8 de nov de 2012

Cap 29 - João Batista (2ª edição) - Parte 4


O DESERTO

“E, NAQUELES DIAS, APARECEU JOÃO BATISTA PREGANDO NO DESERTO DA JUDÉIA.” MATEUS 3:1

O deserto, no seu aspecto espiritual, define para nós aquela área desprovida de edificação, terreno seco e com sentido de aridez que existe no interior de cada um de nós.

Território que já não corresponde aos anseios mais íntimos que alguém cultivava. Surge e a criatura nele se identifica quando descobre que o que pensava ser a sua segurança vai acabar ou está sendo destruído, pois olha o que tem feito e percebe que aquilo está acabando, já não tem mais substância mantenedora de vida. E não há como buscar frutos dentro do deserto, o compromisso passa ser a entrada em uma proposta nova.

O deserto define o ponto e o momento de acentuado desconforto e solidão. Todavia, é onde qualquer estruturação em bases novas tem que se fundamentar, e não tem como ser diferente de jeito nenhum. Nós ainda sentimos uma necessidade muito grande de estarmos praticamente cem por cento do tempo envolvidos pelos outros. E chegamos a desconsiderar que é imprescindível saber estar só, que quem não passar pelo processo da solidão não progride.

É comum, em momentos dessa natureza, dizermos “Oh, meu Deus, porque está acontecendo essas coisas comigo?” Na maior parte das vezes isto é dito em tom de lamentação. E tanto é dito lamentando que a maioria das criaturas interpreta o texto do evangelho em que Jesus, sozinho na cruz, diz “porque me desamparaste”, como sendo uma fragilidade dele, acha que ele foi frágil. À primeira vista, em relação a esta expressão de Jesus, essa é a dedução que a gente tira dessa passagem. Todavia, não se trata de uma lamúria dele, mas sim de uma indagação correta dele. Nós é que colocamos fragilidade por nossa conta.

Analise, em quantas ocasiões nos achamos tristes e sós e não indagamos: “Meu Deus, porque isso está acontecendo comigo? Porque é que eu estou tão só?” E não demora muito tempo e a resposta naturalmente surge. Acontece que quando nos encontramos só tem algo a ser revelado. Isso não sou eu quem está falando. É da lei! Há algo a ser revelado. Não tem quem não passe por momentos desses na grande proposta de crescimento consciente. Não tem como.

São lances da vida. Vemos-nos circunstancialmente em um labirinto escuro, porém, quando a gente vence a etapa, quando saímos bem daquela experiência difícil, identificamos de pronto o sorriso daqueles corações que estavam junto conosco e a gente achava que estava sozinho. A vida traz momentos assim para o nosso próprio engrandecimento. E daí podemos concluir que a solidão na sua legitimidade não existe. O que existe é uma pseudosolidão para que sintamos que nós temos o amparo divino. Agora, o que acontece é que em geral não mantemos a paciência e o equilíbrio indispensável de busca dentro da solidão, e costumamos apelar para o desespero, que faz a situação se enovelar, às vezes, por longo tempo, até por várias encarnações.

O deserto é o campo que se abre ao ser para que ele edifique uma nova mentalidade de vida e busque operar em novas bases. Ele aparece no momento em que a consciência se desperta e a criatura enxerga que algo existe para além da lei em termos de amor. No alcance a objetivos mais altos da evolução com Jesus é necessário o trânsito e a superação das intempéries desse ambiente árido e ensolarado. Assim, não podemos reclamar. Alguém se identifica no deserto quando descobre o caminho a palmilhar. Logo, o deserto é lugar árido que pode ser trabalhado, que pode ser fertilizado, mas ao nível da mente.

Vamos gravar uma coisa com muita atenção. Todas as vezes que a gente entra em um processo de transição essa transição para quem quer mudar é deserto. Nós estamos numa fase de mudanças e deserto é onde começa todo o mecanismo. Representa o outro ângulo, o outro lado, o ponto da transição, e transição é mudança de um estado para outro, é o que está jogado na confusão.

É por isto que existe tanta dificuldade em mudar-se. Tem tanta gente que quer mudar alguma coisa na vida e quando olha do outro lado não tem nada, é tudo diferente, a nossa praia é onde estamos, é do lado de cá. Entrar no deserto é se lançar em um lugar em que não se tem experiência, razão pela qual é difícil crescer.

Aonde se situa o indivíduo é o terreno da sua segurança pessoal. Onde ele está é o seu habitat, é construção, é algo sólido, concreto. Ele se sente muito à vontade com o que acontece ali. Mas quando ele investe para além ele nada tem, ele nada possui, ele nada pode, porque do outro lado é deserto. Para além é sempre deserto para quem estava do outro lado. João Batista visualiza que tudo o que se aprende tem que ser operado, porque deserto é um espaço que precisa ser construído.

Estamos lidando com o evangelho e evangelho não é edifício de redenção das almas? Pois então, edifício sugere construção. Por causa dessa dificuldade natural da mudança, quando começamos a dar o testemunho para conseguirmos nos firmar em nova posição é comum sermos visitados por variados temores. E como não é fácil mudar, muitos ficam sem saber se devem ou não investir. Aliás, muitas pessoas preferem ficar onde estão e não abrem mão dessa escolha. Aí nos chega o evangelho com um painel amplo de medidas. Resultado: a ascensão não é tão fácil como parece. Mas também não é tão complexa que vamos largar para lá e não investir. Verdade seja dita, para se entrar no deserto você tem que ter pelo menos um grande senso de coragem.

O evangelho, todo ele, em sua essência, não fala e não trata de amor? João não nos desprende da justiça e nos aponta para ele? Pois então, para adquirirmos esse meio de equilíbrio e de segurança nós estamos passando por todos esses transtornos. Para quê? Para entendermos o semelhante no grande futuro. Para aprender como ajudar e trabalhar com ele quando estivermos no campo do amor.

O mundo em transição é laboratório de toda a valia para quem está em mecanismo de progresso e seleção. Precisamos entender que conflito integra o mecanismo de educação do ser e quem está sabendo viver aqui dentro hoje, no deserto, sem exagero algum está recebendo coisas que nunca teve a chance de receber lá atrás. Como as transições essenciais da existência na Terra costumam encontrar a maioria dos homens absolutamente distraídos das realidades eternas, nesse deserto temos que ter o cuidado e o equilíbrio a fim de podermos valorizar a experiência vivida com amor e paciência, porque é por aí que nós vamos dar os grandes passos trabalhando a nossa própria redenção.

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