16 de jun de 2012

Cap 24 - O Rico e O Pobre no Evangelho - Parte 11 (Final)


A HUMILDADE E A HUMILHAÇÃO

“E DISSE: EM VERDADE VOS DIGO QUE, SE NÃO VOS CONVERTERDES E NÃO VOS FIZERDES COMO MENINOS, DE MODO ALGUM ENTRAREIS NO REINO DOS CÉUS.” MATEUS 18:3

Eu tenho um amigo, que até algum tempo atrás, quando mantínhamos conversas regulares acerca do evangelho, trazia consigo a seguinte concepção: Se um indivíduo mora longe, em uma casinha super simples, se quase não tem recursos materiais, se veste roupas surradas e simplórias, se tem alimentação desprovida de componentes essenciais, este sim, para ele é o verdadeiro humilde.

De fato, essa é uma conceituação extremamente deficitária e incorreta. Não que uma pessoa com essas características não seja humilde. Não tem nada disso, ela pode perfeitamente ser. O que quero dizer é que muitas vezes ocorre, e até com nós mesmos, de vermos e analisarmos como humildade algo que não é humildade, mas humilhação. Isso mesmo, misturamos humilhação com humildade.

Imagine uma grande empresa. Em uma sala ampla funcionários da diretoria e graduados se preparam para uma reunião importante. Poucos minutos antes do começo entra, cabisbaixo, um funcionário uniformizado, semblante abatido, tímido: “Vocês me desculpem, o diretor pediu que eu limpasse a mesa.” No meio dos circunstantes, alguém pode pensar: “Nossa, esse é humilde.” A questão é que ele pode ser, como também pode não ser. O que é preciso é a gente saber distinguir a humildade da submissão, porque muitas vezes nós temos um sentido de humildade que se descaracteriza para a humilhação. E a humilhação, de forma alguma, ela é compatível com a humildade. Não é mesmo.

Tem muita gente que se humilha e não é humilde. Está conseguindo acompanhar? Tem muita gente que não aceita determinadas situações. Fica de cara fechada, encontra-se revoltada. “Ah, fazer o que? Eu não posso fazer isso mesmo, então, eu tenho que contentar.” Fala em contentar, mas da boca prá fora. Às vezes, está até mostrando para os outros que está tudo ótimo, que ele está muito bem, mas no fundo ele está é humilhado. Dá até pena. No fundo está um verdadeiro redemoinho dentro dele, um vulcão de incompreensão e de inconformação.

Este tipo de coisa acontece tanto. Nesses casos a humildade é entre aspas. É temporal, uma espécie de humildade circunstancial. Ou seja, é a circunstância da vida que impõe um comportamento daquela natureza. Porque o grande lance da humildade, a sua manifestação, é quando você pode fazer alguma coisa e não faz em nome de uma manifestação de humildade. Entendeu? Agora, você dar uma de humilde diante de uma situação em que você não tem como fugir não é humildade. Pois se você fugir você vai pagar um preço enorme.

Então, é “sim, senhor” prá lá, “sim, senhor” prá cá. Sim, senhor, porém, com uma humilhação total. O assunto é interessante e a submissão é aquela obediência imposta por algo ou alguém e é uma característica de estar sob o domínio de autoridade ou circunstância que constrange e bloqueia a iniciativa de espontaneidade da criatura, é estar sob o domínio de alguém ou algo que exerce poder. Podemos dizer que ela é uma circunstância aferidora, e muitas vezes a submissão é instrumento para que a criatura formule a humildade, afinal, a humildade tem que ser construída. Na submissão usamos o verbo de ligação estar.

De fato, pode ter muita gente que está passando por humilhação, no entanto, aquele que é humilde não tem razão nenhuma de humilhar-se. Se na humilhação referimo-nos ao verbo de ligação estar, na humildade o verbo é ser, ela constitui algo concreto, um estado alcançado pela adoção de uma postura de vida, define uma conquista e manutenção do espírito. Ela não é uma expressão que vamos avaliar por um ou outro momento determinado da vida.

Ser humilde não implica apenas momento, ser humilde é um estado de alma, é uma referência à natureza íntima do ser, é uma conquista efetivada. “Se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus.” (Mateus 18:3) Se surge uma situação e a criatura se faz humilde, se surge outra e ela adota uma postura de humildade, ela se torna humilde. Isto é, as circunstâncias vão fazendo as oportunidades e as vitórias íntimas no terreno reeducacional vão tornando a pessoa humilde. Logo, esse tornar-se humilde é uma conquista efetiva, vai sendo decorrente das situações de humildade, define uma modificação de um estado, decorre do esforço pessoal.

O sentido de humildade que se exercita não é ante aquilo que você não pode fazer. Ela se dá quando você pode fazer alguma coisa e não faz em nome de uma manifestação de humildade. Vamos exemplificar? Humildade é quando você tem recursos na mão e decide como Jesus decidiu. Lembra quando alguém o questionou, que se ele fosse o filho de Deus que descesse da cruz? Pelo que sabemos, Jesus não poderia alterar naquele momento todo o contexto da sua crucificação? Creio que não há dúvida nenhuma quanto a isto. Entretanto, ele desceu? Não, de forma alguma. Isso é que é humildade. Podia fazer, e não fez. Então, vamos repetir, o grande desafio da humildade é quando você pode fazer alguma coisa e não faz em nome da manifestação de humildade. A humildade pressupõe sempre uma escolha de atitude, ela pressupõe a liberdade de escolha na ação, ela é sempre um comportamento que pressupõe escolha e a distância básica entre a humildade e a submissão é a espontaneidade. Enquanto a submissão é a obediência imposta por algo ou alguém, a humildade é aquela espontaneidade trabalhada, em tese, pelo conhecimento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...