23 de jul de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 10


A ESSÊNCIA DA CARIDADE

“DAI ANTES ESMOLA DO QUE TIVERDES.” LUCAS 11:41

“E DISSE PEDRO: NÃO TENHO PRATA NEM OURO; MAS O QUE TENHO ISSO TE DOU. EM NOME DE JESUS CRISTO, O NAZARENO, LEVANTA-TE E ANDA.” ATOS 3:6 

A cada instante nós somos chamados a exercer o amor ao próximo. Todavia, por enquanto o nosso amor ao próximo é um amor todo convencional, todo cheio de regras, todo sistematizado, todo mecanizado.

Um exemplo para clarear o que queremos dizer é o seguinte: Imagine um casal da cidade grande passeando por uma cidadezinha do interior. Um lugar bem pobre, um lugarejo, como se costuma dizer. O casal elegante desce do carro luxuoso e começa a caminhada por estradinha singela, quando se depara com um menino descalço, roupinha simples e sujo de poeira, que fala ao homem bem vestido:
-Moço, me dá um trocado?
-Que isso, menino, sai prá lá.
-Ôh, moço, só um trocado. É que eu estou com fome. Só um trocado prá eu comprar um pão na venda do seu João.
-Sai prá lá, menino, já falei. Não tenho dinheiro não.
-Eduardo Alberto (diz a esposa, a essa altura já indignada com a insensibilidade e frieza do marido). Para com isso! Não vê que o menino está com fome?! Dá logo um trocado prá ele.
E o homem enfia a mão no bolso, remexe os dedos e tira de lá algumas moedas, que dá ao garoto. 
-Toma, menino.

Aí, a gente pergunta, ao nível de esclarecimento. Neste caso em questão, houve caridade? O que você acha? A resposta é simples: não! De modo algum. Caridade é que não houve. Nós já tivemos a oportunidade de entender que caridade é o amor na sua faixa de aplicação. Então, o indivíduo deu a esmola, mas a caridade não circulou. Percebeu? Ele deu para ficar livre, e a gente observa que ali houve apenas uma transferência de valores, nada mais que isso.

Aliás, em algumas situações pode acontecer da própria moeda dada significar um grande desastre para nós.

Nas relações entre as pessoas o pedido de providência material tem o sentido e a utilidade oportuna, como resultante da lei de equilíbrio que preside o movimento das trocas no organismo da vida. Por isso, a nossa caridade surge em cima da esmola. A prática do bem exterior é um ensinamento e apelo para que cheguemos à prática do bem interior, ou seja, a esmola trabalha a intimidade do ser. Ela representa o componente canalizador da caridade, o instrumento que vai direcionar a caridade, que na sua essência não é material. De modo que as obras da caridade material somente alcançam a feição divina quando colimam a espiritualização do homem, renovando-lhe os valores íntimos.

Mas quem não exercita em dar alguma coisa dificilmente chegará um dia a doar-se.

A grande verdade é que a caridade não depende da bolsa, porque ela é fonte nascida no coração. Se você acredita que apenas o dinheiro é a base corrente da caridade, lembra-te que Jesus enriqueceu a terra sem possuir uma pedra sequer onde repousar a cabeça. Lembra, também, que o amor é inesgotável na fonte do coração, e que Jesus, ainda hoje, com Deus vem multiplicando dia a dia os eternos tesouros da humanidade. Por isso, renova teus conceitos, adote nova postura e não aguarde sobras na bolsa para atender aos planos da caridade.

O pão dado é o instrumento da caridade, o veículo da caridade, ele não é a caridade. Isto é extremamente importante e tem que ser entendido. Estamos frisando o tempo todo que caridade é a aplicação do amor, a dinâmica do amor, por isso é preciso separar o que seja o componente tangível da beneficência do que é a essência sutil da caridade, separar o instrumento didático do conteúdo didático.

Você está conseguindo acompanhar? Os instrumentos materiais constituem os elementos canalizadores, não são os elementos de sustentação finalística. A pessoa, às vezes, vem com o dinheiro, e o dinheiro não é a caridade. Ele vai ser apenas o instrumento usado para transferir a essência, que é a vibração do amor veiculada naquele ato, e essa essência vai ser transferida através do pão, do dinheiro, do abraço, de um conselho, e por aí afora. Pode acontecer de a gente achar que a transferência de um componente tangível que a gente oferta é a efetiva doação para alguém (um pão, por exemplo), todavia não é aquilo que representa o valor transferido, aquele valor transferido foi apenas o condutor da essência canalizada. E para que essa transferência se faça ao nível de caridade nós precisamos transferir a essencialidade alimentícia que é o amor. 

Razão pela qual nós vamos pegar essa essência e vamos transferi-la por meio do pão, de uma roupa, do dinheiro, de um conselho, de um abraço. Elementos estes, vamos repetir, que não são os elementos de sustentação finalística, e sim os elementos canalizadores do amor, os instrumentos condutores da essência.

A conclusão é belíssima e não é difícil de ser encontrada: o valor vibracional, a carga de emoções veiculada na ação no bem, é que vai determinar o grau que tange a linha qualitativa, a qual premia e eleva, ou entristece e onera a criatura.

“Dai antes esmola do que tiverdes.” (Lucas 11:41) O versículo é claro, conciso, enxuto, objetivo. Não podemos esquecer de forma alguma que dar o que temos (propriedade) é muitíssimo diferente de dar o que detemos (posse). Lembra-se do capítulo O Rico e o Pobre no Evangelho? Pois então, ninguém pode dar a outrem aquilo que ainda não possua no coração, e todos nós podemos distribuir das riquezas que fluem de nós próprios, cuja aquisição é inacessível à moeda comum. Quando o assunto é a prática do evangelho, é imperioso dar do que somos, descerrar a própria intimidade e espalhar os bens do espírito, dar de nós mesmos em tolerância construtiva, divina compreensão e amor fraternal.

E como o amor cobre a multidão de pecados, quando cooperamos com alguém de maneira positiva aquilo pesa como um lastro em nossa estrutura de harmonia e de projeção de vida. Não se iluda com grandezas. As mais altas árvores são oriundas de sementes minúsculas e o menor gesto de bondade, segundo Jesus, dispensado em seu nome, será sempre considerado no alto como uma oferenda endereçada a ele próprio. O bem mais humilde é semente sagrada e a repercussão da sua prática é inimaginável. Ora, ora, ninguém é tão pobre na vida que nada possa dar a outro de si mesmo, e nenhuma atividade nos campos do amor é insignificante. Aliás, ninguém pode avaliar a importância das pequeninas doações, onde toda migalha de amor está registrada na lei maior em favor de quem a emite. Uma lágrima que console e esclareça um coração atormentado com certeza vale muito mais do que mil moedas.

Os talentos da fé e o conhecimento superior, o dom de consolar e a capacidade de servir, não obstante laboriosamente conquistados por nosso esforço, constituem bênçãos do criador em nosso coração singelo de criatura. E outro detalhe que tem que ficar registrado: para servir a Deus ninguém necessita sair do seu próprio lugar ou reivindicar condições diversas daquelas que possui.

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