30 de jul de 2012

Cap 26 - Livre-Arbítrio - Parte 1


LIVRE-ARBÍTRIO

“16E ORDENOU O SENHOR DEUS AO HOMEM, DIZENDO: DE TODA A ÀRVORE DO JARDIM COMERÁS LIVREMENTE, 17MAS DA ÀRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL, DELA NÃO COMERÁS; PORQUE NO DIA EM QUE DELA COMERES, CERTAMENTE MORRERÁS.” GÊNESES 1:16-17

“TODAS AS COISAS ME SÃO LÍCITAS, MAS NEM TODAS AS COISAS CONVÉM. TODAS AS COISAS ME SÃO LÍCITAS, MAS EU NÃO ME DEIXAREI DOMINAR POR NENHUMA.” I COR 6:12

“TODAS AS COISAS ME SÃO LÍCITAS, MAS NEM TODAS AS COISAS CONVÊM; TODAS AS COISAS ME SÃO LÍCITAS, MAS NEM TODAS AS COISAS EDIFICAM.” I COR 10:23

A palavra arbítrio refere-se àquela resolução que depende unicamente da vontade. Nada mais. Sendo assim, livre-arbítrio é a liberdade de manifestação das ações humanas, diz respeito ao poder que cada individualidade tem de decidir e agir por si mesmo, de ser independente. Daí, vamos notar que Deus confia à consciência a escolha do caminho que devamos seguir, bem como a liberdade de ceder a uma ou outra das influências contrárias que se exercem sobre nós.

Assim funciona o mecanismo a nosso próprio benefício. Sem a existência do mal nós ficaríamos privados do direito de escolha, além do que, a criatura só vai provar se aprendeu realmente sofrendo o assédio. Trata-se de concessão ímpar. Alcançando a razão, por atestado de madureza própria, o espírito é chamado ao livre-arbítrio, como um filho que atingiu a maioridade na criação divina.

E chegado a essa fase ilumina-se pela chama interior do discernimento para a aquisição das experiências que lhe cabe realizar, de modo a erguer os seus próprios méritos, podendo escolher o caminho reto ou sinuoso, claro ou escuro em que mais se apraza. Os espíritos foram criados por Deus simples e ignorantes, com tanta aptidão para o bem quanto para o mal, e eles não precisam passar pela experiência do mal para chegarem ao bem. Passam, sim, pela ignorância, e livre-arbítrio representa o fator de escolha do caminho a seguir.

“Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convém. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma” (I Coríntios 6:12). Interessante isto. Tudo me é lícito indica que tudo pode ser feito, que não existe restrição no plano educacional do ser. Somos livres na escolha do caminho e o uso dessa faculdade decorre das aspirações elevadas ou egoístas que norteiam a individualidade. A restrição é de forma velada e está embutida no “mas”. Veja bem, como não há violência no império do amor, como não há violência de cima para baixo, todo homem tem o direito de utilizar-se do seu livre-arbítrio da forma que quiser. E é aí que está a chave da questão, o problema não é a licitude, o que podemos ou não fazer, pois podemos tudo.

O problema está na conveniência, saber avaliar e decidir, pois o que é conveniente para alguns pode não ser para nós. Por preferir certa realização, cada um investe em correspondente recurso e o livre-arbítrio realmente é uma faculdade que expressa o estado evolutivo do ser. Só não podemos esquecer que se trata de concessão divina de caráter relativo, não absoluto, e que não pode ser facultado sem a responsabilidade por aquele que o utiliza. Que na esteira do destino todos escolhem e plantam. E todos colhem. E que das respectivas ações resultam os frutos amargos ou apetecíveis do que foi lançado. 

Se todo ser humano tem o direito de opção e de escolha, pode utilizar essa liberdade da forma que achar conveniente, até mesmo para se comprometer. Trata-se de livre-arbítrio, que tem caráter relativo, porque cada qual, conforme as suas ações terá o ensejo oportuno de reparar, recomeçar e libertar-se. E o livre-arbítrio é prerrogativa relativa porque acima dele vigora o determinismo, que preceitua que todos nós estamos determinados a evoluir, determinismo que, por sua vez, se fundamenta no componente absoluto do amor. Determinismo este que também não é absoluto, diante dos recursos da liberdade de escolha que está sempre alterando o destino e os rumos da nossa vida.

Caminhamos o tempo todo elaborando sonhos e projetos. Só precisamos de critério na formação dos planos de ação, porque acreditemos ou não, aceitemos a verdade ou a recusemos, seja errando para aprender ou acertando para nos elevar, não vamos necessariamente até onde definimos como objetivo, mas a nossa tarefa chegará simplesmente até o ponto em que o Senhor permitir. Nenhum passo a mais. “Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo.” (Tiago 4:15) Além do que, se a criatura humana dispõe do livre-arbítrio para criar o destino, é fato que cada individualidade, nesse ou naquele plano de existência, atua num campo determinado de tempo.

Nada é para sempre. A vida é dinâmica. Tiranos e santos, malfeitores e heróis, atingem sempre um limite da estrada em que o mundo maior lhes impõe uma pausa para exame. E quando chega a esse ponto não tem jeito. Todas as grandes figuras de ontem e todas as grandes personalidades do hoje na terra conheceram e sempre conhecerão o momento em que a vida lhes adverte: “não mais além.” E a oração que aprendemos diz “pai nosso, seja feita a tua vontade”. Tem disso, a gente aprende que não há limite no uso do livre-arbítrio, então, vai. Só que às vezes nós somos torpedeados em nossos ideais porque a espiritualidade entende que nós vamos nos complicar, vamos criar desajuste em torno dos nossos pés, e ela nos cerca em determinadas ocasiões, de modo a impedir que determinados fatos negativos venham a nos acontecer.

Cada qual tem o seu livre-arbítrio e individualidade nenhuma pode interferir negativamente no processo evolucional de qualquer criatura. É algo tão importante que eu vou até repetir: embora nem sempre pareça, não se pode interferir negativamente na dinâmica evolucional de quem quer que seja. A liberdade de alguém termina onde começa outra, e cada um responderá por si, um dia, diante da verdade divina. Preste bastante atenção: arbitrário é o que independe de lei ou regra e resulta apenas do arbítrio ou mesmo do capricho pessoal, e o livre-arbítrio é livre até o momento em que ele passa para a arbitrariedade.

Acompanhou? Em um planeta ainda de provas e expiações, onde não existem vítimas, a arbitrariedade somente é aceita pelo plano superior enquanto os ultrajados encontram-se sob o jugo da lei, enquanto ainda estão pagando aqueles que têm dívidas com o destino. Não se pode afligir quem não deve. O livre-arbítrio é respeitado, no entanto, não é permitida a arbitrariedade dentro de uma área em que não compete às vítimas ou pacientes receberem a arbitrariedade.

Lembra-se de Saulo e as primeiras perseguições aos cristãos? Pois, então, alguns ele afligiu, mas quando ele foi atrás de Ananias a história mudou. Afinal, foi mexer com quem não devia à lei. De fato, cada individualidade responde pelos seus atos e o detentor de certa autoridade que exige mais do que lhe compete transforma-se em déspota que o Senhor corrigirá através das circunstâncias que lhe expressam os desígnios, no momento certo. Certeza que deve funcionar como fator de tranquilidade para que o servo do evangelho, em hipótese alguma, quebre o ritmo da harmonia e mantenha a  consciência em paz.

27 de jul de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 11 (Final)


A PROJEÇÃO DAS OBRAS

“4TENHO, PORÉM, CONTRA TI QUE DEIXASTE O TEU PRIMEIRO AMOR. 5LEMBRA-TE, POIS, DE ONDE CAÍSTE, E ARREPENDE-TE, E PRATICA AS PRIMEIRAS OBRAS; QUANDO NÃO, BREVEMENTE A TI VIREI, E TIRAREI DO SEU LUGAR O TEU CASTIÇAL, SE NÃO TE ARREPENDERES.” APOCALIPSE 2:4-5

“EU CONHEÇO AS TUAS OBRAS, E O TEU AMOR, E O TEU SERVIÇO, E A TUA FÉ, E A TUA PACIÊNCIA, E QUE AS TUAS ÚLTIMAS OBRAS SÃO MAIS DO QUE AS PRIMEIRAS.” APOCALIPSE 2:19

A gente não pode começar sem mencionar que o mestre disse “dá a quem te pede”.

É isto aí, você não leu errado. Dar a quem pede é bem diferente de dar o que se pede.

E para dar, para poder transformar o que recebemos de cima em recursos que no projetem para uma linha mais feliz, nós temos que utilizar os padrões que nos é possível.

Isto, sem falar que temos que passar esse suprimento alimentício dentro de uma linha de adequação, e que somente pela simplicidade conseguimos diagnosticar os focos de carência.

Outro detalhe relevante é quanto aos departamentos assistenciais. Num mundo de expiações e provas, caminhando a passos largos para a regeneração, estes não deveriam mais limitar-se a assistência social, porque a assistência social é um plano operacional bonito de amor, mas ineficiente quanto aos resultados. Hoje deveria ser assistência e, também, promoção social.

Você concorda? Uma sistemática eficiente que atenda as necessidades materiais do pão, da água, da roupa, e que, simultaneamente, promova o elemento auxiliado na luta de libertação da carência dele. Porque a caridade maior é a de iluminar as consciências humanas em dificuldade no sentido de não mais se comprometerem. Em uma linguagem simbólica, você oferta o alimento, mas também ensina quanto ao plantio do trigo e as técnicas de elaboração do pão. Ou seja, você auxilia de forma efetiva, ajuda o indivíduo a crescer.

Imagine um cooperador do plano físico desencarnando e chegando ao mundo espiritual dizendo: “Em minha experiência terrena eu estive vinculado a uma religião na qual realizei uma tarefa por bom período de tempo em que cuidei de aproximadamente duzentos necessitados. Cuidei deles.” E alguém pode dizer: “Tudo bem, isso é ótimo, muito bonito, mas eles estão necessitados até hoje.” Acompanhou o raciocínio? Nós vamos chegar ao final da tarefa e aqueles que atendemos vão continuar às portas de novo, pedindo. Talvez sem progresso, sem crescimento, sem melhoria real. Podemos até encontrar com alguns no futuro, mas com grande possibilidade de estarem ainda na mesma situação.

Se você avaliar com carinho vai notar que em quase todas as circunstâncias de nossa queda nós esquecemos a lei maior. Literalmente esquecemos a lei do Pai. Repare para você ver. Toda queda nossa se dá em razão do esquecimento à lei divina, que toda ela objetiva uma ação positiva para o encaminhamento da redenção dos seres. Parece muito esquisito, mas é a grande verdade, na proporção em que vão se refinando os conhecimentos intelectuais vamos tendo a impressão de que passa a haver menos respeito no homem para com as dádivas sagradas. Se a porta é estreita e o caminho é apertado não podemos desconsiderar a nossa condição de velhos reincidentes no abuso da lei. E cada um de nós vai observar que nos primeiros passos de edificação no bem ficamos suscetíveis de cair, pois não há, em tese, uma redenção de forma linear.

O que se dá é uma subida a uma escada, e com alguns tropeços, um crescimento estruturado como que em uma espiral.

E se por um lado a queda se dá pelo esquecimento, a ascensão se faz mediante a lembrança. Nada mais lógico, uma vez que é simplesmente impossível evoluir sem lembrar. Lembrar tem um sentido bastante aplicativo, equivale a pessoa reter consigo o que aprendeu em um sentido prático, de ação, diz respeito a assimilação para a implantação de um sistema novo de vida. Afinal, a propaganda nos ensina que o que não é visto não é lembrado, e aquilo que a gente não exercita a gente tende a esquecer. Logo, é preciso um trabalho de levantamento de nossas possibilidades, uma postura positiva no sentido de se aderir à capacidade operacional em nome dele. Lembrar para se reerguer.

A primeira caridade é “amar a Deus acima de todas as coisas”. Tudo bem, isso não é novidade, só que o amar a Deus é algo amplo demais, razão pela qual não dá para saber qual é a primeira caridade. Dá para saber? Não, não tem jeito, não é assim tão sistematizado. E tanto não é possível concluir qual é que o versículo nos sugere lembrar onde caímos (“Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras.” Apocalipse 2:4-5). É preciso lembrar onde caímos porque a primeira caridade vai se dar no âmbito da consciência de cada um.

A primeira caridade, nos movimentos iniciais de sensibilização para com o próximo, se encontra muito ligada ao impulso da própria consciência. São manifestações daquelas almas ansiosas que ainda se acham nas primeiras esperanças, em meio a disputas mais ásperas por arrebentarem o casulo das paixões inferiores na aspiração de subir. É um trabalho que se faz com um amor relativamente sumido e despercebido no contexto, uma ação no bem com um peso muito voltado ao nosso lado reeducacional, que apresenta uma ligação bem forte com a justiça. É aquela necessidade que sentimos no íntimo de fazer alguma coisa ao outro para resolvermos a nossa dificuldade, o nosso problema, motivo pelo qual fica difícil definir se agimos por justiça ou por amor.

E à medida que permanecemos na prática do amor, resolvendo ou desativando a dificuldade que está nos prendendo lá atrás, vamos notar que esses valores novos, positivos, vão ganhando corpo. Então, é o seguinte: no momento nós estamos trabalhando com os outros, na linha de cooperação, para resolver os nossos problemas. Tanto que nos primeiros lances o amor ainda apresenta um sentido muito forte de justiça. No futuro, com os nossos problemas resolvidos, passamos a atender o necessitado sem a marca e a lágrima do próprio débito anterior.

Na medida em que o débito interior vai sendo sanado (“o amor cobre a multidão de pecados”), nós respaldamos a justiça e abrimos o sol do amor, e vamos passando a atuar por amor. É bonito demais entender isto. Atestamos o amor pelo que fazemos e o amor surge nas linhas da espontaneidade. E este é o segredo do crescimento: as últimas obras passam a ser, naturalmente, maiores do que as primeiras. Claro, pois aquele que se encontra matriculado no plano do aprimoramento espiritual, da melhoria, do aperfeiçoamento, ele não pode estar conformado com si próprio, não pode estagnar, ele tem que sequenciar.

“E que as tuas últimas obras são mais do que as primeiras.” (Apocalipse 2:19) Ótimo, é uma beleza, é tudo que a gente quer. Crescimento, projeção. Só tem uma coisinha: na medida em que começamos a ver que as obras seguintes vão sendo maiores do que as anteriores, como é que a gente deixa a vaidade de lado?

Porque não dá outra. Imagine se alguém chegar perto de você, após ter recebido um atendimento seu, e falar: “Puxa, você me auxiliou e eu me senti tão bem”. E você diz: “Bem, o primeiro já apareceu. Vamos ver se aparece outro.” Não, sem essa, porque aí você já começa a empolgar-se e a se envolver totalmente num plano complexo e difícil. Não, você não precisa também sair com falsa humildade. É natural que você sinta dentro do coração um momento de alegria, de regozijo, por ter sido útil. Que bom, agradeçamos a Deus.

A vaidade se desativa é quando nós fazemos e sabemos nos calar. Quando operamos e silenciamos. E a primeira coisa que bate é o seguinte: sem o amparo e sem a sustentação o auxílio não seria possível. Normalmente, o indivíduo que é dotado de efetiva sabedoria ele cala. Abre a boca na hora certa, não dilui e nem torna inexpressiva a sabedoria dele. E vamos notar que nessa hora em que adquirimos esse sistema, que penetramos pelo calar no templo do silêncio, e as grandes filosofias orientalistas definem isso, e tem muita gente que não consegue captar, nós entramos no verdadeiro campo irradiador do amor.

23 de jul de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 10


A ESSÊNCIA DA CARIDADE

“DAI ANTES ESMOLA DO QUE TIVERDES.” LUCAS 11:41

“E DISSE PEDRO: NÃO TENHO PRATA NEM OURO; MAS O QUE TENHO ISSO TE DOU. EM NOME DE JESUS CRISTO, O NAZARENO, LEVANTA-TE E ANDA.” ATOS 3:6 

A cada instante nós somos chamados a exercer o amor ao próximo. Todavia, por enquanto o nosso amor ao próximo é um amor todo convencional, todo cheio de regras, todo sistematizado, todo mecanizado.

Um exemplo para clarear o que queremos dizer é o seguinte: Imagine um casal da cidade grande passeando por uma cidadezinha do interior. Um lugar bem pobre, um lugarejo, como se costuma dizer. O casal elegante desce do carro luxuoso e começa a caminhada por estradinha singela, quando se depara com um menino descalço, roupinha simples e sujo de poeira, que fala ao homem bem vestido:
-Moço, me dá um trocado?
-Que isso, menino, sai prá lá.
-Ôh, moço, só um trocado. É que eu estou com fome. Só um trocado prá eu comprar um pão na venda do seu João.
-Sai prá lá, menino, já falei. Não tenho dinheiro não.
-Eduardo Alberto (diz a esposa, a essa altura já indignada com a insensibilidade e frieza do marido). Para com isso! Não vê que o menino está com fome?! Dá logo um trocado prá ele.
E o homem enfia a mão no bolso, remexe os dedos e tira de lá algumas moedas, que dá ao garoto. 
-Toma, menino.

Aí, a gente pergunta, ao nível de esclarecimento. Neste caso em questão, houve caridade? O que você acha? A resposta é simples: não! De modo algum. Caridade é que não houve. Nós já tivemos a oportunidade de entender que caridade é o amor na sua faixa de aplicação. Então, o indivíduo deu a esmola, mas a caridade não circulou. Percebeu? Ele deu para ficar livre, e a gente observa que ali houve apenas uma transferência de valores, nada mais que isso.

Aliás, em algumas situações pode acontecer da própria moeda dada significar um grande desastre para nós.

Nas relações entre as pessoas o pedido de providência material tem o sentido e a utilidade oportuna, como resultante da lei de equilíbrio que preside o movimento das trocas no organismo da vida. Por isso, a nossa caridade surge em cima da esmola. A prática do bem exterior é um ensinamento e apelo para que cheguemos à prática do bem interior, ou seja, a esmola trabalha a intimidade do ser. Ela representa o componente canalizador da caridade, o instrumento que vai direcionar a caridade, que na sua essência não é material. De modo que as obras da caridade material somente alcançam a feição divina quando colimam a espiritualização do homem, renovando-lhe os valores íntimos.

Mas quem não exercita em dar alguma coisa dificilmente chegará um dia a doar-se.

A grande verdade é que a caridade não depende da bolsa, porque ela é fonte nascida no coração. Se você acredita que apenas o dinheiro é a base corrente da caridade, lembra-te que Jesus enriqueceu a terra sem possuir uma pedra sequer onde repousar a cabeça. Lembra, também, que o amor é inesgotável na fonte do coração, e que Jesus, ainda hoje, com Deus vem multiplicando dia a dia os eternos tesouros da humanidade. Por isso, renova teus conceitos, adote nova postura e não aguarde sobras na bolsa para atender aos planos da caridade.

O pão dado é o instrumento da caridade, o veículo da caridade, ele não é a caridade. Isto é extremamente importante e tem que ser entendido. Estamos frisando o tempo todo que caridade é a aplicação do amor, a dinâmica do amor, por isso é preciso separar o que seja o componente tangível da beneficência do que é a essência sutil da caridade, separar o instrumento didático do conteúdo didático.

Você está conseguindo acompanhar? Os instrumentos materiais constituem os elementos canalizadores, não são os elementos de sustentação finalística. A pessoa, às vezes, vem com o dinheiro, e o dinheiro não é a caridade. Ele vai ser apenas o instrumento usado para transferir a essência, que é a vibração do amor veiculada naquele ato, e essa essência vai ser transferida através do pão, do dinheiro, do abraço, de um conselho, e por aí afora. Pode acontecer de a gente achar que a transferência de um componente tangível que a gente oferta é a efetiva doação para alguém (um pão, por exemplo), todavia não é aquilo que representa o valor transferido, aquele valor transferido foi apenas o condutor da essência canalizada. E para que essa transferência se faça ao nível de caridade nós precisamos transferir a essencialidade alimentícia que é o amor. 

Razão pela qual nós vamos pegar essa essência e vamos transferi-la por meio do pão, de uma roupa, do dinheiro, de um conselho, de um abraço. Elementos estes, vamos repetir, que não são os elementos de sustentação finalística, e sim os elementos canalizadores do amor, os instrumentos condutores da essência.

A conclusão é belíssima e não é difícil de ser encontrada: o valor vibracional, a carga de emoções veiculada na ação no bem, é que vai determinar o grau que tange a linha qualitativa, a qual premia e eleva, ou entristece e onera a criatura.

“Dai antes esmola do que tiverdes.” (Lucas 11:41) O versículo é claro, conciso, enxuto, objetivo. Não podemos esquecer de forma alguma que dar o que temos (propriedade) é muitíssimo diferente de dar o que detemos (posse). Lembra-se do capítulo O Rico e o Pobre no Evangelho? Pois então, ninguém pode dar a outrem aquilo que ainda não possua no coração, e todos nós podemos distribuir das riquezas que fluem de nós próprios, cuja aquisição é inacessível à moeda comum. Quando o assunto é a prática do evangelho, é imperioso dar do que somos, descerrar a própria intimidade e espalhar os bens do espírito, dar de nós mesmos em tolerância construtiva, divina compreensão e amor fraternal.

E como o amor cobre a multidão de pecados, quando cooperamos com alguém de maneira positiva aquilo pesa como um lastro em nossa estrutura de harmonia e de projeção de vida. Não se iluda com grandezas. As mais altas árvores são oriundas de sementes minúsculas e o menor gesto de bondade, segundo Jesus, dispensado em seu nome, será sempre considerado no alto como uma oferenda endereçada a ele próprio. O bem mais humilde é semente sagrada e a repercussão da sua prática é inimaginável. Ora, ora, ninguém é tão pobre na vida que nada possa dar a outro de si mesmo, e nenhuma atividade nos campos do amor é insignificante. Aliás, ninguém pode avaliar a importância das pequeninas doações, onde toda migalha de amor está registrada na lei maior em favor de quem a emite. Uma lágrima que console e esclareça um coração atormentado com certeza vale muito mais do que mil moedas.

Os talentos da fé e o conhecimento superior, o dom de consolar e a capacidade de servir, não obstante laboriosamente conquistados por nosso esforço, constituem bênçãos do criador em nosso coração singelo de criatura. E outro detalhe que tem que ficar registrado: para servir a Deus ninguém necessita sair do seu próprio lugar ou reivindicar condições diversas daquelas que possui.

18 de jul de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 9


ONDE COMEÇA A CARIDADE

“9NÃO NOS CANSEMOS DE FAZER BEM, PORQUE A SEU TEMPO CEIFAREMOS, SE NÃO HOUVERMOS DESFALECIDO.” GÁLATAS 6:9

O evangelho é código moral a adentrar e trabalhar a intimidade do ser, predispondo-o a um trabalho em favor dos que sofrem.

Então, observe que se ele vem para trabalhar a intimidade ele chega para instaurar uma luta íntima, e a luta educativa é de uma beleza extraordinária. Porém, ela tem seu preço. Preço que, por sinal, muitos não querem pagar. É por isso que muitos no exercício do amor aplicado preferem fazer o bem lá fora. Chegam mesmo a dizer que o que gostam na religião que afeiçoam é o trabalho social, as campanhas, as visitas, as atividades externas. Às vezes, é muito melhor mesmo, segundo alguns companheiros afirmam, os trabalhos externos.

Para a grande maioria, às vezes é preferível essas atividades a ter que mexer na intimidade, a ter que mexer dentro da alma, porque essa luta reeducacional não é uma luta fácil. Essa postura de buscar o extrínseco é válida, claro, mas é a condição mais fácil, mais tranquila. Se ficamos só nisso nos mantemos na condição mais fácil, pois o duro é ter que engolir e metabolizar tanta coisa no campo da proposta de mudança. Assim, é muito comum a pessoa seguir a vida inteira servindo e ajudando, no entanto, sem alterações íntimas.

A mesma que vai chegar ao plano espiritual quando do seu desencarne é a mesma que chegou aqui quando reencarnou. Percebeu? Trabalhou no campo exterior, mas não conseguiu dobrar determinadas estruturas que estão dentro dela há muito tempo, não utilizou a luz da religião para o clareamento do próprio coração.

Tem pessoas que inclusive dizem: “Não tem jeito, fazer o que, eu sou assim mesmo. Eu nasci assim e vou morrer assim. Não vou mudar o meu jeito de ser”. Não se abrem para alterar para melhor, não dão o testemunho das mudanças.

E se o assunto são as obras surgem muitas ideias megalomaníacas, aquela coisa de querer fazer grandezas. “Vou construir um grupo de natureza espiritual, ou fundar uma igreja. A que eu frequentei comportava cento e cinquenta pessoas. Na minha eu vou colocar uma capacidade para setecentas.” Surgem a todo o momento projetos cada vez mais ambiciosos. Sinceramente, não é por aí. Não que isso não possa acontecer, até pode. A questão não é tanto em querer fazer acima daquilo que os nossos potenciais suportam.

É preciso começar a implantação de valores em nossa vida a partir das mínimas coisas. Aliás, a nossa dureza é no investimento de cada momento. Nas mínimas coisas. Até na forma de sair de casa. Saber como é que eu fechei o portão, se eu fechei ou se eu bati. Se eu bati com violência ou se eu puxei com educação. Como é que eu bati a porta do carro, como é que eu toco a campainha da minha casa quando eu chego lá, qual é a altura que eu estou colocando no som quando vou ouvir as minhas músicas. Como eu atendi os telefonemas recebidos no dia de hoje. Não é isso? São essas coisas mais simples, pois é isso que promove e faz com que se sublime em nossa intimidade o ponto natural de interação com a sociedade, e a nossa disponibilidade no campo da cooperação natural na vida de interação também. O desafio é este. Gostamos de destaque e procuramos por liderança, mas não devemos trabalhar para alcançar liderança, pois a liderança é sobre nós próprios.

A luta reeducacional tem realmente o seu preço. Todavia, muitas pessoas são prestativas com o próximo, em se tratando de necessidades materiais, e quase sempre continuam menos boas para si mesmas, por se esquecerem da aplicação da luz do evangelho na vida prática. Prometem muito com as palavras, operam pouco no campo dos sentimentos. Com exceções, após reafirmarem os mais sadios propósitos de renovação irritam-se facilmente ao primeiro contato com a luta mais áspera. Frequentam os grupos espíritas, as igrejas evangélicas, os templos católicos, e outros de mesma natureza, no entanto, voltam cada semana ao núcleo de preces nas mesmas condições em que estiveram na semana anterior, requisitando o conforto material e o auxílio exterior. Chegam a estudar o evangelho, ou pelo menos estudam a letra do evangelho, e com grande dificuldade cumprem a promessa de cooperação com o Cristo Jesus em si próprias, sede e base fundamental da verdadeira iluminação.

E, afinal de contas, por onde se deve começar a caridade? Onde ela se inicia? Não há uma fórmula específica, mas com toda a certeza a caridade aos outros deve começar em nós próprios. Ela começa pelo peso que nós aliviamos em nossa área de atuação, seja em casa ou no ambiente de trabalho. Mediante a reforma íntima nos terrenos do coração, a primeira providência nossa deve ser no sentido de nos tornarmos menos onerosos aos outros, dar menos trabalho aos outros, dificultar menos a caminhada dos outros. Esse esforço de iluminação deve iniciar-se pelo autodomínio, pela disciplina dos próprios sentimentos inferiores, pelo trabalho silencioso com vistas ao extermínio das próprias paixões. Dessa forma, já começamos a sentir e a vibrar de maneira diferente.

Iniciemos o nosso apostolado de paz calando a inquietação no campo íntimo e reafirmemos o compromisso de servir, silenciando sempre onde não possamos agir em socorro do próximo. Entendamos que é preciso transformação no plano interior para se poder atuar nos campos da cooperação. É por esta razão que estamos tentando convencer a nós mesmos, pelo conhecimento racional, de que precisamos melhorar, que é converter o coração para as verdades celestiais. Se a caridade é a aplicação do amor, a gente precisa primeiro sentir o amor para depois aplicá-lo.

A gente começa e não pode cansar, tem que seguir, sequenciar. “E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido.” (Gálatas 6:9) Observou com atenção? Não nos cansemos de “fazer bem”. Não é fazer “o bem”. Não existe o artigo (o), ele foi retirado. Por quê? Porque fazer “o bem” pode muitas vezes ser uma atitude de exceção na vida de alguém, algo realizado de forma esporádica, ocasional, aquilo que a pessoa faz circunstancialmente e que no fundo não constitui a síntese da vida dele.

Deu para perceber? No fundo, na essência, a vida não é a exceção mental nossa, como por exemplo a participação em alguma reunião ou culto espiritual, ou mesmo a entrada neste blog para estudo. Nessas situações a gente vive um momento ocasional, específico, uma realidade entre aspas, didaticamente falando, embora possa ter pessoas onde o que é veiculado nesses locais seja uma constante na vida delas. Todavia, no fundo esses são momentos em que vivemos por opção. Uma reunião de uma ou duas horas nos grupos ou nas igrejas, ou mesmo a permanência neste estudo por breves minutos, onde colocamos a mente focalizada e voltada a novos planos, mas que não representam a tônica da nossa vida, o corriqueiro, o cotidiano, o comum, o básico.

No “não nos cansemos de fazer bem” não tem artigo (o). E se não tem artigo não há objeto direto a especificar a natureza da ação. Aí fica fácil de entender, não se trata de fazer “o bem”, e sim fazer “bem”.  E alguém pode perguntar: “Espera aí, mas fazer bem o quê? O que nós devemos fazer bem?” Ora, a ausência de objeto direto já responde por si mesma. A ausência do objeto direto define generalidade. Ou seja, o que devemos fazer bem? Tudo! Fazer “bem”.

O advérbio de modo, de natureza positiva, sugere a maneira como esse fazer deve ser realizado, a forma como devemos fazer todas as coisas, que as devemos fazer bem. Conclusão: devemos fazer tudo bem. Tudo. Não importa se tratar-se de algo imposto, de uma obrigação, ou de algo resultante de uma opção nossa no campo da escolha e espontaneidade. Não há distinção. E fazer bem significa fazer bem feito, com alegria, entusiasmo, dedicação, disposição e bom ânimo. Aliás, o evangelho é claro ao dizer “misericórdia quero, e não sacrifício”.

Agora, nós sabemos que o que fazemos bem, seja lá o que for, sempre podemos fazer melhor. Sempre podemos e devemos nos aperfeiçoar, melhorar, a definir que o fazer “bem” significa a capacidade nossa de melhoria, de autoaperfeiçoamento. Logo, o fazer bem, sem perfeccionismo, é o que nos projeta e nos sublima. Devemos fazer tudo bem, tudo o que estiver ao nosso alcance, pois quando se persiste nessa postura de fazer “bem” (e sem cansar, claro), o fazer “o bem” surge como uma decorrência natural desse aperfeiçoamento.

Se comentamos agora a pouco que muitas pessoas envolvidas nos planos das religiões investem na caridade periférica, em uma elaboração mais aprofundada, mais sólida, vamos concluir que o trabalho deve ser um reflexo da nossa luta íntima. Muitos apressados querem dar antes de possuir, todavia o primeiro movimento da caridade efetiva se faz pela renovação nos terrenos do coração.

Em outras palavras, que o trabalho vertido em benefício dos outros seja um reflexo natural da nossa intimidade. Que a capacidade nossa de operar no amor represente uma atitude que já temos embutida em nosso psiquismo, onde o grande desafio é transformar a claridade em caridade, o ensinamento recebido em exteriorização da luz. Dessa maneira, a faceta relacionada com a irradiação do amor toma uma fisionomia muito para além daquilo que nós podemos conceber ou imaginar.

Pois é muito simples, na hora em que a gente se converte para as realidades maiores da vida a gente não aguenta ficar sozinho ou indiferente. Já pensou nisso? É muito difícil uma criatura com sensibilidade, amor e humildade conseguir mudar sem registrar alguma coisa em favor daqueles que se acham em volta. Não tem jeito. E se a porta é estreita e o caminho é apertado não podemos nos desfalecer. Temos que manter, persistir, sequenciar uma linha de ação condizente com a proposta adotada, pois em razão do que lançarmos ceifaremos.

15 de jul de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 8


A PROVIDÊNCIA DIVINA

“TODA A BOA DÁDIVA E TODO O DOM PERFEITO VEM DO ALTO, DESCENDO DO PAI DAS LUZES, EM QUEM NÃO HÁ MUDANÇA NEM SOMBRA DE VARIAÇÃO.” TIAGO 1:17

“ASSIM RESPLANDEÇA A VOSSA LUZ DIANTE DOS HOMENS, PARA QUE VEJAM AS VOSSAS BOAS OBRAS E GLORIFIQUEM A VOSSO PAI, QUE ESTÁ NOS CÉUS.” MATEUS 5:16

“POSSO TODAS AS COISAS EM CRISTO QUE ME FORTALECE.” FILIPENSES 4:13

“CONHEÇO AS TUAS OBRAS; EIS QUE DIANTE DE TI PUS UMA PORTA ABERTA, E NINGUÉM A PODE FECHAR; TENDO POUCA FORÇA, GUARDASTE A MINHA PALAVRA, E NÃO NEGASTE O MEU NOME.” APOCALIPSE 3:8

Imagine uma pessoa chegando perto de outra e dizendo assim: “Nossa, você me deu um passe magnético outro dia, ou fez uma oração para mim. Não sei se você se lembra, mas foi tão bom, não faz ideia do quanto me ajudou.” Não é problema nenhum ele falar isto, nem tão pouco o ouvinte sorrir diante do comentário sincero. O problema pode estar diante da aferição que o ouvinte faz dos seus próprios padrões. Se ele disser “Ah, é isso mesmo, eu realmente sou uma criatura muito evoluída espiritualmente, aliás, estou cada vez melhor, eu estou ótimo”, ele pode, talvez, estar caminhando para um setor complicado. Mas se ele disser “puxa vida, isso é um sinal de que eu estou sendo amparado” provavelmente seja uma colocação mais acertada para a situação.

O que isto tem a ver com a parte do nosso estudo é que adotando a última postura o indivíduo passa a glória a quem a merece por direito. Sabe por quê? O próprio evangelho define: “resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso pai, que está nos céus”. (Mateus 5:16)

A luz tem que resplandecer, mas temos que agir de maneira tal que não venhamos a ser o centro essencial do júbilo. O que pode parecer meio difícil e complicado, em razão do nosso egoísmo e da nossa vaidade, porém, fazendo-o demonstramos a relação com a grande fonte do universo que é Deus, fonte do amor.

E sentimos que quando nos aproximamos dos planos superiores da vida, no campo da irradiação, tudo fica muito mais simples. É natural que quando fazemos alguma coisa positiva sintamos a alegria no que fazemos, todavia, não precisamos ficar com a preocupação de ficarmos nos vangloriando o tempo todo.

O apequenar-se é de uma grandeza espetacular, significa saber evidenciar a fonte legítima. Por ele a gente começa a entrar em ressonância com as fontes em que a luz brilha, aprende a se relacionar com a luz e passa a operar e vibrar com carinho. Agora, quando a gente começa a trabalhar, e ainda fica preocupado com a extensão da ressonância do que fazemos, já não passa a falar a voz serena do criador, mas os nossos padrões puramente humanos, puramente inferiores e egoísticos da nossa personalidade, uma espécie de autoexaltação.

“Conheço as tuas obras; eis que diante de ti pus uma porta aberta, e ninguém a pode fechar; tendo pouca forca, guardaste a minha palavra, e não negaste o meu nome”. (Apocalipse 3:8) Pouca força, vamos pensar. Mostra para nós que na proporção em que a gente avança em força, a nossa força se perde para a força maior do criador. Se a barra está pesada, a luta está difícil, quando nós temos pouca força quem resolve são eles, os espíritos superiores. Veja, por exemplo, alguém poderia dizer ao Chico Xavier: “Nossa, Chico, você é uma pessoa formidável, tem uma mediunidade e um poder fantástico.” E o Chico, por sua vez, poderia responder que muito de seu trabalho se faz em razão da assistência do Emmanuel. E o Emmanuel, também, poderia falar que seus recursos vinham mais de cima. E por aí adiante. Isto é, no fundo, dentro dessa escala vai-se chegar no criador, no Pai celestial, onde residem todos os recursos.

Ora, essa pouca força não significa que nós vamos vir a nos enfraquecer. A bem da verdade, nossa força diminui porque passamos a operar com outras forças. Se formos analisar a fundo, de nós mesmos nada podemos, mas tudo podemos naquele que nos fortalece. Pode até parecer meio contraditório, mas essa pouca força indica que apesar dela diminuir a criatura cresce em poder. Em vez de pouca força, podemos até mesmo compreender como sendo pouca resistência.

Ao ajudar alguém em desequilíbrio, um necessitado dessa ordem, se você começar a usar apenas a força, daqui a pouco você vai estar cercado de forças iguais contrárias, porque é da lei. A cada força usada na ação implica em outra correspondente ao nível da reação. Sendo assim, quanto ao que fazer o bom senso indica: projete-se no plano elaborador e geratriz da força, no entanto, não trabalhe com ela. É preferível o trabalho realizado com a força que é universal, aquela que tem a sua fundamentação básica e segura no amor. Porque esta não machuca, não constrange, não coage. Este é o sentido da pouca força. “Tendo pouca força guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome”. Guardar a palavra e não negar o nome sugere a permanência na aplicabilidade do conhecimento dentro do padrão de coerência com o que se recebe.

É extremamente importante o que vamos dizer agora. É para ser lido, metabolizado e bem compreendido. Jesus é o amor em sua grandeza. Alguém tem dúvida? Creio que não. Ninguém nos amou e nos ama mais do que ele. E Cristo representa a expressão material desse amor. Por isso o espírito crístico é unigênito, a unidade crística é uníssona em todos os seres (havendo dificuldade para entender, releia o capítulo A Porta Estreita, na parte específica).

Pois bem, onde queremos chegar? Que a necessidade de atendimento de uma criatura não vai estar condicionada àquele elemento específico que tem que ajudá-la. Por quê? Porque quem vai ser ajudado não vai ser ajudado pelo Antônio, por exemplo, vai ser ajudado pelo cristo. Suponhamos que o Antônio na reencarnação passada seja o elemento que trabalhou a confusão desse companheiro, logo, ele é hoje o número um da fila para atender esse paciente, o que é comum de acontecer. As famílias e os vínculos afetivos diversos exemplificam isso a todo instante. Então, ele é o numero um para atender. 

Mas se ocorre dele não atender vem o número dois. Se o número dois não atende vem o número três, vem o número quatro, e por aí adiante, até que vem um e atende. Pois nunca uma criatura que deve ser atendida, que está na pauta divina para atendimento vai deixar de ser. Isso se chama providência divina.

Logo, vamos praticar a caridade com a expressão crística íntima nossa, que é capaz de fazer cair o nosso interesse pessoal. Percebeu? Começa a cair o interesse pessoal quando, em vez de dinamizar o interesse do Antônio, dinamiza o interesse crístico através do instrumento Antônio. Porque no fundo cada um de nós tem esta essência crística no coração. Agora, se aquele cristo íntimo do Antônio não opera, talvez opere o cristo de um Carlos, de uma Fátima, de um Guilherme, ou de outro. Isso é lindo demais. No fundo, toda a nossa atividade, quando devidamente filtrada no amor e no bem, representa a extensão da bondade e da misericórdia do criador em favor de quem precisa, e nós é que somos acionados.

Mas se não quisermos, se estivermos cansados, indiferentes e não sensibilizados, outros irão. Logo, usar expressão crística na operacionalização do amor nos conforta, e feliz daquele que usa o cristo íntimo no atendimento, feliz daquele que se vale da oportunidade. Pois o esforço máximo e desinteressado no bem dos outros, segundo nos parece, é sempre o maior apoio nosso a nós mesmos.

A conclusão é evidente: o trabalho em nome do bem, que se a gente puder fazer e tiver êxito nessa realização, não é um trabalho para a evidência de A, de B, de C, de Antônio, de Priscila, de Cláudia, de Marco. Não importa quem seja o intermediário, é um trabalho do cristo. Ele é que tem que ser evidenciado para que haja melhor harmonia, maior entrosamento e equilíbrio entre os seres.

12 de jul de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 7


JUSTIÇA E AMOR

“PORQUE VOS DIGO QUE, SE A VOSSA JUSTIÇA NÃO EXCEDER A DOS ESCRIBAS E FARISEUS, DE MODO NENHUM ENTRAREIS NO REINO DOS CÉUS.” MATEUS 5:20  

“UM NOVO MANDAMENTO VOS DOU: QUE VOS AMEIS UNS AOS OUTROS; COMO EU VOS AMEI A VÓS, QUE TAMBÉM VÓS UNS AOS OUTROS VOS AMEIS.” JOÃO 13:34

Nós podemos encontrar duas pessoas passando por um mesmo tipo de problema, sendo que uma delas pode estar vivenciando ao nível do amor, ao passo que a outra pode se manter, ainda, no plano de justiça. Uma pessoa pode ter sob sua responsabilidade, hoje, alguém próximo que está enfermo, e que por sua vez ela machucou na reencarnação passada. Não pode?

Isso não é comum de acontecer? O próprio Jesus nos disse que “os inimigos dos homens serão os seus familiares”. Uma pessoa conversa com esse alguém e ele fala assim, melancólico: “É, vamos ver até onde eu vou aguentar”. E costuma essa criatura reclamar com o vizinho, com o amigo, com o irmão, com o tio: “A barra está pesada, está muito difícil de levar, não sei se eu vou ter forças, mas fazer o que, eu tenho que aguentar, eu sou o pai, eu tenho que aguentar.”

Não tem gente assim? Está pagando debaixo da justiça, da coação, pagando por um processo de justiça. Vai levando de forma arrastada: “Ah, meu Deus, o que foi que eu fiz com essa criatura no passado? Não estou aguentando, mas vou pagar.” A gente nota que existe reação da parte dela, apesar de ser mãe, ou pai.

É por isso que não é fácil avaliar até onde o amor de alguém por outrem é um amor legítimo ou tem o sentido de respaldo com o passado. Não estamos aqui para medir a resistência ou o grau de afetividade, apenas citando exemplos didáticos. Por outro lado, nós podemos ter um caso análogo, em que a criatura fala assim: “Está difícil para o meu lado, não está fácil, mas a gente vai levando. Deus é bom”. E sorri. É bonito e gostoso encontrar gente assim, que demonstra evolução e sabedoria. Nós olhamos uma mãe, por exemplo, vivendo um sacrifício tremendo, sem dormir direito durante dias por causa de problema de saúde do filho. “A senhora está passando um momento muito difícil”. “Ah, mas eu vou indo, Deus não me falta com as forças. Este é um filho querido, enquanto precisar sacrificar eu estou aí”. O que é que eu estou querendo dizer? Que debaixo de mesma situação há diferença grande entre justiça e amor.

O evangelho sistematicamente revela para nós a alegria de entendermos a grandeza da vida e sentirmos o quanto temos que aprender. O quanto precisamos operar na seara do bem e o quanto nós temos que aprender a amar. Isso mesmo. Precisamos aprender a amar. Porque não amamos de verdade.

O nosso amor ainda não é aquele amor legítimo, mas um amor ligado ao ser amado, pois encontramos resistência ao amor incondicional. Nosso amor tem cheiro de ser amado e até mercantilizamos o amor. Não estou dando uma de pessimista, mas isso é a pura verdade. Estou é chamando a atenção para uma análise. Nós nos mantemos até os dias de hoje em um grau elevado de mercantilismo.

Por exemplo, vemos no cair da tarde a Cláudia cuidando com todo o carinho do seu João, uma pessoa simples. É algo bonito de ser ver. Amor legítimo? Bem, é que atrás desse cuidado existem interesses outros por parte da Cláudia. Seu João, que ela está cuidando, é quem sobe para tirar as goteiras do telhado  dela quando começa o período de chuva, é ele quem quebra a parede e conserta o vazamento da sua torneira. Percebeu o sentido? O que eu estou falando faz parte da nossa vida ou é fantasia da minha cabeça? Por enquanto faz parte. “Está vendo aquele rapaz ali? Puxa, eu adoro ele. Porque tudo o que eu preciso ele resolve para mim. Tudo. É uma beleza. Você tem que ver. Capina meu quintal, dá banho no cachorrinho, me ajuda a carregar as compras de supermercado.” E por aí, vai. Então, dentro das relações pessoais não é fácil avaliar até onde vigora essa linha que apresenta uma expressão viva de interesse.

“Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.” (Mateus 5:20) Realmente é muito difícil operar para além da justiça. Podemos até dizer mais, passar de justiça para amor é uma das maiores dificuldades da nossa vida. O que ocorre é que escribas e fariseus operam com uma justiça lógica, ferrenha. São aqueles elementos que operam dentro de uma absoluta coordenação, com os dispositivos restritos da lei.

Então, note que dentro da justiça dos escribas e fariseus você vibrou com alguma coisa? Não, não vibrou com nada, apenas cumpriu a lei. Cumpriu o que? Justiça de escribas e fariseus. Assim, podemos nos deparar com dez pessoas operando da mesma forma e nessas dez podemos ter oito que operam a justiça e, quem sabe, duas que conseguem operar com amor. Essas duas vibram com o que fazem. Elas vibram, efetivamente, e podem estar se abastecendo, enquanto os outros podem, também, permanecerem famintos, defasados. Este é um desafio para todos nós. Por isso, não podemos nos comparar com quem ama realmente. Quem ama se abastece e vive vibrando. E vive feliz.

“Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros, com eu vos amei.” Isso Jesus disse aos discípulos dias antes do seu sacrifício. E trazia uma novidade, o modo de amar. O mestre não só prescreveu o amor, como também a maneira de amar: “amai-vos como eu vos amei”. O amor é aquilo que excede para além da justiça. Aparece quando o dever e a obrigação cessam.

O que vai para além do que é exigido é amor. Quando Maria diz “eis aqui a escrava do Senhor, faça em mim segundo a tua palavra” quis definir que para ela mesma não queria nada, que ela estava para servir, incondicionalmente. E vamos depreendendo que para a gente chegar a esse ponto a gente vai ter que estudar o evangelho mais algumas vezes. No entanto, não precisamos ficar tristes, se conseguimos discernir o bem do mal já é sinal que já conhecemos o mal e o bem, e se o Senhor nos permite identificar as necessidades alheias é porque de um modo ou de outro já podemos auxiliar. Esse processo tem sido desafiador para nós, mas a gente com certeza vai chegar lá.

8 de jul de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 6


BENEFÍCIO PRÓPRIO E CONHECIMENTO

Os espíritos de luz comumente nos recomendam a prática da caridade. Até podemos dizer que o fazem com certa insistência, e não é à toa. A bem da verdade, assim eles estão nos orientando no sentido de nossa própria evolução.

Para início de conversa, a caridade é um exercício espiritual e quem pratica o bem coloca em movimento as forças da alma. E outro ponto da maior importância, e que vamos pedir muita atenção na leitura agora, é que auxiliamos os outros a benefício de nós mesmos. Isto é, no exercício da caridade eu estou para resolver o meu problema. Na essência do amor cada qual dá a si próprio, não dá ao outro. Porque nas leis da cooperação nós não podemos esquecer que cada criatura transporta consigo questões essenciais e necessidades intransferíveis, e não vai ser o meu auxílio, o seu, ou de quem quer que seja que vai resolver o campo cármico de alguém. Percebeu? Não tem nenhum de nós que seja capaz de mudar as linhas cármicas de outrem. No plano da estrutura evolucional dos seres cada qual tem que passar a sua dificuldade.

Vamos tentar dar uma ilustração disso agora. Veja bem, o que nos chega vem como justiça, é instrumento de toque, de indução, componente de despertamento. O que sai é amor. Está acompanhando? O que chega é informação (não modifica nenhuma estrutura interna, prepara), o que sai, o que aplico é que produz formação. Tanto que o simples conhecimento intelectivo não altera em nada o meu ser, apenas prepara para a mudança. No exercício da caridade imagine o seguinte: A → auxiliando → B. Conseguiu observar? B, o auxiliado, recebe, ao passo que A, o auxiliador oferece. Isso mostra o que falamos agora, que a caridade que B pratica é em benefício de si próprio. 

Resultado: o processo de cooperação não consiste em resolver a dificuldade da outra pessoa, tirá-la da dificuldade, porque a dificuldade é instrumento para o crescimento. O serviço do próprio resgate é pessoal e intransferível. Toda caridade tem o objetivo de auxiliar o recebedor, o auxiliado, no despertamento da necessidade de seu reajustamento íntimo e intransferível, porque na vida a lei preceitua que cada um semeia e colhe na medida do que lançou.

“Ah, deixa-me ver se entendi. Você está dizendo que quem sofre, sofre porque precisa, logo, eu não preciso ajudar? Não preciso e não devo fazer nada?!” Não, não é isso, de forma alguma, vamos clarear. Cada pessoa tem os seus compromissos na vida e as nossas obrigações são sagradas. Ok? Mas também não podemos nos esquecer do minuto de apreço aos outros. Não podemos ignorar fazer alguma coisa na extensão da felicidade comum a nosso próprio benefício.

A gente não pode, em razão da clareza que o nosso raciocínio já apresenta, marginalizar alguém ao sofrimento e à dor por causa da nossa indiferença, da nossa lógica, neutralidade ou frieza do sentimento. Não posso deixar a minha vida para viver uma vida exclusiva em função do semelhante. Isso não devo fazer, porque senão eu me alieno. A vida não reclama o meu sacrifício integral em favor dos outros, mas por outro lado tenho que pensar nas necessidades do outro.

Não fique desapontado comigo, mas Jesus não resolve o problema de ninguém. Ele mesmo disse: “Vinde a mim, os que estão cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei”. Mas nós, não, não queremos só isso. Em várias ocasiões queremos até mesmo ser mais do que Jesus, queremos resolver. E entramos de cabeça nas dificuldades dos outros como se nós pudéssemos saná-las. Ora, o processo não é resolver a dificuldade da pessoa, tirá-la da dificuldade, pois já vimos anteriormente (A Conversão) que a dificuldade é instrumento para crescer.

É certo que devamos trabalhar tanto quanto esteja ao nosso alcance pelo bem do próximo, todavia não podemos exonerar os nossos semelhantes das obrigações contraídas. Precisamos avaliar, com carinho, as nossas ações, até onde acreditamos estar auxiliando e até onde estamos sento coniventes com os erros e disparates do outro. Pois nossa ação não pode impedir a caminhada de ninguém.

Se o assunto é cooperação, que auxiliemos dando o melhor que pudermos, tenhamos o discernimento de fazer ao outro o que gostaríamos que nos fizessem.

Mas observe, uma coisa é ajudar alguém a levantar a sua cruz, e até mesmo dar alguns passos com ela, e outra coisa bem diferente é querer carregar a cruz do outro. É diferente o que representa cooperar com o outro e o que seja avocar o problema do outro. Sem contar que se eu avoco totalmente a dificuldade do outro eu estou impedindo a caminhada dele. Se ficamos apenas nos problemas alheios podemos vir a nos alienar. A conclusão é simples: é de bom senso, questão lógica, que nós não venhamos a assinar promissórias de quem quer que seja nesse sentido, ou seja, não avocar o débito alheiro, não avocar a dificuldade de cada qual. Precisamos servir, sim, mas sem nos prendermos. Do contrário, quase sempre que o fazemos costumamos enveredar por áreas que geram ressonâncias que costumam nos levar a várias preocupações.

Nosso grau de aflição é muito grande. Ainda faz parte de nossa índole querer tudo de imediato. Até mesmo na linha de cooperação e de ajuda nós queremos realizar a toque de caixa, de forma que mesmo estando-nos na melhor das intenções muitas vezes a aflição de implementar o amor nos faz sofrer. 

Vamos ter calma. Pode não parecer, mas tudo está debaixo da abrangência da visão cósmica ou da visão superior em Deus. Vamos fazer o que pudermos, com carinho e sem precipitação, porque a precipitação tem levado muito gente às lágrimas. Ignoramos que no plano natural da vida, às vezes, a solução nossa de um problema alheio pode significar colocar em risco a nossa estabilidade, pois passamos a dificultar a manifestação da lei. À medida que progredimos a nossa mente vai alcançando novos parâmetros, ficando mais elástica e ampliada.

É por esta razão que para ter misericórdia nós temos que conhecer. Ela não pode ser por simples processo de manifestação de sentimento periférico. Precisamos operar sem permitir que os acontecimentos de fora, do mundo exterior, venham nos precipitar em aspectos negativos da emotividade. Não se ajuda o criador apenas por um curso ou impulso de sentimentalismo nosso. Tanto o sentimento doentio como a frieza correta não edificam o bem. Investimos no evangelho para nos habilitarmos a ser servos fieis, e o servo fiel não é aquele que chora ao contemplar as desventuras alheias, nem as observa de modo impassível a pretexto de não interferir no labor da justiça. O bom trabalhador é o que ajuda sem fugir ao equilíbrio necessário, construindo todo o trabalho benéfico que esteja ao seu alcance consciente de que seu esforço traduz a vontade divina.

É por isso que temos que conhecer. O verdadeiro cooperador tem uma capacidade profunda de análise e a projeção daquele que conhece vem do tempo e do espaço. Nós temos que aprender observar a marcha dos acontecimentos.

Nos terrenos da cooperação e do auxílio quanto mais valores nós tenhamos em nossas mãos, quanto mais conhecimento, mais temos que ponderar quanto à nossa ação em favor do semelhante para que nós, na melhor das intenções, no exercício da caridade, não venhamos a torpedear o encaminhamento natural da evolução de alguém.

Agir em nome do criador, como um instrumento útil dele, exige uma capacidade de abrangência de passado, de futuro e de conhecimento das leis divinas. Porque, às vezes, a resolução do problema, sob a nossa ótica, significa a quebra da oportunidade ao filho do criador, sob a ótica divina. Assim, nós precisamos entender de forma adequada que o que manda agora não é o fato de fazer ou não fazer, mas a tranquilidade e a serenidade de agir de maneira correta.

4 de jul de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 5


O MELHOR CAMPO

“PORTANTO, TUDO O QUE VÓS QUEREIS QUE OS HOMENS VOS FAÇAM, FAZEI-LHO TAMBÉM VÓS, PORQUE ESTA É A LEI E OS PROFETAS.” MATEUS 7:12   

“MAS, SOBRETUDO, TENDE ARDENTE AMOR UNS PARA COM OS OUTROS; PORQUE O AMOR COBRIRÁ A MULTIDÃO DE PECADOS.” I PEDRO 4:8

A gente está aqui estudando o evangelho, juntos, a conta gota, e o evangelho está sendo trabalhado para nos ensinar que acabou aquele período de cada qual viver para si. Definitivamente. 

Porque a lei de interdependência, ou de cooperação, funciona na extensão do universo. É tônica no universo, ponto de maior realce. Nós vivemos em função dos outros porque a interdependência mora na base de todos os fenômenos da vida, e não tem o que se discutir.

A vida é interação. Todos nós dependemos uns dos outros na desincumbência dos compromissos que nos competem, e não estamos mais em um processo de cada qual viver por si. Achamos-nos magneticamente associados uns aos outros, queiramos ou não, e é erro lamentável despender nossas forças sem proveito para ninguém, sob a medida de nosso egoísmo, vaidade ou limitação pessoal.

Com a ótica que temos acerca da divindade, ou melhor, de que o plano dinâmico da divindade, como sempre falamos, compete a nós, e não a Deus, pois Ele é o plano emissor, criativo, e nós as áreas operacionais da própria divindade, passamos a depreender que daqui para frente a nossa felicidade reside em fazer outros felizes. Não tem mais como encontrar a felicidade encasulando-se num processo egocêntrico. Não tem jeito. Hoje ninguém é feliz por si próprio e ninguém vive só. Necessitamos uns dos outros e não tem como encontrar a sustentação de felicidade naquela má regra egocentrista que trazemos.

Não há como querer encontrar a felicidade plena envolto nas amarras do egocentrismo, não tem como evoluir esquecido dos outros. Se de um lado estão aqueles que nos canalizam recursos de cima, de outro estão os que se encontram abaixo esperando a nossa cooperação. E o laboratório que vai nos dar acesso efetivo a um estado melhor vai depender dessa interação com os outros, com as coisas, com os fatos e situações, com o mundo em si. E se eu dissociar o meu interesse das pessoas à minha volta eu fico trabalhando em um plano de egocentrismo e o egocentrismo leva à morte, à perda da vida no sentido essencial.

Passamos a não viver bem, pois a felicidade não consegue se multiplicar quando o amor não sabe dividir. E este encaminhamento no plano de compreensão desse sistema de interação me leva a encontrar um estado de  equilíbrio. O mundo dá muitas voltas e muitos indivíduos se esquecem, hoje, de que amanhã serão, talvez, os necessitados e os réus, carentes de perdão e de socorro.

A gente não cresce sozinho. Isso tem que ser levado em conta. Deus nos espera nos outros. Se o evangelho é o código perfeito do amor, e o amor é apenas aquilo que exteriorizo, enquanto eu não colocar a linha de interação em minha vida o meu dar fica desativado, fica estiolado na base. E se a questão é doar, doar para quem? Para quem eu vou oferecer? Para quem eu vou dar? É nessa hora que observo que eu não posso viver sozinho no meu mundo, fechado, eu tenho que interagir com as pessoas e valores em volta. Ao falar em amor universal, não quer dizer que nós perdemos o direito de amar uns aos outros no campo pessoal e particular de eleição. De forma alguma. Mas esse amor no campo pessoal das relações afetivas diretas só vai encontrar uma ressonância satisfatória, no sentido de amplas sedimentações, na medida em que a individualidade se abre no interesse dos outros no campo geral.

De forma que quem quiser em si mesmo ser feliz tem que fazer algo pelos outros, abrir-se no interesse dos outros. É preciso abrir se quisermos ser feliz. Quem quiser estar bem consigo próprio tem que viver para o completo, para o grupo, para o geral no campo universalista, tem que colocar as suas possibilidades ao dispor de outros. Porque ninguém deve amealhar vantagens da experiência terrestre somente para si mesmo. Mas também não quer dizer temos que sair procurando os outros não, os outros chegam a nossa porta toda hora.

Cada qual está tentando adquirir condições de investimento para que a vida seja mais clara e feliz. O planeta tem as suas leis imutáveis e eternas, quer alguém acredite e as considere, ou não, e dentro dos planos do universo infinito o amor traça a linha reta da vida para todas as criaturas e representa a única força que anula as exigências da lei de talião. Somente o bem pode conferir o galardão da liberdade suprema e constitui a única chave suscetível de abrir as portas sagradas da eternidade à alma ansiosa. Eu não estou aqui para desanimar ninguém, mas sabemos que um percentual enorme de indivíduos que estão trabalhando como operadores no bem em todas as religiões, com testemunhos diversos e uma alta dose de amor em suas ações, estão trabalhando, em tese, debaixo de carmas. É fato. E não acredito que seja novidade para alguém aqui. Além do que, é mil vezes melhor alguém pagar débitos trabalhando que pagar débitos com sofrimentos. É melhor pagar construindo do que pagar com destruição. É muito melhor o saneamento dos erros passados com suor do que com lágrimas. A misericórdia divina é fantástica e ninguém precisa esperar reencarnações futuras envoltas em dores e lágrimas, em ligações expiatórias, para diligenciar a paz com os inimigos do pretérito.

Por quê? Porque o criador quer o trabalho do amor, e não o estigma do pagar. E conforme a contabilidade do amor, o bem que se faz sempre diminui o mal que já se fez. Em outras palavras, amor dinamizado sempre “cobre a multidão de pecados”.

Em todos os núcleos religiosos, sem exceção, fala-se em caridade e da necessidade de se praticá-la. Muitos entendem o sentido científico que ela apresenta para um bem viver. Aliás, é importante compreendermos isto. Sabermos o porquê de exercê-la, bem como o que ela pode nos propiciar de significativo em nossa vida. Como, também, há um número considerável de pessoas que alimenta a ideia de que é preciso equacionar tudo, resolver todas as dificuldades e obstáculos antes de se poder pensar no semelhante. Os argumentos são os mais variáveis: “Olha, eu queria ajudar outras pessoas. Queria mesmo, mas você sabe, eu estou sem tempo, cheio de problemas. Não tenho como fazer nada agora. Preciso resolver minhas coisas primeiro...” E por aí vai.

Assim, vamos fazendo das nossas dificuldades um casulo. Um circuito fechado. Só que esquecemos que se na extinção dos nossos problemas pequeninos solicitamos o máximo de proteção ao Senhor, é natural que o Senhor nos peça o mínimo de concurso na supressão dos grandes infortúnios que abatem o próximo.

O processo ascensional não se encontra no fechar, mas no abrir. Definitivamente não temos como resolver problemas íntimos dentro de um sistema fechado em nós mesmos, em uma luta fechada conosco em um quarto fechado.

Se buscamos o Pai, precisamos de nossa parte ajudar nossos irmãos. Porque o próximo é a nossa ponte de ligação com Deus, ao qual não se chega sem obras realizadas junto aos seus filhos. Não se recebe sem dar. Na parábola do semeador, por exemplo, o semeador não agiu através do contrato com terceiras pessoas, ele mesmo saiu a semear. Como servidores do evangelho somos compelidos a sair de nós próprios a fim de beneficiarmos corações alheios, aqueles que transitam no mundo em meio a dificuldades maiores do que as nossas.

É assim que as coisas funcionam. O trabalho realizado no bem é o melhor campo para ser resolver problemas. Todo esforço no bem, por mínimo que seja, redunda invariavelmente a favor de quem o realiza e toda ação pela felicidade geral é concurso na obra divina. Muitas vezes temos que trabalhar com a aflição de muitos para resolvermos a nossa. Lidando com os que sofrem os nossos problemas começam a desaparecer. Atendendo ao necessitado talvez consigamos administrar pontos necessários em nosso íntimo. Isto não é filosofia, é ciência.

O bem constante por nós realizado gera o bem constante, e mantida a nossa movimentação infatigável no bem todo o mal por nós amontoado se atenua, gradativamente, desaparecendo ao impacto das vibrações de auxílio nascidas a nosso favor em todos aqueles aos quais dirigimos mensagem de entendimento e amor, sem a necessidade expressa de recorrermos ao concurso da enfermidade para eliminar os resquícios de treva a que eventualmente se nos incorporem ainda no fundo mental. Começamos a regeneração trabalhando com aqueles a que estamos vinculados, para depois trabalharmos com o desconhecido.

Quando conseguimos superar as nossas aflições para criarmos a alegria dos outros a felicidade alheia nos busca onde estivermos para improvisar nossa ventura.

Por devotamente ao próximo atraímos simpatias valiosas com intervenções providenciais a nosso favor. E a partir do momento em que passarmos a dar, efetivamente, daqui a pouco nós seremos perfeitamente atendidos dentro de um suprimento da misericórdia, que preceitua “a cada um segundo as suas obras”.

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