14 de set de 2014

Cap 45 - Seja Feliz Hoje - Parte 9

NÃO VIM TRAZER PAZ, MAS ESPADA

“CHEGADA, POIS, A TARDE DAQUELE DIA, O PRIMEIRO DA SEMANA, E CERRADAS AS PORTAS ONDE OS DISCÍPULOS, COM MEDO DOS JUDEUS, SE TINHAM AJUNTADO, CHEGOU JESUS, E PÔS-SE NO MEIO, E DISSE-LHES: PAZ SEJA CONVOSCO.” JOÃO 20:19

“NÃO CUIDEIS QUE VIM TRAZER A PAZ À TERRA; NÃO VIM TRAZER PAZ, MAS ESPADA;” MATEUS 10:34

“COMBATI O BOM COMBATE, ACABEI A CARREIRA, GUARDEI A FÉ.” II TIMÓTEO 4:7

Qual é a grande busca de todos os seres humanos em todos os tempos? Não há dúvida alguma, nem é preciso pensar muito para responder. É a paz. O anseio por esse reconforto íntimo não tem tamanho e de século a século a procura se intensifica.

As aspirações da alma são sempre as mesmas em toda parte e a esperança de atingir a paz divina, com felicidade inalterável, vibra no íntimo das pessoas. A paz é algo fundamental em nossa caminhada, mas tão fundamental que por ocasião do nascimento de Jesus na manjedoura as vozes celestiais, após o louvor aos céus, expressaram votos de paz à Terra. E não é só isso, mesmo depois de ocorrida a ressurreição, ao voltar de forma gloriosa ao convívio das criaturas a quem tanto amara, antes de traçar qualquer plano de trabalho, disse o Cristo aos discípulos espantados, após pôr-se no meio deles: "paz seja convosco".

O fato é que em muitas ocasiões a paz não é encontrada em sua forma legítima com aquele preenchimento feliz na intimidade.

São muitos os indivíduos que comumente perguntam onde buscar esse espírito de alma. 

Questionam sobre onde encontrar a ambicionada paz espiritual que, às vezes, não conseguiram encontrar em décadas de existência na romagem terrestre. Não tem disso? Meditam sobre onde encontrar os supremos interesses da vida. O assunto é abrangente demais e não dá para entrar na cabeça das pessoas.

Quantos companheiros em idade madura não continuam trazendo nos corações os mesmos sonhos e as mesmas aspirações íntimas que mantinham quando eram mais jovens? Quantos deles não são detentores de cargos e títulos de prestígio nos círculos sociais e chegam, inclusive, no exercício de suas atividades, a tomar decisões importantes que influenciam a vida dos outros? Não acontece? Decidem o destino de muitos, todavia levam a vida sem entusiasmo e alegria, como se desertos lhes povoassem as almas. Muitos frequentam igrejas e núcleos espirituais diversos, mas continuam sentindo no íntimo aquela sede de fraternidade com os homens e uma intraduzível fome de conhecimento.

Circulam pelos diversos ambientes como se estivessem exaustos, dilacerados, oprimidos. Interpelados, dão ótimos conselhos acerca de normas elevadas de conduta pessoal, mas não conseguem esclarecer a si próprios. Ocupados demais no usufruto dos valores transitórios, passam a vida quase toda desapercebidos dos valores eternos. O tempo passa, e quando os primeiros sintomas da velhice chegam reagem magoados contra a extinção das energias orgânicas. Vez por outra, quando deitados na cama, nas meditações básicas que antecedem o sono, dúvidas lhes pairam na mente acerca dos enigmas que a morte sugere.

"Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada." (Mateus 10:34)

Essas palavras são do divino mestre e grande é o número de pessoas que se perturbam ante a essa afirmativa dele. Na visão delas, parece que o texto se apresenta contraditório. 

Afinal, Jesus não veio trazer a paz? Se ele não traz a paz, quem é que traz, então? Questionamentos assim ficam no ar. Não entendem como Jesus, o governador espiritual do planeta e príncipe da paz, pode oferecer uma proposta de paz fundamentada na violência. Sim, porque pelo que a gente sabe espada é instrumento de luta. 

Alguns chegam a dizer que nesse ponto há algo de errado nas escrituras, e aí o assunto vai longe. E isso ocorre, sabe porquê? Porque o conceito de paz entre os homens, desde muitos séculos, foi notadamente viciado. Na sua mentalidade acomodatícia, os homens costumam sonhar ainda com a felicidade conquistada sem esforço. Falam de uma paz que é ociosidade do espírito e de uma resignação que é vício do sentimento. Na expressão comum, ter paz significa haver atingido certas garantias exteriores dentro das quais possa o corpo vegetar sem cuidados.

A paz do mundo, sem exagero algum, consiste naquela sensação de bem estar do corpo sem dor alguma, e quase sempre culmina com o descanso dos cadáveres a se dissociarem na inércia. Funda-se em circunstâncias exteriores e resulta do jogo de determinados fatores que existem fora de nós mesmos. Por sua natureza, é instável, efêmera e incerta. Quem a tem não se sente seguro de sua posse. Vive inquieto, sobressaltado e apreensivo por saber que se acha, quase sempre, na dependência de influências imprevisíveis. Em outras palavras, a desfruta em certo momento e se encontra sujeito a perdê-la num dado instante.

A paz do mundo nunca assegura tranquilidade real, pois fica a mercê de acontecimentos cujo desencadear não é dado prever nem tampouco prevenir. Como conclusão, buscar essa paz mentirosa, alicerçada na ociosidade, é desviar-se da luz.

Se os homens se baseiam numa paz que é ociosidade do espírito, o cordeiro divino de forma alguma poderia endossar uma tranquilidade dessa natureza. Enquanto a paz que o mundo acena não passa de ilusão, a que ele nos promete é uma realidade. 

A paz de Jesus decorre das condições íntimas de cada um. Tem suas raízes mergulhadas nas profundezas da alma, razão pela qual se mantém, independente das circunstâncias exteriores. Permanente, estrutura-se sobre a rocha inabalável de uma fé consciente e luminosa, que não permite jamais que o nosso coração se turbe nem se atemorize. Nos prepara para suportar os acontecimentos diversos com ânimo sereno e consciência tranquila.

É uma paz que não é indolência do corpo, mas saúde e alegria do espírito.

Os homens vivem continuadamente em busca dos prazeres e satisfações generalizadas e todos aguardavam a vinda do Cristo trazendo paz à terra. Sim, mas trazendo sabe que tipo de paz? Uma paz pronta, definida, pré-fabricada, sem ônus algum. Que não exigisse das pessoas nenhuma atitude para além da simples aceitação.

Está dando para perceber? O anseio desse sentimento íntimo por parte de todos nós é imensa, só que o filho de Maria define o quê prá nós: "Não vim trazer paz, mas espada." O que significa isso? Que ele não veio trazer a paz da forma com gostaríamos, não veio trazê-la da maneira como imaginamos, não a trouxe ao mundo sob o caráter esperado. Não veio trazer paz ao mundo exterior, não veio oferecer uma proposta de paz inerte, preguiçosa, de ordem parasitária ou beatífica. Por isso, é fundamental não confundirmos a paz do mundo com a sua paz. E nem há discussão, a paz que ele dá o mundo não dá! E ponto final.

Jesus não veio trazer a tranquilidade imediata para nós, veio trazer o componente que deflagra a guerra.

Pois não tem paz recebida de graça. A harmonia não é uma realização que se improvise. Isto tem que ficar claro. Até a paz precisa ser cultivada. Não vamos nos esquecer, de forma nenhuma, que tudo na vida tem seu preço e a paz é efeito.

Ela é por nossa conta. Não é outorgada de fora para dentro, é conquista de cada um.

Nosso desafio é a luta íntima e a paz se principia na luta interior. Não existe mudança sem luta. 

Só existe paz em cima da guerra. O evangelho vem e cria uma luta dentro da gente.

O próprio Cristo foi o primeiro a inaugurar o testemunho pelos sacrifícios supremos e a paz alcançada pela luta tem na sua essência a expressão irradiadora do amor.

Paulo disse: "combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé." Disse assim porque nas lutas da evolução existe combate e bom combate. Pode parecer a mesma coisa, mas não é. No combate visamos os inimigos externos, erguemos armas, criamos emboscadas, usamos astúcias, idealizamos estratégia e, por vezes, saboreamos a derrota dos adversários entre alegrias falsas, ignorando que estamos dilapidando a nós mesmos. O combate mantém nosso coração preso ao pó da terra em aflitivos processos de reajuste na lei de causa e efeito, que a gente conhece bem.

Por outro lado, Jesus veio instalar o bom combate. Veio trazer o combate da ascensão numa batalha sem sangue. Destinada à iluminação do caminho humano, que liberta o espírito para elevação aos planos superiores. Para o sincero seguidor do evangelho, chega sempre o momento de se travar o combate da redenção espiritual.

Uma guerra travada na intimidade, sem o uso de fuzis, mísseis e bombas. Mas uma guerra tão necessária, que a paz interior só é capaz de surgir em decorrência dela.

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