23 de fev de 2013

Cap 32 - Ação e Reação - Parte 6


A REPARAÇÃO

A roda do tempo gira, invariavelmente, e a paciência divina é eterna. 

Se estamos falando de réus da vida imortal percebemos que a severidade do castigo é proporcional à gravidade da falta. Então, observe uma coisa: aqueles que abusaram da riqueza material ontem se encontram hoje destituídos da mesma. E as mãos que continuamente se levantaram para ferir os semelhantes podem vir a ser cortadas.

O pai não dá, de pronto, um vestido mais bonito à filha rebelde que estragou propositadamente o que recebera na noite anterior. Tampouco dispensa recursos mais amplos àqueles filhos que desperdiçaram o anterior sem proveito algum. Assim se inicia o processo da regeneração, sempre que o homem infringe esse ou aquele preceito da lei torna-se réu consciente. Do delito praticado, com pleno conhecimento de causa, resulta a responsabilidade e, consequentemente, o sofrimento. O determinismo impulsiona para que todos mudem para melhor, e quanto aos recalcitrantes no erro, dia virá em que as torturas e as dores serão tais que a qualquer preço desejarão fazê-las cessar.

A vida é um laboratório de sementeira e colheita, onde o bem semeia a vida e o mal semeia a morte. A alma, aqui ou eu qualquer lugar, recebe sempre de acordo com o trabalho de edificação de si mesma e o próprio espírito inventa seu inferno ou cria as belezas do seu céu. Se o bem é movimento na escala ascensional para Deus, o mal é estagnação, constrangendo a paradas de reajuste. Nem tudo são flores em nossa estrada e situamo-nos sob pontos fechados da lei, e não adianta bater o pé. Afinal, cada qual, como efeito do que plasmou, tem a sua cruz, e o retorno da lei tem que ser aceito com muita paciência.

Sempre que lesamos alguém, quem quer que seja, lesamos a estrutura de equilíbrio que vigora no universo, e abrimos uma conta resgatável em tempo certo, porque não existem males ocultos na terra. Guarde isto: ninguém ilude a justiça divina e todos os crimes e falhas humanas se revelam algum dia, em algum lugar.

Antigamente usava-se falar que a justiça vinha à cavalo. Hoje é outro tempo. Ela vem mais rápida, e pode colocar rápida nisso. Na prestação de contas a Deus muitas vezes não é preciso alguém desencarnar para receber os resultados da lei, não é preciso morrer na carne para conhecer a lei das compensações.

Não é preciso muito para vislumbrarmos essa verdade, basta repararmos na rotina diária da luta vulgar e nos exemplos bem próximos. O homem que vive a indiferença pelas dores do próximo acaba por receber dos semelhantes a indiferença pelas dores que lhe são próprias. E basta nos afastemos do convívio social para que solidão deprimente se torne para nós a resposta do mundo.

Por nosso comprometimento diante das leis divinas, em qualquer idade de nossa vida responsável, impomo-nos o resgate de nossas obrigações em qualquer tempo. Não é para ficarmos espantados, mas a sepultura não finda nada, ela apenas derruba o muro da carne, porquanto continuamos tão vivos depois dela quanto antes, quanto respirávamos na atmosfera do mundo. Mais importante é compreendermos que toda reparação à lei divina defraudada realiza-se em termos de vida eterna, e não segundo a vida fragmentária que conhecemos na presente encarnação humana. As reparações podem ser transferidas no tempo, mas são sempre fatais. As dívidas cármicas, assim denominadas por se filiarem a causas infelizes plasmadas no destino, são perfeitamente transferíveis de uma existência para outra, como no caso das dívidas financeiras, que podemos efetivar o pagamento em meses posteriores. Tendo em conta o esquecimento mnemônico, que tem efeito terapêutico, o fruto que plantarmos nesta vida e não colhermos aqui colheremos na próxima etapa.

Quando ferimos os outros na essência ferimos a obra de Deus, e pelas leis soberanas nos fazemos réus infelizes reclamando quitação e reajuste. Não dá para desconsideramos esta questão, tampar os ouvidos e tentar passar despercebidos por ela. Não funciona dessa forma. A questão é bem séria e profunda. 

Pelo mal aos semelhantes praticamos o mal contra nós mesmos e os crimes que alguém comete pratica-os contra si próprio. E o mais importante de tudo: é da lei divina que o homem receba em si mesmo o fruto da plantação que realizou. As transgressões deliberadas às leis apresentam corrigenda na individualidade do próprio infrator. Isto é imprescindível de ser levado a sério e entendido.

Cada alma conduz consigo o inferno ou o céu que edificou no âmago da consciência, uma vez que a justiça começa invariavelmente em nós mesmos sempre que lhe defraudamos os princípios. Não tem essa de justo pagar pelo pecador. O justo não paga pelo pecador, cada um responde pela sua ação. Expiar o mal que se fez, para depois repará-lo, é impositivo da justiça divina ao alcance de todos. Por isso, muitas vezes nós penetramos forçosamente no inferno que criamos aos outros para experimentarmos o fogo com que afligimos o próximo.

As circunstâncias atuais que envolvem a nossa vida representam reflexos de situações mais ou menos felizes que semeamos em um passado mais próximo ou mais distante.

Tudo o que nos ocorre se dá em conformidade às nossas carências pessoais. O campo exterior em que se manifesta determinado problema é tão somente a instrumentalidade didática, o desafio no campo exterior não é o problema, porque o problema é íntimo.

Por isto, se analisarmos somente os fatores externos em vez de nos atermos ao ponto frágil da nossa intimidade que possibilitou a queda, nós valorizamos a instrumentalidade e esquecemos a linha vibracional que motivou determinado acontecimento. Porém, saibamos que mesmo diante dos pontos fechados que deparamos na caminhada encontramos diversas oportunidades para orar e refletir, e sempre podemos amenizar as suas ressonâncias dentro de nós.

E como consertar é sempre mais difícil do que fazer, não podemos contar com o favoritismo na obra laboriosa do aprimoramento individual, nem provocar a solução pacífica e imediata para os problemas que gastamos longo tempo a entretecer.

Em todos os ângulos do universo o trabalho de reajustamento próprio é artigo de lei irrevogável. Logo, ninguém suplique protecionismo a que não fez jus, nem flores de mel às sementes amargas que semeou em outro tempo. Quem atravessa um campo sem organizar a sementeira necessária ao pão, e sem proteger a fonte que sacia a sede, não pode voltar com a intenção de abastecer-se. A prece ajuda, a fé sustenta, o entusiasmo revigora e o ideal ilumina, no entanto, só o esforço próprio na direção do bem representa a base da realização.

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