20 de ago de 2011

Cap 15 - Os Vestidos e os Panos - Parte 8 (Final)


DAR O PANO, NÃO A CAMISA

“E DEU À LUZ A SEU FILHO PRIMOGÊNITO, E ENVOLVEU-O EM PANOS, E DEITOU-O NUMA MANJEDOURA, PORQUE NÃO HAVIA LUGAR PARA ELES NA ESTALAGEM.” LUCAS 2:7

Vida é um processo de eleição pessoal e elegemos os tipos de experiência em que nos propomos estagiar. Nessa ou naquela fase da evolução, discórdia e tranquilidade, ação e preguiça, erro e corrigenda, débito e resgate, são frutos de nossa escolha.

Cada qual tem o seu momento de despertar. O mestre Jesus disse “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, mas ele não designou lugar, não traçou condições, não estatui roteiros nem especificou tempo. Prometeu simplesmente conhecereis a verdade, e para o acesso à verdade cada um tem o seu dia.

A emancipação íntima surgirá para a consciência à medida que a consciência se dispuser a buscá-la. Quem está aprendendo estudar somos nós, por necessidade ou por um ideal interior, a mostrar que os outros necessitam ter nosso estímulo pelo exemplo e nossa palavra amiga como ponto de incentivo em uma proposta de modificação e redirecionamento. Agora, a questão é que nós entramos de cabeça nas dificuldades dos outros como se pudéssemos vir a saná-las.

É muito comum a gente querer que o outro seja como nós, que pense como nós, sinta como nós. E quem de nós pode dizer que a nossa ótica, que o fato dele ser da forma como pretendemos, que deva ser da nossa maneira, seja melhor para ele? Começa que nossos componentes educacionais estão embasados em determinadas experiências pessoais nossas que a criatura não tem.

É preciso fazer a leitura da vida. E leitura e compreensão crescem à medida que a gente observa com naturalidade e muito discernimento os acontecimentos.

Por exemplo, se eu não descobrir, diante de uma pessoa que está dando cabeçada, se eu não tentar descobrir o que está movendo aquela criatura a esse estado de vida eu não posso atuar. Fica muito difícil. No fundo ela poderá dizer: “espera aí, você não sabe nada do que está acontecendo comigo. Apenas está me vendo bater com a cabeça na parede, mas você sabe por que eu estou fazendo isso?” Às vezes, quero auxiliar e nem pergunto a ela o que está acontecendo. Geralmente é assim, queremos avaliar o outro por nós, esquecendo que a nossa ótica é totalmente diferente no plano de vida da ótica do semelhante.

Por isso temos que sofrer muitas vezes, aqui, ali, na intimidade dos lares, para poder descobrir o que se passa na cabeça dos outros. Ajudar, que é a proposta que estamos elegendo aqui, não é sair pregando para o mundo, é ajudar na órbita em que estamos posicionados. E para isso é preciso alta dose de compreensão das pessoas.

Muitas vezes, como fruto da nossa emoção, ficamos num plano de insistência tal com os outros, no sentido de que assimilem nossos pontos de vista, e isso pode até acionar em nós uma raiva muito grande. Pois queremos que o outro entenda, que ele aceite e viva segundo aquilo que nós já achamos que é o melhor, aquilo que aprendemos e achamos que é o melhor. Com isso a gente fica com muita raiva, e essa raiva começa ser trabalhada de forma camuflada, ressentida, velada.

Aí é que a situação complica. Quando nós queremos curvar, subjugar os outros em nome de uma ótica que eles não tem ainda. Esse é o problema. Quando alguém passa por nós não é para ser fabricado um elemento ao nosso jeito, não.

Nós já temos aprendido isso. Tem muita gente que quer fabricar o outro ao jeito dele. A posição de cada qual dependerá de cada qual. É preciso entender que ao nascer Jesus foi envolvido por pano, e o pano obtém a forma do objeto que envolve.

Porém, muitas vezes nós não queremos dar o pano, e sim a nossa camisa, a nossa medida fechada. Queremos dar a nossa própria concepção, porque encontramo-nos no direito de achar que o que é conveniente para nós é também conveniente aos outros. Mas esquecemos que, às vezes, a terapia que elegemos ao outro não corresponde às suas necessidades. Logo, não vamos intentar constranger o próximo a ler a cartilha da realidade por nossos olhos, nem a interpretar os ensinamentos do cotidiano com a cabeça que nos pertence.

Se nós estamos ingerindo conhecimentos não temos que ficar enquadrando as pessoas, aqueles que estão à nossa volta, na mesma gama que nos visita o entendimento hoje.

Vamos auxiliar dando o pano, não a camisa. Vamos dar ao próximo o pano, não a nossa medida fechada, pois envolver em panos não é vestir a minha blusa ou a minha camisa no que chega. Nós queremos vestir nossa roupa no outro que não cabe nele de jeito nenhum, porque cada personagem, cada individualidade apresenta uma estatura diferenciada no plano evolucional. E quem ama sabe que não pode torpedear a mecânica de vida de quem quer que seja.

Conclusão: vamos envolver o que chega em panos, porque o próprio corpo dele dá a forma.

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