3 de ago de 2012

Cap 26 - Livre-Arbítrio - Parte 2


SEM PRESSA

É fato que carreamos conosco o somatório de reflexos que viemos arregimentando e formalizando no psiquismo ao longo dos milênios. O que isso quer dizer? Que a alma registra todas as suas experiências no aprendizado das lutas da vida no próprio patrimônio íntimo. Que todas as características morais que arregimentamos em cada existência física ficam incrustadas em nosso organismo perispiritual. Que os padrões morais de um espírito são herdados do próprio espírito.

E que cada espírito é um registro de si mesmo, trazendo nos caminhos da vida os arquivos de si próprio. Todas as trajetórias, desde as mais recuadas, nele se encontram gravadas, podendo ser penetradas quando circunstâncias permitem e por quem esteja habilitado a fazê-lo. Logo, os maus exibem o inferno que criaram para o íntimo enquanto os bons revelam o paraíso que edificaram no coração.

O interessante é que todo passado milenar que carreamos apresenta para nós um sistema em bloco. E o espírito, ao reencarnar no plano físico pelas portas do nascimento, traz consigo miríades de caracteres que formam esse bloco, envolvendo toda a experiência de trás e embutida dentro da individualidade. Está acompanhando? Quando um espírito reencarna ele carrega na estrada terrena essa mochila, esse bloco. É impossível deixar essa bagagem para trás e pegar uma mala com novos caracteres, zero quilômetro de tendências e registros.

Não dá. Todos esses registros embutidos acompanham a criatura e são fatores didáticos de aprendizagem que projetam o ser para um crescimento a Deus. É por essa razão que entendemos que por estar a maioria dos homens em lutas expiatórias é possível figurá-los como alguém que luta para desfazer-se do próprio cadáver, que é o passado culposo, de modo a ascender para a vida maior.

A gente acorda, mais cedo ou mais tarde, para as realidades maiores da vida e o que constatamos, na maioria das vezes, é que nos identificamos circulando dentro de um túnel. Exemplificação perfeita esta. Comumente somos apanhados na luta reeducacional dentro de um túnel. E porque túnel? Porque quando uma luz nos toca e nos sensibiliza a alma, reconhecemos que antes do despertar estávamos nos escuro. E daí nos localizamos dentro de um túnel. E mais, que toda a sombra em volta, toda a complicação dentro dele, foi criada por nós mesmos lá atrás, mediante escolhas menos felizes que efetivamos no passado.

Escolhemos indevidamente e agora a vida nos colocou nesse ponto até mesmo para refletirmos. Criaturas insubordinadas à vontade divina que somos, geralmente procuramos a luz quando cansados da solidão da treva. Acordamos no meio das dificuldades, e nessa hora haja prece. Tecemos as mais comovedoras orações, e haja pedido, haja solicitação e haja vibração para que a gente consiga se desonerar desse sistema difícil. É um túnel escuro e a gente tem que caminhar, e vê uma abertura com uma claridade na ponta. O que fazer?

Temos que percorrer atrás dela com paciência para sair. Redimensionamos conceitos, pensamos em melhorar posturas, mas ainda ficamos sujeitos ao trânsito dentro do túnel em que estamos vivendo. Essa é a nossa realidade hoje. Estamos pensando na luz, entusiasmados com a luz. A nossa semente está produzindo luz, porém, estamos ainda em meio às trevas. E temos que sair desse túnel. Não podemos explodi-lo, do contrário fechamos a saída e corremos o risco de ficarmos por mais algumas reencarnações na confusão toda.

De uma forma geral, a maioria esmagadora das criaturas humanas quer o homem aperfeiçoado de um dia para outro. Isso mesmo, não é exagero nenhum. Quer rigorosamente a redenção a golpe instantâneo da vontade, de forma imediata, apressada, sem planejamento, sem programação, sem uma realização metódica. Sendo assim, é muito comum nós arregimentarmos valores informativos e querermos que esses valores, por si só, sufoquem e matem de imediato o homem velho. Esse é o nosso caráter imediatista. Mas a verdade é que a coisa não é bem assim. Aliás, essa concepção define um erro muito triste.

Está certo que a grande massa de pessoas do planeta tem evoluído no decorrer da paciência do tempo, só que dentro dos padrões e lances do crescimento não se faz ou não se dá passos efetivos e finalísticos em um espaço muito curto de tempo. Razão pela qual, em se tratando de estrutura educacional, psíquica e espiritual, para uma evolução efetiva é preciso desativar a pressa.

“Poxa, espera aí. Porque desativar a pressa, se eu tenho pressa?”, você pode pensar. É simples. É que esses caracteres embutidos em nossa personalidade são vigorosos. Exercem uma influência na nossa vida muito maior do que a gente imagina e não são extirpados através de atitudes milagreiras de momento.

Não existe a possibilidade de desativarmos esses reflexos simplesmente pela utilização de sistemas mecânicos ou elaborações mentais de periferia. Essas cristalizações de longo período no inconsciente não podem ser arrancadas apenas com algumas palavras e induções psicológicas de breve duração. O vício não cede o lugar sem luta, é preciso destronar um elemento para que outro impere.

E por falar em pressa, tem muitos companheiros que buscam impor a si mesmos, violentando-se mediante uma terapia de choque. É como se dá com fanático. Fanatismo é um processo cristalizado, em que a criatura se investe de uma maneira definitiva e violenta, e o que é pior, sem medir as consequências.

Olha, meu amigo, nós estamos aqui juntos fazendo um esforço para trabalhar o evangelho com carinho e aprofundamento e não podemos ignorar que a luz direta e intempestiva direcionada aos olhos de alguém pode cegar. Aliás, todo fanático é cego. Dizemos isso sem querer ofender ou menosprezar ninguém, mas é verdade, é cego. Ele recebe algo no sermão da igreja em que frequenta e acha que tem que ser daquele jeito. O fanático é aquele que ingere o conteúdo, e sem mastigar, sem questionar, sem raciocinar, e parte para uma aplicabilidade nem sempre assentada no discernimento, equilíbrio e segurança que se fazem necessárias. Essa nós podemos conceituar como sendo uma terapia do choque, onde a individualidade não tem a paciência de construir a si própria.

A luz deve ser refletida com autenticidade para se poder ver com clareza. Nós, que estamos vinculados em uma escola que indica que em parte conhecemos o nosso passado, embora não possamos detalhá-lo, mas que o conhecemos a nível intuitivo, sabemos perfeitamente, dentro do plano de reflexos com os quais nos deparamos nos dias de hoje, mais ou menos o que fomos ontem. E sabemos, também, que o processo ascensional tem que ser feito passo a passo.

Simplesmente não dá para a gente sair de uma reunião, de uma cerimônia religiosa, e achar que somos outra pessoa. Não dá para alguém sair de um culto e dizer “agora eu sou outro homem” ou “sou uma nova mulher”. Espera aí, não é outro ou outra coisa nenhuma, isso é conversa para boi dormir. Você pode ser outra pessoa com novas ideias, novos propósitos, mas o seu espírito ainda é o mesmo, cheio de marcas. Então, na medida em que vamos assimilando os padrões novos que nos são canalizados, nós vamos observando que temos que aguardar a maturação deles em nosso íntimo. E vamos notando que a gente aprende, e que de algum modo temos de ter tranquilidade ao dar o passo.

As soluções na nossa vida não virão ao nível conceitual, mas no plano operacional.

Deu para captar ou falei grego? A gente idealiza, estuda, lê livros de autoajuda e de interpretação do evangelho. Essa é a linha conceitual. Só que a nossa mudança é operacional, não é conceitual, embora a linha conceitual seja a forma que vai modelar essa mudança operacional e final. Em um estudo como este nós estamos trabalhando as linhas estruturais do campo mental, que é onde está a origem, a gênese de toda a nossa iniciativa de crescimento. E se eu não mantiver essa linha conceitual clara e segura, e não nutri-la de valores de segurança, na primeira esquina eu desisto e volto para a antiga sistemática de ação.

Percebeu agora? Nós podemos sair de uma reunião espiritual ou de um estudo com muitos esboços dentro de nós, esboços que definem uma mentalidade mais equilibrada e mais harmônica. Mas já podemos desmanchar o esboço na saída do portão, brigando com alguém no caminho, entrando em desajuste. Então, vale ter em conta que o plano mental é o plano informativo desses caracteres, esboçando caracteres, e esse esboço vai ser fundamentado no plano prático realizador do dia a dia. É a aplicação que pode produzir nova forma.

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