24 de jan de 2013

Cap 31 - A Felicidade e a Espada (2ª edição) - Parte 9


A LETRA MATA E O ESPÍRITO VIVIFICA

“O QUAL NOS FEZ TAMBÉM CAPAZES DE SER MINISTROS DE UM NOVO TESTAMENTO, NÃO DA LETRA, MAS DO ESPÍRITO; PORQUE A LETRA MATA E O ESPÍRITO VIVIFICA.” CORÍNTIOS II 3:6 

O que alguém pode perguntar é como a letra mata, como ela pode matar. Inicialmente, nós vamos observar que por meio da nossa busca, em decorrência daquilo que o nosso íntimo grita e deseja, a palavra que é irradiada passa a ser assimilada pelo nosso grau de percepção e nós apreendemos padrões novos. É claro que cada qual vai assimilando e enxergando aquele ângulo quase sempre compatível com as suas necessidades e padrões próprios. Essa palavra recebida penetra o corpo, mas não o corpo físico, penetra o corpo de concepções, de ideias, conceituações e valores do ser.

E quando a orientação espiritual elevada penetra a intimidade do indivíduo instaura-se de imediato uma luta íntima. A letra, ao encontrar plano de percepção dentro da gente, de forma instantânea cria um estado de luta íntima, conflito este decorrente da necessidade intrínseca de se conquistar a paz, porque não existe paz sem luta. A letra, de fato, aponta uma mensagem, e se ela nos atinge é porque estamos em campo de reação. Não pode haver dúvida quanto a esta questão, nenhuma. Atrás de toda proposta de luta vibra o anseio de se estabelecer a paz.

Todo conhecimento gera conflito e esse conflito instaurado, essa luta franca e aberta, representa o quê? Um componente que integra o sistema educacional natural.

No mecanismo da evolução o conflito aparece como um dos elementos que marcam de forma decisiva a metodologia da aprendizagem. É por isto que a lição de Jesus, ainda e sempre, é conhecida como a espada renovadora, o instrumento de luta íntima e geratriz da paz, com o qual deve o homem lutar consigo mesmo, extirpando os velhos inimigos do coração.

O conflito integra o mecanismo da educação e cada componente novo que recebemos cria uma guerra íntima. Porque o valor novo é assimilado e nós entramos numa guerra entre este conceito que chegou, e que entendemos que é válido, e o conceito antigo que trazemos condicionado dentro de nós pelos reflexos.

Está dando para acompanhar? A aprendizagem instala dentro de nós uma guerra entre o componente que nos chega, ao nível de informação, e os caracteres formativos condicionados que nós já possuímos no plano íntimo. É bonito demais entender esse mecanismo. O padrão novo chega porque ele é avocado pela inteligência, razão e sentimento, e vamos dizer que sentimos uma segurança nele, por isso investimos. Mas esse componente que chega, e que jogamos em cima do nosso território interior, da nossa vida mental, ele vai criar naturalmente um conflito entre a nova norma que aprendemos e as leis nas quais nos situávamos, leis às quais trabalhávamos em cima delas ao nível de conhecimento.

Os novos conceitos se chocam com as concepções caducas ali existentes, filhas de uma mentalidade que não produz a paz e, tampouco, ameniza a cota de sofrimento da criatura. Daí surge o choque inevitável entre aquilo que se tem e o que se quer ter, entre aquilo que se faz e o que se precisa fazer. Dificuldades dimanam quando acionamos os valores apreendidos pela informação e os colocamos em relação direta, ou em choque, com os padrões que estamos vivenciando.

Nessa hora é que fica praticamente instaurada, vamos dizer, a grande luta de redenção ou renovação. Por isso é que para a evolução acontecer a paciência tem que ser chamada. Conclusão? Sempre a letra mata. E se nós não colocarmos um ponto de aprofundamento para que a vida surja dessa letra, ou desses padrões mantenedores da vida em novas bases, nós não damos aquele sentido dinâmico para o crescimento. Estamos sempre lidando com esse mecanismo. Por isso é que a ressurreição é um fato. Jesus já pensava no tempo de amanhã dentro dessa proposta de aprendizado da evolução consciente.

A gente está falando em morte e no concerto das lições divinas o cristão comumente conhece apenas um gênero de morte. É claro que não estamos aqui falando em morte no sentido físico. Não é morte fisicamente falando, não é morte no sentido de cessação dos batimentos cardíacos, ou do direito de respirar. Nada disso. É uma morte de outra natureza, que se dá pelo conteúdo que nos visita e promove a morte. E também não é morte no sentido de eliminação.

Não é morrer pelo fato de eliminar, acabar. É um matar não pela eliminação e violência, e sim mediante um processo de desativação. Percebeu? É pela desativação, pois os reflexos que trazemos conosco não podem ser destruídos. Eles podem ser desativados. Estamos falando em morte no sentido de desativação de um reflexo que era expressão viva dentro de nós. É morte que define a desvinculação daqueles padrões que vem nos prendendo à retaguarda da vida. Define a desativação do componente que vigorava, para dar lugar a novas expressões que irão entrar em um plano de vivência. Por esta razão é que quando trabalhamos a letra nós estamos trabalhando os instrumentos da morte.

A letra começa a apontar situações que vivemos e que necessitam ser reexaminadas e recicladas. Então, nas faixas mais exteriores do evangelho nós temos a letra que faz um papel de morte, de entregar à morte. E na medida em que se penetra em espírito e verdade, na intimidade da letra, nós começamos a transformar o que era decretação da morte em uma eleição de vida em nova posição.

A morte é instrumento da ressurreição. É onde reside um dos aspectos da chamada ressurreição. Sem morte não há ressurreição, não se origina nova vida. Não existe mudança sem morte, não se dá a estruturação de uma nova vida sem a eliminação da vida anterior. Sem morte não há como herdar, não há herança, é preciso que morra o elemento para que a herança se faça presente.

Logo, essa morte é que vai gerar a ressurreição de uma postura nova e melhor para o indivíduo, e cada morte corresponde a uma ressurreição. É o indivíduo que vai se levantar, como filho, em outra posição mental. A nos mostrar que a morte, no seu sentido moral, intrínseco, é a grande oportunidade de cada criatura para que ela reviva em uma dimensão diferente e melhor. A letra mata, ela fala para o homem velho, e a expressão vivificante fala para o homem novo que quer nascer.

A verdade é que nós não sabemos ainda o que é a vida. Estamos mal iniciando acerca da vida. A vida, como componente dinâmico da personalidade, começa a ter expressões diferenciadas. Está entendendo o que eu quero dizer? Ela começa a perder o seu sentido dinâmico de movimento, de ação dos órgãos, do respirar, da manutenção e euforia do cosmo orgânico, para começar a trabalhar muito na intimidade da reflexão do ser. Nós estamos estudando o evangelho e ele surge para indicar que temos uma luta para vencer dentro de nós mesmos. O objetivo dessa luta é matar a antiga criatura (o homem velho) e vivificar a nova expressão (o filho do homem). É exatamente isso. Nem mais, nem menos.

A instrução que chega (informação) gera a luta e a formação educacional (aplicação) produz a paz, porque a paz é decorrente da luta, sem luta não há paz.

A informação detona a luta e a aplicabilidade dessa instrução no campo prático da vida, ao nível de formação de caracteres novos, garante a paz. A letra que chega de fora mata toda uma estrutura que estamos selecionando como suscetível de morrer, e por dentro tem o componente de vivificação que nós estamos tentando trabalhar. E a nova vida com plenitude do evangelho tem que ser implantada em função da ressurreição, porque eu não posso manter uma dualidade de vida. A dualidade de vida é muito indigesta, nos cria muitos dramas, embora não tenhamos, às vezes, como evitar esse momento de transição que estamos vivendo hoje. Mas na medida em que a morte opera o aniquilamento da minha forma de ser e de viver, a nova mensagem que a letra trouxe na sua intimidade promove a ressurreição da gente em uma nova posição.

E na proporção em que formos operando com clareza em cima do novo valor recebido nós vamos assinando os tratados de paz na própria vida consciencial. Vamos aprendendo a nos administrar. Porque a essencialidade que está contida na letra não vem para matar, efetivamente, vem para dar vida a uma expressão nova. A cada momento nós estamos gerando uma morte que, atrás dela vibra uma vida abundante e melhor. Conclusão? É que quando conseguimos nos ajustar essa espada faz um papel cortante ao nível do sofrimento, do desajuste e do desconforto. Essa espada penetra e altera, de forma substancial, toda uma estrutura formada do ser. É por isso que o termo usado é reforma íntima, isto é, dar uma forma nova, reformar. Esse valor vem trabalhar a intimidade da individualidade projetando nova forma de viver. Razão pela qual é preciso assimilar para implementar um sistema novo de vida.

O que era processo captado, nós vamos observar que essas captações informativas, reveladoras, passam a ser componentes de vida, de experiência. E essa experiência cria o quê? Um sistema de morte para aquilo que representava a nossa forma de viver. Ela vai matando toda uma soma de conceitos e concepções e vai, ao mesmo tempo, abrindo novo processo ao nível de vivência. A gente vai vivendo o novo valor e vai reformulando os conceitos, vai reformulando as concepções, vai alterando a nossa estrutura, vai melhorando.

O próprio sofrimento que nos alcança representa a letra. E a letra mata. Todavia, a proposta da lei não é apenas respaldar o destino, fazer com que paguemos a nossa dívida. Como manifestação da misericórdia de Deus, ela vai além e busca nos direcionar para o amor. Cada um está recebendo, e por maiores sejam as dificuldades não é para a destruição, porque não existe essa proposta destruidora de cima para baixo, não chega destruição do plano superior para o nosso.

A parte periférica da letra mata o nosso conceito anterior, porém, essa espada da lei não tem o objetivo de matar, de destruir, ela visa a edificação do espírito atrás dessa morte aparente que ela avoca. O que tem dentro da lei, a essência, não vem para matar, chega para fazer ressurgir uma nova personalidade.

Vamos, então, saber entender a mensagem dos acontecimentos. Nada é sem sentido e atrás de toda circunstância existe algo a ser transmitido. A própria dor traz uma mensagem, e a essencialidade contida dentro busca trazer vida em um parâmetro melhor. Tudo se torna bastante enriquecedor quando conseguimos encontrar a mensagem que vigora atrás dos acontecimentos que nos visitam.

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