16 de fev de 2013

Cap 32 - Ação e Reação - Parte 4


A CULPA E O ESCÂNDALO

“AI DO MUNDO, POR CAUSA DOS ESCÂNDALOS; PORQUE É MISTER QUE VENHAM ESCÂNDALOS, MAS AI DAQUELE HOMEM POR QUEM O ESCÂNDALO VEM!” MATEUS 18:7

A consciência é aquela faculdade que o espírito possui e pela qual é capaz de refletir sobre si mesmo acerca da luz da justiça divina.

O fato é que criatura humana alguma foge à lei nem à consciência de si mesmo, pois que Deus aí escreveu os seus soberanos códigos, e cada qual traz consigo o seu juiz. Por princípio de direito cósmico universal arquivamos em nós mesmos as raízes do mal que acalentamos, como tumores de energias profundas na profundidade da alma, e toda queda moral, nos seres responsáveis, opera certa lesão no campo psicossomático. 

Isto ocorre porque qualquer sombra de nossa consciência mantém-se impressa em nossa vida até que a mácula seja lavada por nós mesmos, com o suor do trabalho ou o pranto da expiação.

As menores quedas e as mínimas viciações ficam impressas na alma exigindo retificação e não há uma só infração à lei de Deus que fique sem correspondente punição, para serem extirpadas depois à custa de esforço próprio, na companhia dos que se nos afinam à faixa de culpa. Na evolução para Deus o bem é passagem livre para os cimos da vida superior, ao passo que o mal é sentença de interdição, constrangendo-nos a paradas mais ou menos difíceis de reajuste. Os nossos atos tecem asas de libertação ou algemas de cativeiro para a nossa vitória ou nossa perda. E embora em processo reparador de culpas recíprocas, somos, antes de tudo, devedores da lei em nossas próprias consciências. O homem evita o mal para se eximir da dor, sua legítima consequência, e sofre sempre a consequência de suas  faltas.

Todo indivíduo responsável pela queda de terceiros experimenta em si a ampliação dos próprios crimes. Não raras vezes o doloroso inferno sentido é a aflitiva condenação. O assunto é muito complexo e a culpa somente desaparece quando se liberta aqueles que lhe sofreram o mal. À partir daí é necessário que o agente causador assimile ideias novas pelas quais passe a trabalhar, ainda que lentamente, melhorando a sua visão interior e estruturando o destino. A renovação mental é a renovação da vida e não existe regeneração de fora sem a legítima regeneração estruturada no coração.

A paisagem real do espírito, tanto nos círculos carnais como nos espirituais, é a do campo interior, e cada qual vive com as criações mais íntimas de sua alma.

A gente não tem como fugir da gente. A gente pode fugir dos ambientes, mas da gente mesmo não tem como. Ninguém foge da consciência culpada e os  sofredores trazem consigo, individualmente, o estigma dos erros deliberados a que se entregaram. A morte como fim não existe e os infratores, no corpo ou fora dele, estão algemados às consequências de suas ações. E mesmo com a possibilidade de poder ausentar-se da paisagem do crime o pensamento do infrator se mantém preso ao ambiente e à própria substância da falta cometida. Como se diz na linguagem policial, o criminoso sempre volta ao local do crime.

O remorso, aspecto inicial da trilogia da redenção, é a inquietação da consciência pela culpa ou crime cometido, em torno da qual a onda viva e contínua do pensamento passa a enovelar-se em circuito fechado sobre si mesma.

Funciona como uma prisão sem grades, edificada pela culpa, onde a criatura não consegue fugir. A consciência culpada não esquece a ação infeliz e a dívida tem sempre os fantasmas da cobrança. O criminoso nunca consegue fugir da justiça universal, uma vez que carrega o crime cometido em qualquer parte e a consciência pessoal não libera culpado algum sem a conveniente regularização do delito.

Presos a montante de débitos com o passado é da lei que ninguém se emancipe sem pagar o que deve. Não se pode avançar livremente para o amanhã sem solver os compromissos do ontem, sem o devido pagamento das dívidas que contraiu. Sem contar que sempre há cobrador quando existe devedor. Porque na pauta dos processos atuais de evolução do planeta é da lei maior que onde esteja o devedor aí se apresentem a dívida e o cobrador. E entre ambos, o credor e o devedor, vigora sempre o fio espiritual do compromisso.

É preciso pensar com muito acerto e não viver de qualquer jeito. A vida, embora seja uma aventura gostosa, não é brincadeira. Em todos os planos da existência o instituto da justiça divina funciona de forma natural com os seus princípios de compensação. Quanto mais baixo o grau evolutivo dos culpados mais sumário é o julgamento pelas autoridades cabíveis, e quanto mais avançados os valores culturais e morais do indivíduo mais complexo é o exame dos processos de criminalidade em que se emaranham. Não só pela influência com que atuam nos destinos alheios, mas também porque o espírito, quando ajustado à consciência dos seus erros, ansioso de reabilitar-se diante daqueles que mais ama, suplica por si mesmo a sentença punitiva que reconhece como indispensável à elevação de si próprio, objetivando acertar o caminho.

"Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!" (Mateus 18:7)

Com estas palavras o mestre quer dizer que o mundo é um teatro de escândalos. Orbe expiatório, habitado por espíritos atrasados, não é de se admirar que escândalos se sucedam. O mundo é vasta escola de regeneração, onde todas as criaturas humanas se reabilitam da traição aos seus próprios deveres.

E como a lei divina é sábia e justa, e não deixa de operar ceitil por ceitil conforme a causa, cada complicação que nós perpetramos na vida é um fato lamentável catalogado no evangelho como escândalo. Num plano de vida onde quase todos se encontram pelo escândalo que praticaram no pretérito é justo que o mesmo escândalo seja necessário, como elemento de expiação, prova ou aprendizado.

Resultado? Todo aquele indivíduo que se transforma em instrumento de escândalo tem de chorar. Portanto, não se desespere diante da dor, própria ou de outrem. Continue sereno no caminho em que se encontra, auxiliando no que pode. Em cima de certo escândalo está havendo uma necessidade, razão pela qual é necessário que o escândalo venha. Ele  está atendendo aos anseios menos felizes de alguém ou de algum grupo que, por ter criado, recebe.

O escândalo, de certa forma, é a exteriorização das sujidades morais ocultas no interior dos homens. Pode-se dizer que representa a manifestação daquilo que se mantém oculto na intimidade dos corações, aquele lodo contido bem na profundeza da alma humana. Consiste na revelação de um mal existente no indivíduo, que vem à tona pelos atritos ocasionados na vida de relação, pelos conflitos de interesses e de vaidades, ou apenas por simples circunstâncias ocasionais.

De forma que é necessário que haja o escândalo. Pois se o erro nos ensina a regra de acertar, é necessário que os homens se revelem, que mostrem o que realmente são. Provocando o escândalo, e suportando as consequências danosas do mesmo, a individualidade acaba por corrigir-se, mudando de atitude e proceder.

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