7 de mar de 2012

Cap 21 - Sofrer Não é Tão Ruim - Parte 13 (Final)

SOLIDÃO NO HORTO

“E DISSE-LHES: POR QUE ESTAIS DORMINDO? LEVANTAI-VOS, E ORAI, PARA QUE NÃO ENTREIS EM TENTAÇÃO.” LUCAS 22:46

O evangelho é uma fonte de recursos que não se esgotam.

Lucas nos conta que os discípulos dormiam de tristeza enquanto o mestre orava fervorosamente no horto. Fica fácil concluir que o Senhor não justificou a inatividade em tempo algum, nem mesmo em decorrência do choque ocasionado pelas grandes dores.

Embora a confiança de alguém expressa na oração e na fé, é preciso colocar acima delas a certeza de que os desígnios celestiais são mais sábios e misericordiosos do que o capricho próprio. É preciso que cada qual se una ao criador comungando com sua vontade generosa e justa, ainda que contrariado em determinadas ocasiões.

Se o planeta pode ser visto como um grande hospital, onde o pecado é a doença de todos, o evangelho traz ao homem enfermo o remédio eficaz para que todas as estradas se transformem em suave caminho de redenção. Basta aprendermos com as leis da natureza ao nosso redor a eterna fidelidade a Deus. É isso aí. O sol nunca se afastou do céu cansado da paisagem escura da terra, alegando a necessidade de repousar; a pretexto de indispensável descanso, as águas nunca privaram o globo de seus benefícios em certos anos: por mais desagradável que seja em suas características, a tempestade jamais deixou de limpar as atmosferas; apesar das lamentações dos que não suportam a umidade, a chuva não deixa de fecundar o solo em momento algum; as sementes não se intimidam diante do aperto escuro da terra onde são lançadas; as árvores incansavelmente revelam ao mundo a beleza das flores e dos frutos.

A solidão no horto é um ensinamento do evangelho de elevada grandeza e também uma exemplificação. Para quantos vierem nos passos de Jesus, ela significa que cada espírito na Terra tem de ascender sozinho ao calvário de sua redenção, muitas vezes com a despreocupação dos entes mais amados do mundo.

Em face dessa lição, o discípulo tem que compreender que a sua marcha tem que ser solitária, uma vez que seus familiares e companheiros de confiança, em várias ocasiões, especialmente nos momentos de maior culminância, se entregam ao sono da indiferença. 

É preciso aprender a suportar a responsabilidade e perseverar na presença de decepções, aprender a ajustar os ideais de vida espiritual às demandas práticas da existência terrena, é preciso tornar-se experiente em arrancar a vitória do âmago da própria mandíbula da derrota, transformando as dificuldades do tempo em triunfos da eternidade. Tenhamos bom ânimo, aprendendo a necessidade do valor individual no testemunho. Nunca deixemos de orar e vigiar, convertamos as nossas dores passageiras da terra em alegrias eternas para o céu.

Chega a ser duro falar na solidão do horto porque ainda sentimos uma necessidade muito grande de estarmos envolvidos pelos outros. Chegam dias difíceis para alguém e esse alguém costuma dizer: “Oh! Meus Deus, o que foi que eu fiz? Porque está acontecendo isso comigo? Porque é que eu estou tão só? Porque eu estou passando por isso?” Não são poucos os que dizem em tom de lamentação. A bem da verdade, na maior parte das vezes isso é dito lamentando.

E tanto é lamentando que muitos interpretam a indagação de Jesus, quando sozinho na cruz (“porque me desamparaste?”) como uma fragilidade dele. Acham que ele foi frágil. No entanto, se analisarmos com tranquilidade vamos concluir que nessa passagem não houve lamúria dele, ele quis mostrar uma indagação correta, nós é que colocamos fragilidade. Quantas vezes nós abrimos uma página nova na nossa vida quando nos sentimos entristecidos, desesperançados e sós?!

É coisa para ser analisada com calma porque a resposta surge quase que naturalmente. Quando nos encontramos sozinhos é que tem algo a ser revelado.

É da lei, há algo a ser revelado. Não tem quem não passe por esse momento na grande proposta de crescimento consciente. Definitivamente, não tem como, são lances da vida. Quando saímos dessa situação, quando a gente vence a etapa, quando saímos da experiência, encontramos o sorriso daqueles corações que estavam junto conosco, que viveram a dificuldade conosco e a gente achava que estava sozinho. Daí, podemos concluir e afirmar que a solidão em sua legitimidade não existe. O que existe é uma pseudo-solidão para que a gente sinta que temos sempre o amparo divino. Todavia, a questão é que quando não usamos a paciência e o equilíbrio indispensáveis no sentido de mantermos a busca dentro da solidão, de sequenciarmos a caminhada, costumamos apelar para o desespero e aí a situação se enovela e complica tudo.

Por outro lado, existem pessoas que, às vezes, conviveram ao lado de alguém ou de mais pessoas por dez, vinte, trinta anos ou até mesmo durante a vida inteira, para em determinado momento descobrirem que estavam de fato sozinhas o tempo todo, que estavam apenas engodadas pelos circunstantes. Não digo engodadas no sentido de envolvidas, mas em razão da própria deficiência desses elementos de fora em amar e sustentar. A solidão é fator que fere muitas criaturas nos dias atuais, e para ela a boa tática é a solidariedade, que consiste em um sistema de abertura no campo do oferecimento e integração. Se você se sente só seja solidário, que você irá conseguir vencer muita coisa.

Dos lábios de Jesus, que haviam ensinado a verdade e o bem, a simplicidade e o amor, em momento algum chegaram a escapar uma queixa sequer. Martirizado na sua estrada de angústias, o messias só teve o máximo de perdão para os seus algozes.

Não é demais repetir que a vida é bem mais sábia do que pensamos. Vamos nos lembrar juntos da imortalidade. A escola terrena nos revela que a experiência carnal é apenas uma veste, simples estágio do espírito no campo imenso da vida.

Em face da grandeza espiritual a existência humana é uma hora de aprendizado no terreno infinito do tempo. Para almas que alcançam a compreensão, que já sentem no íntimo de si próprias o prazer de servirem sem indagar, os insucessos, as provas, as enfermidades e os obstáculos são simplesmente novas decisões das forças divinas relativamente às tarefas que lhes dizem respeito, destinadas a conduzi-las para a vida maior. O fundamental é buscarmos servir a Deus. Não há desculpas, todos podem servir, o enfermo tem diversas possibilidades de trabalhar para Deus, mesmo tateando ou rastejando.

Nas aflições é imprescindível tomar a sublime companhia de Jesus e prosseguir avante a jornada com serenidade e bom ânimo. Sem jamais desertar da luta, porque quem deserta da luta, por achar que a luta está muito grande, não tenha dúvida alguma, vai encontrar com certeza uma luta muito maior pela frente.

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