha de interação, começaremos a encontrar um estado de maior equilíbrio interior. É só experimentar para sentir. O amor é algo que flui ao nível da misericórdia. E nós não temos como adquirir a harmonia íntima se não buscarmos a paz exercendo, ao mesmo tempo, a misericórdia com os semelhantes.

A vida não exige o meu sacrifício integral em favor dos outros. De forma alguma. Mas eu também não posso esquecer do minuto de apreço aos outros. Quer dizer, eu não posso deixar a minha vida para buscar viver uma vida exclusiva em função do semelhante. Isso eu não devo fazer. Se assim fizer, eu posso me alienar. Por outro lado, eu tenho que pensar nas necessidades do outro. Ficou claro?

E isso também não significa que eu tenho que sair por aí procurando os outros para auxiliar. Não precisa. Porque os outros chegam à nossa porta a toda hora. Importante é fazer um levantamento das nossas possibilidades, pois no trabalho cristão cada seguidor contribui conforme a sua posição evolutiva. Cada qual deve estar situado na sua faixa de serviço, fazendo o melhor dentro do seu alcance.

Sem o lubrificante da cooperação a máquina da vida não funciona. É da lei! Cedamos algo de nós mesmos em favor dos outros em razão do muito que outros fazem por nós.

E mais, sem reclamar. Afinal, felizes são os que buscam na revelação nova o lugar de serviço que lhes compete na Terra. Um cristão sem atividade no bem é um doente de mau aspecto pesando na economia da vida social. Por isso, procuremos exercer a bondade e a misericórdia em patamares cada vem mais avançados.

7 de mai de 2018

Cap 62 - A Caridade (3ª edição) - Parte 3

SENSIBILIZAÇÃO

Em algum momento você parou para pensar que uma das funções mais sublimes da inteligência é a capacidade de se colocar no lugar do outro? Aliás, isso demonstra um grau de maturidade do ser humano.

E repare que muitos companheiros chegam aos núcleos religiosos quase que dentro de uma linha terapêutica. Isto é, chegam em alguma coletividade espiritual, seja ela de qual natureza for, para resolver os problemas do seu mundo interior. Concorda?

Esse chega para buscar conforto para si mesmo, aquele tenta encontrar a solução para um problema qualquer, outro busca socorro para o filho doente, e por aí adiante. E o começo não é assim? O que não deve ser novidade para ninguém, afinal de contas não é a dor e a dificuldade, em tese, que levam as criaturas humanas ao evangelho?

E depois dessa chegada, passada aquela fase inicial de descobrimento, em que a criatura começa a participar dos estudos e reuniões de forma sistemática, assídua, o que acontece em muitos casos? Ela começa a notar devagarzinho que o assunto é um pouco mais abrangente. E na medida em que vai definindo a sua nova posição pessoal, ela costuma até ser convocada a cooperar de alguma forma.

Não acontece? Porque o mundo vai convocando cada um de nós a um processo de cooperação.

É uma tecla que a gente tem que bater muito nela. Nós vamos estudando o evangelho e nos elegendo, gradativamente, companheiros interessados em cooperar.

Assim, muitas vezes é comum observar que a pessoa foi para buscar auxílio e, de repente, o que aconteceu? Ela se vê integrando alguma equipe daquele núcleo, dando passes em doentes, fazendo alguma atividade, visitando hospital. De forma que esse é um ponto que merece atenção. É importante aprendermos a sair de nós mesmos, auscultando a necessidade e dor daqueles que nos cercam.

Agora, um detalhe que a maioria das pessoas não atina. Estamos trabalhando, dando palestras, fazendo isso, fazendo aquilo, dando passes, distribuindo alimentos, visitando hospitais, entre outras atividades. E tudo isso para quê? Já pensou? 

No fundo, achamos que estamos exercendo o amor. E está correto. Não está errado não! Alguém pode achar que está fazendo uma atividade externa para resolver o problema dos necessitados, que está distribuindo alimentos para resolver o caso dos carentes do estômago, ou visitando hospital por causa dos doentes. Mas no fundo não é isso.

Será que está dando para acompanhar o raciocínio? Porque a questão é interessantíssima.

Um indivíduo que integra uma equipe de um grupo religioso acha que está fazendo um bem fora de série para os outros. Realmente pode estar, mas no fundo qual é o objetivo dele estar nessa equipe de visita a hospital, por exemplo? Qual é? A resposta imediata é levar conforto a alguns pacientes do hospital. Mas, no fundo mesmo a sua ida ao hospital não é para atender ou auxiliar o paciente não, embora isso possa ocorrer. Acima dessa meta, além desse objetivo, o propósito é a sua integração no campo da sensibilização e da cooperação.

Percebeu? É para mexer com a sua capacidade de determinação pessoal, trabalhar a sua linha educacional. A criatura vai lá porque ela está precisando aprender e treinar. Treinar o quê? Ser uma pessoa mais dócil, mais amável, uma pessoa solidária.

Muitas vezes também ela está trabalhando assim na arregimentação de recursos para enfrentar o seu grito íntimo. E com essas atividades ela começa a alterar a sua linha íntima. De forma que a caridade que se desenvolve em muitos grupos espirituais de forma sistematizada tem esse papel fundamental.

Por enquanto, apesar de querer ajudar, nós estamos lutando conosco no plano educacional.

E todo aquele que pretende crescer ele nutre uma sensibilização para com aqueles que estão à sua volta. Por outro lado, o dia em que todo mundo for espontâneo no discernimento daquilo que é bom para as outras pessoas e para si mesmo, com certeza não vai precisar mais dessas atividades sistematizadas.

A grande verdade é que nós não podemos alterar a nossa estrutura intrínseca ou resolver os nossos problemas interiores, sejam eles quais forem, apenas com a assimilação de conhecimento, apenas com a arregimentação de padrões de natureza informativa.

Isso é ilusão. Qualquer lance de natureza formativa ou aplicativa na mudança de estrutura pessoal vai implicar necessariamente em uma linha de inter-relação com as pessoas. Ficou claro? É preciso esse entendimento. Não tem como evoluir sem interagir.

Não tem como caminhar sozinho. Sozinho você até caminha, mas não vai longe.

Quanto mais nós vamos crescendo em termos de percepção, mais notamos que vamos ficando envolvidos pelas pessoas, situações e coisas. Logo, não vamos ter medo dos envolvimentos a que estamos sujeitos ao longo da jornada. No contexto da nossa oportunidade de trabalho nós vamos lidar com muitas pessoas.

29 de abr de 2018

Cap 62 - A Caridade (3ª edição) - Parte 2

INTERAÇÃO

A solidão efetiva e finalística não existe. Vamos entender isso de uma vez por todas. A vida do homem é uma vida solidária, uma vida de relação de indivíduo para indivíduo.

Esteja ele recluso na prisão, constrangido a viver em algum ambiente distante, navegando sobre as águas longínquas do mar ou encravado no seio da terra, o fato é que ele jamais se encontra só. O homem jamais deixa de viver na companhia de alguém. E por viver em bloco, em ligação, ele é por natureza um ser sociável.

E um recado importante para nós é de que não há como alguém evoluir de modo isolado. Não adianta querer se isolar, porque isso é da lei. Ninguém vive só.

Aliás, vamos corrigir: alguém até pode viver só, mas com certeza não vive bem!

É a mais pura verdade. Não estamos mais naquele processo de cada qual viver por si. 

A gente não cresce sozinho. Ninguém cresce sozinho. Isso tem que ser levado em conta. 

Deus nos espera nos outros e não podemos evoluir de modo personalístico. Aliás, o personalismo, se a gente pensar bem, tem sido um componente que trava o processo evolucional.

É nessa hora que eu observo que não posso me manter fechado, que eu não posso viver sozinho no meu mundo. Eu tenho que interagir. E mais, saber interagir com as pessoas e os valores à minha volta. A lei de interdependência ou cooperação funciona na extensão de todo o universo. É uma tônica, ponto de maior realce e importância. 

Os seres vivem em um contexto universalista e nós necessitamos uns dos outros. Então, não tem jeito, não há o que discutir: a vida é interação. Vivemos em função dos outros porque a interdependência mora na base de todos os fenômenos da vida.

O laboratório capaz de nos propiciar acesso efetivo a um estado melhor vai depender dessa nossa interação com os outros, com as coisas, fatos e situações. Com o mundo em si.

É por isso que a humanidade inteira cresce hoje na área da comunicação e a internet se expande cada vez mais para todos os cantos e todos os setores. Às vezes, por exemplo, em cinco minutos a pessoa atende a quatro telefonemas, responde a vários chamados virtuais e, se bobear, fazendo algo enquanto interage.

E longe de querer fazer uma dramatização, existe um mundo chorando à nossa volta.

Você acha que eu estou exagerando? Não é difícil observar que o mundo de hoje, do nosso campo mais próximo aos mais distantes, todo ele, passa por lutas e necessidades. E todas as áreas estão sendo visitadas por um chamamento. Um chamamento geral, que não se restringe a um grupo de indivíduos.

A cada momento nós somos solicitados a ajudar alguém de alguma maneira, a cada instante somos chamados a exercer o amor ao próximo. E nós simplesmente não podemos mais continuar como meros espectadores dos acontecimentos.

Somos convocados a auxiliar na faixa de ação em que estamos situados, porque por menores que sejam as nossas possibilidades encontramo-nos todos integrados em um território de cooperação. Basta a mínima sensibilização para nos certificarmos que se de um lado há os que nos canalizam recursos de cima, de outro estão aqueles indivíduos que se encontram abaixo esperando cooperação.

E nessa interação nós temos que fazer algo para os outros para que a vida faça algo por nós.

Porque todos nós, sem exceção, dependemos uns dos outros na desoneração dos compromissos que nos competem. Isso é fato. Queiramos acreditar ou não, achamo-nos magneticamente associados uns aos outros. E é um erro lamentável querer despender todas as nossas forças sem proveito para ninguém.

Não tem como evoluir alienado do contexto. Isso não dá mais! Nós estamos estudando o evangelho a conta gotas e o evangelho está sendo trabalhado para nos ensinar que acabou aquele período de cada qual viver para si. Definitivamente.

Não se trata apenas de uma teoria ou filosofia bonita. O mundo é assim: tem uns gemendo e outros tentando tirar o gemido e auxiliar, uns chorando de dor e outros tentando cuidar da ferida dentro das suas próprias dificuldades. E não adianta fugir, negar ou tentar se esquivar, mais cedo ou mais tarde nós temos que entrar na luta para cooperar.

O verbo interligar se associa ao verbo fazer. E não dá para evoluir daqui para frente só em campo teórico.

Não há como trabalhar no mundo de hoje sem uma ideia dentro de nós de cooperar com os outros. 

É imprescindível ultrapassarmos a posição sistemática e acomodada de eternos auxiliados para nos engajarmos em uma proposta nova de auxílio, num esforço de integração para além da consciência informativa, pela instauração de um sistema dinâmico de trabalho, realização e amor. Porque se não operamos sabe o que acontece? Tornamo-nos mendigos da evolução. E cá pra nós, mais vale auxiliar hoje do que ser o auxiliado de amanhã.

Na busca por nossas conquistas não podemos nutrir nenhum sentimento de isolamento, pois no insulamento ninguém recolherá a suprema alegria. Não há como encontrar a felicidade plena nas amarras do egocentrismo. Não há como evoluir esquecido dos outros.

É impossível edificar a felicidade sem uma sensibilização quanto aos semelhantes.

De alma cerrada ao interesse pela felicidade do próximo jamais encontraremos a própria felicidade.

Não dá mais para encontrar a felicidade encasulando-nos num processo egocêntrico, não tem como encontrar a sustentação de felicidade preso naquela regra egoísta. Em outras palavras, hoje ninguém mais é feliz por si próprio.

Logo, quem quiser ser feliz tem que se abrir. Quem quiser ser feliz daqui pra frente tem que fazer algo pelos outros, abrir-se no interesse dos outros. Quem quiser estar bem consigo próprio tem que fazer algo no campo universalista, colocar suas possibilidades, de alguma forma, ao dispor dos outros. Nós não podemos mais ignorar fazer alguma coisa na extensão da felicidade comum a nosso próprio benefício.

Daqui para a frente a nossa felicidade depende muito em fazer os outros felizes!

E a conclusão é simples: é necessário cooperar. Sozinho não se faz nada. Sem interação não existe progresso. Os que não cooperam não recebem cooperação.

Se eu dissociar o meu interesse das pessoas à minha volta sabe o que acontece? Eu fico trabalhando em um plano de egocentrismo. E o egocentrismo leva à perda da vida, naquele sentido essencial de reconforto íntimo.

Quer dizer, eu passo a não viver bem, porque a felicidade não consegue se multiplicar quando o amor não sabe dividir. 

O mundo dá muitas voltas e muitos indivíduos se esquecem hoje de que amanhã serão, talvez, os necessitados e os réus, carentes de perdão e de socorro. Por outro lado, quando começamos a cooperar com os outros iniciamos o cumprimento da parte que nos compete na grande luta. É um assunto para pensar... 

21 de abr de 2018

Cap 62 - A Caridade (3ª edição) - Parte 1

CONCEITOS INICIAIS

O que é o amor? Será que a gente consegue defini-lo? A bem da verdade, é muito difícil dar uma definição dentro da nossa ótica perceptiva acanhada. Mas de uma coisa sabemos: o amor é uma soma, é uma tônica no universo. É a energia, a vibração que tudo circunda e envolve. 

Constitui a lei máxima no campo abrangente universal. Amor é o sentimento por excelência, é o sustentáculo. Podemos dizer, sem medo de errar, que ele é a essencialidade que mantém e sustenta o equilíbrio do universo. Esse sentimento divino é a corrente invisível em que se equilibram os mundos e os seres e dele derivam todas as virtudes, que nada mais são do que as modalidades e aspectos da sua abrangência.

O universo inteiro é uma corrente de amor em movimento incessante. Que não cessa, não pára.

E o mais bonito disso: o criador não age represando o seu amor, Ele não age cerceando o amor. O criador não guarda o amor para si, não armazena o seu amor. O manto protetor do amor não é como a galinha, que mantém o seu envolvimento e agasalha apenas os pintinhos debaixo das suas asas. De forma que a primeira coisa a ser observada é que o amor não é estático, ele foi feito para ser dinamizado.

E quando nós falamos no plano operacional do amor nós falamos em quê? Em caridade.

Ou seja, caridade é a manifestação do amor, é a aplicação do amor. Representa a dinamização dessa energia sublime. Caridade é a expressão tangível do amor, é o amor aplicado. É o elemento operacional do amor, a aplicação do amor. É a materialização da teoria, consiste na expressão crística. É a dinâmica do amor. E tanto é a dinâmica do amor que é muito comum as pessoas misturarem os termos. Ou seja, em muitas situações uma fala caridade e outra fala amor, e ambas dizem a mesma coisa.

Aí, alguém pergunta: "Espera aí, Marco Antônio, você está dizendo que amor e caridade são a mesma coisa?" Bem, para ser preciso não. Existe uma distinção. Se nós fizermos uma comparação e colocarmos os dois numa espécie de microscópio, vamos observar que o amor é muito mais do que a caridade. Afinal de contas, acabamos de dizer que amor é a essencialidade que mantém o equilíbrio do universo. Certo? Logo, ele é muito maior. Além do que, frisamos: caridade não é o amor total.

E vamos explicar essa questão. De forma alguma a caridade é o amor como um todo. Fizemos questão de deixar isso bem enfatizado. Caridade não é o amor total. Caridade é uma faceta do amor. Qual faceta? É a parcela do amor aplicado.

É o amor em sua faixa de aplicação, o amor em sua linha dinâmica. É como se fosse o terreno ou o campo onde o amor está operando. Está dando para entender?

Como resultado, toda caridade legítima traz amor consigo (óbvio, pois a caridade é o plano aplicativo do amor), mas nem todo amor é caridade. Vamos dar um exemplo? Uma pessoa diz a outra em uma conversa: "Nossa, você não tem ideia de como eu amo o Gustavo. Você não imagina. Faz quarenta anos que eu o acompanho. Desde o seu nascimento." Tudo bem, ela pode realmente amar o Gustavo a quem se refere, mas a verdade é que o seu amor nunca se manifestou. Percebeu? Ela diz que o ama, mas nunca fez nada em favor dele. Deu uma ideia?

O amor é que mantém o equilíbrio no universo. E se estamos falando de amor e universo estamos falando de infinito. Então, isso não é com a gente. O amor na sua essência, na sua contingência total e abrangente universal não é com a gente, é com Deus, com o Pai. Isso é fato. Amor não é conosco, porque perfeição, bondade e misericórdia são inerentes a Deus. Misericórdia é algo de Deus.

E tanto é assim que Jesus, a expressão máxima que nós conhecemos, não aceitou o título de bom.

Mas nem por isso vamos ficar desanimados. Pelo contrário, porque o amor só é sublimado se for praticado. E o plano dinâmico do amor compete a nós, e não a Deus. Daí, sabe qual a nossa função nesse contexto? Nos ajustar ao terreno refletor do amor.

O universo inteiro é uma corrente de amor em movimento incessante e nós não podemos de forma alguma lhe interromper a fluência das vibrações. Em outras palavras, a Deus compete a área emissora, criadora, e a nós as áreas operacionais.

Se a dinâmica é uma lei que impera em tudo, não há como dinamizar o amor sem passarmos pelo exercício do amor. Se conosco não é amor, conosco é amar. 

Temos que ser misericordiosos para entendermos a misericórdia de Deus, porque só amando nós aprendemos o que é o amor. E amor nós somos em potencial. Logo, sabe qual o nosso desafio? Operar o amor, expandir o amor, transformar o amor em amar, pelo exercício incessante e sublime da bondade e da caridade.

15 de abr de 2018

Cap 61 - Livre-Arbítrio (2ª edição) - Parte 17 (Final)

MELHORANDO A AÇÃO II

Quando agimos de forma premeditada podemos acertar, aparentando conhecimento, no entanto, quando reagimos, nem sempre dentro dos princípios adotados na ação, constatamos o espaço que vigora entre nossas conquistas efetivas e as aparentes, evidenciando que apenas parecemos ter determinados padrões, quando de fato não os possuímos.

Assim, quando o telefone toca, eu atendo, me desentendo com alguém do outro lado da linha e desligo aborrecido e chateado, é porque eu perdi no momento do teste. Não é isso? Falhei. Perdi o teste.

Em muitas situações do cotidiano, e por falta de equilíbrio e controle, nós precipitamos e costumamos dificultar todo um esquema.

É preciso reconhecer isso, afinal pela reação nós também podemos refletir e avaliar. E com um detalhe da maior importância: trabalhando unicamente o aspecto da reação vai ser muito difícil, mas muito difícil mesmo, a gente conquistar.

Naquele mesmo dia em que eu fui pouco feliz no telefone, que me desentendi com a outra pessoa, soltei até um palavrão e desliguei na cara dela, depois, mais calmo, eu analiso e penso: "Oh! Meu Deus, mas que coisa. Me faltou paciência!"

Esse tipo de análise é importante, porque no plano da reação nós aferimos a conquista e também podemos identificar e fazer um diagnóstico das nossas necessidades fundamentais. Está dando para acompanhar? E é por aí que vamos aprendendo e crescendo. Vamos adquirindo conhecimento, como é que se reage, como que se faz.

Aí, eu faço o quê? Pego um livro para ler. Leio uma página, duas páginas e jogo o livro longe. Não acontece? E noto que está me faltando o quê? Paciência. Percebeu? Falta paciência, falta persistência, falta disciplina, falta controle emocional.

Depois eu esqueço a questão e fico esperando outro telefonema para poder atestar a minha carência. Caio na real e penso comigo mesmo: "Quero ver se da próxima vez que essa pessoa me ligar eu não aja daquela forma que agi". E o que acontece? Uma semana depois o telefone toca e é a mesma pessoa de novo. E eu simplesmente volto a naufragar. Assim, de lance em lance eu vou criando um somatório de decepções que podem até mesmo me levar a uma certa patologia. 

E nesses lances eu descubro sabe o quê? Que a minha impaciência não é com aquela pessoa, não é apenas no telefone, a minha impaciência é uma falha da minha própria intimidade. Ficou claro? E a outra pessoa é um instrumento que está me testando.

Uma semana depois eu consegui ter calma. Na outra, como se diz na gíria, soltei os cachorros. Logo, onde é que não está funcionando? Nas reações. Percebeu? Por mais que eu tente melhorar, eu continuo reagindo mal. E a questão é que o estado de reação automática de minha individualidade está vinculado à vida que eu implementei, às vezes, durante muito tempo, seja nessa experiência reencarnatória ou na soma de inúmeras outras. E a qual conclusão eu chego? Que se o meu grau de paciência está fraco em uma determinada área eu tenho que trabalhar especificamente essa área. Não é isso?

Não é assim que tem que acontecer? Eu preciso me matricular em uma nova proposta, em um novo ambiente psíquico, onde a questão passa a ser não mais operar em cima das reações que aferem, e sim em cima das ações que determinam. De que maneira? Partindo para um sistema de implementação da ação.

Porque trabalhando a ação nós costumamos, de forma natural, arregimentar componentes de defesa e de administração da própria emoção ante determinados acontecimentos.

E para vencer a carência eu tenho que partir não para o plano de reação, mas para o campo da ação. Tenho que trabalhar com carinho cada movimento, cada ação.

Deu para entender ou será que eu andei falando grego por aqui? Porque é pela elaboração de novas faixas de ação que nós conseguiremos desativar a intensidade dos reflexos menos felizes que ainda insistimos em manter e repetir.

A preocupação íntima não deve ser com a reação, querer desmontar a reação, e sim com a ação, melhorar a ação no aspecto positivo. Afinal, crescemos pelas ações.

A aprendizagem nos leva a ação e a ação é o componente que nos possibilita a fixação.

O evangelho é claro: a cada um será dado segundo as obras. Então, é pelo fazer que desativamos com tranquilidade. 

Vamos fazendo, até o momento em que a gente possa ter uma soma suficiente de caracteres que representam um sinal de equilíbrio e de segurança nessas emersões. 

Deu uma ideia? A autenticação, a homologação dessa aferição positiva, vem de uma tranquilidade interior que conquistamos na ação. E se na nossa forma de reagir diante de um fato, de uma situação ou de uma pessoa nós colocamos caridade, podemos ter certeza que iremos sentir uma alegria muito grande. E mais, vamos constatar que fomos feliz na situação e que demos um passinho à frente.

Agora, para que essa mudança ocorra, para que haja melhoria, a gente tem que estar de algum modo paciente e equilibrado. Ok? Esse é um ponto importante e um drama que muita gente vive hoje em dia. O mecanismo é gradativo. É passo a passo.

É por ações instituídas e direcionadas que adquirimos o direito de mudar a nossa forma de sentir, de agir e de operar, mediante um sistema contínuo e repetitivo.

Com esse sistema notamos que passamos a reduzir nossas ações menos felizes. Que a cada dia, a cada semana, a cada mês nós vamos fazendo cada vezes menos aquilo que não queremos fazer.

E a conclusão a que chegamos é que para esperar melhores resultados nós temos que operar com discernimento e inteligência. Muitas vezes aprendendo na ação para podermos amenizar a reação. Investir muito no plano da ação para que possamos ganhar na hora da reação. Investir em linhas de atitude mais equilibrada para sermos felizes na reação. Ficou claro essa parte? Isso é fundamental, pois como já falamos a ação é imprescindível na conquista de novos valores.

É a ação direcionada que vai nos proporcionar condições de uma reação feliz nos momentos mais complexos e delicados. Logo, se quisermos melhorar nossas reações, pelo amor de Deus, nós temos que melhorar antes as nossas ações. Para obtermos padrões comportamentais mais seguros é imprescindível investirmos na ação, selecionar padrões melhores e superiores e partir para a ação.

Ah, mas tem um outro detalhe que não podemos esquecer de forma alguma: temos que melhorar as nossas ações no campo dos relacionamentos pessoais também. Melhorar o trato com as pessoas, a nossa forma de nos relacionar com elas.

Isso é óbvio, porém melhorar a nossa postura não só com aquele indivíduo que é chato, aborrecido, intolerante, desagradável, difícil de lidar. Melhorar não apenas com aquele que incomoda ou desagrada, mas com os outros também. Porque se isso não for importante, com toda a certeza eu não sei o que é!...

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