29 de ago de 2010

Cap 2 - João Batista e o Deserto - Parte 9

FRUTOS DIGNOS


“PRODUZI, POIS, FRUTOS DIGNOS DE ARREPENDIMENTO;” MATEUS 3:8

Que o estacionamento (a inatividade) não resolve problema, e tampouco a fuga estimulada pelo remorso auxilia na solução das dívidas, sabemos. Pois é da lei que quem deve tem que pagar, e o evangelho vai mais fundo ainda, é “ceitil por ceitil”. Assim, fica fácil concluir que o espírito preso ao remorso não consegue avançar, que enquanto não quitar com a própria consciência seus débitos não encontrará caminho que lhe permita livre acesso a novas conquistas.

Resultado: o remorso gera arrependimento.

E se arrependermos de qualquer gesto maligno é um dever, ele por si só não basta, pranteá-lo indefinidamente é roubar tempo ao serviço de retificação. Porque arrepender é uma forma se sentir, e nós não podemos ficar apenas nos sentimentos. A boa nova não nos diz que a cada um será dado conforme os seus sentimentos e suas disposições mentais, ou a cada um segundo a sua vontade, os livros que lê, as palestras que ouve, ou os projetos que intenta. É “a cada um segundo as suas obras”.

Por isso, após o arrependimento deve vir o encaminhamento da reparação. Após o conhecimento é reorganizar-se interiormente e reprogramar a existência. Nada de lamúrias ou choro desconsolado. Estabelecido o nódulo de forças mentais desequilibradas, é imperioso que acontecimentos reparadores nos contraponham ao modo enfermiço de ser, a fim de nos sentirmos desonerados desse ou daquele fardo íntimo ou redimidos perante a lei.

É preciso outro passo, usar o expediente para beneficiar-se, começando a reparação das faltas cometidas, uma vez que a expiação em trevas íntimas não é suficiente para a recomposição da paz. Porque se somos prisioneiros da culpa, somos também operários da nossa libertação, recebendo conforme as nossas ações.

Logo (e muito importante), não basta nem a romagem de purgação do espírito depois da morte nos lugares de treva e padecimento para que os débitos da consciência sejam ressarcidos. E nem vale revoltar-se. Desespero vale por demência a que as almas se atiram nas explosões de incontinência e revolta, e não serve como pagamento nos tribunais divinos. Não é razoável que o devedor solucione com gritos e impropérios os compromissos que contraiu mobilizando a própria vontade.

É indispensável uma ação que regulariza o erro e ajuda aos prejudicados. Porém, se as nossas vítimas já se encontram distantes de nós ou em posição melhor que a nossa, é a hora de socorrermos outros, não diretamente vinculados a nós, mas incursos em necessidades análogas a serem supridas.

Observemos que o livro sagrado diz que o começo é pelo verbo, que “no princípio era o verbo”. Também aqui, entre nós, é necessária a utilização do verbo no início da verdadeira iluminação. O começo pelo aspecto informativo, porque não podemos criar sem amor, e somente quando nos preparamos devidamente edificaremos com êxito para a vida eterna.

Se estamos estudando João Batista, e lembramos a sua condição de precursor, no campo íntimo o processo se repete: o erro, o remorso, o arrependimento e as providências retificadoras, até chegar o Cristo na consciência redimida.

Temos que acionar o arrependimento a firm de repararmos os erros cometidos, retificando-os em caracteres vivos, transformar o remorso em propósito de regeneração. Afinal, todos ouvimos falar que “o que aqui se faz, aqui se paga”, as notas promissórias que aqui contraímos, pagamos aqui. Então, a reparação é redirecionamento do próprio destino em nova base, e é indispensável romper a alianças da queda e assinar o pacto da redenção.

Porque é da lei. Para colhermos situações melhores temos que iniciar novos padrões de semeadura, e por isso o João continua pregando no deserto íntimo de cada um de nós.

João Batista diz: “Produzi frutos dignos de arrependimento”. Vamos analisar o que é isso. O fruto não é o processo final da sementeira? Sim. Então, fruto é o resultado. Observou? O fruto é a realidade da nossa vida hoje. E muitos chegam aos núcleos espirituais, às igrejas, aos templos, aos grupos, aos centros, para resolverem os problemas dos frutos.

Ou seja, os frutos é que nos trazem ao evangelho: o problema de família, a dificuldade na área afetiva, obstáculos no trabalho, a doença, entre outros. E não tem como a gente mudar o fruto. Voce tem um pé de laranja no quintal da sua casa que só dá laranja azeda. Não tem como mudar o fruto. Não tem como enxertar laranjas doces em um pé de laranjas ácidas. Isso vem nos indicar que é impossível extirpar no campo cármico.

Aí voce pode pensar: “Puxa vida, então, eu estou lascado...” E o que o evangelho nos oferece para os casos em que a produção, o resultado está ácido e difícil? Analisemos,... “Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos ALIVIAREI.” O evangelho fornece o material terapêutico de alívio e o plano informativo, oferece também o conhecimento para a administração da dificuldade.

O que nós estamos fazendo aqui? O que nos faz deixar o que temos de fazer, em um determinado período do dia, para entrarmos neste blog e lermos e estudarmos juntos? Estamos aprendendo o evangelho e investindo no evangelho para melhorarmos a nossa caminhada. Se o fruto é a realidade, é óbvio que agora encontramos o nosso ontem, da mesma forma que o nosso hoje resultará na luz ou na treva do amanhã. A definir que a atitude adequada no presente representa a terapêutica de eficiência para futuros (e melhores) resultados.

Se não basta um arrependimento em circuito fechado, um arrependimento que volta para o remorso, que tem cheiro de remorso, mas sim que induz ao trabalho regenerador, temos que trabalhá-lo nas linhas da renovação. Porque a única forma de sair desse arrependimento que nos incomoda é apresentando frutos.

Então, o passado já não passa a importar, importa as realizações presentes para o futuro. Trabalhar, mas sem a preocupação de solucionar, favorecer o encaminhamento da solução que virá a seu tempo, pois às vezes a solução não é com a gente. O que nos mostra que o fruto digno de arrependimento é a entrada em um processo que o arrependimento sugere, já é a realização, é a resultante da adoção feita de um novo sistema de vida. Apenas gerando novas causas com o bem praticado hoje podemos interferir nas causas do mal de ontem, neutralizando-as e reconquistando o nosso equilíbrio. Por frutos dignos precisamos seguir nos caminhos daquele que é Luz.

Agora, preste atenção. Voce leu bem a passagem do texto? “Produzi frutos dignos.”

É produzir, não é encontrar frutos prontos. E como é que se produz frutos? É a partir de um processo de semeadura, ou sementeira. Se o fruto é a realidade nossa hoje, temos que trabalhar em cima da semente, não do fruto. Produzi frutos dignos é trabalho com semente (todo o evangelho trabalha em cima do componente da semente).

Por semente vamos entender a vida mental que elegemos, é a elaboração de novos componentes germinativos, saber selecionar a proposta, aprender a cultivar e ser coerente e perseverante na proposa. Quando o Cristo nos diz que “o semeador saiu a semear” precisamos, inicialmente, sair sem sair do lugar, a primeira semeadura deve ser feita em nossa intimidade, nos terrenos do coração. Pois o fruto está diretamente relacionado à qualidade do que é lançado, e se queremos melhorar a colheita melhoremos a semeadura (lembre que João Batista trabalha a linha de seleção, cinto nos rins), e para isso imprescindível redimensionarmos o que está dentro de nós.

É por isso que o evangelho nos ajuda na colheita da sementeira de ontem (“vos aliviarei”) e ensina a semearmos em um novo plano (“quem põe a mão no arado e olha para trás não é digno de mim”).

Se pela obra menos feliz complicamos a nossa harmonia íntima (hoje os reflexos do ontem), por uma obra equilibrada, justa e cristã recompomos a nossa estrutura, projetando-nos em direção diferente de crescimento no campo consciente.

Independente da natureza ou intensidade de nossas dificuldades e problemas, não desanimemos. Em meio às produções menos felizes do nosso carma, busquemos jogar a semente em lugares ainda não semeados, desarmando o nosso coração (“ele cresça e eu diminua”) e implementando novos valores e conceituações. Vão ter algumas sementes que germinarão em curto prazo, outras em prazo médio, outras em mais distante e outras em encarnações futuras, pois no mecanismo de plantar e colher temos sementes de produção rápida, de produção média, de produção longa e sementes de produção milenar.

Pela semeadura, colhemos. Invariavelmente! E se voce acha que a vida não está lhe dando nada, dê alguma coisa a ela, se a vida está lhe fazendo chorar, aprenda a sorrir para ela, assim, voce avoca, voce chama para si uma nova linha de sintonia. Porque todo dia, no exercício de nossa vontade, formamos novas causas e refazemos o destino, sabendo que é possível renová-lo a cada dia.

27 de ago de 2010

Cap 2 - João Batista e o Deserto - Parte 8

O ARREPENDIMENTO


“1E, NAQUELES DIAS, APARECEU JOÃO BATISTA PREGANDO NO DESERTO DA JUDÉIA, 2E DIZENDO: ARREPENDEI-VOS, PORQUE É CHEGADO O REINO DOS CÉUS. MATEUS 3:1-2

“42E DISSE A JESUS: SENHOR, LEMBRA-TE DE MIM, QUANDO ENTRARES NO TEU REINO. 43E DISSE-LHE JESUS: EM VERDADE TE DIGO QUE HOJE ESTARÁS COMIGO NO PARAÍSO.” LUCAS 23:42-43

O arrependimento mais cedo ou mais tarde surge a todo aquele que andou por um caminho inverso ao sentido da lei (divina). Ele é imprescindível, sem o qual não existe uma reparação consciente e muito menos a necessidade de mudança. Define um estado mental para além do remorso e pouco aquém da obra de ressarcimento, resgate ou reparação.

E como energia que precede o esforço regenerador ele já apresenta em si certa elasticidade, uma visualização, onde já se trabalha a preparação do caminho para o saneamento do erro. Então, aquele que se arrepende já se preocupa em como vai reparar aquilo dentro da lei, de modo que quando o arrependimento emerge sob as bases do remorso (para além) nós já estamos a um passo da reparação da nossa falta.

O arrependimento é uma sensibilização em que observamos que o que fizemos ou estamos fazendo já não é mais compatível com a nossa linha de consciência. Ele é a identificação de valores que precisamos deixar, precisamos desvincular por já não nos atenderem mais, e cuja saída proporciona um saneamento ao coração. Através do arrependimento surge um conflito no qual a criatura percebe que não pode mais continuar com aquilo, não pode mais dar sequência àquilo, e, ao arrepender, a criatura dá uma parada na queda (mencionamos isso antes, pelo remorso ela se dá conta da queda). Então, ela para de errar, para de cair e se prepara para um novo ajuste nas suas atitudes.

Não fica difícil perceber que o arrependimento acaba por definir uma mudança de atitude, de procedimento. Arrepender é voltar atrás em relação a compromisso assumido e significa a implantação de medidas saneadoras de reparação. Ou seja, existe uma proposta implícita dentro desse arrepender de uma posição nova no contexto, e ele representa a modificação na intimidade para uma nova base de ação.

Portanto, feliz todo aquele que cai no arrependimento e reconhece que deve. E, mais ainda, feliz aquele que se empenha de fato em pagar a fatura em um esforço para melhorar a sua vida. Afinal, a misericórdia está sempre presente e a própria queda, a falha que venhamos a cometer, já tem esse sentido de projetar o ser ao trabalho.

Todos nós vivemos (independente de se acreditar ou não) debaixo do império de leis universais às quais não podemos trair. E todas as vezes que as defraudamos a corrigenda se dá na individualidade do próprio infrator. Porque a lei precisa manter o equilíbrio do universo e ela não tem que esperar a criatura cair na real para poder liquidar a fatura. Se a lei fosse depender disso cesssaria a marcha do universo. Em razão disso, se não nos predispusermos a avocar o arrependimento e caminhar, mesmo com dificuldades, dores, nós somos alcançados pela lei, negativamente, e entramos em estágio de dificuldades e dores ainda maiores.

Todos os sofredores trazem consigo, individualmente, o estigma dos erros deliberados a que se entregaram. E pelo arrependimento se faz necessário que assimilem novas idéias com as quais passam a trabalhar, mesmo que vagarosamente, melhorando a visão interior e preparando novos destinos. Porque a renovação mental é a renovação da vida e há a recuperação do pecador que se arrepende. E ninguém progride sem renovar-se. Sem que nos retifiquemos não corrigiremos o roteiro em que marchamos. Logo, para se abreviar o tormento que flagela de mil modos a consciência, quando nas grades da expiação, imprescindível atender à renovação mental, único meio de recuperação da harmonia do ser.

E o arrependimento não surge apenas em razão do mal que se faz. A nossa inatividade no bem também pode gerar um processo de arrependimento. Ou seja, ele apresenta uma abrangência, alguém pode sofrer (consciencialmente) porque fez algo a alguém, e outro alguém pode sofrer porque deixou de fazer, isto é, de maneira sutil dá-se um peso de consciência por não operarmos naquilo que podíamos fazer. Assim, vamos observar que o erro (fator gerador do arrependimento) que agora está nos sacudindo já não é tanto pela invigilância na prática do mal, mas por uma indiferença e insensibilidade nossa em realizar o bem.

E se engana aquele que acredita que arrepender apenas basta. Na passagem do bom ladrão, por exemplo, que era aquele crucificado ao lado do Cristo, quando Jesus lhe disse que “hoje estarás comigo no paraíso”, tem gente que acha que ele já saiu da cruz direto para o céu com Jesus, um ao lado do outro, para as alturas celestiais. Isso seria uma condição completamente fora da  lógica que marca todo o texto evolucional. Esse paraíso que Jesus se refere é o paraíso conceitual, representa a abertura de uma possibilidade ao infrator quando do desabafo da criatura, é a abertura e o início de uma nova etapa, mais harmônica. É como aliviar o peso consciencial apresentando-lhe uma perspectiva nova, é entregar um mapa àquele que se encontra perdido na selva, dar aquele que está perdido na estrada um aparelho de GPS.

Foi o que dissemos agora a pouco. A misericórdia divina está presente em nossa vida a todo instante, e a oportunidade de se poder resgatar a sua culpa, através da elaboração de ações de regeneração (produzir frutos dignos), é uma oportunidade maravilhosa.

25 de ago de 2010

Cap 2 - João Batista e o Deserto - Parte 7

O REMORSO

“1E, NAQUELES DIAS, APARECEU JOÃO BATISTA PREGANDO NO DESERTO DA JUDÉIA, 2E DIZENDO: ARREPENDEI-VOS, PORQUE É CHEGADO O REINO DOS CÉUS. 3PORQUE ESTE É O ANUNCIADO PELO PROFETA ISAÍAS, QUE DISSE: VÓS DO QUE CLAMA NO DESERTO: PREPARAI O CAMINHO DO SENHOR, ENDIREITAI AS SUAS VERÊDAS.” MATEUS 3:1-2

No início surge o erro. E após o erro um processo que se inicia com o remorso, que antecede e prepara o arrependimento, e que por sua vez é a energia ou força anterior à reparação. Assim, a linha natural de remorso, arrependimento e reparação é uma proposta e sequência de fatos que determinam a projeção nossa para novas escalas, onde o remorso e arrependimento são etapas iniciais na obra de redenção.

O remorso é a inquietação da consciência pela culpa ou crime cometido (crime contra a lei divina), em torno da qual a onda viva e contínua do pensamento passa a enovelar-se em circuito fechado sobre si mesma, aprisionando o campo mental a faixas inferiores da retaguarda. É uma prisão sem grades edificada pela culpa, é choque espiritual em características profundas, instertício para a luz, e ele por si só (exclusivamente) apenas complica a dificuldade.

Em outras palavras, o remorso é uma posição puramente mental sem maiores ressonâncias, sem maiores efeitos, é um estado estático em que a criatura se mantém em circuito fechado. Define aquela força ou energia que prepara o arrependimento.

Ao cair em remorso a criatura começa a laborar o processo de arrependimento, que é a energia que antecede o esforço regenerador, pois sabemos que o estacionamento apenas não resolve problema, nem a fuga estimulada pelo remorso auxilia na solução das dívidas. Então, vamos gravar bem: o remorso simboliza a constatação da queda, ao passo que o arrependimento já define a visualização do reerguimento.

E voce pode estar pensando: “Marco Antônio,... mas tem gente que é mau feito pica pau, coração de pedra,...” Devagar, que o santo é de barro. O remorso, quando a ação da individualidade desequilibra a estrutura de harmonia do universo, sempre chega. É Lei. A questão é que a maioria das pessoas visualiza e compreende a vida apenas por uma fração minúscula representada na encarnação presente. Fique tranquilo(a), todas as faltas se revelam, sempre, em algum tempo e em algum lugar. E estamos apenas começando o nosso estudo, outros capítulos abordarão o assunto mais a fundo, como, por exemplo, o que nominaremos CAUSA E EFEITO.

24 de ago de 2010

Cap 2 - João Batista e o Deserto - Parte 6

O DESERTO


“E, NAQUELES DIAS, APARECEU JOÃO BATISTA PREGANDO NO DESERTO DA JUDÉIA.” MATEUS 3:1

João Batista aparece unicamente no deserto, e isso nós já dissemos. Ou melhor, mais do que dissemos, a revelação afirma. Então, está na hora de compreendermos o que vem a ser esse deserto. E vamos observar que ele representa o ambiente, a solidão, o recomeço, a transição e a chance.

1- AMBIENTE – O deserto, em seu sentido espiritual, representa aquela área desprovida de edificação, aquele terreno seco e com sentido de aridez que existe no interior de cada um de nós. Ele define aquele território que já não responde aos anseios mais íntimos que alguém cultivava. Ele surge (João Batista aparece) e a criatura nele se identifica quando descobre que aquilo (seja o que for) que pensava ser a sua segurança vai acabar ou está sendo acabado, pois ela olha o que tem feito e percebe que está sendo destruído, o objeto anterior da sua segurança já não tem mais substância mantenedora de vida.

O deserto é aquele território da vida que não atende mais aos anseios do ser. E não há como buscar frutos dentro do deserto, não se pode cultivar no deserto porque nele não há nada plantado. Logo, o compromisso passa a ser a entrada em uma proposta nova. Claro, afinal, já não há mais a resposta positiva de antes. E esse início das atividades no campo operacional, após a fertilização, deixa de ser pregação para ser testemunho, já não mais João Batista que prega, mas o Cristo que realiza, não mais a justiça chamando, mas o amor realizando.

2- SOLIDÃO – O deserto aparece no momento em que a consciência se desperta e a criatura enxerga que algo existe para além da lei em termos de amor. Ele é o campo que se abre ao ser para que ele edifique nova mentalidade de vida e busque operar em novos ângulos, novos patamares, sob nova ótica. Assim, o deserto é um lugar árido que pode ser trabalhado, que pode ser fertilizado, porém, mais ao nível da mente. E alguém se identifica no deserto quando descobre o caminho a palmilhar.

O deserto define o ponto e o momento de acentuado desconforto e solidão, mas é onde toda e qualquer estruturação nova tem que se fundamentar. E não tem como ser diferente. Além do que, o conflito integra o mecanismo da educação do ser, e é imprescindível saber estar só. Observe, em todos os momentos de culminância estamos aparentemente sozinhos. Sempre aparentemente sozinhos, porque os momentos de culminância definem o momento das nossas decisões, das nossas escolhas. Portanto, quem não passar pelo processo da solidão não progride. E no alcance a objetivos mais altos da evolução com Jesus é necessário o trânsito e a superação das intempéries desse ambiente árido e ensolarado do deserto.

3- RECOMEÇO – Fique atento para uma coisa. Aonde se situa a criatura esse é o terreno da sua segurança pessoal, esse ambiente define a sua construção, o seu habitat. E nele permanecemos muito a vontade, bem à vontade com o que aí acontece. Por exemplo, Jericó representa a permanência de todos aqueles que estão vibrando com o sistema materialista reinante (e definiremos isso muito bem quando trabalharmos o próximo capítuto: O CEGO DE JERICÓ).

Agora, quando eu invisto para além desse ambiente em que me situo eu constato que nada tenho, que nada possuo, que nada posso, porque o ambiente novo onde entro é deserto para mim. Para além é sempre deserto para quem estava do outro lado. Se invisto para além do meu patamar, do meu ambiente, sempre entro no deserto, e o deserto é um espaço que precisa ser construído, e o envangelho é edifício da redenção das almas, e edifício sugere construção. João Batista visualiza que tudo o que se aprende tem que ser operado.

Deserto é o ponto da transição (transição, que estudaremos a fundo no capítulo A TENTAÇÃO. Transição sugere trânsito, quem está no trânsito está em percurso. E quem está em percurso saiu de onde estava, mas ainda não chegou onde queria). Logo, todas as vezes que a gente entra em processo de transição, essa transição para quem quer mudar é deserto (claro que é deserto, a segurança estava no meu ambiente, ou vai se firmar na minha chegada ao objetivo).

Mas não é de se entristecer, o deserto é onde começa todo o mecanismo, ele define o outro ângulo, o outro lado. Ele é o ponto da transição e da tentação, e a transição é o momento de mudança de um estado para outro, é o que está jogado na confusão. Por isso é que há tanta dificuldade em mudar-se. Tem gente que quer mudar e quando olha do outro lado não tem nada, é tudo diferente, a nossa praia é do lado de cá. Entrar no deserto é entrar em um lugar em que não se tem experiência, por isso é difícil crescer, e na maioria das vezes a criatura fica presa onde está e não abre mão.

4- CHANCE – Nós vivemos em um mundo em transição (o planeta passa por um processo de ascensão na escala hierárquica universal). E mundo em transição é laboratório da maior valia para quem está em mecanismo de processo, de seleção. Precisamos do maior cuidado e equilíbrio a fim de valorizarmos as experiências (principalmente as menos felizes), com amor e paciência, por que é por aí que vamos dar os grandes passos no trabalho da nossa própria redenção.

Deu para entender que o deserto é ponto entre a partida (a desvinculação) e a chegada (a vinculação)? Que a vinculação efetiva pressupõe uma desvinculação concomitante? Então, notamos que quem está sabendo viver aqui dentro hoje, no deserto, está recebendo, sem nenhum exagero, coisas que nunca teve chance de receber lá atrás. E vigilância é fator imprescindível, para que as transições essenciais da existência na Terra não nos encontrem absolutamente distraídos das realidades eternas.

Conhece aquele ditado “quem não arrisca não petisca”? Pois é. Voce quer mudar sua vida? Alçar novos vôos? Obter novas conquistas? Maior patamar de harmonia e paz? Então, voce concluiu: para se entrar no deserto (se lançar em busca da conquista) ou sair do deserto (abandonar a dor e o desprazer) voce tem que ter pelo menos um grande senso de coragem.

22 de ago de 2010

Cap 2 - João Batista e o Deserto - Parte 5

CRESCER E DIMINUIR

“É NECESSÁRIO QUE ELE CRESÇA E QUE EU DIMINUA.” JOÃO 3:30.

João Batista aparece no deserto, unicamente neste ambiente. E não existe razão para surgir em outro lugar. Logo, aquele que não se acha no deserto e na solidão da intimidade não se sente identificado com o chamamento e a inquietude manifestada por ele.

E não temos que nos preocupar com o seu nascimento em nós, muito pelo contrário. Ele aparece, se evidencia, e o identificamos quando já se faz presente em nossa vida íntima. Em outras palavras, surge espontaneamente, originado por um estado nosso de indignação ou abandono. E a sua finalidade resume em pregação, a sua mensagem é convite para implementarmos uma sistemática nova de vida.

Nós falamos que ele é o inconformado dentro da gente, que a inconformação tem que fazer o seu papel, nos projetar para novas linhas de ação, que não podemos nos estancar nela.

E não é difícil compreender. Grande parte dos desajustes de ordem psicológica e uma enormidade de doenças catalogadas ao nível das chamadas psicopatias são decorrentes de uma inconformação embutida da criatura. Sim, o elemento carrega consigo uma inconformação profunda e nociva, por não poder fazer aquilo que queria, deter aquilo que queria, operar com aquilo que gostaria. Exteriormente, no plano ético-social, ele pode até não manifestar isso. Você olha exteriormente e parece que ele está conformado com a realidade, mas lá na intimidade pode haver um componente chamado inconformação em sentido de profundidade. E quantas criaturas não desencarnam levando consigo essas marcas dolorosas para além do plano físico.

Precisamos aprender a administrar a nossa realidade de vida, sabermos abrir o coração, ter tranquilidade para operar com o que nos é possível, desbloquear essas tomadas. Saber discernir o que nos é lícito, o que podemos realmente operar, aquilo que é conveniente para nós, o que é bom para nós. Precisamos desativar a inconformação, serenar o nosso oceano íntimo, acabar com as ondas que estão revoltando nosso terreno ambiente. Lembrando sempre, e já falamos nisso, a inconformação que a gente mantém (e é positiva) tem um sentido sutil e útil. Inconformação como alavanca evolutiva, não como revolta estagnante.

Precisamos aprender a discernir o que podemos e o que não podemos, o que está ao nosso alcance e o que não está. Após a crucificação instigaram Jesus a descer da cruz. Nós sabemos que ele podia, porém, não desceu. Tem momentos que necessitamos discernir com maturidade, com uma visão mais profunda, para além.

Estamos dizendo isso porque nossos ideais precisam ser administrados dentro de um conhecimento abrangente da lei universal. E o evangelho nos ensina que o que desejamos acabamos por conquistar. Nossas conquistas dependem da intensidade de nosso compromisso íntimo (sentimento) e do nosso investimento (vontade e ação) na proposta que objetivamos.

Então, João Batista não tem que nascer dentro da gente, até pelo contrário. Precisamos substituir a sua presença pela capacidade nossa de realização crística. Porque tem que diminuir dentro de nós a inconformação, e fazer crescer um trabalho em conformidade aos preceitos do Cristo. Neste processo o Cristo nasce, conscientemente, dentro da gente!
(E veremos em época oportuna que a estrebaria define onde ele nasce e a manjedoura indica a finalidade do seu nascimento).

21 de ago de 2010

Cap 2 - João Batista e o Deserto - Parte 4

INCONFORMAÇÃO

“1E, NAQUELES DIAS, APARECEU JOÃO BATISTA PREGANDO NO DESERTO DA JUDEIA, E DIZENDO: ARREPENDEI-VOS, PORQUE É CHEGADO O REINO DOS CÉUS. 2PORQUE ESTE É O ANUNCIADO PELO PROFETA ISAÍAS, QUE DISSE: VÓS DO QUE CLAMA NO DESERTO: PREPARAI O CAMINHO DO SENHOR, ENDIREITAI AS SUAS VEREDAS.” MATEUS 3:1-2.

“E NÃO SEDE CONFORMADOS COM ESTE MUNDO, MAS SEDE TRANSFORMADOS PELA RENOVAÇÃO DO VOSSO ENTENDIMENTO, PARA QUE EXPERIMENTEIS QUAL SEJA A BOA, AGRADÁVEL, E PERFEITA VONTADE DE DEUS.” ROMANOS 12:2.

Você já viu algum filme bíblico que tinha João Batista como personagem? Puxa, começamos com uma perguntinha boba. Claro que você já viu (rs). E você se lembra como era o João Batista no filme? Hummm..., eu sei, você tem uma ideia. Um homem de poucas palavras, rígido, um pouco severo, com uma pregação relativamente ríspida. Um verdadeiro inconformado. É isso!... Eureca! Definimos a colocação: o inconformado.

João Batista é esse inconformado dentro da gente. Porque no fundo estamos inconformados com o sistema de vida que estamos levando. Agora, se você disser que está perfeitamente conformado, continue a jornada, caminhe mais, continue estudando conosco.

E diante da inconformação, não fique triste. Pelo contrário, porque o evangelho chega para quem está saturado, para aquela criatura acentuadamente cansada de palmilhar, de trilhar territórios que estão perfeitamente superáveis pela sua individualidade.

A inconformação é a falta de conformação ou resignação. É a não aceitação de um estado, de uma circunstância ou situação, é contrariedade. Ela é necessária e tem a finalidade de nos projetar para bases e etapas novas. Representa um fator positivo e impulsionador para o nosso crescimento. Afinal, existe uma inconformação que dita a mudança. E a vida é para os inconformados. Todo aquele que se encontra conformado, está estagnado na evolução. Quem se conforma, estaciona, fica aparentemente satisfeito. Não progride. Não avança. Não realiza. Não cresce. Não ascende.

Agora, calma lá! Rapadura é doce, mas não é mole.

Uma coisa é você usar a inconformação para se projetar. Outra coisa bem diferente, e extremamente nociva, é você se manter na inconformação. Ou seja, a inconformação tem que fazer o seu papel no mecanismo do progresso, despertando a nossa disposição (João Batista é o que clama no deserto porque ele é o indignado). Ela chega, incomoda, inquieta, e você se lança, se projeta, vai além. Mas ela não pode tomar conta da sua estrutura íntima. Não podemos nos estancar nela. "Ela pousa, mas não deve fazer ninho." Logo, é necessário cuidado para que as posições transitórias não nos paralisem os vôos da alma. Afinal, difculdades são momentos e fases do processo, não são o processo na sua integralidade.

Conclusão: É imprescindível a distinção entre a inconformação que apresenta um plano substancial positivo de evolução, e que tem um sentido sutil e útil, e a inconformação que representa uma revolta ou resistência. Por isso é que João Batista diz: “É importante que ele cresça (o Cristo) e eu diminua”, nosso próximo tópico.

20 de ago de 2010

Cap 2 - João Batista e o Deserto - Parte 3

VEREDAS E CAMINHO

“E DIZENDO: ARREPENDEI-VOS, PORQUE É CHEGADO O REINO DOS CÉUS. PORQUE ESTE É O ANUNCIADO PELO PROFETA ISAÍAS, QUE DISSE: VÓS DO QUE CLAMA NO DESERTO: PREPARAI O CAMINHO DO SENHOR, ENDIREITAI AS SUAS VEREDAS.” MATEUS 3:2

Veredas é no plural. São caminhos estreitos, atalhos pelos quais temos transitado ao longo das existências (de muitas encarnações). Definem aquelas escolhas nossas nem sempre felizes, motivadas por nossas tendências imediatistas, egoístas, e que mais cedo ou mais tarde (quer se acredite ou não) exigem retificação (e não existe retificação de caminho sem parcela de dor por parte do caminheiro).

Não é difícil perceber que João Batista permanece tão atual hoje, quanto ontem. Sua exortação se mantém no ar, convocando os homens à regeneração das estradas comuns. Não tem outra. Para sentirmos a felicidade e harmonia em nossa vida, para sentirmos a influência santificadora do Cristo, é preciso retificar a estrada em que se tem vivido, é imperioso refazer o campo destruído e reconstruir plantando novas sementeiras de esperança e paz.

Então, uma questão lógica: se veredas é no plural, caminho é no singular. É claro que caminho não é um só, e tanto não é um só que vivemos à procura de outros caminhos. Mas caminho seguro é por meio daquele que veio nos trazer vida em abundância. E não adianta bater o pé. Para nossa felicidade (no sentido real da palavra) não existe caminho diferente daquele que Jesus nos traçou com a sua própria vida, o reino de Deus é obra divina no coração dos homens, a ser fundamentado no íntimo das criaturas. E o roteiro continua sendo o da manjedoura ao calvário, o resto, acabamos descobrindo que é pura perda de tempo.

Então, vamos fazer um resumo rápido para fixar bem:

1- De repente você se vê no deserto. Vamos trabalhar o deserto com muita profundidade no tópico específico. Adiantamos que ele é um ambiente, um terreno na vida que não frutifica, você percebe que não está tendo o retorno ou a resposta que gostaria. É solidão, abandono, dificuldade, é difícil se manter no deserto.

2- Nesse momento João Batista aparece (consciencialmente) pregando. Mas pregando de forma austera. De certa forma, clamando (o clamor é um grito íntimo, revestido de muito sentimento). Gritando por mudança. Você precisa mudar algo, o deserto te incomoda. E, no clamor, ele (sua consciência, na forma de João, dizendo a si próprio) o chama para endireitar as veredas, achar o caminho certo, seguro, você procura segurança e harmonia.

3- Então, você sente que precisa mudar algo. Que a vida não vai lhe dar frutos se você não modificar a natureza da semente. O que você tem feito não tem lhe propiciado a resposta que você quer, tanto não tem que você se vê no deserto. O que você precisa fazer? Implementar novos padrões, começar outra etapa, e o começo é sempre pela seleção de valores novos.

4- João Batista (todo mundo sabe) não é aquele que tem um cinto de couro em volta dos rins e se alimenta de gafanhotos e mel? O que vem a ser isso? Vamos lá. O que o cinto propicia? Vamos pensar,... Cinto é o componente que dá sustentação, dá firmeza e propicia segurança. Não é isso que você procura? Segurança? Cinto nos rins. Porque os rins dizem respeito à capacidade seletiva, fazem um papel filtrante, de filtragem e seleção de valores novos para um porvir melhor. Você não espera chegar ao seu objetivo captando todos os valores e padrões de forma indiscriminada.

E você vai selecionar valores novos e positivos emanados de onde? De cima, claro. O plano de baixo (sempre) fala das conquistas operadas. Gafanhotos (vulgarmente, sem aprofundar) definem partículas pequenas e esparsas que se movimentam no plano de cima, oriundas do plano superior. Terão que ser ingeridas e depositadas no supraconsciente para o mecanismo da aprendizagem. Mas todo esse processo de seleção, de uma nova proposta, tem que ser com mel, pois o mel é doce. Este processo tem que ser feito com o melhor dos sentimentos, com docilidade, não adianta querer conquistar o novo com cara fechada, com fisionomia amarrada, com rigidez.

Acho que aos poucos estamos começando a entender o João Batista que nos interessa. Afinal, somos muito íntimos dele, somos João Batista hoje, pois pelo pouco que temos aprendido não somos Jesus, nem estamos com Jesus cem por cento (rs). Nossa comunhão ainda não é bastante firme no espaço e no tempo.

Sabemos que precisamos endireitar as veredas e entrar no caminho. E Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida.” Logo, ao afirmar ser o caminho ele aponta caminhos, mostra diretrizes. Óbvio, se ele é o caminho ele está mostrando o caminho. E quando ele indica o caminho a gente prepara, afinal, é “caminho, preparai!” Mas não basta ficar preparando o caminho, a preparação é uma parte importante, porém, caminho sugere movimento, sequência, ele vai passar a ser sedimentado à medida que passamos a operar em conformidade com as verdades. E voltando-nos aos interesses espirituais, mediante a valorização do próximo e nossa melhoria pessoal estaremos nos ajustando ao roteiro certo.

Uma ótima pergunta: Por onde temos transitado? Afinal, todos somos o resultado de nossas escolhas...

19 de ago de 2010

Cap 2 - João Batista e o Deserto - Parte 2


PREGAÇÃO

“1E, NAQUELES DIAS, APARECEU JOÃO BATISTA PREGANDO NO DESERTO DA JUDEIA, 2E DIZENDO: ARREPENDEI-VOS, PORQUE É CHEGADO O REINO DOS CÉUS. PORQUE ESTE É O ANUNCIADO PELO PROFETA ISAÍAS, QUE DISSE: VÓS DO QUE CLAMA NO DESERTO: PREPARAI O CAMINHO DO SENHOR, ENDIREITAI AS SUAS VEREDAS.” MATEUS 3:1-2.

“VOZ DO QUE CLAMA NO DESERTO: PREPARAI O CAMINHO DO SENHOR; ENDIREITAI NO ERMO VEREDA A NOSSO DEUS.” ISAÍAS 40:3.

Observe bem. Nos primeiros movimentos do evangelho de Mateus (bem no início, capítulo 3:1) temos: “Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judeia.”

Vamos analisar. Naqueles dias é advérbio de tempo, define um momento. É uma circunstância temporal que antecede algo. Mais precisamente antecede um estado de mudança. É isso mesmo. Você lembra que comentamos no capítulo 1 (Entendendo o Evangelho) que o evangelho todo está no plano da nossa intimidade?

Que os ambientes são regiões ou estados de alma e que podemos nos identificar com os seus personagens? Pois é, João Batista surge (em nossa vida hoje) com esta finalidade, ele vem propor um estado de mudança, e tanto vem propor um estado de mudança que ele vem pregar. Porque ele não realiza nada, quem realiza é o Cristo, o seu trabalho resume em pregação e batismo. E ele vem pregar apenas para aquele que se encontra no deserto íntimo.

A pregação é um chamamento, convite. Um chamado para que implantemos um sistema novo de comportamento com vistas a sentirmos Jesus, na acepção de harmonia e paz, no coração. Entendeu? João Batista é o ponto da transição, porque não se muda de um estado para outro sem passar por uma transição (João Batista está entre Moisés, que trabalha a linha da justiça, e Jesus, que implementa a instrumentalidade do amor).

João Batista é o que chega hoje, preparando o caminho para a mensagem da libertação. E vamos encontrá-lo em nós, na sua gloriosa tarefa de preparação do caminho à verdade, precedendo o trabalho divino do amor que o mundo conhece em Jesus. Ele se sente identificado com as expressões do amor, nos desprende de uma vida antiga, trabalha o campo mental da individualidade para novos caminhos, mas se bobear a criatura volta a reciclar experiências antigas.

João Batista é este que está pregando em nossas consciências, chamando-nos para uma mudança, impulsionando-nos para uma vida nova, para atitudes novas.

Mas o seu chamado nem sempre é sutil, doce, tranquilo. A sua voz, que se exterioriza em nossa alma, diante de situações nem sempre felizes, é um sinal do que se passa conosco. Muitas vezes é imperiosa, é um grito inaudível, objetiva a adoção de atitudes firmes que não podem mais ser adiadas para o alcance da libertação e da felicidade.

É um grito íntimo. Por isso ele é a “voz do que clama no deserto”.

Todos nós já observamos isso. João Batista, visitando-nos hoje, nos elege precursores em uma luta íntima pela qual somos convocados a um trabalho de reeducação. Pessoas estão gritando intimamente por mudanças em todos os momentos e lugares. Estamos no ônibus, no metrô, nos shoppings, nas ruas ou praças, etc., e vemos pessoas silentes, mas com expressões que clamam por socorro.

Resumindo, João Batista é a transitoriedade que antecede a expressão crística em nossa vida. Preparando a chegada do Cristo ele aparece. Ele aparece quando a consciência grita por mudança, e tanto grita por mudança que ele apenas aparece no deserto. E o deserto é algo tão impressionante que vai merecer um tópico só para si.

18 de ago de 2010

Cap 2 - João Batista e o Deserto - Parte 1

LITERAL

“A LEI E OS PROFETAS DURARAM ATÉ JOÃO; DESDE ENTÃO É ANUNCIADO O REINO DE DEUS, E TODO O HOMEM EMPREGA FORÇA PARA ENTRAR NELE.” LUCAS 16:16

“E, NAQUELES DIAS, APARECEU JOÃO BATISTA PREGANDO NO DESERTO DA JUDEIA.” MATEUS 3:1

O trabalho de vida de Jesus foi iniciado por João Batista. Em plano histórico, João Batista era filho de Zacarias e Isabel. Zacarias era sacerdote Judeu membro do ramo mais próspero do mesmo grande grupo familiar ao qual também pertencia Maria, mãe de Jesus. Zacarias e Isabel, apesar de casados há anos, não tinham filhos. Gabriel certo dia apareceu para Isabel, como mais tarde se apresentaria a Maria. João foi primo de Jesus, nasceu em uma pequena aldeia conhecida naqueles dias como cidade de Judá, localizada a cerca de seis quilómetros a oeste de Jerusalém, onde cresceu como uma criança comum, dia a dia e ano a ano.

E antes de entrarmos na parte que realmente nos interessa neste capítulo (a que se aplica à nossa vida hoje), vamos analisar brevemente acerca do êxito de João nas suas pregações daquela época.

Ocorre que, aproximadamente cem anos antes dos dias de Jesus e João, uma nova escola de educadores religiosos surgiu na Palestina, denominada Os Apocalípticos. Esses novos educadores desenvolveram um sistema de crença segundo o qual os sofrimentos e a humilhação dos judeus aconteciam por estarem eles arcando com as consequências dos pecados da nação. Eles recaíam nas razões bem conhecidas, escolhidas para explicar o cativeiro da Babilônia e de outras épocas ainda anteriores. Contudo, assim ensinavam os apocalípticos, Israel deveria retomar a sua coragem, os dias de aflição estavam quase no fim, a lição do povo escolhido de Deus estava para terminar, a paciência de Deus com os gentios estrangeiros estava quase exaurida. O fim do domínio romano para eles era sinônimo de fim da idade, e, em certo sentido, de fim do mundo. Esses novos pregadores apoiavam-se fortemente nas predições de Daniel, e consistentemente ensinavam que a criação estava para atingir seu estágio final, os reinos deste mundo estavam a ponto de tornarem-se o reino de Deus. Para a mente judaica daqueles dias, esse era o significado daquela frase “o reino do céu”, que está nos ensinamentos tanto de Jesus quanto de João. Para os judeus da Palestina a frase reino do céu não tinha senão um significado, um estado absolutamente reto, no qual Deus, o messias, governaria as nações da terra na perfeição do poder, exatamente como governava os céus, era o seja feita sua vontade, na terra como no céu.

E aproximadamente cem anos depois, nos dias de João, os judeus perguntavam-se com expectativa sobre quando viria esse reino. Havia um sentimento geral de que o fim do domínio das nações gentias estava próximo, e presente em todo mundo judeu a esperança viva e a expectiva de que isso ocorreria durante o período de vida daquela geração.

Alguns dos judeus apegavam-se à opinião de que Deus poderia possivelmente estabelecer esse novo reino por intervenção direta e divina, mas a grande maioria acreditava que ele iria interpor um representante intermediário, o messias. Esse era o único significado que o termo messias poderia ter nas mentes dos judeus daquela geração, não poderia referir-se a alguém que meramente ensinasse a vontade de Deus ou proclamasse a necessidade do viver reto. A todas essas pessoas sagradas os judeus davam títulos de profetas, mas o messias deveria ser mais que um profeta, devia trazer o estabelecimento do novo reinado, o reino de Deus. E ninguém que falhasse nisso poderia ser o messias, no sentido judaico tradicional.

Todos concordavam em uma coisa, que alguma purgação drástica ou alguma disciplina de purificação fosse necessária para proceder esse estabelecimento do novo reino na Terra. E pelo que os literalistas ensinavam aconteceria uma guerra mundial, que iria destruir todos aqueles que não acreditavam, enquanto os fiéis seriam levados a uma vitória universal e eterna. Esses espiritualistas ensinavam que o reino seria inaugurado por aquele grande julgamento de Deus, que iria relegar os injustos à sua bem merecida punição de destruição final, ao mesmo tempo em que elevaria os santos crentes do povo escolhido aos assentos elevados de honra e autoridade. E esse grupo acreditava até mesmo que muitos gentios devotos poderiam ser admitidos na comunhão do novo reino.

Assim, para todos aqueles que ouviam João Batista, ficava claro que ele era mais do que um pregador. A grande maioria daqueles que escutavam aquele homem estranho, vindo do deserto da Judeia, partia acreditando que tinha ouvido a voz de um profeta. E não era de se espantar que as almas desses judeus cansados, mas esperançosos, ficassem profundamente excitadas com esse fenômeno. Nunca, em toda história dos judeus, os filhos devotos de Abraão tinham desejado tando a consolação de Israel, nem a restauração do reino. Em toda a história dos judeus, nunca, a mensagem de João, de que o reino do céu estava ao alcance das mãos, teria podido exercer um apelo tão profundo e universal como na época em que ele apareceu, tão misteriosameente, na margem dessa travessia ao sul do Jordão.

Jesus foi batizado no apogeu das pregações de João, quando a Palestina estava inflamada pela esperança de sua mensagem de que o reino de Deus estava à mão, quando todo o mundo judeu empenhava-se em um exame de consciência sério e solene.

Sim. O sentido judaico de solidariedade racial era muito profundo. Os judeus não apenas acreditavam que os pecados de um pai poderiam afligir seus filhos, mas acreditavam firmemente que o pecado de um indivíduo poderia amaldiçoar a nação. Desse modo, nem todos, entre os que se submetiam ao batismo de João, consideravam a si próprios como culpados dos pecados específicos denunciados por este, e muitas almas devotas foram batizadas por João pelo bem de Israel. Eles temiam que algum pecado de ignorância da sua parte pudesse retardar a vinda do messias, sentiam-se como uma nação culpada e amaldiçoada pelo pecado e apresentavam-se para o batismo no intuito de que, assim fazendo, pudessem manifestar os frutos da penitência da raça. Evidente é que Jesus, de nenhum modo, recebeu o batistmo de João como um ritual de arrependimento ou de remissão de pecados. Ao aceitar o batismo das mãos de João, Jesus estava apenas seguindo o exemplo de inúmeros israelitas pios.

Pouco antes de sua morte, mediante uma longa e intolerável espera na prisão, João tornou a enviar mensageiros de confiança a Jesus perguntando se o seu trabalho estava feito, porque ele enlanguescia na prisão, se Jesus era mesmo o messias ou se deviam procurar outro. Quando esses dois discípulos levaram essa mensagem a Jesus, este respondeu que fossem a João e dissessem a ele que não se esquecera e que ele deveria suportar isso também. Que dissessem a João o que viram e ouviram, que as boas-novas eram pregadas aos pobres, e que ele não encontrasse ocasião para duvidar e cair, mensagem que o confortou enormemente e muito fez para estabilizar a sua fé e prepará-lo para o trágico fim de sua vida na carne, que veio pouco tempo depois dessa ocasião.

17 de ago de 2010

Cap 1 - Entendendo o Evangelho - Parte 9 (Final)

PRATICIDADE

“VÓS SEREIS MEUS AMIGOS, SE FIZERDES O QUE EU VOS MANDO.” JOÃO 15:14.

Em um mundo de conturbação a que estamos ajustados, o simples aprofundamento da filosofia já não nos tem atendido em nossas necessidades mais íntimas. Somos hoje convocados a não nos contentarmos com um evangelho puramente descritivo ou histórico, fixado no tempo e no espaço.

Na atualidade, é necessária e imperiosa a instauração de uma evangelização, não sob uma pregação sistemática milenar de um evangelho periférico, mas de uma sensibilização do conhecimento evangélico na vida comum nossa de cada instante em sua linha de praticidade.

Em outras palavras, o evangelho que nos interessa intimamente é o evangelho prático, aquele que nos auxilie no dia a dia. E no decorrer do tempo, todas as frentes religiosas vêm operando, desde a instauração do cristianismo, sob a importância aplicativa da sua mensagem.

Ocorre que a lição do mestre não constitui tão-somente um impositivo para os misteres da adoração, evangelho não se reduz a breviário para o genuflexório. O Cristo não estabelece linhas divisórias entre o templo e a oficina, de modo que os seus ensinamentos não se tornem relíquias mortas dos altares de pedra. O evangelho vem definir um chamamento para fazermos aquilo que nós já sabemos e que não fazemos ainda.

É que estamos hipertrofiados em conhecimento. Já vemos o plano informativo do evangelho com propriedade, e nem precisamos de óculos, a visão é uma beleza. Exemplo disso, bem claro, é que se a entrada no reino dos céus estivesse condicionada a uma prova de múltipla escolha o resultado seria aprovação geral. Passaríamos com nota dez: A lei da vida é amar ou espancar? “Ah, essa eu sei, é amar”. Você caminha pela rua e vê uma pessoa doente caída ao chão. Você a chuta ou lhe estende a mão? “Ah, essa é fácil, é claro que eu a ajudo a levantar.” E, assim por diante. Mas, o plano aplicativo, de um amor sem discriminação, é outra coisa. Ainda estamos acentuadamente atrasados na capacidade de operar, a lição de Jesus até hoje não foi compreendida e a cristianização das almas humanas não foi além da primeira etapa.

Se o Cristo dispõe de amigos reais que se multiplicam em todas as regiões do planeta a todo instante, esses amigos, no seio de todas as filosofias e crenças, não se distinguem apenas por legendas exteriores, mas, acima de tudo, porque se associam a ele em espírito e verdade, entendendo-lhe as lições e praticando-lhe os ensinos.

Afinal, não devemos nos deter em uma falsa contemplação de Deus, mantendo-nos à margem do caminho, o cristão não é flor de ornamento para igrejas isoladas. Os ensinamentos e atos de Jesus constituem lições espontâneas para todas as questões da vida, e no imenso conjunto de ensinamentos da boa nova cada conceito adapta-se a determinada situação do espírito nas estradas da vida.

Se aceitamos o evangelho por norma de elevação de vida, procuremos, acima de tudo, ocupar nossas mãos em atividades edificantes, a fim de podermos ser realmente úteis àqueles que necessitam. Se nos afeiçoamos a ele, não nos situemos por fora do serviço cristão.

O evangelho tem que circular em um plano aplicativo de interação com as pessoas.

O evangelho é vida. E vamos cercear a vida? Não. Vida não é bloquear, mas expandir, temos que aderir ao evangelho na piedade, no entendimento, na caridade. Dessa forma, vamos caminhando na verticalização do amor a Deus, e ao próximo na horizontal. Evangelho é código de boas maneiras no intercâmbio fraternal, acima de tudo, é código de vida que pressupõe a instauração de uma mentalidade nova nos corações para o trabalho em favor dos que sofrem.

Agora que “findamos” a parte introdutória esperamos que a nova fase dos estudos seja imensamente agradável e produtiva para você, como tem sido para nós.

15 de ago de 2010

Cap 1 - Entendendo o Evangelho - Parte 8

REDIVIVO

“AINDA UM POUCO, E O MUNDO NÃO ME VERÁ MAIS, MAS VÓS ME VEREIS; PORQUE EU VIVO, E VÓS VIVEREIS.” JOÃO 14:19.

Não precisamos observar muito para constatar que em torno dos templos tradicionais da fé, em sua grande maioria, o movimento se sustenta e gira na figura do Cristo morto.

Não raras vezes, entramos em determinados núcleos e a imagem inicial que nos alcança é a de Jesus pendente ao madeiro, fronte abatida, olhos cerrados. Uma imensidade de lares não foge à regra. E podemos ir além, diante das grandes emergências da vida, em determinados atos solenes, quer trate-se de acontecimento alegre ou triste, em que se chore ou ria, tudo se passa diante do Cristo morto.

Pessoas caminham calmas ou apressadas, contentes ou entristecidas, com a imagem do Cristo morto pendurada ao pescoço. Quase sempre é a mesma ideia da cruz em todos os tons, a redenção pela virtude do seu sangue, e onde quer que se vá o apelo e a súplica direcionados ao Cristo crucificado. É quase uma expressão uníssona, em mesmo diapasão. Recorrem os suplicantes e adoradores ao instrumento da cruz. Neste contexto, misturam-se o sangue, o sacrifício cruento e a morte.

Deste prisma, então, a missão de Jesus se iniciou na manjedoura e finalizou no topo do calvário? O sofrimento como o estigma da vida? Mas, se é assim, onde fica a alegria e serenidade do mestre que ensina e a do Cristo que ressuscita? Será que ficamos órfãos depois de sua partida, apesar dele nos ter dito que ficaria, e fica, conosco todos os dias?

O evangelho todo transcorreu dentro da maior alegria espiritual, alegria do Cristo que nos auxilia e ampara em todos os momentos da caminhada. Que saibamos aprender a caminhar e a viver na sua vida.

14 de ago de 2010

Cap 1 - Entendendo o Evangelho - Parte 7

MESTRE

Vamos começar este tópico dizendo algo que pode soar com certa dureza ao seu ouvido, mas que acreditamos irá concordar conosco. Já observou que a maioria dos núcleos espirituais (igrejas, templos, centros) funcionam mais à maneira de hospital do que propriamente escola?

Isto porque nós visualizamos Jesus como aquela criatura colocada para sanar a nossa dificuldade e o nosso desconforto. Infelizmente, até hoje Jesus é considerado mais médico do que Mestre. Também pudera, em matéria de realidade espiritual estamos dando nossos primeiros passos. Achamos que estamos muito próximos do evangelho, mas no decorrer destas páginas vamos concluir que estamos, ainda, “à beira do caminho”.

Tanto é que muitos buscam o evangelho e pregam o evangelho atendendo a sentido demagógico. Querem o Cristo para que o Cristo os sirva; cultivam, sim, a oração, mas pretendendo subornar a justiça divina; dividem e demonstram certas expressões de fé, mas à busca de vantagens pessoais no imediatismo das gratificações e barganhas terrestres.

Em razão disso, infindáveis criaturas têm entrado múltiplas vezes no renascimento físico. Atravessam os pórticos das reencarnações carreando a consciência pesada de culpas, qual aposento recheado de lixo e sucata da experiência humana, incapaz de se abrir ao sol da bondade divina (pluralidade das existências não é teoria religiosa, mas instituto universal. Da mesma forma que um aluno não chega ao doutorado em um único ano letivo, é pretensão desarrazoada acharmos que a evolução se inicia no berço e termina no túmulo).

Muitos tentam subornar o poder celeste pela grandeza material das oferendas. Os templos de pedra estão cheios de promessas injustificáveis e de votos absurdos. Muitos devotos entendem encontrar na divina providência uma força subornável, eivada de privilégios e preferências, outros se socorrem do plano espiritual com o propósito de solucionar problemas mesquinhos.

Vamos começar avançando um pouco mais. Vamos deixar de ver Jesus apenas como o médico, e tampouco ficar apenas no Jesus pregador. Ele continua a sua missão suprema de revelar Deus aos homens e de conduzir os homens a Deus. Precisamos encontrar no excelso amigo não apenas o benfeitor que nos garanta a segurança, mas também o mestre ativo que nos oferece a lição em troca do conhecimento e a luta como apreço da paz.

Os seus ensinamentos e atos constituem lições espontâneas para todas as questões da vida, no imenso conjunto de ensinamentos da boa nova cada conceito adapta-se a determinada situação do espírito nas estradas da vida.

Trazido há milênios atrás, o evangelho nada exige, sua finalidade é sanear a dureza do nosso coração. Ele objetiva clarear o nosso entendimento, e clareando nosso campo de ação toca a todos os corações, apenas aguardando a ressonância, a resposta de cada qual. Em suma, Jesus é aquele que responde ao nosso apelo por ajuda e orientação com respeito ao melhor caminho para a meta do destino que o nosso coração busca, enquanto nos detemos presos a certos ambientes. Não desconsidere a opção de crescer e realizar sem o auxílio incessante do Mestre. Da mesma forma que conhecemos certos caminhos aos destinos pelos quais passamos muitas vezes, também ele conhece bem o caminho para as cidades das nossas esperanças desapontadas e ambições frustradas.

13 de ago de 2010

Cap 1 - Entendendo o Evangelho - Parte 6

INTERPRETAR

“SABENDO PRIMEIRAMENTE ISTO: QUE NENHUMA PROFECIA DA ESCRITURA É DE PARTICULAR INTERPRETAÇÃO.” II PEDRO 1:20.
“O ESPÍRITO É QUE VIVIFICA, A CARNE PARA NADA APROVEITA; AS PALAVRAS QUE EU VOS DISSE SÃO ESPÍRITO E VIDA.” JOÃO 6:63.
“O QUAL NOS FEZ TAMBÉM CAPAZES DE SER MINISTROS DE UM NOVO TESTAMENTO, NÃO DA LETRA, MAS DO ESPÍRITO; PORQUE A LETRA MATA E O ESPÍRITO VIVIFICA.” CORÍNTIOS II 3:6.

No que se refere ao aspecto interpretativo do evangelho, normalmente as religiões costumam levar o religioso ou simpatizante àquela época de Jesus, as igrejas tradicionais nos levam atrás dele, àqueles dias do Cristo. Mas a questão interessante é ir lá e trazer o acontecimento para o agora, nos trazer Jesus à atualidade, porque será muito difícil pegar a contingência do nosso contexto social de hoje e “jogar” naqueles dias da sua época.

Então, nós temos que saber interpretar a mensagem de redenção que nos foi trazida, não partindo do hoje para o ontem, mas trazendo a boa nova para os dias e problemas atuais. Porque falar do texto lá atrás não nos interessa mais, e nem é nosso interesse aqui ficar analisando-o exclusivamente dentro da sua fisionomia histórica.

Não estamos aqui para estudar a história do evangelho, não estamos com a cabeça há dois mil anos atrás. Logo, o Jesus da Galileia, da Judeia e da Pereia está lá atrás no passado. Nós falamos agora no Jesus íntimo, nós estamos indo lá e trazendo para cá, trazendo o evangelho para hoje. Afinal de contas, nós queremos é saber como utilizar o evangelho para melhorar a nossa vida, como utilizá-lo para melhorar as nossas relações dentro de casa, como utilizá-lo para minorar a nossa carga de sofrimento,

como utilizá-lo para realizar objetivos que são importantes para nós. Ao estudarmos o evangelho, estamos indo lá e o trazendo para hoje, nós estamos discutindo assuntos de nossa estrutura pessoal, o que nos interessa é falarmos de nós, agora.

Apesar de apresentar milênios, é indiscutível o caráter de contemporaneidade dos textos bíblicos. Todos os fatos ou ensinamentos neles contidos, embora se revistam de características históricas inerentes ao tempo em que ocorreram, se refletem nos dias atuais. Os ensinamentos do Cristo são atemporais, o evangelho tem sentido de eternidade e continuidade, é algo do presente, e ele é manancial e recurso inesgotáveis de ensinamentos.

A grande massa de pessoas felizmente é cristã, mas infelizmente estuda a letra do evangelho, não estuda efetivamente o evangelho. Tem gente, por exemplo, que para falar no evangelho, faz uma poesia para começar a palestra ou pregação. Vai falar da pesca maravilhosa e começa a falar do Tiberíades, fala dos peixes, dos barcos e de Simão. Fica lindo, uma beleza. Todo mundo bate palma no final: “Nossa, mas como fala bonito!” Mas não pode é perguntar, não pode questionar. Porque se apertar não sai nada. Então, todas as vezes em que a gente vai levar o assunto para o plano literal nós costumamos ter problemas.

É que a letra evangélica representa o material didático, ela não é a essência do conhecimento. A letra bíblica é material didático, sem o qual não há aprendizado. Toda transcrição do evangelho e do velho testamento é instrumento didático, mas não é a essência do conhecimento. O evangelho na letra é material didático, é recurso didático, através do qual Jesus, a sapiência pedagógica dele, nos ensina a aprofundar no conteúdo.

Mas a grande massa ingere o material didático como se ele fosse o conteúdo, a essência. Engole direto, e nem mastiga. E os equívocos na interpretação muitas vezes se dão porque se toma ao pé da letra expressões que são figuradas. Em outras palavras, aquele que quiser estudar em cima da periferia da letra vai ficar trabalhando contra a própria natureza, porque a didática, que define o instrumento didático, é uma coisa, e o conteúdo é outra.

O evangelho todo está repleto de símbolos. A espada é um símbolo, a videira é um símbolo, a cruz é um símbolo, o pão é um símbolo, e nós temos que compreender o símbolo, entender o sentido real dele, e dele tirar a ressonância para a nossa caminhada. O evangelho é simples na essência e vai depender de nossa simplicidade e carinho para compreender a essência lá no fundo da letra. Esta é um instrumento que pode criar (e tem criado) dificuldades nos passos de muitas criaturas.

Vamos entender, de forma segura e definitiva, que a bíblia não pode ser trabalhada em cima da letra como muita gente propõe. Em todas as traduções dos ensinamentos divino é imprescindível separar da letra o espírito, buscar a essência para além da letra que a transporta, tirando de todo o ensinamento do Cristo, de cada cura de Jesus, a essência renovadora dentro de cada feito dele.

É preciso buscar na intimidade da letra o que Jesus quis (e quer) nos apresentar. Isto é muito mais importante do que possa parecer. Afinal de contas, a linguagem do evangelho é toda espiritual, é uma mensagem direcionada ao espírito na sua essencialidade, e quem quiser compreendê-lo deve buscar sempre o sentido de seus dizeres sob o prisma puramente espiritual.

O Cristo serviu-se da forma, empregando-a para designar pensamentos transcendentes, dos quais a forma, em si mesma, não pode dar uma ideia precisa e clara. Assim, precisamos ir além da forma, desprezar a letra, a vestimenta da linguagem, buscando o espírito. Só este é capaz de nos fazer penetrar a mente e o coração do mestre.

O evangelho é a mensagem direcionada ao espírito, é roteiro das almas, e com a visão espiritual deve ser lido. Isso são critérios de estudo e interpretação do evangelho de Jesus: saber retirar o espírito da letra e situar-se na mensagem, no tempo e no espaço. São pressupostos básicos que ele nos abre.

É com a visão espiritual que ele deve ser lido, pois atrás de cada simbologia que o texto apresenta vamos encontrar as mensagens que precisamos. Sua essência, o conteúdo espiritual, é o que dá vida, universalidade e eternidade à boa nova.

Se o próprio vento possui uma direção, o divino mestre não nos transmitiu nada ao acaso. Nenhum ato dele é destituído de significação. Veremos, no decorrer de nosso estudo, que todas as expressões evangélicas têm entre nós a sua história viva, nenhuma delas é símbolo superficial. O evangelho nos fala a todo o momento, à nossa intimidade, e precisamos analisar as curas nele apresentadas ao nível dos padrões interiores. Toda a postura é muito mais  psíquica e íntima do que a gente possa imaginar (vamos decodificar isso ao longo dos capítulos).

O evangelho está saindo da expressão em que foi trabalhado e estruturado para se ajustar à nossa intimidade, onde realmente opera no plano transformador do ser (na nossa própria intimidade é onde ele efetivamente funciona). Assim, todos os personagens bíblicos chegam até nós dando-nos condições de identificá-los ou não em certos ângulos da nossa personalidade. Constataremos, por exemplo, que quando falamos de Zaqueu nos referimos a todos aqueles que dão um passo além no plano da renovação. Quando estudamos o Cego de Jericó estamos analisando a nossa iniciativa de busca à luz e ao caminho regenerador.

Em relação aos ambientes presentes nos textos não é diferente. Todos eles se encontram presentes na extensão territorial de nossa alma, de nosso psiquismo. Em outras palavras, o território do evangelho está todo dentro da gente, dentro do nosso mundo íntimo (fique tranquilo, esclareceremos isso com muita transparência e profundidade a partir do próximo capítulo, JOÃO BATISTA E O DESERTO).

Mas você pode pensar consigo agora: “Puxa, Marco Antônio e Helvídio Lopes, o evangelho já foi tão mudado, tão alterado...” Não esquente com isso. Nós não sabemos o que a gente pode tirar ou pode colocar no evangelho, o que sabemos é que se está presente no evangelho é material para o nosso trabalho, temos que encontrar alguma coisa positiva. Agora, o que vai muito, em nossa ação interpretativa, não é o fato do símbolo ou do ensinamento ser estranho ou difícil, o que vai estar em jogo é a nossa capacidade maior ou menor de compreender e de transformar essa compreensão em ação evangélica.

Observemos com discernimento, para que o novo conhecimento que nos visita (evangelho entendido com clareza e profundidade) não venha nos lançar ou nos situar numa falsa presunção. Mantenhamo-nos sempre humildes e solícitos, mesmo que este novo conhecimento não esteja presente no entorno de nosso cotidiano.
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