28 de mar de 2011

Cap 10 - O Sofrimento e a Cruz - Parte 11 (Final)

A SOLIDÃO NO HORTO



“E DISSE-LHES: POR QUE ESTAIS DORMINDO? LEVANTAI-VOS, E ORAI, PARA QUE NÃO ENTREIS EM TENTAÇÃO.” LUCAS 22:46


O evangelho de Lucas nos conta que os discípulos dormiam de tristeza enquanto o mestre orava fervorosamente no horto. Fica fácil concluir que o Senhor não justificou a inatividade em tempo algum, nem mesmo em decorrência do choque diante das grandes dores.

Embora a confiança expressa na oração e na fé, é preciso colocar acima delas a certeza de que os desígnios celestiais são mais sábios e misericordiosos do que o capricho próprio. É preciso que cada um se una ao pai comungando com sua vontade generosa e justa, ainda que contrariado em determinadas ocasiões.

O sol nunca se afastou do céu, cansado da paisagem escura da terra, alegando a necessidade de repousar. A pretexto de indispensável descanso, as águas nunca privaram o globo de seus benefícios em certos anos. Por mais desagradável que seja em suas características, a tempestade jamais deixou de limpar as atmosferas. Apesar das reclamações dos que não suportam a umidade, a chuva não deixa de fecundar o solo em momento algum. As árvores não se cansam de frutificar.

Se o planeta pode ser tido como um grande hospital, onde o pecado é a doença de todos, o evangelho traz ao homem enfermo o remédio eficaz para que todas as estradas se transformem em suave caminho de redenção, e é preciso que aprendamos sempre com as leis da natureza a eterna fidelidade a Deus.

A solidão no horto é também um ensinamento do evangelho e uma exemplificação.

Ela significa, para quantos vierem nos passos de Jesus, que cada espírito na Terra tem de ascender sozinho ao calvário de sua redenção, muitas vezes com a despreocupação dos entes mais amados do mundo. Em face dessa lição, o discípulo tem que compreender que a sua marcha tem que ser solitária, uma vez que seus familiares e companheiros de confiança, em várias ocasiões, especialmente nos momentos de maior culminância para nós, se entregam ao sono da indiferença.

É preciso aprender a suportar a responsabilidade e perseverar na presença de decepções. É preciso aprender a ajustar os seus ideais de vida espiritual às demandas práticas da existência terrena. É preciso tornar-se experiente em arrancar a vitória do âmago da própria mandíbula da derrota, transformando as dificuldades do tempo em triunfos da eternidade. Tenhamos bom ânimo, aprendendo a necessidade do valor individual no testemunho, nunca deixemos de orar e vigiar, convertamos as nossas dores passageiras da terra em alegrias eternas para o céu.

Estamos falando na solidão do horto, e ainda sentimos uma necessidade muito grande de estarmos envolvidos pelos outros.

Em alguns momentos difíceis costumamos falar: “Oh! Meu Deus, porque está acontecendo isso comigo? Porque é que estou tão só? Porque estou passando por isso?” Muitos dizem em tom de lamentação, na maior parte das vezes é dito lamentando. Tanto é lamentando que muitos interpretam a pergunta de Jesus, quando sozinho na cruz, “Porque me desamparaste?”, como fragilidade, acham que ele foi frágil. Mas se analisarmos com tranquilidade vamos concluir que nessa passagem não houve lamúria dele, ele quis mostrar uma indagação correta, nós é que colocamos fragilidade. Quantas vezes abrimos uma página nova na nossa vida quando nos sentimos entristecidos, desesperançados e sós?!

A resposta surge quase que naturalmente. Sabe por quê? Porque quando nos encontramos sós é que tem algo a ser revelado. Isso é da lei. Há algo a ser revelado. Não tem quem não passe por esse momento na grande proposta de crescimento consciente. Definitivamente, não tem como ser diferente, são lances da vida.

E quando saímos disso, quando a gente vence a etapa, quando saímos da experiência, encontramos o sorriso daqueles corações que estavam junto conosco e a gente achava que estava sozinho. Então, podemos concluir e afirmar que a solidão, na sua legitimidade, não existe. Existe uma pseudo-solidão para que a gente sinta que temos sempre o amparo divino. É lembrar das pegadas na areia.

Agora, se não usamos a paciência e o equilíbrio indispensáveis, no sentido de manter a busca dentro da solidão, costumamos apelar para o desespero, e aí a situação se enovela e complica. E por outro lado tem pessoas que, às vezes, conviveram ao lado de alguém por dez, vinte, trinta anos, ou a vida inteira, para em determinado momento descobrirem que estavam era sozinhas o tempo todo, que estavam apenas engodadas pelos circunstantes. Não engodadas no sentido de envolvidas, mas em razão da própria deficiência desses elementos em amar e sustentar.

Para quem se encontra na solidão, uma boa tática é a solidariedade, um sistema de abertura no campo do oferecimento e da integração. Não fica dúvida nenhuma, se você se sente só seja solidário, que irá conseguir vencer muito coisa.

Dos lábios de Jesus, que haviam ensinado a verdade e o bem, a simplicidade e o amor, não chegaram a escapar uma queixa sequer. Martirizado na sua estrada de angústias, o messias só teve o máximo de perdão para seus algozes.

Vamos nos lembrar da imortalidade.

A escola nos revela que a experiência carnal é apenas veste, simples estágio do espírito no campo imenso da vida. Em face da grandeza espiritual da vida a existência humana é uma hora de aprendizado no terreno infinito do tempo. Para as almas que alcançam a compreensão, que encontram no íntimo de si próprias o prazer de servir sem indagar, os insucessos, as provas, as enfermidades e os obstáculos são simplesmente novas decisões das forças divinas, relativamente à tarefa que lhes dizem respeito, destinadas a conduzi-las para a vida maior. Todos podem servir, o enfermo tem diversas possibilidades de trabalhar para Deus, tateando ou rastejando, busquemos servir a Deus.

Nas aflições é imprescindível tomar a sublime companhia de Jesus e prosseguir avante com serenidade e bom ânimo. Quem deserta da luta, por achar que a luta está muito grande, não tenha dúvida: vai encontrar uma luta muito maior pela frente.

Um comentário:

  1. Acabei de fazer o estudo do Evangelho no Lar lendo o capítulo ''A oração no Horto'' do livro Boa Nova de Humberto de Campos. Obrigada por compartilhar a explanação dessa sublime passagem do Evangelho conosco. A caminhada pode parecer solitária aos olhos físicos, mas o Cristo está sempre conosco. Muita paz e confiança para todos nós.

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