25 de fev de 2014

Cap 41 - É Preciso Saber Sofrer - Parte 8

O PROBLEMA É ÍNTIMO

É comum, muito mais do que se imagina, quando somos incomodados por determinada situação durante um bom tempo, considerarmos os instrumentos exteriores a nós, os acontecimentos de forma geral, os elementos circunstanciais, como sendo a causa original do nosso infortúnio.

Nós ainda misturamos o que é causa original com o instrumento didático e o que ele pretende, então, de certa forma nós criamos briga com o pai, com a mãe, com o filho, com o sócio, com o patrão, quando na verdade os elementos externos representam simples instrumentalidade para resolver o problema que é dentro de nós, e instauramos um pólo fechado, criando um núcleo que passa a definir um móvel de sofrimento por longo tempo, até mesmo por várias encarnações.

Na nossa ótica, a causa da nossa infelicidade o que é? É fulano de tal, é aquele vizinho ali, aquele colega. A gente transfere. Elegemos o que é o instrumento detonador de um processo negativo em nós como sendo a causa básica do nosso problema. Vemos os instrumentos circunstanciais, que vem para ativar o processo, como sendo o grande problema e, assim, colocamos as pessoas, as situações, as coisas, as circunstâncias exteriores à nossa volta como sendo a causa da nossa infelicidade.

Tem o parente que a gente vê como inimigo, tem o lugar que a gente abomina, que não passa nem perto. O problema tanto pode ser o nosso vizinho da direita, como o da esquerda, então, nós brigamos com o da direita. Dentro de casa acontece o mesmo com relação ao filho, à sogra, à mãe, ao tio, à tia, e acaba dando aquela confusão danada. Não é isso? Todo mundo é assim. Elegemos. Aquela para nós é a causa, e pronto. Assim fazemos porque para nós é muito mais fácil transferir a responsabilidade para o exterior, quando na verdade a causa é a gente mesmo. Fica muito mais fácil do que assumir efetivamente a responsabilidade por tudo de desagradável que nos acontece.

Em suma, colocamos os instrumentos circunstanciais para detonar o processo, que é dentro da gente, como sendo a causa. Elegemos um instrumento detonador, que nada mais é do que um fator acionador do processo negativo em nós, como sendo a causa base, quando a causa verdadeira é a gente mesmo. 

Então, vamos esclarecer uma coisa: precisamos assimilar de forma definitiva que o componente que está nos incomodando e pesando em nós é só circunstancial.

O campo exterior em que se manifesta um determinado problema é tão somente a instrumentalidade didática, ele está apenas atendendo a uma necessidade fundamental nossa, porque o problema na essencialidade é íntimo.

O campo exterior é o instrumento que levantou a poeira. Vamos imaginar um exemplo bem simples que pode ajudar um pouco: imaginemos um quarto escuro, totalmente escuro e sem luz. No meio dele uma grande caixa, completamente cheia de poeira. Imaginou? Alguém entra nesse quarto, na completa escuridão e sem ver, claro, chuta a caixa que levanta poeira para todo o lado. O problema não é a pessoa que chutou, o problema é a caixa no chão.

Deu uma ideia? No mecanismo dinâmico de aprendizagem os fatos, as pessoas e as circunstâncias menos felizes que nos alcançam negativamente não constituem o problema, são fatores que levantam a poeira e objetivam ser componentes de manifestação do problema. Os acontecimentos que constituem o impacto fazem um trabalho de ativação. No entanto, ao invés de fazermos a observação e o levantamento acerca do ponto frágil que deu condição para essa queda, que constitui a origem do problema, o fator que instaurou o problema, nós vamos em cima do instrumento. Valorizamos a instrumentalidade exterior e esquecemos a linha vibracional que motivou aquele acontecimento. Preocupamo-nos muito com o fato, com a pessoa, com a circunstância, com as ocorrências em si, e as definimos como sendo a causa e o componente que instaurou a tristeza e o sofrimento, quando eles são só circunstanciais.

Se nós estamos às voltas com determinada dificuldade que nos alcança de forma mais imperiosa, temos que procurar entender qual é o elemento originário da dificuldade, qual é o fator básico dela. Porque o componente exterior não é praticamente o responsável pela dificuldade, pelo nosso desconforto.

O campo exterior em que se manifesta o problema é instrumentalidade didática, pois o responsável pela dificuldade somos nós próprios, afinal o problema é íntimo. Isto tem que ficar claro. As complicações nem sempre estão na atuação fechada e finalística dos acontecimentos, a complicação está na germinação lá atrás, nas nossas ações anteriores, onde se elaborou a nível criativo no campo. Nós lá atrás lançamos a semente. O problema não é o vizinho, o parente ou qualquer outro fator extrínseco, o problema é a intimidade nossa que está combalida e frágil naquela posição. Quer outro exemplo?

Aquele indivíduo que em certo período de tempo perdeu muitas coisas que eram importantes para ele. Perdeu o emprego, ou a empresa quebrou, o casamento se desfez, o problema de saúde surgiu, e por aí afora. E ele culpa uma série de fatores externos com sendo a causa da dificuldade. Às vezes, o problema dele sabe qual é? O orgulho. Isso mesmo, o orgulho, que como fator germinativo estruturou em torno um conjunto de variantes. A conclusão é que nós vivemos momentos infelizes em decorrência das causas que semeamos. Os problemas mais contundentes que nos afetam não caem sobre nossas cabeças por acaso, estão na pauta direta das nossas necessidades. É preciso que enxerguemos para além, pois atrás de cada acontecimento existem coisas embutidas. Da mesma forma que toda punição se encontra na linha direta da falta cometida, cada problema é instrumento útil e obedece a determinado objetivo.

É por isso que percebemos o que acontece em nossa própria vida. Às vezes, a gente vence um problema. Beleza, ótimo. Acha que ele tinha sido resolvido, e vem um pior.

Isso ocorre porque os fatos que emergiram, que surgiram, foram equacionados, mas não foi equacionado o ponto fundamental do nosso espírito que está motivando esse sistema de experiências. Alguém pode estar vivendo uma situação difícil, dura. Ele resolve um problema, vem outro a seguir. O que é que está havendo? Será que ele não está resolvendo o problema? Muitas vezes, não.

Pode acontecer dele estar apenas como aquele time de futebol, sofrendo um tremendo sufoco do adversário. A bola chega na área dele e é tirada. Livra daqui, logo vem outra bola na área. O goleiro e a defesa ficam doidos com tanta pressão recebida. É que, como num jogo, a criatura está vivendo um processo, não apenas um fato isolado e o fato é o componente incluso dentro do processo. Então, repare que se eu elimino por providências drásticas, por exemplo, aquele componente que está gerando a dificuldade, e se essa dificuldade não foi extirpada dentro de mim, outro problema entra no lugar e continua o processo.

Se nós solucionamos a toque de caixa, como se costuma dizer, um problema, aquele obstáculo foi superado, mas o problema essencial continua, e vem outro.

Percebeu? Em certa situação, se não existisse um problema entraria outro problema. Para resolver a questão poderia ser o problema A ou o B ou o C ou o D. Vamos imaginar que na circunstância específica a situação coube ao B. Sem falar que se o B não estivesse ali seria outro que iria estar. Porém, se a gente resolve o B da jogada e não resolve o problema efetivo, entra o C, e entram outros tipos de problemas.

O desafio no campo exterior não é o problema, pois o problema é íntimo. Vamos analisar com calma quando determinado problema estiver persistindo na nossa vida. Vamos pensar com bastante carinho na solução dele. Se analisarmos somente os fatores externos em vez de nos atermos ao ponto frágil que possibilitou a queda, valorizamos o instrumento e esquecemos a linha vibracional ou base que motivou certo acontecimento. Se eu resolvo a toque de caixa certo problema, aquele obstáculo específico foi superado, mas o problema continua, e vem outro, e outro, até que um possa atender ao objetivo.

Logo, é importante saber que não adianta apenas jogar para a margem o problema, que não adianta jogar o pó para debaixo do tapete. Antes de superarmos um problema, que é reflexo da nossa dificuldade interior, em tese faz-se necessário o saneamento do fator originário, afinal podemos imaginar o que acontece se resolvemos o problema e não resolvemos a origem. Paciência e diligência para que certa dificuldade exterior possa trazer, embutida, a solução interior.

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