23 de abr de 2013

Cap 34 - A Família e a Ovelha - Parte 4


O COMEÇO EM CASA COM O CONHECIDO

“ENTÃO, ENQUANTO TEMOS TEMPO, FAÇAMOS BEM A TODOS, MAS PRINCIPALMENTE AOS DOMÉSTICOS DA FÉ.” GÁLATAS 6:10

“MAS SE ALGUÉM NÃO TEM CUIDADO DOS SEUS E, PRINCIPALMENTE, DOS DA SUA FAMÍLIA, NEGOU A FÉ”. I TIMÓTEO 5:8

“JESUS, PORÉM, NÃO LHO PERMITIU, MAS DISSE-LHE: VAI PARA TUA CASA, PARA OS TEUS, E ANUNCIA-LHES QUÃO GRANDES COISAS O SENHOR TE FEZ, E COMO TEVE MISERICÓRDIA DE TI”. MARCOS 5:19

Em todos os ambientes do mundo encontram-se multidões de indivíduos que ostentam falsas virtudes para as pessoas de fora e não as aplicam aos seus familiares.

Falam belíssimas mensagens nos cultos religiosos que frequentam, chamando os participantes à vivência da compaixão, comovendo e sensibilizando multidões. Verbalizam citações e conceitos de alto valor moral, lembrando a importância da brandura e da humildade. Porém, no instituto doméstico são verdadeiros carrascos de sorriso na boca, que não gravam a mínima gentileza nos corações que os cercam entre as paredes do lar. Tem muitos assim. E a psicologia do evangelho nos ensina que quem não é virtuoso dentro de casa não é na vida externa, embora possa até parecer. Ser delicado e afável na sociedade, deixando de manter essas ações em família, não é ser virtuoso, é ser hipócrita.

A virtude não tem duas faces distintas, uma interna e outra externa. Isso não existe, ela é uma só e a mesma em toda parte. Temos aprendido que toda migalha de amor está registrada na lei em favor de quem a emite, e que mais vale fazer o bem aos que vivem longe do que não fazer bem algum. De modo que devemos ajudar aos outros o quanto nos seja possível, entretanto, devemos ser igualmente bons para com aqueles que respiram em nosso hálito. Devedores de muitos séculos que somos, temos em casa, no trabalho, no caminho, no ideal e nos parentes as nossas principais testemunhas de quitação.

Eu tenho certeza que todos nós aqui, indistintamente, já trabalhamos sensibilizados com as faixas elevadas do amor e da caridade. Sendo assim, você acha que nós estamos fazendo caridade hoje para quem? Para o desconhecido? Não vamos nos esquecer que normalmente a nossa evolução começa com aqueles que a misericórdia do pai colocou mais próximos a nós, dentro do lar.

Não podemos nos descuidar das situações que existem no lar para querermos aquecer o próximo que está um pouco além do nosso lar. Você já reparou que grandes ensinamentos do próprio mestre foram ministrados no seio da família? Quer exemplos? A primeira revelação de Jesus foi em um casamento em Caná, entre os júbilos sagrados da família. Lembrou? Isso mesmo, umas das primeiras manifestações de nosso Senhor, diante do povo, foi a multiplicação das alegrias familiares em uma festa de núpcias, em pleno aconchego doméstico.

O primeiro núcleo de serviço cristão em Jerusalém, a primeira instituição visível do cristianismo, foi a moradia simples de Simão Pedro na cidade de Cafarnaum.

E muitas vezes, visitou o Cristo as casas residenciais de pecadores confessos, acendendo novas luzes nos corações. Como se não bastasse, a última reunião com os seus discípulos verificou-se, também, dentro das paredes do cenáculo doméstico.

Tem uma situação que é muito comum de acontecer. Por exemplo, nós podemos estar realizando um trabalho com um grupo que contém trinta indivíduos. E no fundo, no meio desses trinta sabe qual é o nosso foco real, embora não tenhamos a consciência disso? No meio desses trinta, pode ser que estejamos ali por conta de três que estamos buscando, e os outros vinte e sete são caroneiros. Trabalhamos com trinta, mas estamos vinculados a três apenas naquele grupo. Estamos ali por causa deles. E, geralmente, é por esses três que nós brigamos com o nosso superior: "Olha, a turma é ótima, mas eu não aguento aqueles três. Me troca de sala, me muda de seção, pelo amor de Deus."

Com o resto da turma o nosso relacionamento é uma beleza. Sem problema algum. A gente cumprimenta, brinca, abraça. Tudo ótimo, o relacionamento é excelente. Agora, o interessante é que esses vinte e sete vão em frente na jornada, com a gente ou sem a gente, porque eles estão na linha normal de evolução deles. Os outros três, por sua vez, podem estar presos naquela situação. Eles estão fixados, tem raiz, e quase sempre sabe quem jogou terra nessa raiz? Nós mesmos, num passado mais próximo ou mais distante. Deu para clarear? A sedimentação dos nossos melhores propósitos no campo da elevação e do progresso renovador vai ser a experiência de cada um de nós diante do grupo, porque esse grupo é onde vão emergir aquele ou aqueles elementos ligados ao nosso passado, com os quais nós temos compromissos, e que agora vamos entrar no cara a cara com a justiça. Assim, nós vamos entrar em nome da misericórdia pelo reencontro com a nossa dose de amor para compreendê-los, entendê-los e auxiliá-los no que estiver ao nosso alcance.

O mestre, por ocasião da cura de um endemoninhado, ao invés de júbilos antecipados, recomendou-lhe o retorno ao ambiente caseiro: "Ordenou-lhe: vai para tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez e como teve compaixão de ti". (Marcos 5:19) Lição de extrema profundidade, pela qual Jesus nos orienta a reconhecer que é no círculo mais íntimo, seja no lar ou no campo de trabalho, que nos cabe patentear a solidez das virtudes adquiridas. Porque anunciar os princípios superiores, através da aplicação prática à renovação e aperfeiçoamento, diante dos que nos conhecem as deficiências e falhas, é a fórmula verdadeira de testar a nossa capacidade de veiculá-los com êxito em planos maiores. Não adianta desconsiderar o que vamos dizer: sem a bênção do lar não tem como haver uma felicidade verdadeira.

O carinho especial à nossa família faz parte da obrigação inarredável de assistência imediata que devemos àqueles que convivem conosco. Se não formos úteis e compreensivos, afáveis e devotados junto de alguns companheiros, como vivenciar as lições de Jesus diante da humanidade? Tem jeito?

Se já nos aproximamos do Cristo, assimilando as suas mensagens de vida eterna, procuremos testemunhá-las pela força do exemplo, primeiramente aos nossos, aos que nos compartilham as maneiras e hábitos, dificuldades e alegrias. Sendo aprovados na escola doméstica, onde somos rigorosamente policiados, quando ao aproveitamento dos ensinamentos, nos acharemos francamente habilitados para a vivência junto da humanidade, nossa família maior.

Os problemas profundos dos lares representam nosso título de habilitação para o serviço junto à coletividade maior. As dificuldades imensas que estamos vivendo, às vezes, dentro das paredes dos lares significa a titulação nossa para o trabalho que nos aguarda. Invariavelmente começamos a regeneração trabalhando com aqueles a que estamos vinculados, para depois trabalharmos com o desconhecido. Pois a vida nos convida a sairmos do interesse personalístico para começarmos a envolver cada vez mais gente, o que vai ampliar a nossa responsabilidade. Vivendo o problema na própria pele nós passamos a entender o problema do semelhante, e pela melhoria pessoal aprendemos técnicas que podemos levar junto daqueles que estão em sofrimento maior. Alcançamos daí aquela faceta de amor que nos facilita fazermos o diagnóstico acertado e a procura de estratégias de cooperação com o outro.

De uma coisa todo mundo sabe, sempre foi fácil causar boa impressão naqueles que não convivem intimamente conosco. Basta um gesto ou uma frase feliz e arrancamos de improviso o aplauso ou a admiração de quantos nos encontram exclusivamente na paisagem dos atos sociais. E diante dos amigos que se despedem de nós, depois de uma solenidade ou de qualquer encontro formal, nada difícil cairmos sob a hipnose da lisonja, com que se pretende exagerar as nossas virtudes de superfície. No entanto, precisamos examinar as nossas conquistas morais e demonstrá-las perante os que nos conhecem os pontos fracos.

Façamos o bem a todos, mas provemos a nós mesmos, se já somos bons, fazendo o bem diante daqueles que diariamente nos acompanham a vida, policiando nosso comportamento entre o bem e o mal. É no lar que temos a possibilidade de vivenciarmos os conhecimentos aprendidos. Como podemos fazer um mundo novo se não sabemos resolver o problema dentro de casa? Diante de tudo o que foi dito, resumimos: aquele que consegue administrar com segurança o seu lar geralmente administra a convivência com amigos e inimigos.

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