24 de fev de 2011

Cap 9 - A Caridade - Parte 7

A CARIDADE LEGÍTIMA


“DAI ANTES ESMOLA DO QUE TIVERDES.” LUCAS 11:41

“E DISSE PEDRO: NÃO TENHO PRATA NEM OURO; MAS O QUE TENHO ISSO TE DOU. EM NOME DE JESUS CRISTO, O NAZARENO, LEVANTA-TE E ANDA.” ATOS 3:6

Em muitas situações fala-se em caridade e já se pensa em assistência social. No entanto, os departamentos de assistência já não devem ser tanto mais de assistência social, porque é fácil constatar que assistência social é um plano operacional também de amor, mas ineficiente. Hoje deveria ser assistência e promoção social.

Ou seja, atende-se a necessidade do pão, da água e da roupa e, concomitantemente, promove o elemento na luta de libertação da carência dele. Pois a caridade maior é a de iluminar as consciências humanas a fim de não mais se comprometerem. Vamos dar um exemplo a fim de esclarecimento. Imaginemos alguém dizer do outro lado, no plano espiritual: “Eu estive na Terra, na minha vida religiosa, vinculado a uma tarefa em que tinha lá duzentos necessitados, que eu cuidei.” E alguém pode lhe dizer: “E estão necessitados até hoje.” Percebeu? Nós vamos chegar ao final e aqueles que atendemos vão continuar às portas de novo, pedindo. É claro que nós fazemos amigos, e que vamos encontrar com muitos deles no futuro, mas que se mantém na mesma situação.

A cada instante nós somos chamados a exercer o amor ao próximo. Mas, por enquanto, o amor ao próximo nosso é um amor ao próximo todo convencional, todo sistematizado.

Vamos imaginar uma cena para ilustrar bem o que queremos dizer. Imagine um casal passeando por uma cidadezinha do interior, um lugar bem pobre, um lugarejo, uma roça, como se costuma dizer. O casal bem vestido para o carro e caminha pela singela estradinha estreita de terra quando se depara com um menino descalço, sujo de poeira, que fala ao homem da cidade grande esbelto e aplumado:

- Moço, me dá um trocado?

- Sai prá lá, menino.

- Oh, moço, é que eu estou com fome. Um trocado, só para eu comprar um pão na venda do seu João.

- Sai prá lá, menino, já falei. Não tenho dinheiro não.

- Ricardo Augusto (diz a esposa), para com isso. Não vê que o menino está com fome?! Dá logo um trocado prá ele. E o homem enfia a mão no bolso, remexe os dedos e de lá retira algumas moedas que dá ao garoto. Aí a gente pergunta, houve caridade?

A resposta é simples, não! A criatura deu a esmola, mas a caridade não circulou. Ela deu para ficar livre e nesse caso houve apenas transferência de valores.

A caridade não depende da bolsa, aliás, muitas vezes a própria moeda dada significa um momento de desastre para nós. Se você acredita que apenas o ouro é a base corrente da caridade, lembra-te que Jesus enriqueceu o orbe sem possuir uma pedra onde repousar a cabeça.

Ocorre que nas relações comuns o pedido de providência material tem sentido e utilidade oportuna como resultante da lei de equilíbrio que preside o movimento das trocas no organismo da vida. Por isso, a caridade nossa surge em cima da esmola, a prática do bem exterior é ensinamento e apelo para que cheguemos á prática do bem interior, a esmola está trabalhando a intimidade do ser.

A esmola representa o componente canalizador da caridade e as obras da caridade material somente alcançam a feição divina quando colimam a espiritualização do homem, renovando-lhe os valores íntimos, pois quem não exercita em dar alguma coisa dificilmente chegará um dia a doar-se. E caridade é fonte nascida no coração.

O pão dado é o instrumento da caridade, não é a caridade, é o veículo da caridade. Os instrumentos materiais são os elementos canalizadores, não são os elementos de sustentação finalística. A criatura vem com o dinheiro e o dinheiro não é a caridade. Vai ser o instrumento que ele vai usar para transferir a essência. Isto é, essa essência vai ser transferida através do pão, do dinheiro, de um abraço, de um conselho. Então, é preciso separar o componente tangível da beneficência com a essência sutil da caridade, separar o instrumento didático do conteúdo didático.

Às vezes, a transferência de um componente tangível que a gente deposita como sendo a efetiva doação para alguém não é aquilo que representa o valor transferido, aquele valor transferido foi apenas o condutor da essência canalizada. O valor vibracional, a carga de emoções veiculada na ação no bem é que vai determinar o grau que tange a linha qualitativa e que premia ou entristece e onera a criatura.

O mestre disse “dá a quem te pede”. Observemos que é dar a quem pede, não é dar o que se pede.

E dar o que temos é diferente de dar o que detemos, ninguém pode dar a outrem aquilo que ainda não possua no coração. Na prática legítima do evangelho é imperioso dar do que somos, descerrar o próprio coração e espalhar os bens do espírito, dar de nós mesmos em tolerância construtiva, amor fraternal e divina compreensão, pois ninguém é tão pobre que nada possa dar a outro de si mesmo. Por isso, não aguardes sobras na bolsa para atender aos planos da caridade. Lembra-te que o amor é inesgotável na fonte do coração e que Jesus, ainda hoje, com Deus e amor vem multiplicando dia a dia eternos tesouros da humanidade, e que também podemos distribuir das riquezas que fluem de nós próprios, cuja aquisição é inacessível à moeda comum.

O bem mais humilde é semente sagrada e a repercussão da prática do bem é inimaginável, nenhuma atividade é insignificante. Ninguém pode avaliar a importância das pequeninas doações e toda migalha de amor está registrada na lei maior em favor de quem a emite. As mais altas árvores são oriundas de sementes minúsculas. O menor gesto de bondade, segundo Jesus, dispensado em seu nome, será sempre considerado no alto como uma oferenda endereçada a ele próprio. Os talentos da fé e o conhecimento superior, o dom de consolar e a capacidade de servir, não obstante laboriosamente conquistados por nosso esforço, constituem bênçãos do criador em nosso coração singelo de criatura.

E para servir a Deus ninguém necessita sair do seu próprio lugar ou reivindicar condições diversas daquelas que possui.

Para poder transformar o que recebemos de cima, por informação, em recursos que nos projetem para uma linha mais feliz nós temos que utilizar os padrões que nos é possível. E para ajudar (embaixo) a criatura que já teve o vislumbre (de cima) precisamos entender que temos que ser servos mesmo, para que não deixemos escapar as dificuldades incrustadas em nosso subconsciente.

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