26 de fev de 2013

Cap 32 - Ação e Reação - Parte 7


CORRIGENDA E MISERICÓRDIA

A sociedade, bem lá no passado, começou a compreender as suas obrigações e procurou segregar o criminoso como se isola um doente. Sim, isolar, mas buscando auxiliar-lhe a reforma definitiva, mediante todos os meios ao seu alcance.

De fato, a substância do evangelho penetrou o aparelho judiciário de todos os povos e disso não resta a mínima dúvida. Não é difícil entender que os regimes de recuperação e reparação do mundo tem por objetivo a melhoria moral do delinquente, a sua reeducação e consequente readaptação no meio social. A preocupação com o delinquente nas civilizações mais avançadas do planeta é reeducá-lo, por meio das prisões domiciliares, das colônias agrícolas e dos métodos outros que substituem as punições medievais, para que ele se recupere e coopere com a sociedade. A razão suprema de ser das prisões é a reforma do infrator, e não a imposição do sofrimento, da dor física ou moral.

Nos dias atuais, mediante um sistema bem combinado de notas, pela disciplina, pela aplicação aos estudos e dedicação ao trabalho coloca-se a sorte do recluso em suas próprias mãos, estimulando-o de forma a que ele procure alcançar, progressivamente, a melhoria da sua situação e, mais tarde, a sua libertação de forma definitiva. Pode-se dizer que o fim de toda pena é a educação da vontade do delinquente, pois no interior do homem, em sua vontade, reside tanto o fundamento da pena como o fundamento da recompensa.

Quem governa o mundo é Deus, e em razão disso a justiça divina nunca foi exercida sem amor. A lei divina eleva e estrutura-se sobre o perfeito amor. E o objetivo natural dessa justiça é conseguir em cada ambiente cósmico o máximo de equilíbrio. O amor não age com inquietação e nós todos estamos vivendo, embora nem sempre seja fácil perceber, um caos organizado debaixo do plano espiritual. Quando Deus exerce sua justiça não suspende o curso de sua misericórdia, e até mesmo na lei de causa e efeito encontramos a presença do amor.

O criador não repreende e nem castiga, o que existem são leis que funcionam dentro da necessidade de cada um. A lei divina vinga, mas não sob o aspecto de fazer a criatura pagar o que deve, e sim visando um processo reeducacional com vista a um porvir melhor, porque a misericórdia objetiva sempre o mesmo alvo, a evolução das almas. Muitas vezes, atrás de um contexto demorado, entre a causa infeliz e o resgate doloroso, existe uma proposta superior de reeducação do ser. E para além do cumprimento da lei de causa e efeito existe uma lei muito maior: a lei do progresso. Percebeu? E simplesmente em cima do "matou, morreu e pagou o que devia" não haveria progresso algum à criatura.

Dentro dessa linha de misericórdia vigora algo peculiar nesse retorno da lei. Quando nós falamos da lei de ação e reação, que, aliás, é algo muito natural, já que cada ação propõe uma reação, vamos reparar com bastante atenção que na reação já existe alguma coisa acrescentada ao nível de misericórdia. Não se trata de algo comumente observado pela maioria das pessoas, mas a reação traz consigo um componente indutor que nós talvez não consigamos captar de imediato.

Vamos tentar clarear. O que geralmente acontece? Você realiza uma ação, dá um lance, e esse lance sai, faz determinado percurso e depois acaba retornando. Até aí, tranquilo, certo? Todos nós conhecemos a lei do retorno. Agora, o interessante é que quando retorna ele não retorna como saiu de você, retorna acrescido de outros componentes que, às vezes, não foram os mesmos dimensionados na hora da emissão, retorna acrescido de linhas qualitativas que irão trabalhar a sua intimidade de modo a possibilitar novas conquistas. Será que deu para entender, ou eu andei falei grego aqui? Isto é algo da maior importância, porque assim se desenvolve o mecanismo da evolução.

Então, tem muita gente evoluindo pelo retorno do problema. O retorno da lei, o efeito, pode apresentar para o espírito a ele vinculado muita coisa na sua projeção. Às vezes, por exemplo, pode acontecer de termos tripudiado um coração no passado e esse coração pode vir em nosso lar hoje, fechando a linha de ação e reação. Não pode? Aliás, é o que acontece demais. E esse elemento que chega pode nos trazer o conhecimento do evangelho e a nossa abertura para valores espirituais que, até então, eram coisas que passavam despercebidas por nós. Percebeu o sentido que eu falei? Então, a reação traz consigo um componente embutido que representa uma ação da grandeza de Deus e o indivíduo é envolvido por esse tipo de atendimento em nome da misericórdia.

É nesse sentido. De forma que vamos entender que sempre, quando a resposta vem, vem trazendo alguma coisa a mais no campo de crescimento da individualidade.

Não estamos aqui para fazer nenhum tipo de crítica, mas determinadas religiões, ao admitirem o dogma das penas eternas, colocam a justiça divina em um patamar muito abaixo ao da justiça humana. Isso mesmo, por esse ângulo das penas eternas a justiça humana se torna bem superior à justiça divina.

Enquanto a justiça humana tem por objetivo corrigir e reabilitar o infrator, aplicando para isso penas brandas e transitórias, inteligente e caridosamente organizadas, a justiça divina, segundo certas religiões tradicionais, aplica torturas infindas, sujeitando os pecadores a um martírio cruel e bárbaro, com o propósito único de punir e vingar impiedosamente os pecados cometidos durante uma existência que, em relação à eternidade, em termos de tempo, é menos que um segundo. Enquanto a justiça humana busca promover a regeneração do culpado, esforçando-se por lhe despertar os bons sentimentos que, naturalmente jazem adormecidos, uma vez que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, a justiça divina limita-se a tiranizar eternamente o pecador, submetendo-o a angústias e sofrimentos que não cessam e se sucedem num desencadear sem fim. Enquanto a justiça humana concebe e admite a comutação, o indulto e até o perdão para os culpados que se tornam humildes e submissos à disciplina, a justiça divina não admite nenhuma modalidade de misericórdia, conservando-se fria, impassível e impiedosa.

Ora, ora, para aqueles que apresentam olhos de ver fica claro que a justiça de Deus não pode ser a pregada por determinadas religiões, visto como essa justiça, aos olhos dessas igrejas, chega a ser muito inferior à justiça da Terra. A esperança é um agente bem mais poderoso do que o temor e deve ser mantida continuamente diante do condenado e Jesus disse que "se a vossa justiça não for superior à dos escribas e fariseus não entrareis no reino de Deus."

Para a sabedoria superior nem sempre o que errou é um celerado, como nem sempre a vítima é pura e sincera, e o criador não vê apenas a maldade que surge à superfície do escândalo, mas conhece o mecanismo sombrio das circunstâncias que provocaram o crime. Todos nós temos, sem exceção, débitos e créditos representados por nossas ações desenvolvidas no passado e precisamos nos lembrar que as ressonâncias desses acontecimentos, os efeitos, surgem ao nosso terreno de ação dentro de uma linha inteligente da espiritualidade.

A proposta da misericórdia divina não é machucar e punir, e sim fazer o ser avançar, libertar e integrar-se nas faixas expressivas do amor. Isto é algo que a gente precisa compreender quando estiver sofrendo ou deparar-se com o sofrimento de outrem. A misericórdia divina não preceitua que o infrator seja flagelado com extensão indiscriminada de dor expiatória. Os tribunais divinos são invariavelmente regidos pela equidade soberana e entre os espíritos superiores, diante dos soberanos códigos, é mais importante reparar que expungir em lágrimas, reedificar que aprisionar nos limites estreitos da impiedade vingativa.

E preceitua a misericórdia de Deus que o mal seja suprimido de suas vítimas com a possível redução do sofrimento. A lei objetiva o retorno do equilíbrio, mas com respeito aos direitos alheios e dentro da mínima quota de pena. Logo, nada de apavoramento diante das dificuldades que estiverem nos envolvendo, precisamos estar com os corações abertos para recolhermos a vontade de Deus.

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