3 de jun de 2012

Cap 24 - O Rico e O Pobre no Evangelho - Parte 7


A PROPRIEDADE

“VEDE POIS COMO OUVIS; PORQUE A QUALQUER QUE TIVER LHE SERÁ DADO, E A QUALQUER QUE NÃO TIVER ATÉ O QUE PARECE TER LHE SERÁ TIRADO.” LUCAS 8:18  

“PORQUE NADA TROUXEMOS PARA ESTE MUNDO, E MANIFESTO É QUE NADA PODEMOS LEVAR DELE.” TIMÓTEO 6:7

Muitas vezes, queremos ser felizes abarcando todas as possibilidades. Passamos os dias na vida criando fantasias e ilusões, querendo a felicidade que está nas mãos dos outros. O egoísta fala de seu tesouro e exalta as posses precárias, o avarento refere-se a mesquinhas preocupações, o esbanjador demonstra apetites insaciáveis, o fanático repete pedidos loucos. E sempre foi assim.

Desde os primeiros tempos da família humana existem criaturas confundidas nos falsos valores do mundo. Achamos que isso é alegria, mas não é alegria verdadeira, é uma alegria mesclada de sofrimento.

Basta meditarmos alguns minutos apenas na transitoriedade de tudo o que palpita no campo das formas para compreendermos a soberania do espírito. Um dos apóstolos perguntou a Jesus se não poderia ensiná-los a orar. Ele ofereceu a oração que conhecemos bem e que diz “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Ora, se fossem necessários mais recursos para sermos felizes Jesus os teria acrescentado.

Por isso, é que se sabemos avaliar o que detemos, e que se constitui nossas posses, temos que saber compreender o que efetivamente temos. O que temos permanece conosco, intransferível, e é nossa propriedade. Conseguiu entender? Propriedade nossa é aquilo que trazemos e levamos conosco no regime das reencarnações. Isto é, é o que trazemos quando reencarnamos e levamos quando desencarnamos. Temos como legítima propriedade o que se incorpora ao nosso patrimônio espiritual, temos o que é espiritual, o que a nós se incorpora. Então, vamos gravar bem: o que é espiritual, o que a nós se incorpora, temos. E tudo quanto está fora de nós, não temos! Assim, todos os bens espirituais que ajuntarmos em nós mesmos, como sejam as virtudes e o conhecimento, constituem valores inalienáveis a permanecerem conosco sempre.

Você se lembra do que falamos acerca da coroa e da coluna quando estudamos a fé? Que recebendo, a criatura ganha o título, e oferecendo ela ganha a autoridade? Deu prá lembrar? Pois é, nós temos a posse (provisória) do que recebemos e temos a propriedade (definitiva) do que damos. Não quer dizer que devemos transitar pelas estradas terrenas sem possuir, mas sem dúvida temos que oferecer.

Porque tudo o que você oferece (e você só pode dar aquilo que tem como propriedade) de algum modo você apresenta certo direito de posse, embora você não detenha aquilo com você. Por exemplo: é quase impossível, em tese, você iluminar o caminho de alguém sem iluminar o seu próprio. O resultado é que nós possuímos o que damos, não o que recebemos. Você só possui com legitimidade o que você dá. Você pode ler todos os livros de uma biblioteca, todavia, só se incorpora ao seu patrimônio o que você assimila ao nível operacional, relativamente ao aprendizado. Por isso, não há formação sem doação.

Se estiver tendo alguma dúvida, releia o capítulo A Conversão. O importante é entender que enquanto ficarmos apenas no desejo obcecado de ter não passamos de criaturas famintas e destituídas de tudo. Porque, vamos frisar, só possuímos aquilo que damos. Sem contar que a fixação do que recebo vai depender da minha capacidade de dinamizar e transferir. Não recebemos nada da vida para ficar guardado na gaveta, a não ser alguns documentos, a concessão do que recebemos é sempre relativa, é para o trabalho. É preciso começar a implementar valores a partir das mínimas coisas. Vamos lembrar do Cristo, que falou aos seus discípulos: “tende bom ânimo, eu venci o mundo”. Tal expressão implica virtualmente a ideia de que os seus seguidores devem vencer como ele venceu.

As águas correm mesmo para o mar. Se, por um lado, aquilo que não se tem, e até o que se parece que tem, é tirado, do contrário, “a qualquer que tiver lhe será dado”.

O ensinamento é belíssimo. Se no propósito de atingir vantagens transitórias no campo carnal, no plano da inquietação injusta, dá-se o nome de insensatez, a ambição de alcançar os valores espirituais de acordo com Jesus chama-se virtude. E a virtude é sempre a sublime e imorredoura aquisição do espírito nas estradas da vida, incorporada eternamente aos valores, conquistados pelo trabalho no esforço próprio.

E, afinal de contas, o que “lhe será dado?” A possibilidade de fazer crescer os valores reais. A possibilidade de fazer crescer o que se tem como propriedade (inverso da posse, que é tirada). Quanto mais a pessoa possui mais facilidade experimenta em aumentar e multiplicar. Uma vitória sobre uma tendência negativa ou uma tentação, por exemplo, dá forças e condições para alcançar outras conquistas. Temos que nos alegrar. Aquele que tem é que na verdade vem recebendo, e a multiplicação, presente em todas as formas e ambientes, é um grande dom de Deus à vida.

A morte é um grande chamamento à vida. E, também, uma interrogação para muitos. Não tenho dúvida de que em algum momento cada qual já perguntou a si próprio: “O que levarei comigo?” Paulo nos responde: “Porque nada trouxemos para este mundo, e manifesto é que nada podemos levar dele.” (Timóteo 6:7)

Se os espíritos reencarnados que somos não trazem consigo quaisquer propriedades materiais para este mundo, manifesto é que nenhuma delas poderão levar dele. Acho que isso basta como razão para crescermos na virtude e incorporarmos sabedoria, porque algum dia seremos visitados pela mão niveladora da morte e possuiremos tão somente as qualidades nobres ou aviltantes que houvermos instalado em nós mesmos. Levaremos para o plano espiritual somente aquilo que realmente temos, e que não pode ser retirado de nós (a posse é subtraída, a propriedade fica). Após as transformações impostas pelo sepulcro, só a riqueza espiritual, adquirida nas situações de trabalho árduo, de profunda compreensão, de vitória sobre si mesmo e de esforço incessante, conferirá ao espírito a posição de ascendência e de bem estar permanente.

O que conta é o que guardamos dentro de nós, tudo mais há de ficar com o corpo, que se desfará em pó. Os tesouros de nosso espírito serão só aqueles que houvermos amealhado em nós próprios, no campo da educação e das boas obras.

Se a paz da criatura não consiste na fartura do que possui na Terra, depende da abundância de valores definitivos de que a alma é possuída. Nossa vida não consiste na riqueza numérica de coisas e graças, aquisições nominais e títulos exteriores. Nossa paz e felicidade dependem do uso que fizermos, onde nos encontramos hoje, aqui e agora, das oportunidades e dons, situações e favores, recebidos do alto. Jesus nos encheu de sua presença sublime, não para possuirmos facilidades efêmeras, mas para sermos possuídos pelas riquezas imperecíveis, não para que nos cerquemos de favores externos, e, sim, para concentrarmos em nós mesmos as aquisições definitivas. Vamos alterar um pouquinho a nossa forma de agir, considerar as questões materiais como instrumentos para a evolução, e não apenas como prisão para nosso espírito.

Fundamentar nossa vida no que é duradouro, crescer interiormente, adquirir valores que sejam eternos. Vamos usar o que a gente vê para entesourar o que ainda não podemos ver. Aprender a conservar no íntimo os valores da vida.

A maior riqueza que existe não é o fato de possuirmos, mas o fato de mantermos aquela proposta íntima de crescimento. A riqueza máxima aqui é a esperança e a fé que estamos cultivando nas conquistas novas, com vistas a uma renovação e libertação.

O êxito mundano pode não passar de uma ondulação de superfície. Ainda não se viu nenhum homem no planeta, que somente pelo fato de estar cercado de tesouros infrutíferos, se livrasse das leis que regem o sofrimento e a enfermidade, a velhice e a morte. Não vale a pena tanta luta e tanto desgaste por algo que na essência não acrescenta nada. Os bens e os prazeres transitórios são realidades do momento, e muitos deles podem se tornar pesadelos no futuro.

Você consegue imaginar quantos indivíduos, dominados pelo orgulho, despertaram após a morte desorientados e infelizes nas trevas em que amontoaram em si mesmos, e com uma imensa carga de trabalho a fazer em prol da própria libertação? Patrimônios efêmeros do plano material muitas vezes não passam de sombra coagulada em torno do coração. Para que se manter unicamente nos tormentos do supérfluo que a avareza retém, e com os olhos voltados a necessidade de fantasias? Alguém pode conquistar muitos títulos, muitas casas, diversos carros, fazendas, casas de campo e empresas, todavia, uma simples célula cancerígena que apareça no corpo pode jogar tudo no chão.

Não quero exagerar, mas sob a terra tudo é ilusão, tudo passa e se transforma de um instante para o outro. Não vale a pena encarcerarmos o nosso próprio espírito nos apegos indevidos. Não vale. Acordemos a tempo. O que necessitamos, em todas as situações, é entender o que o Pai deseja de nós.

A nossa condição é de simples usufrutuário do mundo, e cada inteligência dará conta dos recursos que lhe foram confiados. O dono do pomar não comerá dos frutos senão a quota compatível com os recursos do estômago. Logo, nessa ou naquela vantagem efêmera que te felicite o caminho entre os homens, usa as possibilidades da vida sem a presunção de te assenhoreares daquilo que Deus te empresta. Trabalhe, mas sem se prender ao anseio das vitórias imediatas. Não encarceres o dinheiro para que o dinheiro não te encarcere. Deixa que o dinheiro de passagem por tuas mãos se faça de bênção de trabalho e educação, caridade e socorro, como o ar que respiras e não o furta aos pulmões dos outros, e perceberás que o dinheiro, na origem, é propriedade simples de Deus. É claro que essa ideia parece uma loucura aos ouvidos dos materialistas e dos homens de negócio, todavia é um programa adequado para quem já descobriu outra espécie de riqueza, muito mais acima. 

Você poderá dispor de muitas propriedades, mas avalia o modo como utiliza os patrimônios provisórios.Não procure amontoar levianamente o que deténs por empréstimo. Mobiliza com critério os recursos depositados em tuas mãos. São felizes os que escolheram a boa parte dos valores, pois não lhes será tirada, e poderão transportá-la para depois do túmulo. Vamos partir para o além com os tesouros da alma. No momento da morte nada nos valerá tanto quanto a consciência tranquila.

O senhor não te identificará pelos tesouros que ajuntaste, pelas bênçãos que retiveste e pelos anos que viveste no corpo físico. Reconhecer-te-á pelo emprego dos tens dons, pelo valor de tuas realizações, pela forma como trataste os semelhantes e pelas obras que deixaste em torno dos seus próprios pés.

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