30 de jun de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 4


CONCEITO DE CARIDADE

O que é o amor? Difícil uma definição sob a nossa ótica acanhada, mas ele é o sentimento por excelência. Aliás, dele derivam todas as virtudes, que não são mais do que suas modalidades e aspectos. O amor representa a lei máxima no campo filosófico e abrangente universal. Até podemos dizer, sem qualquer exagero, que ele é a essencialidade que mantém e sustenta o equilíbrio de todo o universo.

O amor é a energia, a vibração que a tudo circunda e envolve, e cultivar o amor é educar o espírito, é formar e consolidar o caráter, realizar em verdade o objetivo supremo da existência. O universo é uma corrente de amor em movimento incessante e o mais interessante de tudo é que o amor foi feito para ser dinamizado. O criador não age represando e cerceando o amor, como a galinha que mantém o seu envolvimento restrito aos filhotes debaixo de suas asas.

E se o amor foi feito para ser dinamizado, quando falamos no plano operacional e dinâmico do amor nós falamos em caridade. Ou seja, caridade é a materialização do amor, aplicação do amor, representa a dinamização dessa energia sublime. Está dando para acompanhar sem nenhuma dúvida? Ela é o amor aplicado, elemento operacional, a aplicação do amor, a materialização da teoria, a expressão crística. Diz-se que é a expressão tangível do amor, a dinâmica do amor. E tanto ela é a dinâmica do amor que é muito comum as pessoas misturarem os termos: uma fala caridade, outra fala amor e ambas dizem a mesma coisa. Mas um detalhe precisa ficar claro, a caridade não é o amor total. De forma alguma ela é o amor como um todo. É uma faceta do amor, é parcela do amor aplicado, é como se fosse o campo ou terreno onde o amor opera.

E você pensa: “Ah, espera aí, Marco, você está querendo me dizer que amor e caridade é a mesma coisa?” Bem, para ser mais preciso, há uma distinção bem nítida.

Se colocarmos ambos em um microscópio e fizermos a comparação, um exame de profundidade, nós vamos observar com tranquilidade e convicção que o amor é muito mais do que a caridade. Claro, afinal de contas nós acabamos de dizer a pouco que o amor é a essencialidade que mantém o equilíbrio do universo.

Então, ele é muito maior, ao passo que a caridade é o amor em sua faixa de aplicação, o seu plano de dinâmica. Até frisamos que a caridade não é o amor total. Detalhe: toda caridade legítima traz consigo o amor (óbvio, pois a caridade é o plano aplicativo do amor), mas nem todo amor é caridade. Deu para entender? Vamos exemplificar. Imagine alguém dizendo: “Nossa, você não tem ideia de como eu amo essa pessoa. Faz quarenta e oito anos que eu a acompanho, desde o seu nascimento.” Tudo bem, ela pode mesmo amar realmente a criatura a que se refere, e por outro lado nunca ter feito nada por ela.

O amor, em sua essência, em sua contingência total e abrangente universal, não é com a gente, é com o Pai. Não tem jeito, é um fato, amor não é conosco, pois perfeição, bondade e misericórdia são inerentes a Deus. Mas nem por isso precisamos ficar chateados. O universo inteiro é uma corrente de amor em movimento incessante e não podemos lhe interromper a fluência das vibrações.

Se conosco não é amor, conosco é amar, porque somos amor em potencial, e a questão é transformarmos o amor em amar, em expansão, pelo exercício da bondade e caridade. A dinâmica é lei maior a imperar em todo plano e o que nos chega a nível positivo de conquista é para ser dinamizado. É importante saber que tudo o que é guardado a sete chaves define a soma de amor não operante, e não há como dinamizarmos amor sem passarmos pelo exercício de amar.

O que nos chega vem como informação, sempre batemos nessa tecla, ao passo que o que sai propicia formação. O que eu quero dizer? Que quando aplicamos o verbo amar nós passamos a entender, e muito mais do que isso, passamos a fundamentar o amor que, até então, estava teoricamente incrustado em nós. Isto é, passamos a tomar posse dele. Não adianta a gente querer apropriar de algo sem executar. Não temos como nos apropriar do amor sem vivenciá-lo. É só amando que aprendemos o que é o amor. Não tem outro jeito. 

Por esta razão temos que ser misericordiosos para entendermos a misericórdia de Deus, só vamos entender o que dimana de cima na medida em que sentimos um anseio íntimo de penetrar em nova faixa. Sem falar que quando começamos a deixar expandir de nós determinados fatores magnéticos bem positivos passamos a adquirir uma capacidade de sensibilizar corações. Quando começamos a fazer iniciamos o cumprimento da parte que nos compete na grande luta. A vida exige cooperação, e o amor, faixa operacional que se estende para além da justiça, espera um pouco mais de nós. Vale ter isso em conta.

27 de jun de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 3


COMPAIXÃO PARA DAR

“BEM AVENTURADOS OS MISERICORDIOSOS, PORQUE ALCANÇARÃO A MISERICÓRDIA.” MATEUS 5:7

“DISSE-LHE TERCEIRA VEZ: SIMÃO, FILHO DE JONAS, AMAS-ME? SIMÃO ENTRISTECEU-SE POR LHE TER DITO TERCEIRA VEZ: AMAS-ME? E DISSE-LHE: SENHOR, TU SABES TUDO; TU SABES QUE EU TE AMO. JESUS DISSE-LHE: APASCENTA AS MINHAS OVELHAS.” JOÃO 20:17

“SE ME AMAIS, GUARDAI OS MEUS MANDAMENTOS.” JOÃO 14:15

É grande o número de indivíduos nas estradas diversas da paisagem terrestre que pedem ajuda. Os identificamos dentro dos metrôs, nas filas diversas de pessoas, no aperto dos ônibus urbanos e em todos locais imagináveis. Gritos de socorro inaudíveis ecoam constantes a todo tempo e por todos ambientes. Na maioria das vezes são inaudíveis aos ouvidos humanos, mas sentidos na alma pela observação dos olhares tristes e cabisbaixos que chegam ao coração.

Sem dúvida, para quem ama o semelhante fica fácil perceber quando existe um pedido de ajuda na expressão de desencorajamento e desespero no semblante.

A questão é que todos os enfermos podem procurar a saúde e todos desviados, quando desejam, retornam ao equilíbrio. E em todo o lugar, onde haja merecimento nos que sofrem e boa vontade nos que auxiliam, pode-se ministrar o benefício espiritual com uma relativa eficiência. Todos podem ajudar, afinal, se a prática do bem estivesse circunscrita aos espíritos completamente bons seria praticamente impossível a redenção humana. E qualquer cota de boa vontade e espírito de serviço recebe do plano superior a melhor atenção.

A proposta deste estudo visa a nossa sensibilização. É indiscutível que não podemos menosprezar a educação da inteligência, mas também não podemos negligenciar que temos que lidar a todo o tempo com a sensibilidade dos outros. E ensinar, esclarecer, transmitir e cooperar envolve um alto grau de sensibilidade, saber o que se passa no coração das pessoas. Razão pela qual o nosso processo operacional não pode se fazer ao nível da insensibilidade nesse particular.

E se não podemos atuar em área que desconhecemos, como vamos nos sensibilizar com a dor do próximo se não passamos por determinadas experiências? A vida é sábia, e às vezes é preciso que a gente passe por impactos da dor para podemos aferir a necessidade do semelhante. Muitas vezes nossa passagem por tantas dores e sofrimentos é para adquirirmos a capacidade de termos misericórdia.

É muito significativa a pergunta de Jesus a Simão Pedro: “Simão, filho de Jonas, amas-me?” O mestre não pede informação ao discípulo a respeito de raciocínios que lhe eram peculiares, não deseja inteirar-se dos conhecimentos do colaborador, não reclama compromisso formal. Pretende apenas saber se Pedro o ama, nada mais do que isso. Deixando perceber que com amor as dificuldades se resolvem. Isso basta. Se o discípulo possui suficiente provisão dessa essência divina a tarefa mais dura converte-se em apostolado de bênçãos promissoras.

E o amor tem que ser sentido. Entre conhecer e sentir existe uma grande distância, precisamos sentir o amor. As nossas conquistas intelectuais valem muito, e ninguém pode negar, entretanto, somente seremos efetivos e eficientes colaboradores do mestre divino se tivermos amor. Se não tivermos uma capacidade de compaixão, de misericórdia e de amor não temos como auxiliar e cooperar. Não há como ajudar sem compaixão. Somente o coração tem o poder de tocar outro coração e somente aperfeiçoando nossos sentimentos conseguiremos nutrir a chama espiritual em nós consoante o apelo superior.

Para usufruir a intimidade de Jesus e senti-lo no coração é imprescindível amá-lo, compartilhando-lhe a obra e a vida. Só a luz do amor é forte o bastante para converter a alma à verdade. O Cristo amava naturalmente a sua gente e o seu afeto tinha sido tremendamente aumentado pela sua extraordinária devoção a eles. Quanto mais profundamente nos entregamos aos nossos semelhantes tanto mais chegamos a amá-los. Sem contar que a luz ilumina, dispensando longos percursos. Só o amor tem a luz que atravessa os grandes abismos, e quem ama é capaz de emitir uma onda que penetra território adentro de nosso ser, são ondas ultracurtas. Quando alguém nos ama, com aprofundamento, esse alguém consegue nos ajudar, nos auxiliar. A luz irradiada por quem ama não ofusca e nem perturba, propicia envolvimento e paz.

A misericórdia é algo de Deus. A perfeição e a bondade são inerentes a Deus, tanto que Jesus não aceitou o título de bom. O amor é algo que flui ao nível da misericórdia e não temos como adquirir harmonia íntima se não formos buscar a paz e exercermos, também, a misericórdia. Um cristão sem atividade no bem é doente de mau aspecto pesando na economia da vida social, e precisamos buscar exercer a bondade e a misericórdia em patamares cada vez mais avançados.

Em nosso plano, misericórdia é compaixão suscitada pela dificuldade alheia, é o pesar pela dor e mal de outrem que em nós desperta sensibilidade. É movimento intrínseco da individualidade em suas fibras de amor e sentimento, é o movimento do sentimento voltado ao bem, tem um sentido de intimidade e significa no campo prático da vida uma compreensão da misericórdia divina para conosco.

Se abrirmos algum dicionário vamos encontrar a palavra graça como sinônimo de favor dispensado ou recebido, um benefício ou uma dádiva. Tudo bem, só que do ponto de vista espiritual esse significado não procede. Pois não existem favores gratuitos, para receber algo é preciso estar de acordo com a contabilidade da vida. A misericórdia divina não cai de paraquedas a revelia, não é distribuída a esmo. Os débitos e créditos são sempre analisados. Apenas existe misericórdia para quem exercita a misericórdia. A misericórdia está para os misericordiosos.

A que se recebe está na linha direta da que se dá. Em outras palavras, representa alguém fazer algo em favor de outrem para que o alto faça algo em favor dele.

No momento do aperto muitos dizem: “Deus, me acode!” E a voz do alto pode perguntar: “E você, filho, tem acolhido alguém?” Seremos ajudados pelo céu conforme estivermos ajudando na Terra. Se somos todos alunos do educandário da vida, e suscetíveis de queda moral no erro, usemos misericórdia com os outros e acharemos nos outros a misericórdia para conosco.

É preciso deixar que a luz da compaixão nos clareie a rota para que a sombra não nos envolva. Até mesmo diante de todos os desajustamentos alheios precisamos compadecer e amparar sempre. Perante os disparates do próximo precisamos nos compadecer e fazer o melhor que pudermos. Jesus nos convidava ao exercício constante das boas obras, seja onde for. É que o que é feito por amor não se perde, e investir no amor gera a retribuição natural da vida.

Deus está em nós quando nós estamos em Deus, e quanto mais nós amamos mais nós somos destacados para o mundo espiritual. O amor sempre dispõe de recursos e mais cresce quanto mais se doa. O amparo aos outros cria amparo a nós mesmos e todo o bem realizado, com quem for e onde for, constitui recurso vivo atuando em favor de quem o exercita. Todo o bem que se faz aos outros propicia linha de simpatia, e ainda que o auxiliado não entenda e não compreenda, seu amigo espiritual fica amigo da gente porque auxiliamos o tutelado dele.

Ajudar sempre vale a pena. Além do que, para que qualquer de nós alcance a alegria de auxiliar os amados faz-se necessária a interferência de muitos a quem tenhamos ajudado por nossa vez. É necessário cooperar. Os que não cooperam não recebem cooperação. Felizes os que buscarem na revelação nova o lugar de serviço que lhes compete na Terra, conforme a vontade de Deus.

23 de jun de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 2


PREDISPOSIÇÃO PARA RECEBER

Uma das coisas mais importantes que nós precisamos entender quando estudamos o evangelho é que no mundo em que vivemos não existem vítimas, embora possa parecer que em todos os lugares transitam uma quantidade considerável delas.

A vida é um processo de eleição pessoal e todos nós elegemos os tipos de experiências em que nos propomos estagiar. O resultado é simples: seja nesta ou em alguma outra fase da evolução, discórdia e tranquilidade, ação e preguiça, erro e corrigenda, débito e resgate, representam frutos da nossa escolha.

Você se lembra que encerramos a parte 1 deste capítulo, pequena por sinal, dizendo que a misericórdia socorre a todos e em todos os ambientes, sem distinção?! De fato, sempre temos bons amigos na zona superior àquela em que nos encontramos, todavia, em certas circunstâncias nos afastamos voluntariamente deles. O que significa que prepostos de Jesus podem edificar o mesmo trabalho de sempre, porém encontram perturbação e resistência de nós próprios, beneficiados, razão pela qual a fonte de energias puras não pode ser responsabilizada pelos fenômenos que a deturpam. Você não pode culpar o não funcionamento de um radinho porque as pilhas colocadas dentro dele estão enferrujadas ou danificadas.

Já tivemos a oportunidade de estudar anteriormente que a justiça chega quando tem que chegar. E mais, que quando a justiça chega, porque semeamos inadequadamente no terreno do destino, ela não pede licença. Ela simplesmente vem, e ponto final. Não diz a alguém: “Olha, seu fulano, você se prepara porque eu vou chegar. Não sei se você se lembra, mas lá atrás, em uma época tal, você fez isso...” Não. Não tem nada disso. A justiça não é romântica e doce assim. Ela impõe de fora para dentro e realmente pode precipitar acontecimentos. Não espera pedir. Na hora que ela tem que bater, bate, porque tem que se cumprir a lei. Ou seja, cumpriu o período, venceu a promissória, a pessoa enfrenta a situação, com choro ou sem choro. Isso é a justiça, que pode entrar perfeitamente em um processo de equações e projeções matemáticas.

Agora, se a justiça impõe de fora para dentro, o amor espera de dentro para fora.

O amor é bem diferente, ele tem que aguardar, ele espera. Porque o amor apresenta uma característica muito específica de espontaneidade. Ele tem que ser aceito. Não dá para ser socado goela abaixo dentro da gente, ninguém pode ser obrigado a amar. Em se tratando de amor nenhum de nós pode ser forçado a amar. Esse é um processo que tem que se ouvir na intimidade do próprio coração, dentro da alma, razão pela qual é preciso adesão interna. Se justiça é imposição de fora para dentro, amor é questão manifesta de dentro prá fora. 

O Cristo disse “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Até aí, tudo bem, está claro, entendemos. No entanto, ele não designou lugar, não traçou condições, não estabeleceu roteiros, nem especificou tempo. Prometeu simplesmente o conhecimento à verdade, e para o acesso à verdade cada um tem o seu dia. A vida pede discernimento para se viver bem. Cada palavra tem a sua ocasião, como cada revelação o seu tempo. E muitos espíritos não alcançaram, ainda, o domínio próprio. Não possuem as emoções, antes, são possuídas por elas. Estão preparados para a consolação, não para a verdade, e somente são dignos da verdade plena aqueles que se encontram libertados das paixões.

Nos trabalhos de auxílio é necessário ter o bom senso de saber quando se efetivamente deva investir. Nem sempre vamos conseguir ajudar quem queremos.

Não adianta nós atropelarmos o mecanismo evolucional, temos que esperar o momento de decisão das pessoas. Porque ninguém está aqui para desativar o funcionamento da lei. Não podemos violentar quem quer que seja. A liberdade interior é apanágio de todos os filhos da criação e não é possível organizar precipitados serviços de socorro para todos os que caem nos precipícios dos sofrimentos por ação propositada, com plena consciência de suas atitudes. Isto precisa ser levado em conta. Não podemos interferir em um sistema de vida de alguém que ainda é o sistema de vida eleito por ele. Enquanto a vida de alguém for aquela que ele elegeu não há porque alterá-la. Assim, ninguém poderá ajudar aquele que se desajuda. Não será caridade o ato de dar aos que não querem receber. Precipitando acontecimento as situações não são alcançadas.

O âmbito do assunto é muito extenso, e o indivíduo complicado é retirado do nosso lado se não tiver condições de descomplicar-se. Em suma, não podemos falar com alguém que ele está em um estado equivocado e que ele tem que sair daquilo. Porque é a vida dele. Fazer o quê? Tem gente que elege a morte como sistema de vida. Não podemos tirar alguém da vida que ele está vivendo, e que para nós é morte, para tentar colocá-lo em uma vida que é pseudovida para ele, e que ele não vai se adequar, não vai se situar. Por quê? Porque enquanto alguém está na treva densa, e se deleita com isso, a treva é luz para ele.  Propicia vida plena para ele, embora aquele seja um estado de morte para quem já alcançou um degrau acima. Em muitas circunstâncias o companheiro que queremos ajudar se mostra sob o domínio de enganos tão extensos que a forma de ajudá-lo é esperar que a vida lhe renove o campo do espírito.

O problema é criado quando o indivíduo descobre a morte e se deleita nela. Primeiro, nós temos que notar se ele já tem um potencial para sair daquela treva. Por isso, quando um professor vai trabalhar ele precisa saber os potenciais do aluno. Jesus disse que não déssemos “pérolas aos porcos”, porque não adianta você lançar luz num coração que ainda está meio apagado em sua ótica, todavia, para ele há uma luz enorme lá. Esse é um grande problema.

Às vezes, a pessoa que você quer auxiliar, e que está no escuro, não aguenta mais do que a luzinha de um palito de fósforo, ou de uma lanterninha, e você chega com todo o entusiasmo e predisposto a jogar um farol de carro naquele coração.

Se quisermos evoluir, preparemo-nos!

Temos que ajustar a nossa linha íntima para podermos entrar no plano e faixa de vibração. É preciso uma proposta operacional da nossa parte, porque da parte de lá para cá, por misericórdia, não pode haver violência, de forma alguma.

Jesus Cristo, efetivamente, é aquele que vem ao nosso encontro, mas só é capaz de nos ajudar se criarmos uma abertura no plano da percepção. Todavia, ante o nosso desânimo, a nossa indiferença e indisposição, vamos notar que ele praticamente permanece a espera no plano espiritual das nossas decisões pessoais.

Este assunto é muito bonito e significativo. Por isso, os gênios celestes podem trazer o mais belo e eficiente socorro aos espíritos em sombra, mas, segundo a lei eterna, os necessitados só podem receber os divinos benefícios se estiverem dispostos a aderir, por si mesmos, aos trabalhos do bem. Em primeiro lugar, a construção do receptáculo, para, em seguida, a chegada da bênção.

Não há como ser diferente. A própria capacidade nossa de perceber o que vem do alto depende de uma preparação interior. Quando a sinceridade e a boa vontade se irmanam dentro de um coração faz-se no santuário íntimo a luz espiritual para a sublime compreensão da verdade.

Em geral, a misericórdia se direciona ao encontro dos que estão levantando a bandeira da reparação. Se tivéssemos que dar uma definição objetiva da misericórdia, diríamos que ela é um fio invisível, uma vibração que liga Deus aos infelizes sob o limiar da esperança. Liga aquele que apresenta capacidade de auxiliar com aquele que se encontra em predisposição de receber. Esta é a palavra chave, predisposição. Toda aquisição sem esforço é caminho para a derrota. A salvação só é importante para os que desejam salvar-se e os parâmetros de atendimento espiritual não podem atropelar as disposições humanas.

É indispensável nos colocarmos em determinada posição receptiva a fim de compreendermos a infinita bondade. A luz sempre se direciona para as trevas e isso não é novidade para ninguém. Agora, o que nem todos sabem é que os espíritos de luz não entram no abismo para precipitar a evolução. Entram para acolher os que lá se encontram em predisposição de receber, objetivam atender a quem estava com a luz e ela apagou. Não se assuste, mas é razoável que as missões de auxílio nos abismos recolham apenas os predispostos a receber o socorro elevado. Quanto aos demais? Bem, aos outros não faltarão providências de Jesus em outra parte. Muitas vezes não há outro recurso para certas criaturas senão deixá-las nos precipícios das trevas, onde serão naturalmente compelidas a reajustarem-se, dando ensejo a pensamentos dignos.

Enquanto isso, a misericórdia não se perturba e espera a adesão das criaturas em mudar. E quando nos predispomos o auxílio nos alcança diretamente. Os anjos sempre inspiram os homens quando estes se põem em condições de recebê-los.

Não significa que o criador estabelece prerrogativas injustificáveis para amar. De forma alguma, ele não espera por nossas rogativas para nos amar, pois a sua proteção se estende a todos indistintamente. O que ocorre é que nem todos estão dispostos a receber este amor. Muitos se fecham no egoísmo e na vaidade, na intransigência e na inconformação, envolvendo o íntimo em sombras densas. E quando as criaturas não querem, quando as almas reencarnadas se revelam impermeáveis ao reconhecimento e à compreensão, distanciam-se os espíritos superiores delas, de forma natural, ainda que representem para eles valiosas joias do coração, até que se integrem no conhecimento das leis de Deus e se disponham a segui-las na companhia deles.

Os maus que parecem felizes na própria maldade, por exemplo, são aqueles sofredores perversos e endurecidos de todos os tempos, que apesar de reconhecerem a decadência espiritual de si mesmos criam perigosa crosta de insensibilidade em torno do coração. Desesperados e desiludidos, abrigando venenosa revolta, atiram-se à onda torva do crime, até que um novo raio de luz lhes desabroche no céu da consciência. Mas a misericórdia e a compaixão não faltam em hipótese nenhuma. Em muitos casos, nas corrigendas indispensáveis, a dor funciona como medida de auxílio, razão pela qual nós não podemos desconsiderar a dor que instrui e ajuda a transformar os homens para o bem.

20 de jun de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 1


MISERICÓRDIA DIVINA

O nosso assunto agora é misericórdia e caridade, e se você busca a razão, a lógica ou o raciocínio do amor você anda perdendo o seu tempo. Porque segundo o critério humano, o amor verdadeiro não tem lógica, nem razão e nem raciocínio.

Eu estou falando de amor legítimo, essencial. A sua ação se opera à revelia de nossa razão. É muito simples. Porque o amor é só o que sai. O que entra é justiça, o que sai é amor. E ao sair ele é como o sol. O sol não ilumina algumas regiões e se esquiva de iluminar outras: “Opa, aqui eu tenho que fazer uma curva, não posso tocar esse ambiente porque ali tem indivíduos complicados.” Não tem disso. A bem da verdade, ele não se preocupa aonde ou em quem vai chegar.

O amor também é assim, soberano. O amor puro não se reduz às restrições da lógica e tampouco aos argumentos do raciocínio. Incoercível, sobrepuja a todos os demais atributos do espírito. O amor humano, ainda vinculado à capacidade de ser amado, não é expressão do verdadeiro amor, justamente porque age sobre a influência ostensiva da razão, porque obedece a motivos determinados.

Assim, pode ter certeza, sempre que esse sentimento se manifesta sob o império da razão ele se acha constrangido e desnaturado. O amor divino, por sua vez, paira acima da razão, desconhece os motivos e raciocínios de qualquer espécie.

O maior amigo da humanidade consubstancia o ensinamento e a exemplificação do amor divino. Você já parou para pensar nisso de forma aprofundada? Qual o argumento da razão humana nos aconselha a amar o inimigo? A orar pelo que nos maldizem e perseguem? Onde vamos encontrar a lógica do preceito que nos recomenda oferecermos a face esquerda a quem nos bate a direita? Onde o raciocínio da determinação de cedermos também a túnica a quem nos tira a capa? Ora, amigo, estas prescrições não se curvam à nossa lógica e tampouco à nossa razão, pois são mandamentos sublimes do amor, e o amor extrapola a todo entendimento. O legítimo amor não tem cheiro e sentido de justiça. De modo que vamos caminhar com paciência e tranquilidade. Apesar das aparentes conturbações o planeta está em perfeito equilíbrio. Quem governa o mundo é Deus e o amor não age com inquietação. A faceta relacionada com a irradiação do amor toma uma fisionomia ou um aspecto bem mais abrangente daquilo que a nossa mente pode conceber ou imaginar.

Há muitas criaturas no plano físico visitadas por lutas acerbas, embora possam apresentar no rosto um sorriso constante. Os que choram, diante das dores, podemos dizer sem exagero, o fazem de barriga cheia. É, isso mesmo. A frase não saiu errada, não. O planeta Terra, em tempo algum, jamais foi visitado por tanta orientação espiritual como tem sido agora, e acima de toda  dificuldade existe o amparo superior. O componente máximo doador é o criador e a misericórdia distribui dádivas em todo o universo. Em tese, não existe pai que não queira o melhor para seu filho, e são tantas as expressões da misericórdia divina que nos cercam o espírito, em todo e qualquer plano da vida, que basta olhar a natureza, física ou invisível, para sentirmos em torno de nós um aluvião de graças.

Por ser onipresente, a misericórdia suprema preenche a todos os espaços e não está a uma grande distância de nós. A misericórdia tem falado alto e a sua bondade abraça a todas as almas. O que recebemos de misericórdia, o que recebemos do amparo que está chegando a cada um de nós, forma uma soma substanciosa de padrões que estamos usando a cada momento. Em sua infinita bondade, Deus oferece-nos recursos para o saneamento de nossas próprias complicações e na equação de nossos débitos dependemos da sua misericórdia.

Rendamos culto ao perfeito amor que tudo ilumina e a todos se estende sem distinção. A nossa felicidade reside em saber que podemos estar no fundo do poço, mas ligados à fonte básica da luz em Deus. O criador salva a todos e a salvação é atributo dessa misericórdia para conosco. O plano superior jamais nega recursos aos necessitados de toda ordem. Ninguém permanece abandonado na vida e os mensageiros de Jesus socorrem sempre nas estradas mais desertas.

16 de jun de 2012

Cap 24 - O Rico e O Pobre no Evangelho - Parte 11 (Final)


A HUMILDADE E A HUMILHAÇÃO

“E DISSE: EM VERDADE VOS DIGO QUE, SE NÃO VOS CONVERTERDES E NÃO VOS FIZERDES COMO MENINOS, DE MODO ALGUM ENTRAREIS NO REINO DOS CÉUS.” MATEUS 18:3

Eu tenho um amigo, que até algum tempo atrás, quando mantínhamos conversas regulares acerca do evangelho, trazia consigo a seguinte concepção: Se um indivíduo mora longe, em uma casinha super simples, se quase não tem recursos materiais, se veste roupas surradas e simplórias, se tem alimentação desprovida de componentes essenciais, este sim, para ele é o verdadeiro humilde.

De fato, essa é uma conceituação extremamente deficitária e incorreta. Não que uma pessoa com essas características não seja humilde. Não tem nada disso, ela pode perfeitamente ser. O que quero dizer é que muitas vezes ocorre, e até com nós mesmos, de vermos e analisarmos como humildade algo que não é humildade, mas humilhação. Isso mesmo, misturamos humilhação com humildade.

Imagine uma grande empresa. Em uma sala ampla funcionários da diretoria e graduados se preparam para uma reunião importante. Poucos minutos antes do começo entra, cabisbaixo, um funcionário uniformizado, semblante abatido, tímido: “Vocês me desculpem, o diretor pediu que eu limpasse a mesa.” No meio dos circunstantes, alguém pode pensar: “Nossa, esse é humilde.” A questão é que ele pode ser, como também pode não ser. O que é preciso é a gente saber distinguir a humildade da submissão, porque muitas vezes nós temos um sentido de humildade que se descaracteriza para a humilhação. E a humilhação, de forma alguma, ela é compatível com a humildade. Não é mesmo.

Tem muita gente que se humilha e não é humilde. Está conseguindo acompanhar? Tem muita gente que não aceita determinadas situações. Fica de cara fechada, encontra-se revoltada. “Ah, fazer o que? Eu não posso fazer isso mesmo, então, eu tenho que contentar.” Fala em contentar, mas da boca prá fora. Às vezes, está até mostrando para os outros que está tudo ótimo, que ele está muito bem, mas no fundo ele está é humilhado. Dá até pena. No fundo está um verdadeiro redemoinho dentro dele, um vulcão de incompreensão e de inconformação.

Este tipo de coisa acontece tanto. Nesses casos a humildade é entre aspas. É temporal, uma espécie de humildade circunstancial. Ou seja, é a circunstância da vida que impõe um comportamento daquela natureza. Porque o grande lance da humildade, a sua manifestação, é quando você pode fazer alguma coisa e não faz em nome de uma manifestação de humildade. Entendeu? Agora, você dar uma de humilde diante de uma situação em que você não tem como fugir não é humildade. Pois se você fugir você vai pagar um preço enorme.

Então, é “sim, senhor” prá lá, “sim, senhor” prá cá. Sim, senhor, porém, com uma humilhação total. O assunto é interessante e a submissão é aquela obediência imposta por algo ou alguém e é uma característica de estar sob o domínio de autoridade ou circunstância que constrange e bloqueia a iniciativa de espontaneidade da criatura, é estar sob o domínio de alguém ou algo que exerce poder. Podemos dizer que ela é uma circunstância aferidora, e muitas vezes a submissão é instrumento para que a criatura formule a humildade, afinal, a humildade tem que ser construída. Na submissão usamos o verbo de ligação estar.

De fato, pode ter muita gente que está passando por humilhação, no entanto, aquele que é humilde não tem razão nenhuma de humilhar-se. Se na humilhação referimo-nos ao verbo de ligação estar, na humildade o verbo é ser, ela constitui algo concreto, um estado alcançado pela adoção de uma postura de vida, define uma conquista e manutenção do espírito. Ela não é uma expressão que vamos avaliar por um ou outro momento determinado da vida.

Ser humilde não implica apenas momento, ser humilde é um estado de alma, é uma referência à natureza íntima do ser, é uma conquista efetivada. “Se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus.” (Mateus 18:3) Se surge uma situação e a criatura se faz humilde, se surge outra e ela adota uma postura de humildade, ela se torna humilde. Isto é, as circunstâncias vão fazendo as oportunidades e as vitórias íntimas no terreno reeducacional vão tornando a pessoa humilde. Logo, esse tornar-se humilde é uma conquista efetiva, vai sendo decorrente das situações de humildade, define uma modificação de um estado, decorre do esforço pessoal.

O sentido de humildade que se exercita não é ante aquilo que você não pode fazer. Ela se dá quando você pode fazer alguma coisa e não faz em nome de uma manifestação de humildade. Vamos exemplificar? Humildade é quando você tem recursos na mão e decide como Jesus decidiu. Lembra quando alguém o questionou, que se ele fosse o filho de Deus que descesse da cruz? Pelo que sabemos, Jesus não poderia alterar naquele momento todo o contexto da sua crucificação? Creio que não há dúvida nenhuma quanto a isto. Entretanto, ele desceu? Não, de forma alguma. Isso é que é humildade. Podia fazer, e não fez. Então, vamos repetir, o grande desafio da humildade é quando você pode fazer alguma coisa e não faz em nome da manifestação de humildade. A humildade pressupõe sempre uma escolha de atitude, ela pressupõe a liberdade de escolha na ação, ela é sempre um comportamento que pressupõe escolha e a distância básica entre a humildade e a submissão é a espontaneidade. Enquanto a submissão é a obediência imposta por algo ou alguém, a humildade é aquela espontaneidade trabalhada, em tese, pelo conhecimento.

13 de jun de 2012

Cap 24 - O Rico e O Pobre no Evangelho - Parte 10


NÃO SE CRESCE SEM HUMILDADE

“BEM-AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO, PORQUE DELES É O REINO DOS CÉUS.” MATEUS 5:3

“SEDE UNÂNIMES ENTRE VÓS; NÃO AMBICIONEIS COISAS ALTAS, MAS ACOMODAI-VOS ÀS HUMILDES; NÃO SEJAIS SÁBIOS EM VÓS MESMOS;” ROMANOS 12:16

É preciso assimilar muito bem que não há como projetar a vida hoje fora do componente da humildade. Não há como a gente evoluir sem humildade. Ela representa o caminho que projeta efetivamente para Deus. Isto não pode ser esquecido mais. Apenas somos realmente ricos quando reconhecemos a nossa pobreza.

É o reconhecimento da pequenez que nos coloca em um plano de equilíbrio. O dia em que a gente aprender isso, mas aprender mesmo, nem vamos mais precisar ir à missa, assistir a cultos religiosos, fazer reuniões espirituais, não vamos mais precisar acessar o blog evangelhoplus. Em se tratando de virtudes, a humildade ainda é o maior desafio que nós temos. Alguém pode até levantar o dedo e dizer que com ele não é assim. Não gostamos de ouvir isso e até parece que somos humildes. Mas não. Estamos longe disso. Às vezes, nos achamos humildes e nos colocamos na posição de vítimas, mas a verdade é que existem muitas pessoas em nosso círculo de ação que custam a nos aguentar.

Todavia, se estamos distantes deste componente, pelo menos já podemos equacionar com certa convicção o que venha a ser humildade e o porquê de a cultivarmos. As expressões transitórias de poder humano não atestam o reino de Deus e a realização divina sempre começará no íntimo das criaturas. A humildade, se não é a fundamentação básica de toda a instrumentalidade, com toda certeza é a base de toda a proposta educativa com vistas a uma evolução.

Os pobres de espírito são os humildes, e para toda proposta de crescimento faz-se necessária uma postura de humildade e simplicidade. Você pode até não querer assimilar, pode querer bater com a cabeça na parede, porém não existe evolução plena e eficiente sem humildade. Se nós não reconhecermos que somos pequenos diante do universo vai ser muito difícil alcançarmos êxito no nosso trabalho. Sem humildade nós ficamos suscetíveis de sermos desautorizados.

Não tem como ser servo de Deus e ser orgulhoso, querer crescer espiritualmente e se manter prepotente. É preciso saber ser humilde na hora correta, no instante certo. Se não houver uma condição de forjar com tranquilidade este valor, de se modelar com segurança, a gente vai cair amanhã. Sem dúvida, vai. Sem contar que eu também não tenho como evoluir achando que sou o maior. Não dá. Eu posso até ser o mais bem informado em determinado terreno, mas existe uma diversificação em que cada um de nós tem um ponto a operar. É preciso ter esta ótica. Em qualquer tempo não te credites em condições excepcionais, e nem te situes acima dos outros, acima de quem quer que seja. Quando alguém te envolver no confete da lisonja, insuflando-te vaidade, não te permita superestimar os próprios valores. Abraça nos deveres diários o caminho da elevação e recorda que Jesus, o enviado divino e governador espiritual da Terra, comparou a si mesmo com o pão puro e simples.

A humildade, respeito, reverência, submissão à vontade divina, pobreza evangélica, é o componente de virtude máxima que nos dá o sentimento de nossa fraqueza. O próprio mestre disse que não veio de si mesmo, que traz pensamento de cima, amplia o relativo e entre em relação com o infinito. Logo, diante da verdade nova preparemo-nos para nova linha de ajuste. Nos sistemas de projeção evolucional curvemo-nos diante da lei de Deus e nos projetemos com ela. Acontece em muitas circunstâncias de Deus nos honrar com a sua confiança e nós desvirtuarmos os verdadeiros títulos de serviço. É por isso que quanto mais fala dentro de nós a humildade, virtude mais difícil para o crescimento, mais nós ganhamos autoridade. Autoridade, aliás, que nos candidate a servir mais e melhor. Sendo assim, vamos buscar crescer, sempre, mas não para nos engrandecermos, e sim para servir mais eficientemente. Somente sendo grande nas pequenas tarefas seremos humildes nas grandes.

A humildade tem que funcionar em dois ângulos distintos da nossa evolução. Primeiro, para nos dar a coragem de descobrir o grau de verdade que a gente sabe, bem como o grau de ignorância que a gente ainda nutre. É o primeiro passo da humildade, pelo qual traçamos um diagnóstico. E o outro ângulo é no que se refere ao plano operacional da vida, o plano de relação e interação com as pessoas. Entender que para utilizar a minha possibilidade em função do bem estar do semelhante, a minha ajuda, seja qual for a natureza da ajuda, a princípio eu não posso ajudar sendo menor do que ele no componente específico do auxílio. Isto é, se ele naquela área tem ignorância, eu posso ter conhecimento, se ele não tem dinheiro, eu tenho, se ele não tem saúde, eu tenho.

Você provavelmente tem sonhos, traz consigo aspirações e objetivos bem definidos. Agora, se você não se dotar de humildade no crescimento, fique onde você está mesmo, que talvez seja melhor por enquanto. A humildade define a todo instante que quanto mais nós conhecemos menos a gente sabe, que quanto mais achamos que somos ajudados mais nós temos que auxiliar. Podemos conhecer muitas coisas, porém, quanto mais nós conhecemos mais entendemos que não sabemos, que somos crianças; quanto mais nós podemos comandar mais sentimos que o nosso comando tem autoridade na medida em que exercitamos a nossa capacidade de obedecer; quanto mais alguém pode comandar mais está inerente nele a capacidade de disciplina, de obedecer; quanto mais alguém sabe mais ele estuda, mais ele aprende; quanto maior a liberdade maior a responsabilidade. Na humildade o indivíduo sabe que conhece, mas sabe também que no fundo é imensa a sua parte de desconhecimento. E este é um entendimento integrante do mecanismo ascensional.

Quem não sabe obedecer, por exemplo, pode ter certeza de que nunca será um bom comandante. Por outro lado, aquele que sabe obedecer pode ficar tranquilo, porque no dia em que tiver que exercer algum comando, alguma direção, ele vai ser feliz, porque vai ser ouvido e obedecido. É preciso compatibilizar a responsabilidade de operar com a necessidade de ajustar-se à pequenez que marca a nossa presença no próprio universo. Quanto mais nós relacionamos com os outros, e quanto mais alto o piso que ascendemos, maior a nossa responsabilidade com o que a gente vê para baixo. O crescimento íntimo significa redução do nosso personalismo. Só se cresce apequenando-se, e isso é evidenciar a fonte legítima. Somente pela simplicidade conseguimos identificar os focos de carência. Para ajudar, embaixo, a criatura, que já teve o vislumbre de cima, tem que entender que ele tem que ser servo. Até mesmo para que não deixe escapar as dificuldades incrustadas no seu próprio subconsciente. A grandeza de cada qual reside na possibilidade de apequenar-se.

Quanto mais nós sabemos mais temos que identificar a nossa pobreza, afinal, podemos ter relativo conhecimento acerca de algo, mas não na sua abrangência.

Para ajudar alguém, para ensinar, cooperar com alguém, nós temos que ter uma alta capacidade de adequação, uma profunda disposição de apequenar-se. E é aí que temos complicado a nossa jornada, por impaciência e, também, negligência no exercício da repetição e da persistência. Veja bem, se eu vou trabalhar no plano do auxílio, no sentido de tentar minorar o sofrimento de uma criatura, eu não posso jogar para ela o que eu tenho. Eu preciso adequar. Para ajudar eu preciso adequar o valor canalizado, de forma a fazê-lo chegar a um campo de compatibilidade com a capacidade perceptiva do receptor. É bonito isto, e nós estamos treinando para isto. Estamos treinando para adotar esse procedimento em cada momento da vida. Eu tenho que adequar, e neste mecanismo de adequação tenho que ter humildade. Quanto mais o espírito evolui mais ele sente a necessidade de apagar a sua luz para que os outros cresçam.

Basta relembrar que Jesus tinha poderes extraordinários, no entanto, se lançou até ao sacrifício pessoal para que a paciência ou a pedagogia do tempo pudesse clarear o verdugo. Vamos auxiliar a quem necessitar, e auxiliar sem criticar, porque se vamos auxiliar criticando a nossa crítica por si só tira a nossa humildade interior.

10 de jun de 2012

Cap 24 - O Rico e O Pobre no Evangelho - Parte 9


A PEQUENEZ E A DISTRIBUIÇÃO

A ideia que trazemos acerca de infinito e eterno, dentro das linhas que essas expressões trabalham, é um desafio para a nossa mente. Por mais abrangente que esta possa ser, no que reporta aos seus potenciais, essa concepção ainda é uma parcela diminuta ante a mente ampla do criador.

Não é necessário ir muito longe para exemplificar. Durante muito tempo a civilização, até por volta do século XV, estava embutida nos territórios da Europa e da Ásia, para depois, aquele oceano que servia como fronteira intransponível, até então, abrir uma perspectiva nova de amplidão para a Terra.

Vamos observar que na horizontal dos conhecimentos, na medida em que ampliamos os nossos pontos de percepção, é como se a ideia de infinito e eternidade redimensionassem tudo dentro de nós. Por exemplo, é como se eu julgasse inicialmente que o mundo fosse circunscrito à cidade em que eu moro. Na hora em que me elevo um pouco acima, a minha mente, a minha visão, abrange territórios muito mais extensos, e assim funciona em todas as áreas. Assim funciona nossa capacidade perceptiva na medida em que vamos avançando. Quando embutimos algum novo ensinamento a nossa percepção acerca do criador aumenta de modo geométrico, logo, nós crescemos em progressão aritmética e verificamos a grandeza de Deus ampliando na razão geométrica.

E dentro da projeção do que é eterno e do que é infinito cada lance que se abre mostra a extensão da nossa pequenez. “O filho do homem não tem onde repousar a cabeça” mostra o reconhecimento de uma pequenez diante da grandeza do universo. E cada vez que embutimos um conhecimento novo nós adquirimos a convicção de que somos muito mais pobres do que pensávamos ser.

Até parece uma incoerência, mas quanto mais cresce o indivíduo mais ele descobre que é pobre. Ao vermos no planeta uma imensa escola de trabalho, todos nós, perante a grandeza universal, devemos reconhecer a nossa condição de seres humildes, necessitados de aprimoramento e iluminação. O mestre Jesus quis ensinar para nós que quanto mais avançamos no conhecimento e na capacitação operacional mais nós temos que caminhar para o campo da humildade. Não tem outro jeito, para crescer eu tenho que descobrir que sou pequeno. Quanto mais se agiganta no conhecimento mais se cresce nessa compreensão, como disse Platão que “por tanto saber sei que nada sei.”

Certificando-se o homem de que coisa alguma possui de bom sem que Deus lho conceda, a vida no orbe ganhará novos rumos. Na proporção em que a humildade está presente, não precisamos sair correndo atrás, todos os valores passam a configurar a nosso favor, no campo do crescimento, em função da grandeza de Deus. O espírito foi criado simples e ignorante. E se a conquista da sabedoria é meta com o objetivo de se extirpar a ignorância, a simplicidade tem que ser mantida, no entanto, errando e reincidindo no erro nós perdemos a simplicidade e tempos que trabalhar para consegui-la. Quando começamos a crescer nós perdemos a humildade e continuamos na ignorância. Perdemo-nos no percurso quando buscamos o infinito distanciados da humildade e da simplicidade. Mais de dois mil anos se passaram desde que o evangelho nos foi trazido. Passaram-se séculos e nós continuamos excelentes doutores da lei. A questão é que para sair da condição de doutor da lei e penetrar no terreno novo tem que ser humilde, tem que tirar o título, e a gente não quer abrir mão dele. Porque ele ainda é muito importante para nós no contexto.

Uma das coisas extraordinárias que o evangelho revela para nós, e são muitas as pessoas que dizem, é a alegria que a gente tem em entender a grandeza do universo. E sentir o quanto nós temos que aprender ainda, o quanto nós temos que operar na horizontalidade da vida, o quanto nós temos que aprender a amar.

Entender que a concessão de tudo o que recebemos tem um caráter relativo, ou seja, o que recebemos nos é disponibilizado para o trabalho, para a dinamização. Que objetivamos não apenas o acesso às informações elevadas, mas laborar pontos que nos propiciem segurança para as realizações, e que essa linha horizontal representa as nossas ações positivas junto aos irmãos da humanidade.

A capacidade de recolher pela linha vertical (o que dimana do plano superior) vai depender da disposição em se dinamizar o valor em nosso plano (horizontal).

A fixação do que recebo sempre vai depender da minha capacidade de transferir.

Quando vamos sabendo administrar com segurança os componentes que nos visitam, que já detemos, nós recebemos investimentos outros do plano da misericórdia. É o caso dos talentos. Os padrões que você já consegue recolher passam a ser instrumentos para novas conquistas, porque o que você recebe se amplia cada vez mais à medida que faz irradiá-lo através do reflexo. Está percebendo? A mente é o espelho da vida em toda parte. É instrumento refletor porque vai emitir o que você já recebeu antes e também o que está recebendo agora.

E na medida em que ela consegue emitir ela abre padrões para receber mais, em um plano de integração. Na medida em que a criatura opera com acerto ela vai sendo elemento depositário de novos valores oriundos do plano maior. O processo de assimilar os recursos divinos será sempre o serviço prestado aos outros.

A humildade é a forma de se abrir o coração para receber. Resultado: se você quer ser um bom médico, se quer ter o dom de curar, comece amando os doentes, interessando-se pela solução de suas necessidades. Se espera o dom da virtude, discipline-se. Se deseja acesso aos círculos sagrados do Cristo, aproxime-se dele, não apenas pela conversação elevada, mas também por atitudes de sacrifício. Afinal, o operar sublima a capacidade de conhecer. E quando perdemos a humildade perdemos também a nossa capacidade intuitiva, quando recebemos e não damos fecham-se as válvulas para novas aquisições.

6 de jun de 2012

Cap 24 - O Rico e O Pobre no Evangelho - Parte 8


O POBRE NO EVANGELHO

“3BEM-AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO, PORQUE DELES É O REINO DOS CÉUS.” MATEUS 5:3

“5OS CEGOS VÊEM, E OS COXOS ANDAM; OS LEPROSOS SÃO LIMPOS, E OS SURDOS OUVEM; OS MORTOS SÃO RESSUSCITADOS, E AOS POBRES É ANUNCIADO O EVANGELHO.” MATEUS 11:5

“1NAQUELA MESMA HORA CHEGARAM OS DISCÍPULOS AO PÉ DE JESUS, DIZENDO: QUEM É O MAIOR NO REINO DOS CÉUS? 2E JESUS, CHAMANDO UM MENINO, O PÔS NO MEIO DELES,” MATEUS 18:1

Até o aparecimento de Jesus em nosso planeta, o destino dos pobres, sofredores e desvalidos era a desconsideração total e a marginalização sem limites.

A partir daí se abrem as válvulas de uma nova visão com a perspectiva e o investimento em dias melhores. No capítulo cinco do evangelho de Mateus, bem no iniciozinho, vamos encontrar o mestre dizendo as bem-aventuranças: “Bem aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus”. Ele disponibiliza esperanças de sustentação e consolo aos corações. Sim, porque o termo bem-aventurado significa muito feliz. Conseguiu perceber? Sob a visão deficitária do mundo, felizes são todos aqueles que contam vitórias em cima de vitórias nos terrenos da materialidade. São os portadores de títulos, detentores de posições sociais de prestígio e possuidores de riquezas, por sinal, muitas vezes nem sempre alcançados de forma digna. E há um detalhe importante. Quando os vitoriosos do mundo não sabem conquistar e administrar com justiça, e mantém-se no orgulho, vaidade, prepotência e egoísmo, sem assegurar a paz ao coração próprio e propiciar o bem ao semelhante, não passam de meros afortunados do momento que o tempo se encarrega de modificá-los.

Então, a gente observa que Jesus veio trazer, de forma abrangente, a ótica nítida e definitiva acerca dos que são verdadeiramente felizes. Ou seja, no sermão da montanha ele menciona os que são muito felizes aos seus olhos, os que são bem-aventurados sob a ótica do plano espiritual, os donos da riqueza espiritual que, se constituindo os amados de Deus, sentem-se identificados com o Pai em qualquer parte a que sejam conduzidos. Ninguém neste mundo é melhor do que ninguém. E sendo o evangelho a boa nova, ele é a mensagem divina para os tristes, os desesperançados e deserdados na imensa família humana.

Os termos rico e pobre, no evangelho, não são resultantes de uma conceituação externa. Não tem como eu diagnosticar alguém exteriormente: “Esse é rico, aquele é pobre, o outro ali também é pobre.” Não tem como. Vai muito além disso, é algo intrínseco, íntimo. Pobreza decorre de um estado de autoanálise.

Os pobres de espírito, na ótica do evangelho, são os humildes, os que se reconhecem sempre necessitados de valores espirituais. São aqueles que visualizam o peso e a extensão das próprias necessidades de renovação. O pobre é aquele que se identifica carente. É quando nos identificamos precisando daquilo.  Ao mencionar os pobres de espírito Jesus referia-se às almas simples e singelas, despidas de orgulho e egoísmo. Os pobres são os humildes.

E humildade é aquele estado que apresenta uma pobreza que naturalmente encaminha o ser a um ponto novo de reflexão. Esta expressão pobre apresenta todo um processo de possibilidade perceptiva do conhecimento. E nós vamos notando que quanto mais nos enriquecemos nas informações, nos caracteres que nos são encaminhados pela bondade do alto, no campo da aprendizagem, mais o mecanismo da humildade é convocado a estar presente na nossa intimidade.

“E aos pobres é anunciado o evangelho”. (Mateus 11:5) Isso mesmo. Os vencedores da terra não necessitam deste tipo de anúncio. Os vitoriosos do mundo não necessitam destas boas notícias. Para quê? A preocupação máxima de algum vencedor do mundo é a de defender o fruto de sua vitória material. Por isso não adianta pregar o evangelho para rico. O próprio evangelho diz que o rico já tem o seu galardão. É o pobre que busca. Aos pobres é que ele é anunciado.

Se frequentamos algum núcleo de natureza espiritual, seja católico, espírita, evangélico ou de qualquer outra denominação, é porque nos identificamos pobres. Lá não é lugar de rico. Aqui também, neste nosso estudo que levamos juntos a efeito, também não é lugar de rico. Porque algum deles investiria seu tempo em estudar conosco? O rico não tem necessidade de estar aqui. Claro. Por que estaria? Ele já tem tudo. Quem está aqui, inclusive eu, é porque sente que tem necessidade.

Em certa ocasião, questionado pelos discípulos acerca de quem é o maior no reino dos céus, o mestre chamou um menino e o pôs no meio deles (“naquela mesma hora chegaram os discípulos ao pé de Jesus, dizendo: quem é o maior no reino dos céus? E Jesus, chamando um menino, o pôs no meio deles.” Mateus 18:1)

Muito interessante. E se Jesus colocou um menino no meio é porque o menino tem grande significância no evangelho, tem um sentido importante na acepção do evangelho. Não o pôs em qualquer lugar. Poderia tê-lo colocado no cantinho, quietinho lá. Mas não, pôs no meio. E no meio é na posição central, no centro. É equilíbrio, posição de destaque, é ponto de referência. Não há dúvida. Menino no meio é significado de destaque. É para ficar muito bem exposto.

O menino é um símbolo. No sentido figurativo que o evangelho propõe ele tem o sentido de pequenez, de inocência, de pureza. Com capacidade de perdoar sem distinção, tem alto poder perceptivo e recolhe com facilidade e entusiasmo aquilo que lhe é trazido. Além do que, é um elemento acentuadamente dócil ao sistema educacional e apresenta dentro de si uma proposta voltada ao crescimento.

O Cristo quis trazer com o menino o exemplo, a mentalidade e os padrões que caracterizam, em tese, a criança. E uma relação dela com os caracteres que marcam todo o estágio evolutivo nosso no planeta: a simplicidade, as condições receptivas, a autenticidade, a confiança, a obediência aos padrões superiores, a pureza de sentimento, a espontaneidade, a capacidade de esquecimento das ofensas, entre várias outras linhas que poderiam ser preenchidas com os valores que definem e caracterizam uma criança dentro desse contexto.

E qual a relação com o que nós estamos estudando? É que o pobre é aquele que se identifica carente, como a criança também é, uma vez que ela é constantemente voltada ao mecanismo do aprendizado. E dentro daquilo que representa a postura de uma criança, há o desejo também de afirmar-se, aquela índole natural de crescimento, que é inerente ao espírito nesse estado. Assim, vamos aprendendo que o maior no reino dos céus não é o grande, o que acredita ter-se afirmado. O maior é o que quer crescer. E quanto mais a gente cresce, mais criança a gente tem que avocar, mais humildade temos que ter.

3 de jun de 2012

Cap 24 - O Rico e O Pobre no Evangelho - Parte 7


A PROPRIEDADE

“VEDE POIS COMO OUVIS; PORQUE A QUALQUER QUE TIVER LHE SERÁ DADO, E A QUALQUER QUE NÃO TIVER ATÉ O QUE PARECE TER LHE SERÁ TIRADO.” LUCAS 8:18  

“PORQUE NADA TROUXEMOS PARA ESTE MUNDO, E MANIFESTO É QUE NADA PODEMOS LEVAR DELE.” TIMÓTEO 6:7

Muitas vezes, queremos ser felizes abarcando todas as possibilidades. Passamos os dias na vida criando fantasias e ilusões, querendo a felicidade que está nas mãos dos outros. O egoísta fala de seu tesouro e exalta as posses precárias, o avarento refere-se a mesquinhas preocupações, o esbanjador demonstra apetites insaciáveis, o fanático repete pedidos loucos. E sempre foi assim.

Desde os primeiros tempos da família humana existem criaturas confundidas nos falsos valores do mundo. Achamos que isso é alegria, mas não é alegria verdadeira, é uma alegria mesclada de sofrimento.

Basta meditarmos alguns minutos apenas na transitoriedade de tudo o que palpita no campo das formas para compreendermos a soberania do espírito. Um dos apóstolos perguntou a Jesus se não poderia ensiná-los a orar. Ele ofereceu a oração que conhecemos bem e que diz “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Ora, se fossem necessários mais recursos para sermos felizes Jesus os teria acrescentado.

Por isso, é que se sabemos avaliar o que detemos, e que se constitui nossas posses, temos que saber compreender o que efetivamente temos. O que temos permanece conosco, intransferível, e é nossa propriedade. Conseguiu entender? Propriedade nossa é aquilo que trazemos e levamos conosco no regime das reencarnações. Isto é, é o que trazemos quando reencarnamos e levamos quando desencarnamos. Temos como legítima propriedade o que se incorpora ao nosso patrimônio espiritual, temos o que é espiritual, o que a nós se incorpora. Então, vamos gravar bem: o que é espiritual, o que a nós se incorpora, temos. E tudo quanto está fora de nós, não temos! Assim, todos os bens espirituais que ajuntarmos em nós mesmos, como sejam as virtudes e o conhecimento, constituem valores inalienáveis a permanecerem conosco sempre.

Você se lembra do que falamos acerca da coroa e da coluna quando estudamos a fé? Que recebendo, a criatura ganha o título, e oferecendo ela ganha a autoridade? Deu prá lembrar? Pois é, nós temos a posse (provisória) do que recebemos e temos a propriedade (definitiva) do que damos. Não quer dizer que devemos transitar pelas estradas terrenas sem possuir, mas sem dúvida temos que oferecer.

Porque tudo o que você oferece (e você só pode dar aquilo que tem como propriedade) de algum modo você apresenta certo direito de posse, embora você não detenha aquilo com você. Por exemplo: é quase impossível, em tese, você iluminar o caminho de alguém sem iluminar o seu próprio. O resultado é que nós possuímos o que damos, não o que recebemos. Você só possui com legitimidade o que você dá. Você pode ler todos os livros de uma biblioteca, todavia, só se incorpora ao seu patrimônio o que você assimila ao nível operacional, relativamente ao aprendizado. Por isso, não há formação sem doação.

Se estiver tendo alguma dúvida, releia o capítulo A Conversão. O importante é entender que enquanto ficarmos apenas no desejo obcecado de ter não passamos de criaturas famintas e destituídas de tudo. Porque, vamos frisar, só possuímos aquilo que damos. Sem contar que a fixação do que recebo vai depender da minha capacidade de dinamizar e transferir. Não recebemos nada da vida para ficar guardado na gaveta, a não ser alguns documentos, a concessão do que recebemos é sempre relativa, é para o trabalho. É preciso começar a implementar valores a partir das mínimas coisas. Vamos lembrar do Cristo, que falou aos seus discípulos: “tende bom ânimo, eu venci o mundo”. Tal expressão implica virtualmente a ideia de que os seus seguidores devem vencer como ele venceu.

As águas correm mesmo para o mar. Se, por um lado, aquilo que não se tem, e até o que se parece que tem, é tirado, do contrário, “a qualquer que tiver lhe será dado”.

O ensinamento é belíssimo. Se no propósito de atingir vantagens transitórias no campo carnal, no plano da inquietação injusta, dá-se o nome de insensatez, a ambição de alcançar os valores espirituais de acordo com Jesus chama-se virtude. E a virtude é sempre a sublime e imorredoura aquisição do espírito nas estradas da vida, incorporada eternamente aos valores, conquistados pelo trabalho no esforço próprio.

E, afinal de contas, o que “lhe será dado?” A possibilidade de fazer crescer os valores reais. A possibilidade de fazer crescer o que se tem como propriedade (inverso da posse, que é tirada). Quanto mais a pessoa possui mais facilidade experimenta em aumentar e multiplicar. Uma vitória sobre uma tendência negativa ou uma tentação, por exemplo, dá forças e condições para alcançar outras conquistas. Temos que nos alegrar. Aquele que tem é que na verdade vem recebendo, e a multiplicação, presente em todas as formas e ambientes, é um grande dom de Deus à vida.

A morte é um grande chamamento à vida. E, também, uma interrogação para muitos. Não tenho dúvida de que em algum momento cada qual já perguntou a si próprio: “O que levarei comigo?” Paulo nos responde: “Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele.” (Timóteo 6:7)

Se os espíritos reencarnados que somos não trazem consigo quaisquer propriedades materiais para este mundo, manifesto é que nenhuma delas poderão levar dele. Acho que isso basta como razão para crescermos na virtude e incorporarmos sabedoria, porque algum dia seremos visitados pela mão niveladora da morte e possuiremos tão somente as qualidades nobres ou aviltantes que houvermos instalado em nós mesmos. Levaremos para o plano espiritual somente aquilo que realmente temos, e que não pode ser retirado de nós (a posse é subtraída, a propriedade fica). Após as transformações impostas pelo sepulcro, só a riqueza espiritual, adquirida nas situações de trabalho árduo, de profunda compreensão, de vitória sobre si mesmo e de esforço incessante, conferirá ao espírito a posição de ascendência e de bem estar permanente.

O que conta é o que guardamos dentro de nós, tudo mais há de ficar com o corpo, que se desfará em pó. Os tesouros de nosso espírito serão só aqueles que houvermos amealhado em nós próprios, no campo da educação e das boas obras.

Se a paz da criatura não consiste na fartura do que possui na Terra, depende da abundância de valores definitivos de que a alma é possuída. Nossa vida não consiste na riqueza numérica de coisas e graças, aquisições nominais e títulos exteriores. Nossa paz e felicidade dependem do uso que fizermos, onde nos encontramos hoje, aqui e agora, das oportunidades e dons, situações e favores, recebidos do alto. Jesus nos encheu de sua presença sublime, não para possuirmos facilidades efêmeras, mas para sermos possuídos pelas riquezas imperecíveis, não para que nos cerquemos de favores externos, e, sim, para concentrarmos em nós mesmos as aquisições definitivas. Vamos alterar um pouquinho a nossa forma de agir, considerar as questões materiais como instrumentos para a evolução, e não apenas como prisão para nosso espírito.

Fundamentar nossa vida no que é duradouro, crescer interiormente, adquirir valores que sejam eternos. Vamos usar o que a gente vê para entesourar o que ainda não podemos ver. Aprender a conservar no íntimo os valores da vida.

A maior riqueza que existe não é o fato de possuirmos, mas o fato de mantermos aquela proposta íntima de crescimento. A riqueza máxima aqui é a esperança e a fé que estamos cultivando nas conquistas novas, com vistas a uma renovação e libertação.

O êxito mundano pode não passar de uma ondulação de superfície. Ainda não se viu nenhum homem no planeta, que somente pelo fato de estar cercado de tesouros infrutíferos, se livrasse das leis que regem o sofrimento e a enfermidade, a velhice e a morte. Não vale a pena tanta luta e tanto desgaste por algo que na essência não acrescenta nada. Os bens e os prazeres transitórios são realidades do momento, e muitos deles podem se tornar pesadelos no futuro.

Você consegue imaginar quantos indivíduos, dominados pelo orgulho, despertaram após a morte desorientados e infelizes nas trevas em que amontoaram em si mesmos, e com uma imensa carga de trabalho a fazer em prol da própria libertação? Patrimônios efêmeros do plano material muitas vezes não passam de sombra coagulada em torno do coração. Para que se manter unicamente nos tormentos do supérfluo que a avareza retém, e com os olhos voltados a necessidade de fantasias? Alguém pode conquistar muitos títulos, muitas casas, diversos carros, fazendas, casas de campo e empresas, todavia, uma simples célula cancerígena que apareça no corpo pode jogar tudo no chão.

Não quero exagerar, mas sob a terra tudo é ilusão, tudo passa e se transforma de um instante para o outro. Não vale a pena encarcerarmos o nosso próprio espírito nos apegos indevidos. Não vale. Acordemos a tempo. O que necessitamos, em todas as situações, é entender o que o Pai deseja de nós.

A nossa condição é de simples usufrutuário do mundo, e cada inteligência dará conta dos recursos que lhe foram confiados. O dono do pomar não comerá dos frutos senão a quota compatível com os recursos do estômago. Logo, nessa ou naquela vantagem efêmera que te felicite o caminho entre os homens, usa as possibilidades da vida sem a presunção de te assenhoreares daquilo que Deus te empresta. Trabalhe, mas sem se prender ao anseio das vitórias imediatas. Não encarceres o dinheiro para que o dinheiro não te encarcere. Deixa que o dinheiro de passagem por tuas mãos se faça de bênção de trabalho e educação, caridade e socorro, como o ar que respiras e não o furta aos pulmões dos outros, e perceberás que o dinheiro, na origem, é propriedade simples de Deus. É claro que essa ideia parece uma loucura aos ouvidos dos materialistas e dos homens de negócio, todavia é um programa adequado para quem já descobriu outra espécie de riqueza, muito mais acima. 

Você poderá dispor de muitas propriedades, mas avalia o modo como utiliza os patrimônios provisórios.Não procure amontoar levianamente o que deténs por empréstimo. Mobiliza com critério os recursos depositados em tuas mãos. São felizes os que escolheram a boa parte dos valores, pois não lhes será tirada, e poderão transportá-la para depois do túmulo. Vamos partir para o além com os tesouros da alma. No momento da morte nada nos valerá tanto quanto a consciência tranquila.

O senhor não te identificará pelos tesouros que ajuntaste, pelas bênçãos que retiveste e pelos anos que viveste no corpo físico. Reconhecer-te-á pelo emprego dos tens dons, pelo valor de tuas realizações, pela forma como trataste os semelhantes e pelas obras que deixaste em torno dos seus próprios pés.

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