12 de abr de 2013

Cap 34 - A Família e a Ovelha - Parte 1


A FRATERNIDADE

“PORTANTO, VÓS ORAREIS ASSIM: PAI NOSSO, QUE ESTÁS NOS CÉUS, SANTIFICADO SEJA O TEU NOME;” MATEUS 6:9

Embora muitos insistam em não admitir, a natureza, sujeitando todos os seres humanos às mesmas necessidades e à contingência iniludível do nascimento e da morte estabelece, de forma precisa e categórica, a igualdade humana.

É que da paternidade de Deus decorre a fraternidade e a igualdade dos homens. Pense para você ver, sem igualdade não há justiça e sem fraternidade não há misericórdia. Nós já crescemos trazendo dentro de nós essa ascendência paterna, esse sentimento instintivo de que somos frutos da realidade divina. Agora, fraternidade e igualdade no âmbito terrestre merecem uma distinção de conceito, uma vez que a igualdade absoluta é impossível em razão da heterogeneidade de tendências, sentimentos e posições evolutivas dos seres.

A novidade do ensino de Jesus àquela época era o princípio de que todos os homens são filhos de Deus, portanto, tem a mesma origem. E a consequência dessa paternidade divina é a fraternidade humana, isto é, todos os homens são irmãos.

São inumeráveis os companheiros de jornada terrena que despendem todos os esforços na busca de títulos transitórios, quando nos dias atuais o título de irmão deveria representar o único de efetivamente nos orgulharmos. Irmão define para nós a expressão daquele sentimento que caracteriza o verdadeiro amor. Claro, onde não há amor não há irmãos, ninguém pode ser irmão de outro sem o amar. E quem ama está pondo em execução o mandamento primordial corporificado no Cristo. Devemos nos amar reciprocamente, agindo em tudo segundo a lei de solidariedade. A isso nominamos fraternidade e a fraternidade estabelece uma nova expressão no íntimo das criaturas. Veja só, o amor universal se embasa no amor egoísta que já tivemos. Assim, se muito erramos no passado, disputando o amor dos outros, corrigimo-nos e acertamos o passo quando procuramos amar, entendendo cada qual como se apresenta.

A fraternidade, amor sublime de irmão, é a lei da assistência mútua e da solidariedade comum, sem a qual todo progresso no planeta seria impossível. Repare que na oração do "pai nosso", depois de Deus a humanidade deve ser o tema básico de nossas vidas. Porque sem o amor a Deus e a humanidade não daremos passos de edificação e tampouco estaremos suficientemente seguros na oração.

Jesus Cristo, o filho por excelência, não se restringiu a pedir somente para si. Se ele veio e conviveu conosco ele tem uma fraternidade ampla conosco e é preciso acionarmos nossa proposta pessoal num plano universalizado. O entendimento fraterno precede qualquer trabalho salvacionista e toda caridade, para ser divina, precisa apoiar-se na fraternidade. E como traduzir fraternidade, senão como cooperação sincera e legítima em todos os trabalhos. Em toda cooperação verdadeira o personalismo não pode existir, porque quem coopera cede sempre alguma coisa de si, dando o testemunho de sua abnegação, e sem isto a fraternidade não se manifestaria no mundo de modo algum.

Se desejamos recolher amor e paciência nas manifestações do próximo saibamos distribuí-los com todos aqueles que nos partilham a marcha. Para isso nós temos a amizade que envolve o circuito de valores de ordem afetiva, propicia uma corrente de afetividade e quebra a resistência entre os seres. Todos nós, sem exceção, suspiramos por novas e verdadeiras amizades e o que devemos fazer para termos amigos? Se rogamos por afetos marcados de altos valores é indispensável começarmos a ser para os outros o amigo ideal: tornarmo-nos interessados pelos semelhantes, entendê-los nos patamares em que se encontram e aprender a amá-los, e aguardar a oportunidade de fazer algo por eles, algo que estivermos certos de que eles gostariam que fosse feito.

O homem comumente deturpa o preceito do amor "ao próximo como a ti mesmo". Como? Amando-se em primeiro lugar, óbvio, mas não só isso, amando-se com exclusividade, e daí isolando-se do pai celestial e dos seus irmãos.

Nota-se que apesar da clareza doutrinária, são grandes as dificuldades das criaturas em tornar acessível à mente e ao coração a ideia da fraternidade. A indiferença dos homens em relação a ela é porque as criaturas, de um modo geral, ainda tem muito daquela coisa de tribo, ficam, ainda, encarceradas nos instintos propriamente humanos, naquelas lutas sem sentido por posições e aquisições, centrados num egoísmo feroz, como se guardassem consigo, de forma indefinida, as heranças pretéritas da vida animal. Todavia, após a eclosão desses entusiasmos transitórios fica sempre o gosto da inutilidade no íntimo dos espíritos desiludidos com a precária hegemonia do mundo, instante em que a alma experimenta dilatação das tendências profundas para o mais alto.

O que vou dizer agora não tem nada de exagero ou de radicalismo, é só a pura verdade: nosso amor ainda está muito preso ao ser amado. Muita gente infelizmente espera o amor alheio para poder amar. De fato, em grande parte da existência temos lutado com o amor discriminatório. Concorda comigo? Em nome de uma paixão ou de um amor fechado nós somos capazes de marginalizar o interesse dos outros e até mesmo de prejudicar os outros. Estou errado?

Repare a questão com um pouco de profundidade. Muitas vezes nós achamos que amamos muito uma pessoa, quando na verdade nós não amamos nada, só estamos cultivando interesse. Amamos em função do que ela nos proporciona. Não dá para esconder isso, muito do nosso amor se baseia em relações mercantilistas, de puro interesse. Quer ver um exemplo? Sabe quando alguém dá um abraço daqueles numa outra pessoa? Não estamos generalizando que não exista uma afetividade genuína, mas em muitos casos essa empolgação é para segurar a pessoa abraçada do lado dela para poder utilizá-la amanhã. Percebeu? Isso se dá porque na verdade costumamos ter essa expansividade toda de cumprimento diante de determinados quadros em que temos algo a tirar dessa relação. Ou será que eu estou exagerando e esse abraço nós damos porque objetivamos transferir afetividades e recursos para essa criatura? O que você acha? O que sabemos é que na hora em que a gente abraça alguém que está sofrendo ou que está com alguma necessidade nós costumamos apenas dar aquele tapinha no ombro: "Olha, fica com Deus, vai em paz. Jesus te ampare".

A carência de certa forma é aquele reconhecimento da necessidade de algo. Surge quando sentimos que a vida não está nos dando a resposta que a gente quer, que a gente gostaria, e nos mostra que não estamos sabendo entender o mecanismo do amor, a mensagem de Jesus. Tem pessoas que conviveram, às vezes, dez, vinte, trinta anos, ou até mesmo a vida inteira ao lado de outras, para descobrirem depois, em dado momento, que estavam sozinhas o tempo todo.

Tem muita gente assim, acha que está acompanhada, mas no fundo está é engodada por circunstantes. Não engodada no sentido de envolvida, mas em razão da própria deficiência dos elementos outros em amar e saber sustentar esse amor. É por isso que sabemos que a solidariedade é um sistema de abertura no campo do oferecimento, no campo da integração. Não há dúvida alguma, se você se sente só seja solidário que com certeza você vai vencer muita coisa. Estamos investindo no evangelho para esperar com segurança momentos mais felizes. É o que falamos sempre: se está sem amor, com o coração desolado, ame mais, doe-se mais, que o ser amado chega em seu devido tempo.

Deus está em nós. Não deve ser difícil aceitar esta questão e compreender que assim como ele está em nós está também nos semelhantes. A melhor forma de acabar com a solidão é sendo solidário. Inúmeros companheiros já são capazes de transpor os interesses egoísticos sacrificando-se num trabalho de base e criando novas condições de vida mental. O meu amor próprio precisa ceder lugar ao plano de solidariedade, por meio do desafio de operacionalizar valores já embutidos na interioridade para a faixa aplicativa da solidariedade, visando um amparo proveitoso, um concurso edificante. Afinal, ninguém guarde a presunção de elevar-se sem o auxílio dos outros, embora não deva buscar a condição parasitária para a ascensão. Os que aprendem alguma coisa se valem dos outros que já passaram, além do que não seguem além se lhes falta o interesse dos contemporâneos, ainda que mínimo. 

Ninguém permanece abandonado em tempo ou lugar algum.  Os mensageiros de Jesus socorrem sempre nas estradas mais desertas. O que é necessário é que a individualidade aceite a sua condição de necessidade e não despreze o ato de aprender de forma humilde.

Pense no seguinte: a árvore que plantas produzirá não apenas para a tua fome, mas para socorrer as necessidades de muitos. A luz que acendes clareará o caminho não só para os teus pés, mas igualmente para viajores que seguem a teu lado. Mesmo o materialista exclusivista, que se julga sem ninguém, está vivendo para o dinheiro ou para as utilidades que restituirá a outras vidas, superiores ou inferiores, para as quais a morte lhe arrebatará o tesouro.

O manto protetor do amor não agasalha só os filhos como a galinha agasalha os pintinhos. Auto-aperfeiçoamento centrado apenas no egocentrismo não produz evolução, apenas enclausura. Nós estamos saindo dos planos acanhados da conveniência para abranger um trabalho na ordem da humanidade.

O evangelho é vida e não há como cercear a vida. Tem jeito? Não, não tem. Vida, pelo que sabemos, não é bloquear, prender, e sim expandir. Temos que aderir ao evangelho na piedade, no entendimento e na caridade, porque vai ser muito difícil trabalhar e operar no bem dentro de um sentido individualista. Sem abrir o contexto nós sempre vamos encontrar algo no caminho para nos aborrecer.

O objetivo fundamental da evolução é o amor e o amor é unicamente aquilo que sai de dentro para fora. Logo, o processo é abrir, é preciso que o nosso amor saia de um plano específico para um plano mais ampliado. Nós estamos aqui neste estudo nos candidatando a lidar com pessoas, ou não é isso que estamos fazendo? Estamos engajados nesse processo, alguns no campo profissional, outros no âmbito familiar, outros nos terrenos sociais. Estamos aprendendo a lidar. E somente vivendo determinadas experiências com mais aprofundamento é que nós passamos a nos entender melhor. Porque se não tivermos uma abertura nesse particular nós vamos ficar sempre debaixo do jugo da aflição, debaixo do jugo, porque não dizer, da inconformação e das dificuldades.

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