21 de fev de 2011

Cap 9 - A Caridade - Parte 6

A PROVIDÊNCIA DIVINA E O INÍCIO DA CARIDADE

“PORTANTO, TUDO O QUE VÓS QUEREIS QUE OS HOMENS VOS FAÇAM, FAZEI-LHO TAMBÉM VÓS, PORQUE ESTA É A LEI E OS PROFETAS.” MATEUS 7:12
 
“E NÃO NOS CANSEMOS DE FAZER BEM, PORQUE A SEU TEMPO CEIFAREMOS, SE NÃO HOUVERMOS DESFALECIDO.” GÁLATAS 6:9

Todos nós, com certeza, já ouvimos falar na providência divina. No entanto, não muitos se atentam para a grandeza dela.

Ocorre que a necessidade de atendimento de uma criatura não vai ser condicionada àquele elemento específico que tem que ajudá-la. Porque quem vai ser ajudado não vai ser ajudado pelo Antônio, por exemplo, ou pelo Cláudio ou pela Ana Flávia, e por aí adiante. Ele vai ser ajudado pelo Cristo (e no capítulo A Porta Estreita nós iremos trabalhar com tranquilidade acerca disso).

Jesus é o amor na sua grandeza. Ninguém nos amou e nos ama mais do que ele, e Cristo é a expressão material desse amor. Por isso o espírito crístico é unigênito, a unidade crística é uníssona em todos os seres. Suponhamos que o Antônio seja o ponto número um da fila para ajudar o paciente, porque ele é quem trabalhou a confusão desse companheiro no passado (mais próximo ou mais distante). Ele é o número um para atender, e não atende. Então, vem o número dois, e não atende, vem o número três, e, assim por diante, até que um atende.

Percebeu? Nunca aquela criatura que deve ser atendida vai deixar de ser. É aí que entra a providência divina. Por isso nós vamos praticar a caridade com a expressão crística íntima nossa.
E toda nossa atividade, quando devidamente filtrada no amor e no bem, representa a extensão da bondade e da misericórdia do criador em favor de quem precisa, e nós é que somos acionados. Somos nós que somos chamados a fazer. Mas se não quisermos, se estivermos cansados, indiferentes e não sensibilizados, outros irão.

Por isso, usar a expressão crística na operacionalização do amor nos conforta, e feliz daquele que usa o cristo íntimo no atendimento, feliz daquele que se vale da oportunidade que surge. O esforço máximo e desinteressado no bem aos outros, segundo nos parece, representa sempre o maior apoio nosso a nós mesmos.

Já vimos que a espada do evangelho propõe uma luta e a luta educativa é de uma beleza extraordinária. Mas tem o seu preço.

Porém, na maioria dos casos as pessoas são prestativas e caridosas com o próximo, em se tratando de necessidades materiais, e quase sempre continuam menos boas para si mesmas, por se esquecerem da aplicação da luz evangélica à vida prática. Prometem muito com as palavras, operam pouco no campo dos sentimentos.

Com exceções, irritam-se ao primeiro contato com a luta mais áspera após reafirmarem os mais sadios propósitos de renovação. Comumente, voltando cada semana aos núcleos de preces estão nas mesmas condições, requisitando conforto e auxílio exterior. Com dificuldade cumprem a promessa de cooperação com o Cristo em si próprias, base fundamental da verdadeira iluminação. Muitos inclusive dizem: “Eu sou assim mesmo, nasci assim e vou morrer assim”.

É por isso que muitos preferem fazer o bem lá fora. Campanhas e visitas. Dizem que o que gostam e fazem nos trabalhos aplicativos das religiões ao qual se associam é o trabalho social. Às vezes é muito melhor, segundo alguns companheiros. Às vezes, preferem ir lá a terem que mexer aqui dentro, no coração, porque essa luta reeducacional não é uma luta fácil. Mas está tudo bem e tudo é válido, só que ficar apenas nisso é a condição mais fácil. O duro é você ter que engolir e metabolizar tanta coisa no campo da sua proposta de mudança.

É muito comum isso, a pessoa segue a vida inteira servindo, mas é o mesmo que vai chegar lá (no plano espiritual) o mesmo que chegou aqui. Ele não conseguiu dobrar determinadas estruturas que estão dentro dele há muito tempo. E tem gente que diz: “nasci assim e vou morrer assim, não tem jeito.” Ele não deu o testemunho, não realizou determinados testemunhos de mudança.

Sensibilizamos-nos com o evangelho, nos interessamos e queremos fazer. Mas onde começa a caridade?

A primeira providência nossa é sermos menos onerosos aos outros, é dar menos trabalho aos outros, é dificultar menos a caminhada dos outros. A caridade começa pelo peso que nós aliviamos em nossa área de atuação, seja em casa ou no trabalho, pela reforma íntima. Assim, a gente já começa a sentir alguma coisa diferente.

Logo, iniciemos o nosso apostolado de paz calando a inquietação no campo do próprio ser. Esse esforço de iluminação deve iniciar-se pelo autodomínio, por uma disciplina dos nossos sentimentos inferiores, pelo trabalho silencioso da criatura por exterminar as próprias paixões. Reafirmemos o compromisso de servir silenciando sempre onde não possamos agir em socorro do próximo. É preciso transformar-se no plano interior para poder atuar nos campos da cooperação.

Pelo conhecimento racional estamos tentando convencer a nós próprios de que precisamos melhorar, que é converter o coração para as verdades celestiais e maiores. Se a caridade define a aplicação do amor a gente precisa primeiro sentir, para depois aplicar.

E o que diz Paulo? “Não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido.” É não nos cansemos de fazer bem, não é fazer o bem. O artigo (o) foi retirado. Porque fazer o bem muitas vezes pode ser uma atitude de exceção na vida de alguém, aquilo que ele faz esporadicamente, e no fundo a vida não é a exceção mental nossa como a participação em uma reunião em núcleos de natureza espiritual ou a entrada neste blog aqui.

Nessas situações nós vivemos um momento ocasional. Um momento entre aspas, didaticamente falando, embora possa ter gente na qual o que é veiculado seja uma constante na vida dele. Mas, na essência, estamos vivendo um momento por opção, uma reunião de uma hora ou uma hora e meia nos grupos ou nas igrejas, ou mesmo a permanência por alguns minutos neste estudo, onde colocamos a mente focalizada em novos planos. Estamos batendo nessa tecla para frisarmos que a tônica da nossa vida não é essa a qual nos referimos.

Observe que não há o artigo, não há objeto direto a especificar a natureza da ação. É "não nos cansemos de fazer bem". Aí, alguém pergunta: “Fazer bem o quê? O que devo fazer bem?” A ausência do objeto direto define generalidade. É tudo! Já o advérbio de modo, de natureza essencialmente positiva, sugere como esse fazer deve ser realizado, a forma como devemos fazer todas as coisas, que as devemos fazer bem.

Resultado: devemos fazer tudo bem, não importa se tratar-se de algo imposto a nós, por obrigação, ou algo resultante de uma opção nossa, não existe essa distinção. E fazer bem significa fazer bem feito, com alegria, com entusiasmo, dedicação, com disposição. Aliás, o evangelho já é claro, “misericórdia quero e não sacrifício”.

Agora, nós sabemos que o que fazemos bem, seja o que for, sempre podemos fazer melhor, a nos indicar que o fazer bem significa uma capacidade nossa de autoaperfeiçoamento, de automelhoramento. Resultado: fazer bem, sem perfeccionismo, é o que nos projeta e nos sublima. Devemos fazer tudo bem, pois quando se persiste (não tem como cansar, a gente não pode parar) em fazer bem o fazer o bem surge como uma decorrência natural desse nosso aperfeiçoamento.

E se comentamos agora a pouco que muitas pessoas envolvidas nos planos das religiões investem na caridade periférica, o trabalho deve ser um reflexo da luta íntima nossa. Acontece que muitos querem dar antes de possuir, e o primeiro movimento da caridade se faz pela renovação nos terrenos do coração.

Ou seja, que o trabalho vertido em benefício dos outros seja um reflexo da nossa intimidade, que a capacidade nossa de operar no amor represente uma atitude que já temos embutida em nosso psiquismo, onde o grande desafio é transformar a claridade em caridade, a aplicação da luz. Porque na hora em que a gente se converte para as realidades maiores da vida a gente não aguenta ficar sozinho ou indiferente. É muito difícil uma criatura com sensibilidade, amor e humildade conseguir mudar sem registrar alguma coisa em favor daqueles que se acham em volta. Já o “não nos cansemos” define essa capacidade de persistir, sequenciar uma linha de ação condizente com a proposta que elegemos.

E a faceta relacionada com essa irradiação do amor adquire uma fisionomia ou um aspecto muito para além daquilo que nossa mente pode conceber ou imaginar.

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