20 de jun de 2014

Cap 43 - Os Vestidos e os Panos - Parte 9 (Final)

DAR O PANO, NÃO A CAMISA

“E DEU À LUZ A SEU FILHO PRIMOGÊNITO, E ENVOLVEU-O EM PANOS, E DEITOU-O NUMA MANJEDOURA, PORQUE NÃO HAVIA LUGAR PARA ELES NA ESTALAGEM.” LUCAS 2:7

É comum nós elegermos uma forma de ser, uma maneira de ver o mundo, os fatos, as pessoas e querer que todo mundo se ajuste a essa nossa ótica.

É algo bem desagradável, mas acontece. Vez por outra fazemos de tudo para curvar e subjugar os outros em nome de uma ótica que eles não tem ainda.

Esse é um grande problema e aí o negócio se fecha, porque a gente usa vara, usa chibata, usa uma série de estratégias buscando converter as pessoas na marra. 

E, às vezes, o que é pior, converter para depois ter que desconverter no futuro. Isso mesmo, porque para início de conversa quem quer converter na imposição não está em uma posição de verdadeiro equilíbrio. Será que deu para entender? Nós tentamos converter com a nossa ótica distorcida e limitada e depois, lá na frente, verificamos que muita coisa ficou complicada. Então, deixamos aqui um recado para cada um de nós: quando alguém passar ou cruzar pelo nosso caminho não é para ele ser fabricado um elemento ao nosso jeito, não. Nós temos que aprender isso, pois existe muita gente que quer fabricar o outro ao seu jeito. A posição de cada qual sempre vai depender de cada qual.

É atrás dessa busca de querer que as pessoas nos entendam e adotem as posições que nós adotamos, que tantas vezes nos tornamos pessoas antipáticas.

Sem contar que ninguém gosta daquele que se acha dono da verdade, independente de qual seja o assunto. Até mesmo no aspecto ajudar, que é a proposta que estamos elegendo, a questão não é sair pregando pro mundo, mas ajudar na órbita em que estamos posicionados. Precisamos cultivar uma dose de compreensão acerca das pessoas e respeitar as opiniões e escolhas delas, por mais diversas que sejam das nossas. Muitas vezes ficamos num plano de insistência tal no que reporta a uma filosofia ou conceito, querendo que os outros adotem o que adotamos, fruto da nossa emoção exacerbada, que acontece até da gente acionar uma raiva grande do outro com relação a nossa pessoa. 

Passamos a nos tornar uma pessoa chata, desagradável, cansativa, ao insistir para que o outro nos entenda, aceite e viva segundo aquilo que achamos que é o melhor, aquilo que aprendemos e consideramos para nós que é o melhor. Com isso, várias pessoas que poderiam somar no nosso círculo de relação ficam com raiva da gente, raiva essa que pode não ser objetivamente demonstrada, mas exteriorizada de uma forma camuflada, ressentida. Assim, tantos relacionamentos que poderiam seguir um curso satisfatório se complicam.

Quando o assunto é espiritualidade não tem como sufocar o indivíduo, querer injetar nele certo conhecimento de maneira irreverente, forçada. Todas as vezes que isso acontece normalmente dá-se uma complicação. Vamos analisar que quem está aprendendo e se interessando pelo estudo do evangelho somos nós, seja por necessidade ou por ideal interior. Agora, no que reporta aos outros, o que necessitam é ter estímulo com base no nosso exemplo, e nossa palavra amiga como ponto de incentivo para a proposta de modificação e redirecionamento.

Se vida é um processo de eleição pessoal, e sempre falamos isso, cada qual elege os tipos de experiência em que se propõe estagiar, de modo que nessa ou naquela fase da evolução discórdia e tranquilidade, ação e preguiça, erro e corrigenda, débito e resgate são frutos naturais da nossa própria escolha. E quem de nós pode afirmar, com absoluta certeza, que a nossa ótica e a nossa maneira de ser seja a melhor para o outro? Jesus disse "conhecereis a verdade e a verdade vos libertará", todavia ele não designou lugar, não traçou condições, não especificou roteiros nem definiu tempo. Prometeu apenas o conhecimento à verdade e para o acesso à verdade nós sabemos muito bem que cada um tem o seu dia. Cada qual vai ter o seu momento, a emancipação íntima surgirá para a consciência à medida que a consciência se dispuser a buscá-la.

Às vezes, a terapia que estipulamos ao outro não corresponde às suas necessidades.

Se nós estamos ingerindo conhecimentos não temos que ficar enquadrando as pessoas, os que estão à nossa volta, na mesma gama que nos visita o entendimento hoje. Não vamos intentar constranger o próximo a ler a cartilha da realidade pelos nossos olhos, nem interpretar as lições do cotidiano com a cabeça que nos pertence. Isso acontece demais. O certo é orientar o próximo, envolvendo-o com panos para que ele próprio possa organizar a sua cobertura. Mas não, geralmente nós queremos é envolver a nossa blusa nele. Percebeu o sentido?

Em tantas situações nós não queremos dar o pano, e sim a nossa camisa, a nossa camisa bonitinha dentro daquele padrão certinho, número 3 ou número 5. Dar a nossa camisa é dar a nossa medida fechada, pronta. Queremos dar a nossa própria concepção, pois nos consideramos no direito de achar que o que é conveniente para nós é também conveniente para os outros. Queremos vestir a nossa roupa no semelhante que não cabe nele de jeito nenhum, porque cada individualidade apresenta uma estatura diferenciada no plano evolucional.

Nossos legítimos expoentes da orientação não nos vestem conceitos de maneira drástica, afinal quem ama sabe que não pode torpedear a mecânica de vida de ninguém. É preciso entender que ao nascer Jesus foi envolvido por pano, e isso é algo da maior importância. Vamos auxiliar dando o pano, não a camisa. Ficou claro? Vamos dar ao próximo o pano, não a nossa medida fechada.

Temos que ter essa noção. Na medida em que conseguimos auxiliar alguém nesse processo de envolver com carinho nós estamos, por nossa vez, criando a nossa veste irradiante de dentro para fora. Envolver em panos não é vestir a minha blusa ou minha camisa no que chega. O que acontece quando envolvemos algo em pano? O pano passa a obter a forma do objeto que envolve.

A gente envolve o que chega em panos porque o próprio corpo dele dá a forma. Entregamos o pano e ele reveste, o corpo do que envolvemos dá forma ao conteúdo, ao conhecimento.

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