26 de jun de 2013

Cap 36 - O Valor do Trabalho - Parte 2

A SALVAÇÃO

“ESTA É UMA PALAVRA FIEL, E DIGNA DE TODA A ACEITAÇÃO, QUE CRISTO JESUS VEIO AO MUNDO, PARA SALVAR OS PECADORES, DOS QUAIS EU SOU O PRINCIPAL.” I TIMÓTEO 1:15

“E DISSE-LHE JESUS: EM VERDADE TE DIGO QUE HOJE ESTARÁS COMIGO NO PARAÍSO.” LUCAS 23:43

Se for para darmos conceituação literal acerca do assunto podemos dizer que salvar significa livrar de ruína ou perigo.

De fato, salvação individual é assunto das religiões, pois o que a grande parte da humanidade está querendo é salvar a própria pele. E muitos acreditam que o meio dela ser obtida é livrando-se de todos os riscos na conquista da suprema tranquilidade. 

Nós também trazíamos essa ideia anterior de que ser salvo era sinônimo de ir para o céu depois de morrer, e inclusive considerávamos que essa salvação era sinônimo de salvaguardar-se dos pecados por meio de uma sistemática de vida restrita ao refreamento, ou seja, transitar pela vida sem fazer nada de complicado.

Nosso caso agora, que buscamos conhecer o evangelho com clareza e profundidade, mostra que essa ideia anterior já está ultrapassada, isso já era. A proposta hoje está para além disso. O evangelho tem nos mostrado que a meta não se resume meramente nessa busca de salvação pessoal, não é mais ver se passamos correndo pelo inferno ou pelo umbral na hora do desencarne ou da morte física. O código supremo de Jesus tem apresentado a mensagem de quem está se candidatando pela consciência desperta a um trabalho para além da salvação individual, a busca de aprendermos o amor pela instauração de um processo de cidadania universal que ultrapassa os limites da salvação pessoal.

E essa questão da salvação permanece no âmbito filosófico e religioso quando restrita ao plano histórico, ao passo que sob uma ótica mais elástica alcança cunho científico e libertador no plano prático da vida. Porque nenhuma das acepções alusivas ao verbo salvar exime o espírito da responsabilidade de se conduzir e se melhorar. Deu para perceber? A salvação por si só não interrompe ou finaliza nada. Quer exemplos? Imagine um navio que faz longa viagem cruzando os mares. Em determinada situação ele pode vir a ser salvo de risco iminente de acidente, no entanto não estará exonerado da viagem, que deverá continuar e na qual enfrentará naturalmente novos perigos. Um doente salvo da morte não se livra do imperativo de continuar seguindo nas tarefas da existência, onde deparará inevitavelmente novos desafios, sobrepujando percalços.

É digna de nota a afirmativa do apóstolo Paulo de que Jesus veio ao mundo salvar os pecadores. Só que é preciso reconhecer que salvar não é arrebatar os filhos de Deus da lama da Terra para que fulgurem, de imediato, entre os anjos do céu. Isso não existe, pois salvar, em sentido correto, não é divinizar, não é projetar ao céu, não é conferir a alguém certo título por meio de magia sublimatória, ou simplesmente fornecer passaporte para a intimidade com Deus.

Você se lembra da passagem do evangelho em que Jesus se depara na cruz ao lado do bom ladrão? Pois então, quando o mestre lhe diz que naquele dia estaria com ele no paraíso, para o religioso místico o ladrão já partiu dali direto com Jesus, um ao lado do outro rumo às alturas, fato que, aliás, seria uma condição totalmente fora da lógica que marca o texto evolucional. Então, temos que avaliar com tranquilidade que esse estar com ele no paraíso, dito por Jesus, é uma referência ao paraíso conceitual, ou seja, representa como que uma abertura dada a uma criatura, quando do desabafo dela, em que se lhe tira o peso do problema fornecendo-lhe perspectiva nova. Uma abertura de componentes de libertação, como se entregasse um mapa ou um aparelho de GPS àquele que se encontra perdido.

Sim. Jesus veio ao mundo salvar os pecadores, porém, como a redenção do espírito encarnado consiste no resgate de suas dívidas e, consequentemente, na aquisição de valores morais que o eleva a novos e sublimes horizontes no plano do infinito, e como a oportunidade de resgatar a culpa já é em si mesma um ato de misericórdia divina, o Cristo nos salvou ensinando-nos como nos erguer da treva para luz. Está acompanhando o raciocínio?

Salvação não é aquela que pretende investir-nos ingenuamente na posse de títulos angélicos quando somos, ainda, criaturas humanas com necessidade de aprender, evoluir, acertar e retificar-nos. Salvação, no verdadeiro sentido, é o auxílio do alto para que estejamos no conhecimento de nossas obrigações diante da lei e dispostos a cumpri-las. Em tempo algum salvar jamais significa situar alguém na redoma da preguiça à distância do suor na marcha evolutiva, tanto quanto triunfar não significa a deserção do combate. Imaginar salvação fora da auto-educação das nossas almas é uma ilusão incompatível com a   atualidade.

Salvar é educar e a educação do espírito é problema universal. A obra da salvação é obra de educação e o evangelho é a doutrina da educação. Educar é desenvolver os poderes do espírito aplicando-os na conquista de estados cada vez mais elevados. Salvar é subir, é gravitar de um céu para outro numa ascensão contínua e intérmina. E se a questão não é salvarmos o nosso espírito, temos a salvação por iluminação de nós mesmos a caminho de aquisições e realizações no infinito. Salvar é levantar, é iluminar, ajudar e enobrecer, salvar-se é educar-se alguém para ter condições plenas de ajudar a educar também os outros.

Quando nós de fato descobrimos o grande lance da vida nós começamos a lutar com carinho por uma sistemática que não fique circunscrita ao salvar-se. Alguém pode dizer após ter passado por momentos dificílimos: "Eis que eu me salvei!" Tudo bem, ótimo, mas e daí?

Entendeu a questão? Salvou prá quê? Essa é a grande interrogação. Com certeza foi para operar em favor de alguma coisa. Não é isso mesmo? Não demos agora a pouco o exemplo de um navio que estando para afundar foi salvo? Pois então, esse navio num risco iminente de naufragar foi salvo para quê? Para ser colocado no porto? Ficar inerte, parado? Deixar o navio que estava afundando ancorado para todo mundo ir vê-lo e admirar: "Nossa, foi salvo?!" Não. Pelo amor de Deus, não. 

Não se trata apenas de bater palma para o navio que estava para afundar e não afundou. O navio foi salvo para ser lançado no oceano outra vez. Com certeza. Por essa razão, o nosso propósito é nos projetarmos para além da salvação porque salvar tem objetivo, ninguém vai salvar nada que não tenha utilidade.

A ideia é salvar para poder operar, e a indagação é: o que fazer com o navio agora? Com o navio que não afundou? Qual vai ser a nova rota que ele vai percorrer agora? Não fica difícil a gente concluir que o seguidor do evangelho, sob a luz do esclarecimento, trabalha com a rota do componente salvo. O trabalho de agora em diante é saber a nossa capacitação em função da nossa manutenção de vida. O primeiro desafio é arregimentarmos conhecimento para nos salvarmos e, uma vez salvos, aprendermos como cooperar melhor com os outros.

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