26 de mar de 2014

Cap 42 - A Tentação (2ª edição) - Parte 1

VINCULAR E DESVINCULAR

“27E, DEPOIS DISTO, SAIU, E VIU UM PUBLICANO, CHAMADO LEVI, ASSENTADO NA RECEBEDORIA, E DISSE-LHE: SEGUE-ME. 28E ELE, DEIXANDO TUDO, LEVANTOU-SE E O SEGUIU.” LUCAS 5:27-28

É constante em cada um de nós, sem exceção alguma, o desejo básico de crescer. Neste ou naquele ambiente, em todas as atividades da existência, não tem quem não queira desenvolver-se, avançar, conquistar, ascender, isto é, entrar em uma situação melhor pela busca e sedimentação de novos padrões.

O que nos faz estar aqui, acessando este estudo, senão essa vontade toda especial que nutrimos no coração de querer crescer?! Assim se dá em todas as áreas. Pense para você ver, matriculamo-nos em algum curso objetivando a ascensão, integramos essa ou aquela atividade pelo desejo íntimo de evoluir, buscamos os valores espirituais para nos apropriarmos de valores essenciais capazes de nos auxiliar na caminhada, e até a caridade, que é a faixa aplicativa do amor, nós fazemos, ajudando aqui e ali, visando o nosso próprio bem.

É possível concluir que o problema da conquista exige, simultaneamente, o desafio da desvinculação das posições que mantemos. O que estamos querendo dizer? Que estamos hoje dando passos importantes para um futuro melhor, estamos tentando acertar o passo numa nova proposta, mas carregando na sacola íntima, em nosso recipiente intrínseco, todos os padrões trabalhados ao longo de muito tempo. Então, precisamos ter em conta que um programa de conquistas se relaciona ao mesmo tempo com outro programa de desvinculação.

Em outras palavras, para chegarmos lá na frente, na meta que objetivamos, temos que tirar o pé de onde estamos. Deu uma ideia? Tem que vincular-se e, concomitantemente, se desvincular. E na medida em que vamos seguindo, com determinação e equilíbrio, nos desoneramos do nosso problema anterior. É fascinante o sistema do apropriar e desprender. São dois aspectos que acontecem juntos.

Ao incorporar padrões novos eu passo a me desonerar de padrões que até então me foram úteis. É por aí a sistemática. É um mecanismo de troca no universo.

Eu me desprendo do material que tinha para poder ter o direito de fixar o que está chegando. Algumas pessoas podem dizer que no final das contas é complicado evoluir, mas não é tão complicado assim. É necessário ficar claro que para que a gente alcance um ponto desejado lá na frente, uma meta qualquer que idealizamos, seja ela de qual natureza for, nós temos que nos desprender.

Se a princípio estudamos, planejamos e arregimentamos determinada parcela de valores, em seguida vai haver um momento nítido de desvinculação da faixa em que nos situamos para que possamos incorporar esses novos padrões. Toda proposta seletiva e busca a novos patamares vai exigir sempre de nós uma capacidade de desvinculação das faixas que temos elegido através do tempo. Nesse processo de crescer, para que de fato alcancemos o ponto lá na frente, a gente tem que desprender-se. Tem que desprender-se do nosso ramerrão do dia a dia, da nossa conceituação de todo instante. Eu só consigo captar e incrustar no meu psiquismo os valores superiores se eu estiver disposto a soltar o que eu tenho, ainda que seja de uma qualidade duvidosa.

Para exemplificar, podemos falar de Levi. Lembra? O evangelho é claro ao referenciar o seu chamado. Conhecido mais tarde como o apóstolo Mateus, esse publicano deixou tudo e seguiu Jesus ("E, depois disto, saiu, e viu um publicano, chamado Levi, assentado na recebedoria. E disse-lhe: segue-me. E ele, deixando tudo, levantou-se e o seguiu." Lucas 5:27-28) Consta que ele estava assentado na recebedoria e não vamos entrar muito no mérito dessa passagem porque, afinal de contas, o nosso assunto no momento é a questão da tentação.

Mas para clarear um pouco podemos entender que a recebedoria representa o quê? Recebedoria é lugar, não é? E lugar não nos dá a ideia de posição? É a permanência em um sistema voltado para o interesse pessoal. Aquele posicionamento da criatura em que ela sistematicamente se utiliza dos esforços de outrem a benefício puramente de si própria. É a utilização das ações alheias apenas a benefício próprio. Pense comigo. Quem está assentado está acomodado, portanto, é a acomodação em pontos de culto ao egoísmo contumaz, utilização viciosa dos serviços dos outros para si. Estar assentado na recebedoria é o contrário de seguir Jesus. Já pensou nisso? Em primeiro lugar porque seguir pressupõe movimento e, em segundo, ele estava assentado e Jesus espera de nós um amor aplicado em favor de uma coletividade.

Quem está na recebedoria não oferta. O próprio nome já sintetiza tudo: recebedoria. Qual a conclusão que a gente tira? Que para seguir Jesus tem que deixar tudo. Porque se não deixar tudo não se levanta, e se não se levanta continua assentado. E não segue. Aí perde a chance de atender o chamado. Mas fique tranquilo. Deixar tudo é no sentido intrínseco, representa a descarga das estruturas mentais, dos interesses e das metas que a gente, até ser tocado por novos propósitos, mantém. Para avançar, sem dúvida alguma, é preciso deixar tudo, e nós estamos nos referindo ao sentido íntimo, claro.

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