30 de mai de 2012

Cap 24 - O Rico e O Pobre no Evangelho - Parte 6


A POSSE

“VEDE POIS COMO OUVIS; PORQUE A QUALQUER QUE TIVER LHE SERÁ DADO, E A QUALQUER QUE NÃO TIVER ATÉ O QUE PARECE TER LHE SERÁ TIRADO.” LUCAS 8:18  

“PORQUE NADA TROUXEMOS PARA ESTE MUNDO, E MANIFESTO É QUE NADA PODEMOS LEVAR DELE.” TIMÓTEO 6:7

O evangelho é extremamente claro ao dizer: “Vede, pois, como ouvis; porque a qualquer que tiver lhe será dado, e a qualquer que não tiver até o que parece ter lhe será tirado.” Não se trata de afirmativa direcionada a um grupo de espíritos apenas. Vale para todos, indistintamente, uma vez que “qualquer” não faz nenhuma distinção. Não individualiza ninguém, não especifica, abrange a todos.

A advertência do maior amigo da humanidade não deixa a menor dúvida. Espero que você se lembre de quando estudamos o capítulo O Ver e o Ouvir. Aprendemos que o ouvir traz um sentido de aprendizado, de despertamento, de chamado, ao passo que o ver já se encontra para além, faz menção ao aspecto aplicativo. Ou seja, pelo ouvir a gente aprende, pelo ver a gente aplica.

É mais ou menos isso. Logo, no “vede, pois, como ouvis” é como se o mestre quisesse nos dizer: preste muita atenção na forma como você pratica aquilo que aprendeu. É orientação da maior importância ao alcance de todos os que empreendem a luta renovadora. Envolvidos em um processo de crescimento, nós precisamos analisar o que nos chega à faixa de assimilação em razão das consequências advindas da lei de causa e efeito, que tanto podem ser positivas ou negativas.

É preciso avaliar com tranquilidade o que temos e o que não temos na vida. Saber distinguir o que é posse do que é propriedade. Por quê? Porque muitos sofrem ou caminham para sofrimentos pelo simples fato de confundirem posse com propriedade. A bem da verdade, abusam da posse para depois sentirem-se mais empobrecidos do que nunca. Acontece. Podemos dizer que examinada a bagagem dos viajantes do planeta, verifica-se muitas vezes que as vitórias são derrotas.

O homem passa um percentual enorme de tempo consumindo-se e esgotando-se na conquista do que é perecível, transitório, material. É por isso que ele considera como perdida a existência daquele indivíduo que habita na humildade de um lar ignorado, ou mantém-se internado na reclusão de um hospital. Porque para ele, nestas condições o homem se vê impossibilitado de buscar o que se supõe valioso. Mas você já deve ter ouvido algumas pessoas, e até mesmo livros de natureza espiritual, dizerem que não passamos de mordomos, de usufrutuários. Sim, é verdade. O pseudo direito de posse invocado pelos homens com relação a terra e a todos os bens temporais que dela dimanam é utopia. Somos realmente usufrutuários dos bens terrenos, e não proprietários. Ter a posse é deter, reter ou conservar algo em seu poder. Mordomo é um administrador de bens e usufrutuário é aquele que pode usufruir, recebe o direito, por certo tempo, de retirar de coisa alheia todos os frutos e utilidades que lhe são próprios, desde que não lhe altere a substância ou o destino.

O que eu vou dizer agora precisa ficar muito claro, tem que ser bem compreendido. Posse é diferente de propriedade. Na posse detemos algo de forma provisória, temporária. Isto é, o que detemos pela posse é sempre provisório, temporário e está sujeito a prestação de contas. Posse é tudo o que detemos e que está fora de nós, é aquilo que nos é extrínseco. E por este raciocínio concluímos que em relação às coisas materiais tudo quanto utilizamos não passa de empréstimo. Tanto que ao desencarnar nada levamos, somos obrigados a devolver à vida aquilo que passava transitoriamente por nossas mãos.

E nem precisamos ir longe para exemplificar. O próprio corpo, que para muitos é propriedade, não passa de um bem valioso que detemos para progredir. Os bens materiais se transformam sempre, e em algum momento são transferidos a outrem pelo detentor provisório. Não damos nada a ninguém, passamos adiante. A fortuna ou a autoridade são bens que detemos provisoriamente na marcha comum e que, nos fundamentos substanciais da vida, não nos pertencem. Em se tratando de bens materiais não damos, podemos transferir. E se somos meros usufrutuários dos bens materiais, temos que administrar o que detemos.

O evangelho é objetivo: “Porque a qualquer que tiver lhe será dado, e a qualquer que não tiver até o que parece ter lhe será tirado.” Aliás, é objetivo e claro, define para nós que o que é nossa propriedade se mantém e é acrescido. E veremos à frente que propriedade é o que levamos e trazemos no curso das reencarnações.

Todavia, no que se refere à posse, amanhã restituiremos à vida o que a vida nos emprestou em nome de Deus. E ponto final. Ainda que experimentemos na Terra aquela inalterável saúde de cem anos, seremos compelidos a abandonar o patrimônio material para recomeçar o aprendizado. É por isso, meu amigo, que tudo que está fora de nós representa caminho em que transitamos. 

E ficarmos agarrados ao efêmero é prender-nos à ilusão. Enquanto permanecemos no corpo terrestre é natural nos preocupemos com o problema da própria manutenção. Só não podemos esquecer que o apego ao supérfluo será sempre introdução à loucura. O homem, em geral, quer salvar a sua vida, objetiva gozá-la desfrutando a maior soma possível de prazeres, e nessa busca sem limites muitas vezes causa dano a si próprio. Repare que tudo aquilo que alguém ajunta abusivamente no campo exterior é motivo para aflição ou inutilidade. Patrimônios físicos sem proveito são iscas de sombra atraindo inveja e discórdia, alimentos guardados estão a caminho da podridão, roupa em desuso é asilo para traças. E todo excesso é parede mental isolando aqueles que o criam em cárceres de orgulho e egoísmo, vaidade e mentira. Isso é importante para análise, de modo a observarmos o que temos amontoado.

“E a qualquer que não tiver até o que parece ter lhe será tirado.” O verbo parecer não foi colocado à toa. Sua significância é muito grande. A questão é que nem sempre somos felizes na condução e no gerenciamento dos recursos que detemos por empréstimo, e comumente os transformamos em algemas que nos aprisionam a dificuldades. Retardamos a nossa marcha pela criação de elementos geradores de lágrimas e sofrimentos. Parecer é ter semelhança. Isto é, o que parece com algo tem aparência, tem aspecto, mas não tem a essência.

Lembra-se de uma propaganda antiga que fez bastante sucesso na televisão: o “parece remédio, mas não é”? Então, observe bem, o que parece não é real. Tem a aparência, no entanto, é ilusão, miragem. Não é, apenas parece ser. Muitas vezes chega a ser produto da hipervalorização pessoal. Muitos dos personagens conhecidos nos livros da Terra, por exemplo, pareceram ser grandes heróis, foram considerados mártires, no entanto, são entidades misérrimas na esfera espiritual. Não se assuste, os altares e galerias patrióticas do planeta sempre foram comprometidos pela política rasteira das paixões.

Nós mesmos, às vezes julgamos possuir algo quando verdadeiramente não possuímos. Parecia que a gente possuía. Acreditávamos possuir. Na presunção, é comum alguém achar que é algo ou tem algo. Mas na hora da aferição, da comprovação efetiva, ela conclui que apenas parecia ser ou parecia ter. Percebeu? O véu pode se descortinar quando surge uma análise mais criteriosa.

Isso vale até mesmo quando o assunto são as nossas virtudes. Por exemplo, alguém acredita ser uma pessoa de muita fé. Frequenta com regularidade algum núcleo religioso e acredita ter muita fé. No entanto, ao enfrentar alguma dificuldade mais contundente, vivenciar um momento de maior conturbação, ela se desespera, enfraquece, se entrega, se prostra. Notou? Ela achava que tinha fé, parecia mesmo que a tinha, porém, no momento da aferição, na ocasião da aferição constatou-se que parecer ter não é ter efetivamente. Essa comprovação também pode advir por ocasião do desencarne, quando alguém observa que lhe foi tirado tudo aquilo que acreditava ter, tudo o que parecia que tinha.

E quando nossas posses são subtraídas pela vida ficamos mesmo é com nossas propriedades.

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