18 de jul de 2012

Cap 25 - Porque Fazer Caridade - Parte 9


ONDE COMEÇA A CARIDADE

“9NÃO NOS CANSEMOS DE FAZER BEM, PORQUE A SEU TEMPO CEIFAREMOS, SE NÃO HOUVERMOS DESFALECIDO.” GÁLATAS 6:9

O evangelho é código moral a adentrar e trabalhar a intimidade do ser, predispondo-o a um trabalho em favor dos que sofrem.

Então, observe que se ele vem para trabalhar a intimidade ele chega para instaurar uma luta íntima, e a luta educativa é de uma beleza extraordinária. Porém, ela tem seu preço. Preço que, por sinal, muitos não querem pagar. É por isso que muitos no exercício do amor aplicado preferem fazer o bem lá fora. Chegam mesmo a dizer que o que gostam na religião que afeiçoam é o trabalho social, as campanhas, as visitas, as atividades externas. Às vezes, é muito melhor mesmo, segundo alguns companheiros afirmam, os trabalhos externos.

Para a grande maioria, às vezes é preferível essas atividades a ter que mexer na intimidade, a ter que mexer dentro da alma, porque essa luta reeducacional não é uma luta fácil. Essa postura de buscar o extrínseco é válida, claro, mas é a condição mais fácil, mais tranquila. Se ficamos só nisso nos mantemos na condição mais fácil, pois o duro é ter que engolir e metabolizar tanta coisa no campo da proposta de mudança. Assim, é muito comum a pessoa seguir a vida inteira servindo e ajudando, no entanto, sem alterações íntimas.

A mesma que vai chegar ao plano espiritual quando do seu desencarne é a mesma que chegou aqui quando reencarnou. Percebeu? Trabalhou no campo exterior, mas não conseguiu dobrar determinadas estruturas que estão dentro dela há muito tempo, não utilizou a luz da religião para o clareamento do próprio coração.

Tem pessoas que inclusive dizem: “Não tem jeito, fazer o que, eu sou assim mesmo. Eu nasci assim e vou morrer assim. Não vou mudar o meu jeito de ser”. Não se abrem para alterar para melhor, não dão o testemunho das mudanças.

E se o assunto são as obras surgem muitas ideias megalomaníacas, aquela coisa de querer fazer grandezas. “Vou construir um grupo de natureza espiritual, ou fundar uma igreja. A que eu frequentei comportava cento e cinquenta pessoas. Na minha eu vou colocar uma capacidade para setecentas.” Surgem a todo o momento projetos cada vez mais ambiciosos. Sinceramente, não é por aí. Não que isso não possa acontecer, até pode. A questão não é tanto em querer fazer acima daquilo que os nossos potenciais suportam.

É preciso começar a implantação de valores em nossa vida a partir das mínimas coisas. Aliás, a nossa dureza é no investimento de cada momento. Nas mínimas coisas. Até na forma de sair de casa. Saber como é que eu fechei o portão, se eu fechei ou se eu bati. Se eu bati com violência ou se eu puxei com educação. Como é que eu bati a porta do carro, como é que eu toco a campainha da minha casa quando eu chego lá, qual é a altura que eu estou colocando no som quando vou ouvir as minhas músicas. Como eu atendi os telefonemas recebidos no dia de hoje. Não é isso? São essas coisas mais simples, pois é isso que promove e faz com que se sublime em nossa intimidade o ponto natural de interação com a sociedade, e a nossa disponibilidade no campo da cooperação natural na vida de interação também. O desafio é este. Gostamos de destaque e procuramos por liderança, mas não devemos trabalhar para alcançar liderança, pois a liderança é sobre nós próprios.

A luta reeducacional tem realmente o seu preço. Todavia, muitas pessoas são prestativas com o próximo, em se tratando de necessidades materiais, e quase sempre continuam menos boas para si mesmas, por se esquecerem da aplicação da luz do evangelho na vida prática. Prometem muito com as palavras, operam pouco no campo dos sentimentos. Com exceções, após reafirmarem os mais sadios propósitos de renovação irritam-se facilmente ao primeiro contato com a luta mais áspera. Frequentam os grupos espíritas, as igrejas evangélicas, os templos católicos, e outros de mesma natureza, no entanto, voltam cada semana ao núcleo de preces nas mesmas condições em que estiveram na semana anterior, requisitando o conforto material e o auxílio exterior. Chegam a estudar o evangelho, ou pelo menos estudam a letra do evangelho, e com grande dificuldade cumprem a promessa de cooperação com o Cristo Jesus em si próprias, sede e base fundamental da verdadeira iluminação.

E, afinal de contas, por onde se deve começar a caridade? Onde ela se inicia? Não há uma fórmula específica, mas com toda a certeza a caridade aos outros deve começar em nós próprios. Ela começa pelo peso que nós aliviamos em nossa área de atuação, seja em casa ou no ambiente de trabalho. Mediante a reforma íntima nos terrenos do coração, a primeira providência nossa deve ser no sentido de nos tornarmos menos onerosos aos outros, dar menos trabalho aos outros, dificultar menos a caminhada dos outros. Esse esforço de iluminação deve iniciar-se pelo autodomínio, pela disciplina dos próprios sentimentos inferiores, pelo trabalho silencioso com vistas ao extermínio das próprias paixões. Dessa forma, já começamos a sentir e a vibrar de maneira diferente.

Iniciemos o nosso apostolado de paz calando a inquietação no campo íntimo e reafirmemos o compromisso de servir, silenciando sempre onde não possamos agir em socorro do próximo. Entendamos que é preciso transformação no plano interior para se poder atuar nos campos da cooperação. É por esta razão que estamos tentando convencer a nós mesmos, pelo conhecimento racional, de que precisamos melhorar, que é converter o coração para as verdades celestiais. Se a caridade é a aplicação do amor, a gente precisa primeiro sentir o amor para depois aplicá-lo.

A gente começa e não pode cansar, tem que seguir, sequenciar. “E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido.” (Gálatas 6:9) Observou com atenção? Não nos cansemos de “fazer bem”. Não é fazer “o bem”. Não existe o artigo (o), ele foi retirado. Por quê? Porque fazer “o bem” pode muitas vezes ser uma atitude de exceção na vida de alguém, algo realizado de forma esporádica, ocasional, aquilo que a pessoa faz circunstancialmente e que no fundo não constitui a síntese da vida dele.

Deu para perceber? No fundo, na essência, a vida não é a exceção mental nossa, como por exemplo a participação em alguma reunião ou culto espiritual, ou mesmo a entrada neste blog para estudo. Nessas situações a gente vive um momento ocasional, específico, uma realidade entre aspas, didaticamente falando, embora possa ter pessoas onde o que é veiculado nesses locais seja uma constante na vida delas. Todavia, no fundo esses são momentos em que vivemos por opção. Uma reunião de uma ou duas horas nos grupos ou nas igrejas, ou mesmo a permanência neste estudo por breves minutos, onde colocamos a mente focalizada e voltada a novos planos, mas que não representam a tônica da nossa vida, o corriqueiro, o cotidiano, o comum, o básico.

No “não nos cansemos de fazer bem” não tem artigo (o). E se não tem artigo não há objeto direto a especificar a natureza da ação. Aí fica fácil de entender, não se trata de fazer “o bem”, e sim fazer “bem”.  E alguém pode perguntar: “Espera aí, mas fazer bem o quê? O que nós devemos fazer bem?” Ora, a ausência de objeto direto já responde por si mesma. A ausência do objeto direto define generalidade. Ou seja, o que devemos fazer bem? Tudo! Fazer “bem”.

O advérbio de modo, de natureza positiva, sugere a maneira como esse fazer deve ser realizado, a forma como devemos fazer todas as coisas, que as devemos fazer bem. Conclusão: devemos fazer tudo bem. Tudo. Não importa se tratar-se de algo imposto, de uma obrigação, ou de algo resultante de uma opção nossa no campo da escolha e espontaneidade. Não há distinção. E fazer bem significa fazer bem feito, com alegria, entusiasmo, dedicação, disposição e bom ânimo. Aliás, o evangelho é claro ao dizer “misericórdia quero, e não sacrifício”.

Agora, nós sabemos que o que fazemos bem, seja lá o que for, sempre podemos fazer melhor. Sempre podemos e devemos nos aperfeiçoar, melhorar, a definir que o fazer “bem” significa a capacidade nossa de melhoria, de autoaperfeiçoamento. Logo, o fazer bem, sem perfeccionismo, é o que nos projeta e nos sublima. Devemos fazer tudo bem, tudo o que estiver ao nosso alcance, pois quando se persiste nessa postura de fazer “bem” (e sem cansar, claro), o fazer “o bem” surge como uma decorrência natural desse aperfeiçoamento.

Se comentamos agora a pouco que muitas pessoas envolvidas nos planos das religiões investem na caridade periférica, em uma elaboração mais aprofundada, mais sólida, vamos concluir que o trabalho deve ser um reflexo da nossa luta íntima. Muitos apressados querem dar antes de possuir, todavia o primeiro movimento da caridade efetiva se faz pela renovação nos terrenos do coração.

Em outras palavras, que o trabalho vertido em benefício dos outros seja um reflexo natural da nossa intimidade. Que a capacidade nossa de operar no amor represente uma atitude que já temos embutida em nosso psiquismo, onde o grande desafio é transformar a claridade em caridade, o ensinamento recebido em exteriorização da luz. Dessa maneira, a faceta relacionada com a irradiação do amor toma uma fisionomia muito para além daquilo que nós podemos conceber ou imaginar.

Pois é muito simples, na hora em que a gente se converte para as realidades maiores da vida a gente não aguenta ficar sozinho ou indiferente. Já pensou nisso? É muito difícil uma criatura com sensibilidade, amor e humildade conseguir mudar sem registrar alguma coisa em favor daqueles que se acham em volta. Não tem jeito. E se a porta é estreita e o caminho é apertado não podemos nos desfalecer. Temos que manter, persistir, sequenciar uma linha de ação condizente com a proposta adotada, pois em razão do que lançarmos ceifaremos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...