23 de jun de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 2


PREDISPOSIÇÃO PARA RECEBER

Uma das coisas mais importantes que nós precisamos entender quando estudamos o evangelho é que no mundo em que vivemos não existem vítimas, embora possa parecer que em todos os lugares transitam uma quantidade considerável delas.

A vida é um processo de eleição pessoal e todos nós elegemos os tipos de experiências em que nos propomos estagiar. O resultado é simples: seja nesta ou em alguma outra fase da evolução, discórdia e tranquilidade, ação e preguiça, erro e corrigenda, débito e resgate, representam frutos da nossa escolha.

Você se lembra que encerramos a parte 1 deste capítulo, pequena por sinal, dizendo que a misericórdia socorre a todos e em todos os ambientes, sem distinção?! De fato, sempre temos bons amigos na zona superior àquela em que nos encontramos, todavia, em certas circunstâncias nos afastamos voluntariamente deles. O que significa que prepostos de Jesus podem edificar o mesmo trabalho de sempre, porém encontram perturbação e resistência de nós próprios, beneficiados, razão pela qual a fonte de energias puras não pode ser responsabilizada pelos fenômenos que a deturpam. Você não pode culpar o não funcionamento de um radinho porque as pilhas colocadas dentro dele estão enferrujadas ou danificadas.

Já tivemos a oportunidade de estudar anteriormente que a justiça chega quando tem que chegar. E mais, que quando a justiça chega, porque semeamos inadequadamente no terreno do destino, ela não pede licença. Ela simplesmente vem, e ponto final. Não diz a alguém: “Olha, seu fulano, você se prepara porque eu vou chegar. Não sei se você se lembra, mas lá atrás, em uma época tal, você fez isso...” Não. Não tem nada disso. A justiça não é romântica e doce assim. Ela impõe de fora para dentro e realmente pode precipitar acontecimentos. Não espera pedir. Na hora que ela tem que bater, bate, porque tem que se cumprir a lei. Ou seja, cumpriu o período, venceu a promissória, a pessoa enfrenta a situação, com choro ou sem choro. Isso é a justiça, que pode entrar perfeitamente em um processo de equações e projeções matemáticas.

Agora, se a justiça impõe de fora para dentro, o amor espera de dentro para fora.

O amor é bem diferente, ele tem que aguardar, ele espera. Porque o amor apresenta uma característica muito específica de espontaneidade. Ele tem que ser aceito. Não dá para ser socado goela abaixo dentro da gente, ninguém pode ser obrigado a amar. Em se tratando de amor nenhum de nós pode ser forçado a amar. Esse é um processo que tem que se ouvir na intimidade do próprio coração, dentro da alma, razão pela qual é preciso adesão interna. Se justiça é imposição de fora para dentro, amor é questão manifesta de dentro prá fora. 

O Cristo disse “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Até aí, tudo bem, está claro, entendemos. No entanto, ele não designou lugar, não traçou condições, não estabeleceu roteiros, nem especificou tempo. Prometeu simplesmente o conhecimento à verdade, e para o acesso à verdade cada um tem o seu dia. A vida pede discernimento para se viver bem. Cada palavra tem a sua ocasião, como cada revelação o seu tempo. E muitos espíritos não alcançaram, ainda, o domínio próprio. Não possuem as emoções, antes, são possuídas por elas. Estão preparados para a consolação, não para a verdade, e somente são dignos da verdade plena aqueles que se encontram libertados das paixões.

Nos trabalhos de auxílio é necessário ter o bom senso de saber quando se efetivamente deva investir. Nem sempre vamos conseguir ajudar quem queremos.

Não adianta nós atropelarmos o mecanismo evolucional, temos que esperar o momento de decisão das pessoas. Porque ninguém está aqui para desativar o funcionamento da lei. Não podemos violentar quem quer que seja. A liberdade interior é apanágio de todos os filhos da criação e não é possível organizar precipitados serviços de socorro para todos os que caem nos precipícios dos sofrimentos por ação propositada, com plena consciência de suas atitudes. Isto precisa ser levado em conta. Não podemos interferir em um sistema de vida de alguém que ainda é o sistema de vida eleito por ele. Enquanto a vida de alguém for aquela que ele elegeu não há porque alterá-la. Assim, ninguém poderá ajudar aquele que se desajuda. Não será caridade o ato de dar aos que não querem receber. Precipitando acontecimento as situações não são alcançadas.

O âmbito do assunto é muito extenso, e o indivíduo complicado é retirado do nosso lado se não tiver condições de descomplicar-se. Em suma, não podemos falar com alguém que ele está em um estado equivocado e que ele tem que sair daquilo. Porque é a vida dele. Fazer o quê? Tem gente que elege a morte como sistema de vida. Não podemos tirar alguém da vida que ele está vivendo, e que para nós é morte, para tentar colocá-lo em uma vida que é pseudovida para ele, e que ele não vai se adequar, não vai se situar. Por quê? Porque enquanto alguém está na treva densa, e se deleita com isso, a treva é luz para ele.  Propicia vida plena para ele, embora aquele seja um estado de morte para quem já alcançou um degrau acima. Em muitas circunstâncias o companheiro que queremos ajudar se mostra sob o domínio de enganos tão extensos que a forma de ajudá-lo é esperar que a vida lhe renove o campo do espírito.

O problema é criado quando o indivíduo descobre a morte e se deleita nela. Primeiro, nós temos que notar se ele já tem um potencial para sair daquela treva. Por isso, quando um professor vai trabalhar ele precisa saber os potenciais do aluno. Jesus disse que não déssemos “pérolas aos porcos”, porque não adianta você lançar luz num coração que ainda está meio apagado em sua ótica, todavia, para ele há uma luz enorme lá. Esse é um grande problema.

Às vezes, a pessoa que você quer auxiliar, e que está no escuro, não aguenta mais do que a luzinha de um palito de fósforo, ou de uma lanterninha, e você chega com todo o entusiasmo e predisposto a jogar um farol de carro naquele coração.

Se quisermos evoluir, preparemo-nos!

Temos que ajustar a nossa linha íntima para podermos entrar no plano e faixa de vibração. É preciso uma proposta operacional da nossa parte, porque da parte de lá para cá, por misericórdia, não pode haver violência, de forma alguma.

Jesus Cristo, efetivamente, é aquele que vem ao nosso encontro, mas só é capaz de nos ajudar se criarmos uma abertura no plano da percepção. Todavia, ante o nosso desânimo, a nossa indiferença e indisposição, vamos notar que ele praticamente permanece a espera no plano espiritual das nossas decisões pessoais.

Este assunto é muito bonito e significativo. Por isso, os gênios celestes podem trazer o mais belo e eficiente socorro aos espíritos em sombra, mas, segundo a lei eterna, os necessitados só podem receber os divinos benefícios se estiverem dispostos a aderir, por si mesmos, aos trabalhos do bem. Em primeiro lugar, a construção do receptáculo, para, em seguida, a chegada da bênção.

Não há como ser diferente. A própria capacidade nossa de perceber o que vem do alto depende de uma preparação interior. Quando a sinceridade e a boa vontade se irmanam dentro de um coração faz-se no santuário íntimo a luz espiritual para a sublime compreensão da verdade.

Em geral, a misericórdia se direciona ao encontro dos que estão levantando a bandeira da reparação. Se tivéssemos que dar uma definição objetiva da misericórdia, diríamos que ela é um fio invisível, uma vibração que liga Deus aos infelizes sob o limiar da esperança. Liga aquele que apresenta capacidade de auxiliar com aquele que se encontra em predisposição de receber. Esta é a palavra chave, predisposição. Toda aquisição sem esforço é caminho para a derrota. A salvação só é importante para os que desejam salvar-se e os parâmetros de atendimento espiritual não podem atropelar as disposições humanas.

É indispensável nos colocarmos em determinada posição receptiva a fim de compreendermos a infinita bondade. A luz sempre se direciona para as trevas e isso não é novidade para ninguém. Agora, o que nem todos sabem é que os espíritos de luz não entram no abismo para precipitar a evolução. Entram para acolher os que lá se encontram em predisposição de receber, objetivam atender a quem estava com a luz e ela apagou. Não se assuste, mas é razoável que as missões de auxílio nos abismos recolham apenas os predispostos a receber o socorro elevado. Quanto aos demais? Bem, aos outros não faltarão providências de Jesus em outra parte. Muitas vezes não há outro recurso para certas criaturas senão deixá-las nos precipícios das trevas, onde serão naturalmente compelidas a reajustarem-se, dando ensejo a pensamentos dignos.

Enquanto isso, a misericórdia não se perturba e espera a adesão das criaturas em mudar. E quando nos predispomos o auxílio nos alcança diretamente. Os anjos sempre inspiram os homens quando estes se põem em condições de recebê-los.

Não significa que o criador estabelece prerrogativas injustificáveis para amar. De forma alguma, ele não espera por nossas rogativas para nos amar, pois a sua proteção se estende a todos indistintamente. O que ocorre é que nem todos estão dispostos a receber este amor. Muitos se fecham no egoísmo e na vaidade, na intransigência e na inconformação, envolvendo o íntimo em sombras densas. E quando as criaturas não querem, quando as almas reencarnadas se revelam impermeáveis ao reconhecimento e à compreensão, distanciam-se os espíritos superiores delas, de forma natural, ainda que representem para eles valiosas joias do coração, até que se integrem no conhecimento das leis de Deus e se disponham a segui-las na companhia deles.

Os maus que parecem felizes na própria maldade, por exemplo, são aqueles sofredores perversos e endurecidos de todos os tempos, que apesar de reconhecerem a decadência espiritual de si mesmos criam perigosa crosta de insensibilidade em torno do coração. Desesperados e desiludidos, abrigando venenosa revolta, atiram-se à onda torva do crime, até que um novo raio de luz lhes desabroche no céu da consciência. Mas a misericórdia e a compaixão não faltam em hipótese nenhuma. Em muitos casos, nas corrigendas indispensáveis, a dor funciona como medida de auxílio, razão pela qual nós não podemos desconsiderar a dor que instrui e ajuda a transformar os homens para o bem.

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