10 de abr de 2014

Cap 42 - A Tentação (2ª edição) - Parte 5

A REAÇÃO É DE DENTRO

“MAS CADA UM É TENTADO, QUANDO ATRAÍDO E ENGODADO PELA SUA PRÓPRIA CONCUPISCÊNCIA.” TIAGO 1:14

Quando se fala em tentação todo mundo logo pensa em espírito. É quase que automático. Para o religioso, então, tentação é coisa do demônio, é o demônio que chega e tenta. Agora, sob a luz do entendimento essa ideia errônea tem que deixar de existir. É preciso desativar essa ideia mística e distorcida que trazemos de tempos longínquos de que a tentação é fruto dessa figura abominável.

Assim, que espírito que nada! Tentação são os nossos próprios reflexos que emergem, é a emersão da nossa estrutura milenar. As tentações de todos os matizes que nos acometem são os registros que emergem do poço dos nossos impulsos instintivos não dominados ainda. As mais terríveis tentações decorrem do fundo sombrio da individualidade, como o lodo mais intenso que, capaz de enegrecer o lago, procede do seu próprio meio. Quanto ao diabo, personificado nos espíritos negativos, esse se aproveita da concupiscência. É uma figura que traz vida em si face as circunstâncias que surgem, mas antes da insinuação negativa de caráter exterior vigora a reação do homem velho dentro de nós.

Guarde uma coisa com você: de fora para dentro não existe tentação. Tentação é o que emerge de dentro de nós mesmos. O que vem de fora não tenta, de fora para dentro o que temos é aferição e prova. O componente que nos chega, de cima para baixo, não tenta ninguém, ele desafia para novas conquistas. Ficou claro? Esse componente de cima, revelando algo desafia nosso potencial, logo, o que vem de cima não tenta, desafia-nos, o que é bem diferente.

O que vem de cima não é tentador. O que vem de baixo, sim, tenta. O que se expressa de baixo para cima tenta, quer tentar desativar o desafio e a orientação positiva, visa fazer abortar os componentes concebidos pela mente em novos progressos.

O problema no campo da tentação se encontra dento da gente em razão do nosso passado já vivido. E sabe porquê? Porque todos nós renascemos na Terra para as tarefas de reajuste trazendo as forças desequilibrantes do próprio pretérito, e essa junção de nossas almas com os poderes infernais se verifica em relação ao inferno que trazemos conosco. Daí, a gente começa a entender melhor a dinâmica desse mecanismo tentador que se processa à partir de dentro, dessa força trevosa inerente ao próprio psiquismo que busca evitar que a criatura ascenda.

O crescimento consciente se origina à partir do recebimento da emanação superior que, aliada ao nosso sentimento e capacidade de operar, cria um embrião que vai ter que ser fortificado para dar nascimento a uma nova faixa de personalidade.

Todavia, se de um lado surge esse embrião, que vai ter que ser alimentado pela capacidade aplicativa da repetição, de baixo dá-se uma reação ativada pela concupiscência que vai criar um corpo para entrar em luta com essa concepção inicial. Está dando para acompanhar o raciocínio? De cima chegam fatores impulsionadores do progresso e de baixo emergem padrões (emersão que se expressa quando não há vigilância) que vão tentar trabalhar no intuito de desativar o desafio positivo. Essa expressão vinda de baixo vai querer a todo custo liquidar com o embrião. Não aceita a mudança sem luta. Porque o nosso conjunto de caracteres elaborados em longo tempo, e que constituem a soma de nossos reflexos, é muito grande, e esse conjunto visa impedir a sua alteração por outros padrões capazes de propiciar felicidade pra nós. É como se gritassem dentro da gente que nessa estrutura íntima quem manda são eles.

Existe uma tendência ou expressão dupla dentro de nós. O anseio de crescermos define um ângulo que trabalha a nossa intimidade em condições de nos projetar para novas posições, mas dentro dessa mesma intimidade temos, também, forças que insistem no conservadorismo da nossa maneira de ser. Ou seja, uma força nos impulsiona para além e outra puxa para nos prender, e dentro desse sistema dinâmico e íntimo é que vamos nos definindo.

Assim caminham os seres humanos, sem exceção. A cada proposta nova dá-se uma soma de reações que emergem da própria expressão interior. Ao nível da tentação, vigoram valores incrustados no psiquismo que insistem em participar da engrenagem. Quanto mais se intensifica o sistema do crescimento e a nossa adesão aos planos da evolução consciente, em que vamos selecionando o piso a ser alcançado e vamos nos encaminhando para essa conquista, é natural que se somem as reações negativas. Vale ressaltar uma coisa: a nossa própria estrutura psíquica abre as comportas interiores em sua profundidade maior, a fim de tentar manter a hegemonia da vida milenar que temos levado até então. Em razão disso, não podemos nos iludir nesse particular, a cada proposta nova surge sempre uma soma ampla de reações. E esses padrões antigos, que ainda dominam parcela enorme da nossa existência, são os componentes que nós temos que vencer, que nós temos que nos esforçar ao nível da desativação para que outros melhores passem a vigorar.

Não dá outra, a nossa tendência é conservadorista. Quando a gente se lança na busca da mudança, da alteração dos nossos recursos, nós entramos em choques.

Você pode estar muito bem intencionado, como eu estou, e todos aqui na conquista de determinados padrões estão, só que o homem velho, que está acostumado com o sistema pela automaticidade de vida, ele não cede muito fácil o terreno. Não cede fácil de forma alguma, ele quer permanecer ali. Os valores novos que chegam possuem uma característica de apontar e oferecer recursos construtivos, e não temos dúvida quanto a isso. Mas ao lado dessa visão nova, em fase de aprimoramento, vigora o nosso potencial vivido que não quer perder espaço na hegemonia de vida. Esse potencial insiste em permanecer, e é exatamente a essa reação desses valores antigos o que nós chamamos tentação.

Esses elementos tem dominado a nossa vida durante muito tempo e eles não se conformam com as nossas mudanças. Não se conformam mesmo. Repare que você começa a se movimentar. Se bobear: "Ah, quer saber. Vou largar tudo isso pra lá. Está muito chato esse trem." Perfeito? Então, perde. E aí o que acontece? Volta você de novo para o antigo ponto. O recado que podemos deixar é o seguinte: todas as vezes que a gente começa a visualizar um sentido novo de vida, que a gente começa a abrir determinada frente que vai nos ajudar a evoluir, que vai ajudar a nos desprendermos de onde estamos, vamos tomar cuidado. Muito cuidado mesmo. Porque está arriscado a gente largar tudo pra lá.

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