20 de mai de 2012

Cap 24 - O Rico e O Pobre no Evangelho - Parte 3


MATERIALIDADE

É muito importante a gente entender neste nosso estudo que existem dois fatores que nos mantém presos ao pretérito. São sinais característicos dos interesses puramente humanos que nos ligam às retaguardas da evolução e simbolizam a imperfeição e inferioridade dos seres humanos: o interesse pessoal, ou seja, o egoísmo; e o apego às coisas materiais, às questões meramente  terrenas.

Quando um homem se devota de maneira absoluta aos seus cofres perecíveis, essa energia no coração dele se denomina avareza. Quanto mais se apegar aos bens deste mundo, tanto menos ele compreende o seu destino, ao passo que sabendo equacionar o seu interesse e tudo colocar na devida dimensão demonstra saber encarar a um ponto mais adiante o futuro e a realidade da própria vida.

E quando se atormenta de modo exclusivo pela defesa do que possui, julgando-se o centro da vida no lugar em que se encontra, a força converte-se nele em egoísmo. O interesse pessoal, definindo um personalismo complicado, é o segundo e mais difícil componente a ser desonerado. Sem exagero algum, podemos afirmar que ele é uma das coisas mais tristes que podemos presenciar em alguém. O egoísmo é o amor excessivo ao bem próprio sem consideração aos interesses alheios. É uma espécie de caridade invertida, exclusivismo que faz o indivíduo referir tudo a si próprio e o detém tão somente no círculo estreito de suas necessidades, sem qualquer expressão de respeito para com as necessidades alheias. Atalho complicado na jornada, o personalismo é instrumento que acaba por bloquear todo o mecanismo da evolução.

O assunto não é tão simples, nem tão restrito. A intolerância é a sombra do egoísmo, criando resistência. Mesmo em assuntos de virtude a nossa percentagem de capricho individual é invariavelmente enorme. Se nos achamos em posição superior doamos com alegria uma quantia elevada ao irmão necessitado que segue conosco em condição de subalternidade, a fim de contemplarmos as nossas qualidades nobres. E assim fazemos com naturalidade.

Nos seres mais queridos habitualmente amamos a nós mesmos, porque se demonstram pontos de vista diferentes dos nossos, ainda que superiores aos princípios que esposamos, instintivamente enfraquecemos a afeição que lhes consagrávamos.

Não é novidade nenhuma que o orgulho e a ambição sempre serão uma barreira erguida entre o homem e Deus. Transitamos em um mundo em transição que tem de tudo, criaturas nos mais diferentes níveis de evolução. Você já parou para pensar na quantidade de mendigos que ainda arrastam no planeta a esburacada vestimenta do prestígio e do poder que envergaram no passado?! Que não apenas os indivíduos recheados de posses são presunçosos, e que nos deparamos com muitos desprovidos de valores materiais que também se mantém presos a caracteres de grande egoísmo, muitas vezes de quem foi muito importante em encarnações passadas e não é mais hoje?!

Em todos os agrupamentos humanos e em todos os ambientes palpita a preocupação de ganhar. O espírito de lucro a tudo alcança, até os setores mais singelos.

Até os meninos, mal saídos da primeira infância, mostram-se interessados em amontoar egoisticamente alguma coisa. Não nos educamos para viver, nos educamos para ser criaturas cada vez mais possessivas. A maioria das pessoas não procura saber se possui o menos para a vida eterna, porque está sempre ansiosa pelo mais nas possibilidades transitórias. Está sempre decidida a conquistar o mundo, mas nunca disposta a conquistar-se para a esfera mais elevada.

Esquecido de seu valor intrínseco, cujo preço é inestimável, consome-se e esgota-se na conquista do que é perecível, daquilo cujo valor é muito discutível, visto como só vale mediante certa convenção estabelecida pelos caprichos e veleidades do próprio homem. A concorrência intensificou a procura de títulos honoríficos transitórios, onde cada vencedor se julga, no mundo, com maior soma de direitos e de importância. Por isso, se nos demoramos colados à ilusão do destaque, se somos aqueles trabalhadores exclusivamente interessados em nosso engrandecimento temporário na esfera carnal, com esquecimento das necessidades alheias, há sempre muita gente que nos considera privilegiados e vitoriosos. A maioria das criaturas converte a marcha evolutiva em corrida inquietante, permanece geralmente absorvida pelos interesses perecíveis, insaciada, inquieta, sob o tormento angustioso da ambição sem medidas.

A insatisfação diante da vida, o anseio de destaque social, econômico e de poder nos coloca à mercê de emoções muito fortes, e a maioria dos homens permanece no vaivém dos caminhos, entre a procura desorientada e o achado falso, entra e encarnação perdida e a desencarnação em desespero. Não estamos aqui para dar lição de moral. Longe disso. Mas é importante nos atentarmos para o fato de que não convém concentrar nas organizações mutáveis e nos valores transitórios do plano carnal todas as nossas esperanças e aspirações.

Muitos, em um falso conceito, subvertem a ordem nas oportunidades de cada dia. Na corrida louca para o imediatismo esquecem a oportunidade que lhes pertencem, abandonam o material que lhes foi concedido para a evolução própria e atiram-se a aventuras de consequências imprevisíveis, em face do futuro.

Efêmera será sempre a galeria de evidência carnal. Não podemos ignorar que a permanência no planeta decorre da necessidade de trabalho proveitoso e não do uso de vantagens transitórias que, em muitos casos, anulam a capacidade de servir.

Se observarmos homens e mulheres despojados de qualquer escrúpulo moral detendo valores transitórios do mundo, tenhamos pena deles. E aproveitemos as bênçãos do conhecimento para renovar conceitos. No planeta, as grandes festividades registram invariavelmente os triunfos passageiros da experiência física e é ilógico disputar a estima de um mundo que, mais tarde, será compelido a regenerar-se para obter a redenção. O deslumbrante progresso material que o século atual ostenta com tanto vigor é uma edificação sobre a areia. Tudo passa na vida, e as moedas não resolvem todos os problemas. Beleza física, poder temporal, propriedade passageira e fortuna amoedada podem ser simples atributo da máscara humana que o tempo transforma, infatigável.

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