22 de nov de 2014

Cap 46 - A Verdade Vos Libertará - Parte 10

SENTIDO VERTICAL

A gente, ao longo deste estudo, vem batendo na tecla de que vez por outra todos nós, sem exceção, somos chamados de alguma forma a cooperar com alguém.

E esse chamado tem um sentido prático. Porquê? Por uma questão simples, nós apenas nos elevamos espiritualmente tendo como ponto de sustentação para essa subida criaturas com as quais nos interagimos. Você só sobe aproveitando o ombro de quem está embaixo, sem sacrificar quem está embaixo, óbvio. Os outros, aqueles com quem interagimos, é que garantem a nossa evolução.

Os semelhantes são os componentes que vão nos oferecer o piso ou o plano de ascensão. Deu para perceber? Nós queremos ascender e podemos visualizar o degrau, no entanto, para atingirmos o degrau só os outros nos guiam até lá. Isso tem que ficar claro. Nós garantimos a elaboração e os outros garantem a ascensão.

E não dá para ser diferente, é fundamental sabermos nos relacionar com um mundo que tem de tudo.

A todo momento nos relacionamos com pessoas que se encontram nos níveis mais diversificados de evolução e entendimento e cada criatura está assentada em seu respectivo patamar. Por isso, se estamos fazendo luz em nós, e se queremos crescer em algum segmento da vida, seja ele qual for, preparemo-nos. Daqui para frente, se nós não aprendermos a lidar com as pessoas em desajuste, em sofrimento, em posição inadequada, nós simplesmente não vamos caminhar. Além do que, quando rejeitamos filosoficamente os complicados é sinal claro que de que nós estamos ainda travando a nossa luta reeducativa, estamos em fase de aprendizagem e adaptação. Quando nós os aceitamos, sem medo, já estamos, por sua vez, penetrando nos territórios da amor.

Agora, se eles são objetos do nosso crescimento, como acabamos de dizer, como é que vamos rejeitá-los?

O que Jesus, nosso mestre e amigo, fez, se nós não podíamos ir ter com ele em sua posição sublime? Fez o que a misericórdia faz, veio até nós, apagando temporariamente a sua auréola de luz para nos beneficiar, sem traço algum de sensacionalismo.

Isto é lição sublime para aprendermos: o testemunho se processa na linha vertical. Ele se processa de cima para baixo. Ficou claro? Jesus testemunhou de Deus a nosso favor e nós testemunhamos de Jesus junto aos homens, em favor dos homens. Aqueles que estão em um patamar são instrumentos dos semelhantes em outro patamar, sob a tutela de quem os dirige. Isso tem que ser notado com tranquilidade. O nosso trabalho é junto das escalas de nosso nível para baixo, ele é feito de onde estamos para baixo. Com quem se encontra, em tese, em situação de carência maior que a nossa, numa linha de adequação junto aos mais necessitados. Porque aí a nossa verdade e a nossa fidelidade é ampla.

Então, fique tranquilo, se você acha que tem pouca luz para ajudar alguém lembre-se que onde estamos é céu para quem está abaixo de nós. Um fósforo aceso pode passar despercebido em plena via pública num dia claro com céu de meio dia, mas altera todo o contexto num quarto escuro. Além do que, vez por outra nós conhecemos ângulos que aqueles a quem vamos auxiliar não conhecem.

Deus nos aguarda nos outros. E não dá para desconsiderar. Ele aguarda, e ponto final.

Só que a gente acha que os outros são os anjos, que está cheio de anjos pra todo lado esperando o nosso concurso. Anjos que não nos ofendem, que não fecham a cara para a gente, que não nos agridem, não nos aborrecem, e não é por aí. O testemunho tem nos intimidado e desencorajado tantos companheiros na caminhada, sabe porquê? Porque muitos querem exercer um testemunho sem contrariedade alguma, querem testemunhar junto dos anjos e se esquecem que ele se dá é junto daqueles indivíduos em necessidades maiores que as nossas.

É com os necessitados, com os complicados, que a gente tem que tentar, sem qualquer ideia de masoquismo e sofrimento, tentar trabalhar, desarmando o coração.

Não é fácil, isso fala fundo acerca da nossa parte operacional no bem. É com o faminto que nós temos que trabalhar. Não há como testemunharmos junto dos anjos. O necessitado e o incompreendido é Jesus personificado à nossa frente.

É diante da escuridão que a luz se engrandece, e o bem, diante da insinuação, embora relativa, do mau. É assim que a coisa funciona. A treva, pense bem, é a moldura que imprime destaque à luz, e para que o bem se manifeste de forma ampla ele precisa ter uma linha contrária ou recíproca em que possa efetivamente operar.

Sem a existência de discípulos não haveriam bons mestres, sem os doentes não teríamos ótimos médicos. Enfim, não existiriam bons profissionais sem os territórios específicos para as operações correspondentes, ainda carecedores da ação deles. É preciso resplandecer a luz para que a luz brilhe, pois o caminho percorrido pelo homem que se ilumina está cheio de individualidades dessa natureza. Deus cerca os passos do sábio com as expressões da ignorância, a fim de que a sombra receba luz e que essa mesma luz seja glorificada. Nesse intercâmbio divino o ignorante que recebe aprende e o sábio que dá cresce.

E para ilustrar, imagine um indivíduo nervoso. Do tipo que perde a paciência fácil, que se estressa com a mínima circunstância adversa. Qualquer contrariedade, por menor que seja, e já é motivo para ele ficar irritadiço. Ele é assim faz muito tempo e esse quadro não melhora, pelo contrário. Um dia ele se cansa disso. Custou a aprender que essas explosões temperamentais já o prejudicaram por demais. Perdeu ótimas oportunidades ao longo dos anos por causa disso.

E agora decidiu, quer mudar. Quer se tornar uma pessoa mais calma, mais agradável, mais simpática. O que ele faz, então? Começa a ler e a aprender a respeito da paciência, passa a assimilar conhecimentos para uma vida mais harmônica e serena e, por fim, vai ter que atestar isso futuramente na prática, certo?

Ou seja, para que o padrão novo, assimilado informativamente, se torne concreto em sua personalidade, ele vai ter que provar, não é? Vai ter que testemunhar. 

E diante de quem você acha que ele vai ter que provar a conquista da paciência? Convivendo ao lado de que tipo de pessoas? De monges acostumados à meditação e à reflexão? De pessoas altamente esclarecidas e espiritualizadas? Não, com certeza não. Provavelmente, ao lado de pessoas que são tanto ou mais impacientes do que ele era antes de querer mudar.

Ficou claro? Deu para acompanhar? Daí, a gente nota que esse mecanismo de testemunho é dificílimo, pois quando somos testados na capacidade de amar e de aplicar, nós costumamos reagir. Não aceitamos de bom agrado. Costumamos reclamar e entrar em um plano de profunda inconformação. Por isso, vamos com cautela. Buscamos fazer luz em nós, mas a luz é para ser direcionada para as faixas sombreadas, para os que se encontram em treva maior. Vamos aprimorar nossa compreensão ante os que se desviam do caminho reto e tropeçam nas estradas da vida. Só assim passamos a fazer com que nossa luz não seja treva.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...