20 de dez de 2011

Cap 20 - A Tentação - Parte 1

VINCULAR E DESVINCULAR

“27E, DEPOIS DISTO, SAIU, E VIU UM PUBLICANO, CHAMADO LEVI, ASSENTADO NA RECEBEDORIA, E DISSE-LHE: SEGUE-ME. 28E ELE, DEIXANDO TUDO, LEVANTOU-SE E O SEGUIU.” LUCAS 5:27-28

É constante em cada um de nós o desejo de crescer. Estamos aqui porque existe no coração da gente uma vontade toda especial de crescer. Matriculamo-nos em algum curso objetivando ascensão, integramos essa ou aquela atividade pelo desejo íntimo de evoluir, buscamos valores espirituais para melhorarmos a caminhada, fazemos caridade ajudando aqui e ali pelo nosso próprio bem.

Crescer é aumentar em grandeza ou extensão, significa desenvolver-se, avançar, conquistar, ascender, evoluir, entrar em situação e circunstância melhor que a anterior, pela incorporação, fixação e sedimentação de valores novos.

É necessário ficar muito claro que para que a gente alcance um ponto objetivado lá na frente, uma meta que idealizamos, seja de qual natureza for, temos que nos desprender. Então, se a princípio nós estudamos, planejamos e arregimentamos determinada parcela de valores, em seguida vai haver um momento claro de desvinculação da faixa em que nos situamos para que possamos incorporar esses novos padrões. Toda proposta seletiva e busca a novos patamares vai exigir de nós uma capacidade de desvinculação das faixas que temos elegido através do tempo, o que em outras palavras significa dizer que nosso problema de conquista se relaciona e exige, simultaneamente, o desafio da desvinculação dessas posições. Ou seja, para chegar lá na frente tem que tirar o pé de onde está, tem que vincular-se e, concomitantemente, se desvincular.
                    
O publicano Levi deixou tudo e seguiu Jesus. O evangelho é claro ao referenciar o seu chamado. As escrituras dizem que ele estava assentado na recebedoria, e que deixando tudo se levantou e seguiu o mestre Jesus Cristo. Não vamos entrar no mérito dessa passagem porque o nosso assunto agora é a tentação. Importa-nos saber que esse deixar tudo é no sentido intrínseco, é a descarga das estruturas mentais dos interesses e metas que, até então, ele perseguia.

Sem dúvida, no sentido íntimo é preciso deixar tudo porque se não deixar tudo não se levanta. Quem não deixa tudo (e temos que reafirmar que é deixar no sentido intrínseco, mental, íntimo) continua assentado, e a recebedoria indica a acomodação nos pontos de egoísmo contumaz, significa a utilização viciosa dos serviços dos outros para si unicamente, o que é o contrário de seguir Jesus.

A gente lê as sagradas escrituras e alguma dificuldade de leitura decorre dos próprios terrenos que temos que trabalhar, pois realmente existem pontos que estão embutidos na linguagem figurada que o texto apresenta a cada um de nós.

Ante qualquer processo de aprendizagem e de projeção do ser no rumo da sua afirmação em bases novas nós temos o momento da assimilação de um conteúdo novo e de imediato instaura-se o mecanismo da tentação. A tentação é inerente ao processo de crescimento e esse mecanismo da tentação para um percentual enorme de pessoas parece uma coisa religiosa, alguma coisa mística, algo do diabo, que o diabo é que fica nos tentando. Vamos tentar aqui neste capítulo clarear o entendimento a este respeito, é preciso descaracterizar isto.

A linguagem, tanto do velho testamento como do novo testamento, trabalha de forma simbólica, reveladora. A humanidade, por sua vez, se desenvolve nas áreas tecnológicas, filosóficas, religiosas e espirituais e dentro da capacidade que vai se abrindo, na medida em que o horizontal do conhecimento vai nos atingindo, o texto vai apresentando para nós nuances novas dentro da mesma terminologia.

A tentação normalmente se faz presente e surge quando a carência se manifesta, quando a criatura vivencia determinada situação de cerceamento. Ela não pode surgir para quem está abastecido, não aparece para quem está identificado com um celeiro de abastecimento. Não é preciso ir longe, basta observar a própria tentação de Jesus, por exemplo, ela se desenvolve após quarenta dias, surge mediante a instauração de determinadas carências que, literalmente, o evangelho sugere para nós, quando ele teve fome e sede. Ela veio no tempo em que ele ficou no deserto preparando-se para a missão, após batismo.

Em outras palavras, a tentação ocorre no ponto da transição. Quem está na transição está em trânsito. Imagine um exemplo, você liga para alguém: “Como é, Cláudio, você não vem para a reunião?” Ele diz: “Já estou indo, já saí de casa, eu agora estou no trânsito.” Ou seja, quem está em trânsito já saiu de onde estava, já se desvinculou, mas não chegou ao destino, está em percurso.

Esse é o momento da transição e a transição é o ponto em que se instaura a tentação.

E todas as vezes que a gente entra em processo de transição essa transição para quem quer mudar é deserto, transição é a mudança de um estado para outro, é o que está jogado na confusão. Por isso é que há tanta dificuldade em mudar-se. Tem gente que quer mudar e quando olha do outro lado e percebe que para crescer é preciso viver o momento da tentação, é preciso entrar em um lugar em que não se tem experiência, em muitas ocasiões prefere ficar no ponto de segurança, prefere abrir mão da possibilidade de crescer e fica preso onde está.

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