17 de dez de 2011

Cap 19 - A Porta Estreita - Parte 10 (Final)

INIQUIDADE

"25QUANDO O PAI DE FAMÍLIA SE LEVANTAR E CERRAR A PORTA, E COMEÇARDES, DE FORA, A BATER À PORTA, DIZENDO: SENHOR, SENHOR, ABRE-NOS; E, RESPONDENDO ELE, VOS DISSER: NÃO SEI DE ONDE VÓS SOIS; 26ENTÃO COMEÇAREIS A DIZER: TEMOS COMIDO E BEBIDO NA TUA PRESENÇA, E TU TENS ENSINADO NAS NOSSAS RUAS. 27E ELE VOS RESPONDERÁ: DIGO-VOS QUE NÃO SEI DE ONDE VÓS SOIS; APARTAI-VOS DE MIM, VÓS TODOS OS QUE PRATICAIS A INIQUIDADE. 28ALI HAVERÁ CHORO E RANGER DE DENTES, QUANDO VIRDES ABRAÃO, E ISAQUE, E JACÓ, E TODOS OS PROFETAS NO REINO DE DEUS, E VÓS LANÇADOS FORA.” LUCAS 13:24-28

De um modo geral somos individualmente, diante de Jesus, a legião dos erros que já cometemos no pretérito e dos erros que cultivamos no presente, dos erros que assimilamos e dos erros que aprovamos para nos acomodarmos às situações que nos favoreçam.

Muitos esperam a proteção do Senhor para desfrutarem o contentamento imediato no corpo, mas não querem ir até ele para se apossarem da vida eterna.

Clamam pela luz divina, entretanto, receiam abandonar as trevas. Ao contato das lições de Jesus é que, habitualmente, nos vemos versáteis e contraproducentes como ainda somos. Acreditamos na força da verdade, experimentando sérios obstáculos para largar a mentira; ensinamos o valor da beneficência e da caridade, vinculados a profundo egoísmo; destacamos os méritos do sacrifício em favor da felicidade alheia, agarrados a vantagens pessoais; referenciamos a brandura em se tratando de avisos para os outros e exteriorizamos cólera imprevista se alguém nos causa prejuízo ligeiro; proclamamos a necessidade do espírito de serviço, reservando ao próximo tarefas desagradáveis; batalhamos pela instauração da paz nos lares vizinhos, fugindo de garantir a tranquilidade na própria casa; queremos que o irmão ignore os golpes do mal que lhe estraçalham a existência e estamos prontos a reclamar contra a alfinetada que nos fira de leve; salientamos o acatamento que se deve aos desígnios divinos e bradamos exigências disparatadas e descabidas, apresentando continuamente ao pai o mínimo capricho de nossa parte.

É muito importante ler com atenção o texto acima: “E começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos; e, respondendo ele, vos disser: não sei de onde vós sois; Então começareis a dizer: Temos comido e bebido na tua presença, e tu tens ensinado nas nossas ruas. E ele vos responderá: Digo-vos que não sei de onde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniquidade.” O texto não é apenas bonito, é de uma profundidade imensa. A gente lê com atenção, examina com olhos de ver e acaba sentindo uma desilusão muito grande quando o analisamos, porque ele fala à nossa intimidade hoje, ele fala a todos nós e notamos que a realidade é essa.

“Digo-vos que não sei de onde vós sois” porque a grande maioria das criaturas humanas ainda está nas faixas de vivenciação da justiça, não do amor. E o que estão praticando não é por falta de conhecimento, não. Não é por falta de saber, é porque “praticais a iniquidade”, a definir que o que estão praticando está dentro dos níveis da irresponsabilidade. Por isso “digo-vos que não sei de onde vós sois”, porque é iniquidade. Está dando para perceber? Isso tem que ser entendido, pratica a iniquidade somente aquela individualidade que está aqui embaixo, mas que já tem uma visão suficiente da faixa vivencial lá de cima.

Pratica a iniquidade todo aquele que conhece, e quanto mais conhece e menos faz maior é a iniquidade, porque os que estão aqui do nosso lado e não visualizam os valores de cima não há iniquidade, há uma sistemática de vida normal, o que é diferente. Realmente “tu tens ensinado nas nossas ruas”, é fato, é real. Tem ensinado, e ensinado, e ensinado sempre, mas tem ensinado e a grande massa reluta em aprender, ele tem ensinado continuamente em todos os cantos, em todos ambientes, só que quem deveria aprender não tem feito.

O “temos comido e bebido na tua presença” é o que temos feito, não é mesmo? Ou será que eu estou aqui inventando coisa e a gente não tem feito isto? Quantas vezes sentamos à mesa para almoçar, jantar, e dizemos: “Senhor, abençoe este prato, abençoe este alimento.” É inegável que estamos com ele, que caminhamos na presença dele e que ele tem nos ensinado nas nossas ruas. A indicar uma familiaridade muito grande, um laço de estreiteza, porém, naquela base que a gente conhece bem: o protetor em cima disponibilizando e o protegido embaixo sempre esperando algo mais do protetor.

Só que enquanto a gente não descobrir no fundo da nossa alma que para ser um bom protegido é preciso ter uma característica interna de adesão, uma proposta íntima de também proteger, a gente não caminha. O resultado é “apartai-vos de mim vós que praticais a iniquidade”, porque a prática consciente de alguma atitude que a consciência já não admite mais passa para o contexto da iniquidade, ou seja, vira iniquidade. Iniquidade é o malévolo, apresenta o sentido contrário ao sentimento de moralidade.

E mostra para nós que no momento em que visualizamos a porta e nos sensibilizamos com a porta, o nosso campo pessoal, determinado procedimento que, até então não era iniquidade, passa a ser iniquidade, a continuidade naquilo se transforma em um desconforto na vida consciencial da pessoa.

O planeta terra está indo em frente e muitos de nós ficam na retaguarda porque não tem vibrações suficientemente ajustadas com as vibrações de um novo momento global. Chega um ponto na vida em que a individualidade não se ajusta e por isso vem o “apartai-vos de mim todos que praticais a iniquidade.” Apartar é não ter acesso, é a não entrada. Não ter acesso ao sentimento de glória e harmonia que o Cristo oferece aos que comungam do seu alimento, aos que com ele ingerem pela linha de afinidade. Esse apartar é um plano de entregar a criatura a uma metabolização no campo digestivo dos valores que ela mesma ingeriu. Então, muitos acham que são pretensos candidatos a essa entrada no reino e não o são, porque a gente acha que tem direitos.

E tem mais: “Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora.” Não significa que nós vamos visualizar esses companheiros, não. Não tem nada disso. Fiquem tranquilos, não vai ter ninguém dizendo assim: “Olha lá, é o Jacó!”

O que o texto apresenta é no sentido de indicar que o indivíduo ainda se mantém em cima de um processo de adoração, mas sem uma capacidade de conquista efetiva. No mundo, em todos os tempos, respiraram os heróis de nosso ideal, os santos de nossa fé, os apóstolos de nossa inspiração e as inteligências várias que nos traçaram o roteiro. Todos eles conquistaram por méritos próprios e a visão desses mártires apresenta para nós a meta que atingiremos um dia.

Se algo nessa visão nos leva às lágrimas e nos inquieta e estristece o coração é a dor de nossos erros, a fragilidade de nossas mazelas, o peso de nossas culpas.

Toda conquista efetiva vai depender da obra, da ação, do movimento, da dinâmica, e todo aquele que vivencia o amor junto de nós, para ele isso é plena conquista quando para nós é desafio. Ele está vivendo o amor consigo e trabalhando conosco ao nível de justiça. Lembra quando falamos que amor é só o que sai? Pois é, ele trabalha conosco no campo da profecia e a profecia representa, em tese, uma visão do que nós alcançaremos um dia: “Um dia eu vou entender isto, um dia eu serei melhor naquilo.” Nós estamos dando uma de profetas hoje.

Ouvir, sim, os preceitos que nos chegam do plano superior, mas agir segundo somos orientados, porque se sabemos e não fazemos o bem que nos ensinam melhor não sabermos, para não sermos tributados com taxas de maior sofrimento nas grades severas da culpa. O divino mestre, aqui e ali, propõe-nos de maneira direta ou indireta ensinamentos e atitudes, edificações e serviços, mas espera sempre por nossa resposta voluntária, de vez que a obra da verdadeira sublimação espiritual não comporta servos constrangidos. No campo dessa busca fala o plano operacional da individualidade e não projetos ou proposições.

Às vezes, somos apartados porque o que cria legítima conquista, o que nos assegura a entrada, não é sintonia, é afinidade, e para nós muitas vezes existe uma pretensa relação de afinidade quando na verdade o processo é apenas lances de sintonia.

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