28 de fev de 2011

Cap 10 - O Sofrimento e a Cruz - Parte 1

INTRODUÇÃO


Nós fomos criados para a perfeição, e ninguém duvida disso. E Deus permite que escolhamos nosso caminho, e que até por mau uso do livre-arbítrio façamos incursões menos felizes, quando a dor é convocada à tarefa de nos reconduzir ao equilíbrio.

Ocorre que a Terra é, ainda, uma escola preparatória de aperfeiçoamento e no trabalho de redenção, individual ou coletivo, a dor é sempre o elemento amigo e indispensável, oportunidade concedida por Deus às suas criaturas em todos os tempos. Por nossa rejeição à opção do amor ela é o mecanismo que necessitamos para restabelecer o equilíbrio. Representa a resposta que a ignorância conduz aos desatentos e também a lapidadora das arestas morais.

O sofrimento é um componente favorável à evolução. A dor visa sempre o despertar da alma para os seus deveres e o caminho evolutivo está repleto de aguilhões, de outro modo não enxergaríamos a porta redentora. Sofremos por necessidade em favor de nós mesmos e não se pode desconsiderar a dor que instrui e ajuda a transformar o homem para o bem. O sofrimento é útil, bom e providencial. A dor é muitas vezes uma lâmpada maravilhosa, as lágrimas purificam e as dores corrigem, afinal, o diamante não é lapidado com pétalas de rosas.

E o sofrimento pode ser visto sob dois ângulos. De baixo para cima, do inferior ao superior, sofremos hoje porque erramos ontem. De cima para baixo não sofremos hoje porque erramos ontem, recebemos oportunidade de repetirmos a experiência, de saldarmos nossos débitos e seguirmos crescendo a caminho da evolução ao Pai. E cada problema que nos alcança é instrumento didático, é a luta aperfeiçoando nossa vida até que a vida se harmonize sem lutas com desígnios do Senhor.

Sofrimento é o ato de sofrer, angústia, aflição, amargura, padecer, ser atormentado, afligido por. Como oportunidade de redenção, que objetiva nos conduzir a processo de reflexão, tem em seu interior mais aspectos morais do que físicos, tanto que o classificamos sob dois aspectos, o físico e o espiritual. A Dor moral é a essência, o sofrimento do espírito representa a dor realidade, afinal, somente a dor espiritual é grande e profunda para promover o trabalho de aperfeiçoamento e redenção. E o sofrimento físico, seja de qualquer natureza, representa a dor ilusão, a dor física é o fenômeno, razão porque ela vem e passa, ainda que se mantenha após a morte do corpo de carne.

E temos que retificar a idéia fechada que trazemos acerca dos que sofrem. De modo geral, enquanto encarnados, apenas enxergamos os aleijados do corpo, os que perderam o equilíbrio corporal, os que se arrastam no solo, aqueles com escabrosos defeitos. De certa forma essa é a idéia nossa acerca dos que sofrem. Mas o que está sofrendo na cama de hospital, o abandonado no asilo, a criança desnuda na rua, são os sofredores ostensivamente se mostrando aos nossos olhos.

No entanto, em nossa órbita de ação, dentro de casa, há sofredores também. Pois cada criatura tem o seu enigma, a sua necessidade e a sua dor, e não possuímos também suficiente visão para identificar os doentes do espírito, os coxos do pensamento, os paralíticos das emoções, aqueles aniquilados de coração.

E podemos encontrar duas criaturas debaixo de uma mesma sintomatologia, de um mesmo diagnóstico, porém, sob causas diferentes. Ou seja,  pode ter finalidades diferentes para mesmo quadro. O sofrimento para um pode ser despertar e para outro pagar, quitar. No caso do despertar, o papel da respectiva dificuldade é projetar o ser, a criatura se projeta e sara, restabelece-se. O que equivale a dizer que a sua entrada em um terreno novo propicia o saneamento do processo.

No caso do pagar, não adianta fechar a cara e brigar com tudo e todos. A criatura tem que respaldar com calma e tranquilidade a sua dificuldade. Aquele que semeou lá atrás tem que se contentar com paciência no regime da colheita.

26 de fev de 2011

Cap 9 - A Caridade - Parte 8 (Final)

AS PRIMEIRAS E AS ÚLTIMAS OBRAS

“4TENHO, PORÉM, CONTRA TI QUE DEIXASTE O TEU PRIMEIRO AMOR. 5LEMBRA-TE, POIS, DE ONDE CAÍSTE, E ARREPENDE-TE, E PRATICA AS PRIMEIRAS OBRAS; QUANDO NÃO, BREVEMENTE A TI VIREI, E TIRAREI DO SEU LUGAR O TEU CASTIÇAL, SE NÃO TE ARREPENDERES.” APOCALIPSE 2:4-5

“19EU CONHEÇO AS TUAS OBRAS, E O TEU AMOR, E O TEU SERVIÇO, E A TUA FÉ, E A TUA PACIÊNCIA, E QUE AS TUAS ÚLTIMAS OBRAS SÃO MAIS DO QUE AS PRIMEIRAS.” APOCALIPSE 2:19

“Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras.” Interessante isto. A nos mostrar que em quase todas as circunstâncias de nossa queda nós esquecemos a lei maior, olvidamos a lei do Pai. Que toda queda se dá em razão do esquecimento à lei divina, que toda ela propõe uma ação para o encaminhamento da redenção dos seres. Engraçado, à medida que se refinam os conhecimentos intelectuais parece que há menor respeito no homem para com dádivas sagradas.

Agora, se por um lado a queda se dá pelo esquecimento, a ascensão se faz mediante a lembrança, afinal de contas, é impossível evoluir sem lembrar. Lembrar significa reter consigo em um sentido prático, de aplicabilidade, de ação, é assimilar para se implementar um sistema novo de vida, pois aquilo que a gente não exercita a gente esquece. É preciso um trabalho nosso de levantamento de nossas potencialidades, aderirmos à capacidade operacional, não podemos esquecer a nossa condição de velhos reincidentes no abuso da lei.

E nos primeiros passos de edificação no bem, cada um de nós vai notar que estamos suscetíveis de cair, pois não há, em tese, a redenção de forma linear, mas uma subida à escada, o crescimento como que se faz em uma forma espiral.

Ok, ententendemos. Ficou claro, é praticar as primeiras obras. E qual é a primeira?

O amar a Deus é amplo demais e não há como concluir qual é a primeira caridade. Tanto não é possível concluir que no versículo seguinte diz lembra-te de onde caíste. Porque a primeira caridade se dá no âmbito da consciência de cada um.

E tem mais um detalhe. A primeira caridade, nos movimentos iniciais de sensibilização para com o próximo, está muito ligada ao impulso da consciência, almas ansiosas que ainda se acham nas primeiras esperanças, em disputas mais ásperas por arrebentarem o casulo das paixões inferiores na aspiração de subir. É um trabalho que se faz com um amor ainda meio sumido no contexto, uma ação no bem com um peso muito voltado para o nosso lado reeducacional, ainda ligada à justiça. É a necessidade íntima de fazermos alguma coisa ao outro para resolvermos a nossa dificuldade, o nosso problema.

E à medida que permanecemos na prática do amor, resolvendo ou desativando a nossa dificuldade que está nos prendendo lá atrás, vamos notar que esses valores novos, positivos, vão ganhando corpo.

Porque atestamos o amor pelo que fazemos, e o amor surge nas linhas da espontaneidade. Se no começo vamos pelo grito reeducacional, o que cresce em nós torna a tarefa mais leve, suave, já não fazemos tanto pelo impulso do tem que fazer, mas pelo amor ao trabalho.

E aqui está o segredo do crescimento: as últimas obras mais do que as primeiras. Afinal, aquele que se encontra matriculado no plano do aprimoramento espiritual, da melhoria, do aperfeiçoamento, não pode estar conformado com si próprio. Não é a tese do inconformismo, diz respeito ao não estagnar.

Porém, como é que a gente vai deixar a vaidade de lado, porque começa a ver que as obras são maiores que as outras? A vaidade se desativa quando nós fazemos e aprendemos a nos calar.

24 de fev de 2011

Cap 9 - A Caridade - Parte 7

A CARIDADE LEGÍTIMA


“DAI ANTES ESMOLA DO QUE TIVERDES.” LUCAS 11:41

“E DISSE PEDRO: NÃO TENHO PRATA NEM OURO; MAS O QUE TENHO ISSO TE DOU. EM NOME DE JESUS CRISTO, O NAZARENO, LEVANTA-TE E ANDA.” ATOS 3:6

Em muitas situações fala-se em caridade e já se pensa em assistência social. No entanto, os departamentos de assistência já não devem ser tanto mais de assistência social, porque é fácil constatar que assistência social é um plano operacional também de amor, mas ineficiente. Hoje deveria ser assistência e promoção social.

Ou seja, atende-se a necessidade do pão, da água e da roupa e, concomitantemente, promove o elemento na luta de libertação da carência dele. Pois a caridade maior é a de iluminar as consciências humanas a fim de não mais se comprometerem. Vamos dar um exemplo a fim de esclarecimento. Imaginemos alguém dizer do outro lado, no plano espiritual: “Eu estive na Terra, na minha vida religiosa, vinculado a uma tarefa em que tinha lá duzentos necessitados, que eu cuidei.” E alguém pode lhe dizer: “E estão necessitados até hoje.” Percebeu? Nós vamos chegar ao final e aqueles que atendemos vão continuar às portas de novo, pedindo. É claro que nós fazemos amigos, e que vamos encontrar com muitos deles no futuro, mas que se mantém na mesma situação.

A cada instante nós somos chamados a exercer o amor ao próximo. Mas, por enquanto, o amor ao próximo nosso é um amor ao próximo todo convencional, todo sistematizado.

Vamos imaginar uma cena para ilustrar bem o que queremos dizer. Imagine um casal passeando por uma cidadezinha do interior, um lugar bem pobre, um lugarejo, uma roça, como se costuma dizer. O casal bem vestido para o carro e caminha pela singela estradinha estreita de terra quando se depara com um menino descalço, sujo de poeira, que fala ao homem da cidade grande esbelto e aplumado:

- Moço, me dá um trocado?

- Sai prá lá, menino.

- Oh, moço, é que eu estou com fome. Um trocado, só para eu comprar um pão na venda do seu João.

- Sai prá lá, menino, já falei. Não tenho dinheiro não.

- Ricardo Augusto (diz a esposa), para com isso. Não vê que o menino está com fome?! Dá logo um trocado prá ele. E o homem enfia a mão no bolso, remexe os dedos e de lá retira algumas moedas que dá ao garoto. Aí a gente pergunta, houve caridade?

A resposta é simples, não! A criatura deu a esmola, mas a caridade não circulou. Ela deu para ficar livre e nesse caso houve apenas transferência de valores.

A caridade não depende da bolsa, aliás, muitas vezes a própria moeda dada significa um momento de desastre para nós. Se você acredita que apenas o ouro é a base corrente da caridade, lembra-te que Jesus enriqueceu o orbe sem possuir uma pedra onde repousar a cabeça.

Ocorre que nas relações comuns o pedido de providência material tem sentido e utilidade oportuna como resultante da lei de equilíbrio que preside o movimento das trocas no organismo da vida. Por isso, a caridade nossa surge em cima da esmola, a prática do bem exterior é ensinamento e apelo para que cheguemos á prática do bem interior, a esmola está trabalhando a intimidade do ser.

A esmola representa o componente canalizador da caridade e as obras da caridade material somente alcançam a feição divina quando colimam a espiritualização do homem, renovando-lhe os valores íntimos, pois quem não exercita em dar alguma coisa dificilmente chegará um dia a doar-se. E caridade é fonte nascida no coração.

O pão dado é o instrumento da caridade, não é a caridade, é o veículo da caridade. Os instrumentos materiais são os elementos canalizadores, não são os elementos de sustentação finalística. A criatura vem com o dinheiro e o dinheiro não é a caridade. Vai ser o instrumento que ele vai usar para transferir a essência. Isto é, essa essência vai ser transferida através do pão, do dinheiro, de um abraço, de um conselho. Então, é preciso separar o componente tangível da beneficência com a essência sutil da caridade, separar o instrumento didático do conteúdo didático.

Às vezes, a transferência de um componente tangível que a gente deposita como sendo a efetiva doação para alguém não é aquilo que representa o valor transferido, aquele valor transferido foi apenas o condutor da essência canalizada. O valor vibracional, a carga de emoções veiculada na ação no bem é que vai determinar o grau que tange a linha qualitativa e que premia ou entristece e onera a criatura.

O mestre disse “dá a quem te pede”. Observemos que é dar a quem pede, não é dar o que se pede.

E dar o que temos é diferente de dar o que detemos, ninguém pode dar a outrem aquilo que ainda não possua no coração. Na prática legítima do evangelho é imperioso dar do que somos, descerrar o próprio coração e espalhar os bens do espírito, dar de nós mesmos em tolerância construtiva, amor fraternal e divina compreensão, pois ninguém é tão pobre que nada possa dar a outro de si mesmo. Por isso, não aguardes sobras na bolsa para atender aos planos da caridade. Lembra-te que o amor é inesgotável na fonte do coração e que Jesus, ainda hoje, com Deus e amor vem multiplicando dia a dia eternos tesouros da humanidade, e que também podemos distribuir das riquezas que fluem de nós próprios, cuja aquisição é inacessível à moeda comum.

O bem mais humilde é semente sagrada e a repercussão da prática do bem é inimaginável, nenhuma atividade é insignificante. Ninguém pode avaliar a importância das pequeninas doações e toda migalha de amor está registrada na lei maior em favor de quem a emite. As mais altas árvores são oriundas de sementes minúsculas. O menor gesto de bondade, segundo Jesus, dispensado em seu nome, será sempre considerado no alto como uma oferenda endereçada a ele próprio. Os talentos da fé e o conhecimento superior, o dom de consolar e a capacidade de servir, não obstante laboriosamente conquistados por nosso esforço, constituem bênçãos do criador em nosso coração singelo de criatura.

E para servir a Deus ninguém necessita sair do seu próprio lugar ou reivindicar condições diversas daquelas que possui.

Para poder transformar o que recebemos de cima, por informação, em recursos que nos projetem para uma linha mais feliz nós temos que utilizar os padrões que nos é possível. E para ajudar (embaixo) a criatura que já teve o vislumbre (de cima) precisamos entender que temos que ser servos mesmo, para que não deixemos escapar as dificuldades incrustadas em nosso subconsciente.

21 de fev de 2011

Cap 9 - A Caridade - Parte 6

A PROVIDÊNCIA DIVINA E O INÍCIO DA CARIDADE

“PORTANTO, TUDO O QUE VÓS QUEREIS QUE OS HOMENS VOS FAÇAM, FAZEI-LHO TAMBÉM VÓS, PORQUE ESTA É A LEI E OS PROFETAS.” MATEUS 7:12
 
“E NÃO NOS CANSEMOS DE FAZER BEM, PORQUE A SEU TEMPO CEIFAREMOS, SE NÃO HOUVERMOS DESFALECIDO.” GÁLATAS 6:9

Todos nós, com certeza, já ouvimos falar na providência divina. No entanto, não muitos se atentam para a grandeza dela.

Ocorre que a necessidade de atendimento de uma criatura não vai ser condicionada àquele elemento específico que tem que ajudá-la. Porque quem vai ser ajudado não vai ser ajudado pelo Antônio, por exemplo, ou pelo Cláudio ou pela Ana Flávia, e por aí adiante. Ele vai ser ajudado pelo Cristo (e no capítulo A Porta Estreita nós iremos trabalhar com tranquilidade acerca disso).

Jesus é o amor na sua grandeza. Ninguém nos amou e nos ama mais do que ele, e Cristo é a expressão material desse amor. Por isso o espírito crístico é unigênito, a unidade crística é uníssona em todos os seres. Suponhamos que o Antônio seja o ponto número um da fila para ajudar o paciente, porque ele é quem trabalhou a confusão desse companheiro no passado (mais próximo ou mais distante). Ele é o número um para atender, e não atende. Então, vem o número dois, e não atende, vem o número três, e, assim por diante, até que um atende.

Percebeu? Nunca aquela criatura que deve ser atendida vai deixar de ser. É aí que entra a providência divina. Por isso nós vamos praticar a caridade com a expressão crística íntima nossa.
E toda nossa atividade, quando devidamente filtrada no amor e no bem, representa a extensão da bondade e da misericórdia do criador em favor de quem precisa, e nós é que somos acionados. Somos nós que somos chamados a fazer. Mas se não quisermos, se estivermos cansados, indiferentes e não sensibilizados, outros irão.

Por isso, usar a expressão crística na operacionalização do amor nos conforta, e feliz daquele que usa o cristo íntimo no atendimento, feliz daquele que se vale da oportunidade que surge. O esforço máximo e desinteressado no bem aos outros, segundo nos parece, representa sempre o maior apoio nosso a nós mesmos.

Já vimos que a espada do evangelho propõe uma luta e a luta educativa é de uma beleza extraordinária. Mas tem o seu preço.

Porém, na maioria dos casos as pessoas são prestativas e caridosas com o próximo, em se tratando de necessidades materiais, e quase sempre continuam menos boas para si mesmas, por se esquecerem da aplicação da luz evangélica à vida prática. Prometem muito com as palavras, operam pouco no campo dos sentimentos.

Com exceções, irritam-se ao primeiro contato com a luta mais áspera após reafirmarem os mais sadios propósitos de renovação. Comumente, voltando cada semana aos núcleos de preces estão nas mesmas condições, requisitando conforto e auxílio exterior. Com dificuldade cumprem a promessa de cooperação com o Cristo em si próprias, base fundamental da verdadeira iluminação. Muitos inclusive dizem: “Eu sou assim mesmo, nasci assim e vou morrer assim”.

É por isso que muitos preferem fazer o bem lá fora. Campanhas e visitas. Dizem que o que gostam e fazem nos trabalhos aplicativos das religiões ao qual se associam é o trabalho social. Às vezes é muito melhor, segundo alguns companheiros. Às vezes, preferem ir lá a terem que mexer aqui dentro, no coração, porque essa luta reeducacional não é uma luta fácil. Mas está tudo bem e tudo é válido, só que ficar apenas nisso é a condição mais fácil. O duro é você ter que engolir e metabolizar tanta coisa no campo da sua proposta de mudança.

É muito comum isso, a pessoa segue a vida inteira servindo, mas é o mesmo que vai chegar lá (no plano espiritual) o mesmo que chegou aqui. Ele não conseguiu dobrar determinadas estruturas que estão dentro dele há muito tempo. E tem gente que diz: “nasci assim e vou morrer assim, não tem jeito.” Ele não deu o testemunho, não realizou determinados testemunhos de mudança.

Sensibilizamos-nos com o evangelho, nos interessamos e queremos fazer. Mas onde começa a caridade?

A primeira providência nossa é sermos menos onerosos aos outros, é dar menos trabalho aos outros, é dificultar menos a caminhada dos outros. A caridade começa pelo peso que nós aliviamos em nossa área de atuação, seja em casa ou no trabalho, pela reforma íntima. Assim, a gente já começa a sentir alguma coisa diferente.

Logo, iniciemos o nosso apostolado de paz calando a inquietação no campo do próprio ser. Esse esforço de iluminação deve iniciar-se pelo autodomínio, por uma disciplina dos nossos sentimentos inferiores, pelo trabalho silencioso da criatura por exterminar as próprias paixões. Reafirmemos o compromisso de servir silenciando sempre onde não possamos agir em socorro do próximo. É preciso transformar-se no plano interior para poder atuar nos campos da cooperação.

Pelo conhecimento racional estamos tentando convencer a nós próprios de que precisamos melhorar, que é converter o coração para as verdades celestiais e maiores. Se a caridade define a aplicação do amor a gente precisa primeiro sentir, para depois aplicar.

E o que diz Paulo? “Não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido.” É não nos cansemos de fazer bem, não é fazer o bem. O artigo (o) foi retirado. Porque fazer o bem muitas vezes pode ser uma atitude de exceção na vida de alguém, aquilo que ele faz esporadicamente, e no fundo a vida não é a exceção mental nossa como a participação em uma reunião em núcleos de natureza espiritual ou a entrada neste blog aqui.

Nessas situações nós vivemos um momento ocasional. Um momento entre aspas, didaticamente falando, embora possa ter gente na qual o que é veiculado seja uma constante na vida dele. Mas, na essência, estamos vivendo um momento por opção, uma reunião de uma hora ou uma hora e meia nos grupos ou nas igrejas, ou mesmo a permanência por alguns minutos neste estudo, onde colocamos a mente focalizada em novos planos. Estamos batendo nessa tecla para frisarmos que a tônica da nossa vida não é essa a qual nos referimos.

Observe que não há o artigo, não há objeto direto a especificar a natureza da ação. É "não nos cansemos de fazer bem". Aí, alguém pergunta: “Fazer bem o quê? O que devo fazer bem?” A ausência do objeto direto define generalidade. É tudo! Já o advérbio de modo, de natureza essencialmente positiva, sugere como esse fazer deve ser realizado, a forma como devemos fazer todas as coisas, que as devemos fazer bem.

Resultado: devemos fazer tudo bem, não importa se tratar-se de algo imposto a nós, por obrigação, ou algo resultante de uma opção nossa, não existe essa distinção. E fazer bem significa fazer bem feito, com alegria, com entusiasmo, dedicação, com disposição. Aliás, o evangelho já é claro, “misericórdia quero e não sacrifício”.

Agora, nós sabemos que o que fazemos bem, seja o que for, sempre podemos fazer melhor, a nos indicar que o fazer bem significa uma capacidade nossa de autoaperfeiçoamento, de automelhoramento. Resultado: fazer bem, sem perfeccionismo, é o que nos projeta e nos sublima. Devemos fazer tudo bem, pois quando se persiste (não tem como cansar, a gente não pode parar) em fazer bem o fazer o bem surge como uma decorrência natural desse nosso aperfeiçoamento.

E se comentamos agora a pouco que muitas pessoas envolvidas nos planos das religiões investem na caridade periférica, o trabalho deve ser um reflexo da luta íntima nossa. Acontece que muitos querem dar antes de possuir, e o primeiro movimento da caridade se faz pela renovação nos terrenos do coração.

Ou seja, que o trabalho vertido em benefício dos outros seja um reflexo da nossa intimidade, que a capacidade nossa de operar no amor represente uma atitude que já temos embutida em nosso psiquismo, onde o grande desafio é transformar a claridade em caridade, a aplicação da luz. Porque na hora em que a gente se converte para as realidades maiores da vida a gente não aguenta ficar sozinho ou indiferente. É muito difícil uma criatura com sensibilidade, amor e humildade conseguir mudar sem registrar alguma coisa em favor daqueles que se acham em volta. Já o “não nos cansemos” define essa capacidade de persistir, sequenciar uma linha de ação condizente com a proposta que elegemos.

E a faceta relacionada com essa irradiação do amor adquire uma fisionomia ou um aspecto muito para além daquilo que nossa mente pode conceber ou imaginar.

18 de fev de 2011

Cap 9 - A Caridade - Parte 5

A BENEFÍCIO PRÓPRIO


Os espíritos de luz nos recomendam com insistência a prática da caridade, e vamos notar que quando o fazem estão nos orientando no sentido da nossa própria evolução. A caridade é um exercício espiritual e quem pratica o bem coloca em movimento as forças da alma.

Agora, é de grande importância a gente entender que auxiliamos os outros a benefício de nós mesmos. Não precisa se assustar, mas no exercício da caridade eu estou para resolver o meu problema, na essência do amor aplicado cada qual dá a si próprio, não ao outro.

Porque não podemos esquecer que nas leis da cooperação cada qual transporta consigo questões essenciais e necessidades intransferíveis, e não vai ser o meu auxílio, ou o seu, que vai resolver o campo cármico do outro. Não tem nenhum de nós que será capaz de mudar as linhas cármicas de quem quer que seja.

No plano da estrutura evolucional dos seres cada qual tem que passar a sua dificuldade. O serviço do próprio resgate é pessoal. E toda caridade tem o objetivo de auxiliar o recebedor (auxiliado) no despertamento da necessidade de seu reajustamento íntimo e intransferível, porque cada um semeia e colhe na medida do que lançou.

As nossas obrigações são sagradas e disso sabemos, mas não nos esqueçamos do minuto de apreço aos outros. Não podemos ignorar fazer alguma coisa na extensão da felicidade comum a nosso próprio benefício. A vida não reclama o meu sacrifício integral em favor dos outros, mas eu não posso, em razão da clareza que o meu raciocínio já envolve e apresenta marginalizá-lo ao sofrimento e à dor por causa da minha indiferença, da minha neutralidade ou simples frieza do meu sentimento. Eu tenho que pensar nas necessidades do outro.

O Cristo disse “vinde a mim os que estais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei”. Mas nós, não. Nós entramos de cabeça nas dificuldades dos outros como se pudéssemos saná-las. Jesus alivia, mas nós não queremos aliviar, queremos resolver. E o processo não é resolver a dificuldade da pessoa, tirá-la da dificuldade, pois já vimos anteriormente (O Conhecimento e o Testemunho) que a dificuldade é instrumento para crescer. É certo que devamos trabalhar tanto quanto esteja ao nosso alcance pelo bem do próximo, todavia não podemos exonerar nossos semelhantes das obrigações contraídas. Precisamos avaliar com carinho, e, em certas situações, até onde acreditamos estar auxiliando e até onde estamos sendo coniventes com os erros e despautérios do outro.

É certo que eu não posso deixar a minha vida para viver uma vida exclusiva em função do semelhante. A nossa ação não pode impedir a caminhada do ser. No plano natural da vida, às vezes, nossa solução de um problema alheio representa colocar em risco a nossa estabilidade, porque estamos dificultando a manifestação da lei.

Não estamos falando em auxiliar dando o melhor que pudermos na tarefa de cooperação, em fazer ao outro o que gostaríamos que nos fizessem. Estamos dizendo algo mais além, que se eu avoco totalmente a dificuldade do outro eu estou impedindo a caminhada dele. Uma coisa é ajudar alguém a levantar sua cruz, e até dar passos com ela, outra coisa bem diferente é querer carregá-la. É diferente o que representa cooperar com o outro e o que é avocar o problema do outro. Se ficamos apenas nos problemas dos outros podemos vir a nos alienar.

É de bom senso, uma questão lógica, que  nós não venhamos assinar as promissórias de ninguém, avocar o débito alheio, avocar a dificuldade de cada qual. Precisamos aprender a servir sem nos prender. Quase sempre que o fazemos, que chamamos aos nossos ombros o problema alheio, costumamos enveredar por áreas com ressonâncias que costumam nos levar a várias preocupações.

Por isso, para ter misericórdia temos que conhecer, não pode ser por um processo de manifestação de sentimento periférico. Nós temos que operar sem permitir que os acontecimentos de fora, do mundo exterior, venham nos precipitar em aspectos negativos da emotividade. Guarde bem isso, não se ajuda o criador apenas por um curso ou um impulso de sentimentalismo nosso. Tanto a frieza correta, como o sentimento doentio, não edificam o bem.

Investimos no evangelho porque estamos nos habilitando a sermos servos fieis. E o servo fiel não é aquele que chora ao contemplar as desventuras alheias, nem o que apenas as observa, de modo impassível, a pretexto de não interferir no labor da justiça. O bom trabalhador é o que ajuda sem fugir ao equilíbrio necessário, construindo todo o trabalho benéfico que esteja ao seu alcance consciente de que o seu esforço traduz a vontade divina.

É por isso que temos que conhecer!

Nos terrenos da cooperação quanto mais valores nós tenhamos em nossas mãos mais temos que ponderar quanto à nossa ação em favor do semelhante, para que nós, na melhor das intenções, no exercício do amor e da caridade, não venhamos a torpedear o encaminhamento natural da evolução de quem quer que seja.

Agir em nome do criador, como instrumento útil dele, exige uma abrangência de passado, de futuro e conhecimento das leis divinas. Porque às vezes a resolução do problema, na nossa ótica, é a quebra da oportunidade na ótica divina ao filho do criador. Já pensou nisso? Muitas vezes você quer tirar alguém da dificuldade, mas essa dificuldade é exatamente o que ele precisa para se projetar.

Logo, precisamos entender de forma adequada que o que manda agora não é o fazer ou não fazer, mas a tranquilidade e a serenidade de fazer de maneira correta.

15 de fev de 2011

Cap 9 - A Caridade - Parte 4

PORQUE FAZER CARIDADE


“PORTANTO, TUDO O QUE VÓS QUEREIS QUE OS HOMENS VOS FAÇAM, FAZEI-LHO TAMBÉM VÓS, PORQUE ESTA É A LEI E OS PROFETAS.” MATEUS 7:12

“MAS, SOBRETUDO, TENDE ARDENTE AMOR UNS PARA COM OS OUTROS; PORQUE O AMOR COBRIRÁ A MULTIDÃO DE PECADOS.” PEDRO I-4:8

É uma tônica no universo, ponto de maior realce, o processo de interdependência.

Nós vivemos em função dos outros porque a interdependência mora na base de todos os fenômenos da vida, a vida é interação. Todos dependemos uns dos outros na desincumbência dos compromissos que nos competem e é um erro lamentável despender nossas forças sem proveito para ninguém, sob a medida de nosso egoísmo, vaidade ou nossa limitação pessoal.

Muitos se esquecem, inclusive, que amanhã serão talvez os necessitados e os réus, carentes de perdão e socorro alheio. E o laboratório (plano aplicativo da vida) que vai nos dar acesso efetivo a um estado melhor vai depender dessa nossa interação com os outros, coisas, fatos e situações, enfim, com o mundo em si.

Definitivamente, nós não estamos mais em um processo de cada qual viver para si.

Hoje ninguém é feliz por si próprio e ninguém vive só, pois nos achamos magneticamente associados uns aos outros, quer se acredite nisso ou não. Necessitamos uns dos outros e não tem como encontrar a sustentação de felicidade naquela má regra egocentrista que trazemos ainda. Não há como encontrar a felicidade plena envolto nas amarras do egocentrismo, a felicidade não consegue se multiplicar quando o amor não sabe dividir.

Estamos aqui estudando o evangelho e o evangelho está sendo trabalhado para nos ensinar que acabou aquele período de cada qual viver para si. Quando se fala hoje no amor universal não é porque perdemos o direito de amar uns aos outros no campo pessoal e particular de eleição. De forma alguma.
 
Agora, esse amor no campo pessoal das relações afetivas diretas só vai encontrar uma ressonância gostosa, no sentido de amplas sedimentações, à medida que se abre no interesse dos outros no campo geral. Então, quem quiser em si mesmo ser feliz tem que fazer algo aos outros, abrindo-se nos interesses dos outros, ou seja, é preciso abrir se quisermos ser felizes. Quem quiser estar bem tem que viver para o completo, para o grupo, para o geral no campo universalista. Coloquemos nossas possibilidades ao dispor de outros, porque ninguém deve amealhar as vantagens da experiência terrestre somente para si mesmo.

O amor traça a linha reta da vida para todas as criaturas e representa a única força que anula as exigências da lei de talião dentro dos planos do universo infinito. Somente o bem pode conferir o galardão da liberdade suprema, ele representa a chave única suscetível de abrir as portas sagradas do infinito à alma ansiosa. Não queremos desanimar você, mas muitas pessoas que estão trabalhando no campo das religiões com alta dose de amor, um percentual enorme desses operadores no bem, de tarefeiros, estão trabalhando debaixo de carma, em tese.

No entanto, é muito melhor, mil vezes melhor, pagar trabalhando do que pagar com destruição. É muito melhor o saneamento dos débitos com suor do que com lágrimas. E ninguém precisa esperar reencarnações futuras envoltas em dores e lágrimas, em ligações expiatórias, para diligenciar a paz com os inimigos do pretérito. Afinal, o criador quer o trabalho do amor e não o estigma do pagar, e conforme a contabilidade do amor o bem que se faz sempre diminui o mal que já se fez. Por isso, o amor sempre “cobrirá a multidão de pecados”.

Então, nós temos mesmo que entrar nas faixas aplicativas do amor, levantar essa bandeira.

E muitos alimentam a idéia de que é preciso equacionar tudo antes de se poder pensar no semelhante. “Eu queria ajudar outras pessoas, queria mesmo, mas você sabe, estou sem tempo, cheio de problemas, não tenho como fazer nada agora, preciso resolver minhas coisas primeiro...” E não são poucos os que pensam assim, que esperam, às vezes indefinidamente, por melhores ocasiões, melhor sorte. Dessa forma, vamos fazendo de nossa dificuldade um casulo.

Mas não temos como resolver problemas íntimos dentro de um processo fechado em nós mesmos, em uma luta fechada conosco em um quarto trancado.

Na parábola do semeador, por exemplo, vamos observar que o semeador não agiu por meio de contrato com terceiras pessoas, ele mesmo saiu a semear. Ele se predispôs e foi. Logo, se buscamos o Pai ajudemos nosso irmão, como servidores do evangelho somos compelidos a sair de nós próprios a fim de beneficiarmos corações alheios, aqueles que transitam no mundo entre dificuldades maiores que as nossas. Porque o próximo é a nossa ponte de ligação com Deus.

O bem constante por nós feito gera o bem constante, e mantida a nossa movimentação infatigável no bem todo o mal por nós amontoado se atenua, gradativamente, desaparecendo ao impacto das vibrações de auxílio nascidas a nosso favor em todos aqueles aos quais dirigimos mensagem de entendimento e amor, sem a necessidade expressa de recorrermos ao concurso da enfermidade para eliminar os resquícios de treva que eventualmente se nos incorporam ainda ao fundo mental.

O trabalho no bem representa o melhor campo para se resolver problemas. Temos que analisar isso com muito carinho. Todo esforço no bem, por mínimo que seja, redundará invariavelmente a favor de quem o realiza, porque toda ação pela felicidade geral é concurso na obra divina. A partir do momento que você passa a dar, efetivamente, irá perceber que dentro de pouco tempo você vai estar sendo atendido perfeitamente dentro de um suprimento da misericórdia.

O processo não se encontra no fechar, o processo está no abrir. Muitas vezes temos que trabalhar com a aflição de muitos para resolvermos a nossa, é assim que ocorre.

Se na extinção dos nossos problemas pequeninos solicitamos o máximo de proteção ao Senhor, é natural que o Senhor nos peça o mínimo de concurso na supressão dos grandes infortúnios que abatem o próximo. E lidando com os que sofrem os nossos problemas começam a desaparecer, atendendo ao necessitado lá fora talvez consigamos administrar pontos necessários em nosso íntimo.

E quando conseguirmos superar as nossas aflições para criarmos a alegria dos outros a felicidade alheia nos buscará onde estivermos para improvisar a nossa ventura.

Por devotamento ao próximo atraímos simpatias valiosas com intervenções providenciais a nosso favor. E começamos a regeneração trabalhando com aqueles a que estamos vinculados (na nossa órbita mais próxima, no ambiente doméstico e profissional), para depois trabalharmos com o desconhecido.

12 de fev de 2011

Cap 9 - A Caridade - Parte 3

CONCEITO DE CARIDADE


O amor representa a lei máxima no campo filosófico e abrangente universal. Podemos mesmo dizer que ele é a essencialidade que mantém e sustenta o equilíbrio do universo. É a energia, a vibração que a tudo circunda e envolve. Ou seja, o universo é uma corrente de amor em movimento incessante. Mas o amor foi feito para ser dinamizado, o amor de Deus não é como o amor de uma galinha aos seus pintinhos, o criador não age represando, limitando, cerceando o amor.

E se o amor foi feito para ser dinamizado, quando falamos no plano operacional do amor nós falamos em caridade.

Caridade é a materialização do amor, representa a dinamização dessa energia, é a aplicação do amor. É o amor aplicado, o elemento operacional, o plano aplicativo da teoria, a aplicação do amor, é a expressão crística. É a expressão tangível do amor, a dinâmica do amor, e tanto ela é a dinâmica do amor que comumente se misturam os termos, alguém fala caridade, outro fala amor. Agora, é muito importante a gente compreender que a caridade não é o amor total, é uma faceta do amor, é como se fosse o campo, o terreno onde o amor opera.

E se formos comparar amor e caridade em um estudo de profundidade, em uma análise mais profunda, vamos observar que amor é muito mais que a caridade.

Afinal de contas, amor é a essencialidade que mantém o equilíbrio do universo (acabamos de dizer isso) e a caridade é o amor em sua faixa de aplicação. Então, toda a caridade legítima traz o amor, mas nem todo o amor é caridade. Quer um exemplo? Alguém diz: “Eu tenho um amor muito grande pelo Claudomiro. Hoje ele é homem crescido, mas eu acompanhei o nascimento dele.” Sim, ela pode o amar realmente, mas, de repente, nunca ter feito nada por ele.

O amor, em sua essência, no plano essencial, em sua contingência total e abrangente universal, não é com a gente. Definitivamente não é, é com o Pai. Isso mesmo, e não precisamos ficar desanimados.

Amor não é conosco, pois perfeição, bondade e misericórdia são inerentes a Deus. E se conosco não é amor, conosco é amar, pois somos amor em potencial, e não há como dinamizarmos o amor sem passarmos pelo exercício da capacidade nossa de amar. O universo é uma corrente de amor em movimento incessante e não podemos lhe interromper a fluência das vibrações. A questão é transformarmos o amor em amar, em expansão, pelo exercício da bondade e da caridade. A dinâmica é lei maior a imperar no universo e o que nos chega a nível positivo de conquista é para ser dinamizado. Assim, tudo o que é guardado a sete chaves representa a soma de amor não operante.

E quando aplicamos o verbo amar nós estamos entendendo e fundamentando o amor que, até então, estava teoricamente incrustado, passamos a tomar posse dele. Porque entre conhecer e sentir há grande distância, e precisamos sentir o amor, não adianta querermos apropriar algo sem executar, não temos como nos apropriar do amor sem vivenciá-lo (isso foi esclarecido no capítulo O Conhecimento e o Testemunho).

É amando que aprendemos o que é o amor, temos que fazer misericórdia para entendermos a misericórdia de Deus.

E à medida que começamos a fazer nós iniciamos o cumprimento da parte que nos compete na grande luta. A vida nos exige cooperação, e o amor, a faixa operacional além da justiça, espera um pouco mais de nós. Eu só vou entender o que dimana de cima na medida em que sentir um anseio de penetrar em nova faixa. E quando nós começarmos a deixar expandir de nós determinados fatores magnéticos bem positivos adquirimos uma capacidade de sensibilizar os corações.

10 de fev de 2011

Cap 9 - A Caridade - Parte 2

A COMPAIXÃO


“17DISSE-LHE TERCEIRA VEZ: SIMÃO, FILHO DE JONAS, AMAS-ME? SIMÃO ENTRISTECEU-SE POR LHE TER DITO TERCEIRA VEZ: AMAS-ME? E DISSE-LHE: SENHOR, TU SABES TUDO; TU SABES QUE EU TE AMO. JESUS DISSE-LHE: APASCENTA AS MINHAS OVELHAS.” JOÃO 20:17

“15SE ME AMAIS, GUARDAI OS MEUS MANDAMENTOS.” JOÃO 14:15

“7BEM AVENTURADOS OS MISERICORDIOSOS, PORQUE ALCANÇARÃO A MISERICÓRDIA.” MATEUS 5:7

É muito grande o número de indivíduos nos estradas diversas da paisagem terrestre que pedem ajuda. Gritos de socorro são constantes, nem sempre por palavras, mas pela expectativa do olhar que nos chega ao coração. Para quem ama o semelhante é fácil perceber quando há pedido de ajuda na expressão de desencorajamento e desespero no semblante.

Sabemos que em todo lugar onde haja merecimento nos que sofrem e boa vontade nos que auxiliam pode-se ministrar o benefício espiritual com uma relativa eficiência. Todos os enfermos podem procurar a saúde, todos os desviados, quando desejam, retornam ao equilíbrio. Se a prática do bem estivesse circunscrita aos espíritos completamente bons seria impossível a redenção humana, e qualquer cota de boa vontade e espírito de serviço recebe do plano superior a melhor atenção.

Sendo assim, é preciso deixar que a luz da compaixão nos clareie a rota para que a sombra não nos envolva. É claro que não sanearemos o desequilíbrio do louco zurzindo-lhe a cabeça, nem expulsaremos a criminalidade do malfeitor cortando-lhe os braços, mas diante de todos os desajustamentos alheios precisamos compadecer e amparar sempre. Perante todos os disparates do próximo precisamos nos compadecer e fazer o melhor que pudermos.

A proposta do nosso estudo é a sensibilização, porque temos que lidar com a sensibilidade dos outros. É indiscutível que não podemos menosprezar a educação da inteligência, porém, Jesus convida-nos ao exercício constante das boas obras, seja onde for.

E ensinar, transmitir, cooperar, envolve um alto grau de sensibilidade, saber o que se passa no coração das pessoas. Entre conhecer e sentir existe uma distância e precisamos sentir o amor. Somente o coração tem o poder de tocar o coração, somente aperfeiçoando nossos sentimentos conseguiremos nutrir a chama espiritual em nós consoante o divino apelo. É impossível qualquer um de nós cooperar sem fazer simpatia vibracional. E para usufruir a intimidade de Jesus e senti-lo no coração é imprescindível amá-lo, compartilhando-lhe a obra e a vida.

“Simão, filho de Jonas, amas-me?” Significativa a pergunta de Jesus. O mestre não pede informação ao discípulo a respeito de raciocínios que lhe eram peculiares, não deseja inteirar-se dos conhecimentos do colaborador, não questiona acerca de suas potencialidades, muito menos reclama compromisso formal.
 

Pretende apenas saber se Pedro o ama, deixando perceber que com amor demais as dificuldades se resolvem. Se o discípulo possui suficiente provisão dessa essência divina a tarefa mais dura converte-se em apostolado de bênçãos promissoras. As nossas conquistas intelectuais valem muito, mas em verdade somente seremos efetivos e eficientes colaboradores do mestre se tivermos amor. Se não tivermos uma capacidade de compaixão, de compreensão, de misericórdia, de amor, não temos como auxiliar e como cooperar. Não há como ajudar sem compaixão. Só a luz do amor é forte para converter a alma à verdade.

E Jesus disse: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos.” Ele foi claro e insofismável quando asseverou para os aprendizes que tão-somente os que o amem saberão trilhar-lhe o caminho e guardar-lhe os mandamentos. O Cristo amava naturalmente a sua gente e o seu afeto natural tinha sido tremendamente aumentado pela sua extraordinária devoção a eles. Logo, quanto mais profundamente nos entregamos aos nossos semelhantes tanto mais chegamos a amá-los.

E a luz ilumina dispensando longos percursos. Só o amor tem a luz que atravessa os grandes abismos, quem ama é capaz de emitir uma onda que penetra território adentro de nosso ser, são ondas ultracurtas. Quando alguém nos ama, com aprofundamento, esse alguém consegue nos ajudar, nos auxiliar, a luz irradiada por quem ama não ofusca nem perturba, propicia envolvimento e paz.

A perfeição e a bondade são inerentes a Deus e a misericórdia é algo de Deus, tanto que Jesus não aceitou o título de bom. A misericórdia é a compaixão suscitada pela miséria alheia. No plano didático, é movimento intrínseco da individualidade em suas fibras de amor e sentimento, face à visualização de alguém ou algo, é o movimento do sentimento voltado ao bem, tem sentido de intimidade.

A compaixão é o pesar que em nós desperta a infelicidade, a dor, o mal de outrem. A piedade é a pena dos males alheios, é compaixão, comiseração, significa no plano prático da vida uma compreensão da misericórdia divina para conosco. O amor é algo que flui ao nível da misericórdia, e nós não temos como adquirir a harmonia íntima se não formos buscar a paz e exercermos a misericórdia.

E estamos exercendo a bondade e a misericórdia em patamares cada vez mais avançados. Mas como podemos nos sensibilizar com a dor do próximo se não passamos por determinadas experiências? Às vezes, é preciso que a gente passe por impactos da dor para que possamos aferir a necessidade do semelhante, muitas vezes a nossa passagem por tantas dores e sofrimentos é para adquirirmos a capacidade de ter misericórdia, afinal de contas, um cristão sem atividade no bem é um doente de mau aspecto pesando na economia da vida social.

Agora, notemos que a palavra graça, nos dicionários, é sinônimo de favor dispensado ou recebido, é benefício ou dádiva. Do ponto de vista espiritual esse significado não procede, pois não existem favores gratuitos. Para receber algo é preciso estar de acordo com a contabilidade da vida, a misericórdia divina não cai ou não é distribuída a esmo, os débitos e créditos são sempre analisados.

Apenas existe misericórdia para quem exercita a misericórdia. Misericórdia que se recebe está na linha direta da que se dá, representa alguém fazer algo em favor dos desditosos para que o alto faça algo em favor dele. Muitos dizem: “Deus, me acode!” E Deus pode perguntar: “E você, filho, tem acolhido alguém?”

Vamos nos lembrar de que seremos ajudados pelo céu conforme estivermos ajudando na Terra. Todos somos alunos do educandário da vida e suscetíveis de queda moral no erro. Usemos, pois, a misericórdia com os outros e acharemos nos outros a misericórdia para conosco. O que é feito por amor não se perde e investir no amor gera retribuição natural da vida. Deus está em nós quando nós estamos em Deus. E quanto mais amamos mais nós somos destacados para o mundo espiritual, o amor sempre dispõe de recursos e mais cresce quanto mais se doa. O amparo aos outros cria amparo a nós mesmos, todo o bem realizado, com quer for e onde for, constitui recurso vivo atuando em favor de quem o exercita.

Todo o bem que se faz aos outros propicia uma linha de simpatia. E ainda que o auxiliado não entenda e não compreenda, o seu amigo espiritual fica amigo da gente porque auxiliamos o tutelado dele. E para que qualquer de nós alcance a alegria de auxiliar os amados faz-se necessária a interferência de muitos a quem tenhamos ajudado por nossa vez, os que não cooperam não recebem cooperação.

Assim, fica bem fácil a gente concluir que felizes os que buscarem na revelação nova o lugar de serviço que lhes competem na terra, consoante a vontade de Deus.

4 de fev de 2011

Cap 9 - A Caridade - Parte 1

A MISERICÓRDIA E A PREDISPOSIÇÃO


A Terra nunca esteve visitada por tanta orientação espiritual como agora. Muitas criaturas têm sido visitadas por lutas, embora o sorriso que apresentem, no entanto, acima delas existe amparo superior. Sim. O componente máximo doador é o criador e a misericórdia distribui dádivas em todo universo.

Não há pai, em tese, que não queira o melhor para o filho. E são tantas as expressões da misericórdia divina que nos cercam o espírito, em qualquer plano da vida, que basta olharmos a natureza física ou invisível para sentirmos em torno de nós aluvião de graças. Dessa forma, rendamos culto ao perfeito amor que tudo ilumina e a todos se estende sem distinção. Na infinita bondade, Deus oferece-nos recursos para o saneamento de nossas próprias complicações e a salvação é atributo dessa misericórdia para conosco. Na equação de nossos débitos dependemos da misericórdia, e a felicidade reside em saber que podemos estar no fundo do poço, porém, ligados à fonte básica da luz em Deus.

A misericórdia de Deus preenche todos os espaços, não está a uma grande distância de nós, por ser onipresente. A misericórdia tem falado alto e a sua bondade abraça a todas as almas, o criador salva a todos. Isso mesmo, o plano superior jamais nega recursos aos necessitados de toda ordem, ninguém permanece abandonado, os mensageiros de Jesus socorrem sempre nas estradas mais desertas.

A vida é um processo de eleição pessoal e todos nós elegemos os tipos de experiência em que nos propomos estagiar. Por isso, nessa ou naquela fase da evolução, discórdia e tranquilidade, ação e preguiça, erro e corrigenda, débito e resgate, são frutos de nossa escolha.

Nós sempre temos bons amigos na zona superior àquela em que nos encontramos, todavia, em certas circunstâncias afastamo-nos voluntariamente deles. Então, os prepostos de Jesus podem edificar o mesmo trabalho de sempre, todavia, encontram perturbação e resistência dos próprios beneficiados, razão pela qual a fonte de energias puras não pode ser responsabilizada por fenômenos que a deturpam.

E vamos notar que quando a justiça chega, porque semeamos inadequadamente, ela não pede licença, ela vem! Ela não diz a alguém: “Olha, você se prepara porque eu vou chegar. Porque lá atrás, num tempo tal, você fez isso...” Não. Não tem nada disso. A justiça impõe de fora para dentro, ela pode precipitar acontecimentos, não espera pedir, chega e faz. E na hora que tem que bater, bate, pois tem que se cumprir a lei. Ou seja, cumpriu o período, chegou a hora, a pessoa enfrenta, com choro ou sem choro. Isso é justiça, e ela pode entrar tranquilamente em um processo de equações e projeções matemáticas.

E se a justiça impõe de fora para dentro, o amor espera de dentro para fora. O amor tem que aguardar, ele espera! Porque o amor apresenta uma característica de espontaneidade. Ele tem que ser aceito, não tem como ser socado dentro da gente, ninguém pode ser obrigado a amar. Em amor nenhum de nós pode ser forçado a amar, esse é um processo que tem que se ouvir na intimidade do coração, na alma, razão pela qual é preciso adesão interna, é questão manifesta de dentro para fora.

O Cristo disse “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Ele não designou lugar, não traçou condições, não estatuiu roteiros nem especificou tempo, prometeu simplesmente o conhecimento à verdade, e para acesso à verdade cada um tem o seu dia. A vida pede muito discernimento e cada palavra tem a sua ocasião, como cada revelação o seu tempo. E muitos não alcançaram o domínio próprio, não possuem as emoções, antes são possuídas por elas, estão preparados para a consolação, não para a verdade. E somente são dignos da verdade plena os que se encontram plenamente libertados das paixões, é preciso ter bom senso para saber quando se efetivamente deva investir.

E nem sempre vamos conseguir ajudar quem objetivamos. Não adianta nós atropelarmos o mecanismo evolucional, temos que esperar o momento de decisão das pessoas. Pois ninguém está aqui para desativar o funcionamento da lei, não podemos violentar quem quer que seja. Em muitas circunstâncias, o companheiro que queremos ajudar se mostra sob o domínio de enganos tão extensos que a forma de ajudá-lo é esperar que a vida lhe renove o campo do espírito.

Nós não podemos interferir em um sistema de vida de alguém que ainda é o sistema de vida eleito por ele. Não podemos tirar alguém da vida que ele está vivendo para tentar colocá-lo em uma vida, uma pseudo-vida que ele não vai se adequar, não vai se situar. Enquanto a vida de alguém for aquela que ele elegeu não há porque alterá-la. Assim, não será caridade o ato de dar aos que não querem receber, ninguém poderá ajudar aquele que se desajuda. Isso tem que ser bem compreendido.

Precipitando acontecimentos as situações não são alcançadas, o elemento complicado é retirado do nosso lado se não tiver condições de descomplicar-se. A misericórdia, em geral, se direciona ao encontro daqueles que estão levantando bandeira da reparação. Salvação só é importante para os que desejam salvar-se, toda aquisição sem esforço é caminho para derrota, parâmetros de atendimento espiritual não podem atropelar as disposições humanas.

Logo, em muitos casos a dor funciona como medida de auxílio nas corrigendas indispensáveis. Razão pela qual não se pode desconsiderar a dor que instrui e ajuda transformar o homem para o bem. Não que o criador estabeleça prerrogativas injustificáveis, ele não espera por nossas rogativas para nos amar, pois sua proteção se estende a todos indistintamente. Mas nem todos recebem este amor, muitos se fecham no egoísmo e na vaidade, envolvendo o coração em sombras densas.

E quando as almas reencarnadas se revelam impermeáveis ao reconhecimento e à compreensão, distanciam-se os espíritos superiores delas, naturalmente, ainda que encerrem para eles valiosas jóias do coração, até que se integrem no conhecimento das leis de Deus e se disponham a segui-las na companhia deles.

Já os maus, que parecem felizes na própria maldade, são aqueles sofredores perversos e endurecidos de todos os tempos, que apesar de reconhecerem a decadência espiritual de si mesmos criam perigosa crosta de insensibilidade em torno do coração. Desesperados e desiludidos, abrigando venenosa revolta, atiram-se à onda torva do crime até que um novo raio de luz lhes desabroche no céu da consciência. Misericórdia e compaixão não faltam em hipótese nenhuma.

E entendamos que é preciso uma proposta operacional da nossa parte, porque da parte de lá para cá, por misericórdia, não pode haver violência. Jesus, efetivamente, é aquele que vem ao nosso encontro, mas só é capaz de nos ajudar se de nossa parte houver uma abertura no plano da percepção. Agora, ante o nosso desânimo e a nossa indisposição nós vamos notar que praticamente permanecerá a espera, no plano espiritual, das nossas decisões pessoais.

Os gênios celestes podem trazer o mais belo e eficiente socorro aos espíritos da sombra, mas segundo a lei eterna os necessitados só podem receber os divinos benefícios se estiverem dispostos a aderir, por si mesmos, aos trabalhos do bem. E quando a sinceridade e a boa vontade se irmanam dentro de um coração faz-se no santuário íntimo a luz espiritual para a sublime compreensão da verdade.

Se tivéssemos que dar uma definição de misericórdia, embora imprecisa, diríamos que ela é o fio, a vibração invisível que liga Deus aos infelizes sob o limiar da esperança. Ela liga aquele que apresenta capacidade de auxiliar com aquele em predisposição de receber. E essa é a palavra chave a ser entendida: predisposição.

A liberdade interior é apanágio de todos os filhos da criação, e não é possível organizar precipitados serviços de socorro para todos os que caem nos precipícios dos sofrimentos por ação propositada, com plena consciência de suas atitudes.

É indispensável nos colocarmos em determinada posição receptiva a fim de compreendermos a infinita bondade. Porque a própria capacidade nossa de perceber o que vem do alto depende de uma preparação interior. Jesus trabalha, como cada um de nós, com os elementos que emergem. E sabe por quê? Porque enquanto alguém está na treva densa (e vibra), a treva é luz para ele.

Logo, se queremos evoluir preparemo-nos, temos que ajustar a nossa linha íntima para podermos entrar no plano e faixa de vibração. Primeiro, a construção do receptáculo, em seguida, a bênção. E os espíritos de luz não entram no abismo para precipitar a evolução, mas acolher os que se encontram em predisposição de receber. Objetivam atender quem estava com a luz e ela apagou.

É razoável, portanto, que as missões de auxílio nos abismos recolham apenas os predispostos a receberem o socorro elevado. Aos outros não faltarão providências de Jesus em outra parte, e não há outro recurso para certas criaturas senão deixá-las nos precipícios das trevas, onde serão naturalmente compelidas a reajustar-se, dando ensejo a pensamentos dignos. É assim que funciona,...
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