31 de mar de 2015

Cap 49 - O Cego de Jericó (2ª edição) - Parte 6 (Final)

QUE QUERES QUE EU TE FAÇA

“51E JESUS, FALANDO, DISSE-LHE: QUE QUERES QUE EU TE FAÇA? E O CEGO LHE DISSE: MESTRE,  QUE EU TENHA VISTA. 52E JESUS LHE DISSE: VAI, A TUA FÉ TE SALVOU. E LOGO VIU, E SEGUIU A JESUS PELO CAMINHO.” MARCOS 10:51-52

Não há o que duvidar, o cego de Jericó define um cidadão novo no campo do espírito.

O próprio mestre fez questão de frisar a grandeza da sua fé. Aliás, fé essencial para alcançar o que ele tanto queria. Fé perseverante. Fé constante. Fé para acreditar naqueles que haviam lhe falado antes em Jesus (afinal, ele queria ver Jesus por ter ouvido falar antes em Jesus); fé para perseverar em seu propósito, mesmo diante das dificuldades exteriores que se interpuseram diante de seu caminho; fé para nutrir uma confiança crescente, apesar da repreensão da multidão; fé para lançar sua capa, levantar e apresentar-se em sua indigência ao divino amigo; e fé para obedecer suas instruções.

E nós? Até onde estamos dispostos a ir? Também precisamos aprender a movimentar nossas mínimas reservas de energia colocando-as a serviço de nossa cura e melhoria.

Temos aprendido, e eu também me incluo nisso, óbvio, que não se promove a reeducação e não se implementa progresso, sem um objetivo. Não há como promover um processo de encaminhamento para uma nova etapa, e desenvolver o caminho dessa nova etapa, sem que se tenha uma meta delineada.

Então, nós temos que saber o que queremos. Precisamos fixar o objetivo e ir em busca. Porque estamos aqui? O que nos faz acessar este blog? Estamos apenas como deleite para entretecer nosso campo mental, para sofisticar nossa mente no campo intelectivo, ou estamos aqui com uma proposta real de crescer?

Jesus inquiriu o cego acerca do que ele queria. Ao fazer a pergunta aguardava a manifestação pessoal dele, respeitando o seu livre-arbítrio. É imperativo saber o que queremos de uma determinada situação. Deus sabe o que precisamos, mas ele fica aguardando sabe o quê? A manifestação nossa, a postura para formar a linha de fechamento do circuito. O cego, por exemplo, podia querer várias coisas, não podia? Podia querer um pedaço de pão, uma moeda. Afinal de contas, ele não era mendigo? Não tinha várias necessidades? Ele gritava utilizando a sua voz porque não enxergava, mas no fundo o que queria de verdade era ver.

E ele soube responder, solicitando visão. O desejo de ver sintetiza a estrutura da personalidade dele. E foi diretamente à fonte certa. Se Jesus é a luz do mundo, logo, a luz é com ele. Ver, no sentido essencial, é alcançar com a vista, é conhecer, enxergar, saber, identificar a luz. E repare em uma coisa, todo aquele que tem bons olhos não vê nem o bom nem o ruim, compreende. Concorda? A capacidade de ver representa não apenas detectar, afinal, quem sabe ver detecta, sabe porque vê, e mais, para que vê. Por isso, não basta só ver, é preciso mais que isso, é preciso saber ver. A visão, sob o aspecto da compreensão, abre para nós uma perspectiva nova, objetivando novo período, nova etapa.

Em muitas situações ver define percepção e aprofundamento das causas. Muitas vezes, para entendermos as situações do presente nós temos que saber enxergar o passado com os olhos do espírito. Ir para além do que os olhos físicos apresentam. E mais felizes nos sentimos quando passamos a entrar no terreno das causas.

Resultado: você passa por problemas de vulto? Paciência com as dificuldades e as provas, porque tudo o que os nossos olhos nos mostram é passageiro, é transitório.

E quer saber mesmo? O propósito desse cego honesto e humilde deveria ser o nosso em todas as circunstâncias. Já nos identificamos com esse personagem extraordinário. Sentimos que em certos momentos estamos estudando a nossa própria realidade. No plano físico ou fora dele, em diversas ocasiões somos esse mendigo de Jericó esmolando às margens da estrada comum. A vida nos chama, o trabalho nos solicita a colaboração ao irmão que tantas vezes nem conhecemos, a luz do conhecimento nos visita o entendimento, o evangelho clareia paulatinamente o campo das nossas ideias, mas mesmo assim permanecemos indecisos. Apegados ao plano material e tangível das coisas, ficamos assentados e sem coragem para marchar rumo à realização elevada que nos compete.

E quando surge a oportunidade do encontro espiritual com Jesus, e ele pergunta o que queremos, simplesmente não sabemos responder. Perdemos a oportunidade.

Gastamos o tempo precioso do contato com queixas inúteis. Manifestamos inconformação, mencionamos que o mundo se volta contra nós, que o peso sobre as nossas costas é muito grande, e por aí afora. E quando pedimos, o fazemos de maneira indevida. Sem a devida sensatez, limitamo-nos a fazer solicitações descabidas, que visam exclusivamente nossos caprichos pessoais ou nos mantemos inertes e indiferentes à sua augusta presença. Por isso, do fundo do coração, vamos recordar o pobrezinho de Jericó. Diante do mestre não é preciso volumosa bagagem de rogativas. Também não vamos ficar nessa de fazer exigências e alegações desmedidas. Peçamos forças para mudarmos o que puder ser mudado e o dom sublime de ver. O que precisamos é o dom de ver com a exata compreensão as particularidades do caminho evolutivo. Que o senhor nos faça enxergar os fenômenos e situações, as pessoas e as coisas, com amor e com justiça. E possuiremos o necessário para a nossa alegria imortal.

E Jesus lhe disse: Vai! Imperativo. Não tem outra, o importante é ir, prosseguir, avançar, continuar, pondo em prática o que se aprende. Com dor ou sem dor, feliz ou aborrecido, é preciso seguir em frente. A cura do cego veio e resultou de uma série de fatores. E nós, já pensou? Ocasionalmente, com à solução à porta, desistimos. 

Com Jesus somos capazes de ver. E quem deseja livrar-se de suas limitações pode e deve fazê-lo. Mas para chegarmos ao objetivo somos convocados a persistir. Não dá para entregar os pontos no meio do caminho, ficar sentado, lamentando ou se esquivando.

A gente estuda e percebe que à medida em que nos aproximamos da verdade vamos, ao mesmo tempo, nos afastando dos erros. O cego de Jericó passou a ver com propriedade, não foi? Tanto que ele seguiu Jesus. Porque a primeira coisa que ocorre quando se começa a ver é o processo aplicativo. Sabia disso? O primeiro fator que importa quando se passa a ver é a aplicabilidade. E, de fato, nós temos que aplicar corretamente. Ora, quantos benefícios nós temos recolhido ao longo da caminhada e não apropriamos adequadamente? Perdemos a chance. No fundo, muitos passam a ver e acabam não aproveitando.

Ficou definido que o cego à beira do caminho se achava saturado da vida que levava, e queria ver. Sabe porquê? Porque ele podia continuar lá, não é? Ou podia ter ido embora. Mas não. O evangelho define que ele seguiu Jesus pelo caminho. E seguir Jesus no caminho é resposta de quem se despertou espiritualmente.

Seguiu Jesus porque viu com propriedade. Modificado, não permaneceu mais à margem, como mendigo da evolução, apenas pedindo e esperando receber e, sim, integrado à dinâmica da própria vida. Seguiu como cooperador na distribuição de recursos e pronto a viver as lições que obteve, onde e como quer que estivesse.

Uma pergunta paira sobre a nossa mente: o que fazer da nossa cura? o que fazer da nossa crença? o que fazer depois de termos pago parte da nossa dívida? Porque, se bobear, a criatura ao melhorar nem chega em casa e já está propensa a novos erros, aos mesmos vícios, às mesmas falhas. Porque ela recebeu e não apropriou. Porque recebeu e não trabalhou o aspecto íntimo da mudança. Porque não se reeducou. Porque não fez luz no íntimo. Passou pela luz e não se iluminou.

28 de mar de 2015

Cap 49 - O Cego de Jericó (2ª edição) - Parte 5

LANÇAR A CAPA E LEVANTAR-SE

“49E JESUS, PARANDO, DISSE QUE O CHAMASSEM; E CHAMARAM O CEGO, DIZENDO-LHE: TEM BOM ÂNIMO; LEVANTA-TE, QUE ELE TE CHAMA. 50E ELE, LANÇANDO DE SI A SUA CAPA, LEVANTOU-SE, E FOI TER COM JESUS.” MARCOS 10:49-50

"E Jesus, parando, disse que o chamassem." (Marcos 10:49) De fato, Jesus não para. O texto não diz que ele parou. Parando é diminuição momentânea da marcha para atendimento a algum objetivo. Mais uma vez vale a pena repetir, a forma do gerúndio (terminação pelo sufixo ndo) denota ação continuada do verbo.

E ele disse para que chamassem o cego. E a multidão, que antes se mantinha egoísta, sem enxergar a necessidade alheia, sob a liderança do mestre maior adota outro procedimento.

O que temos que guardar é que o Cristo é quem realiza. A nós compete chamar. Vamos explicar. Na ressurreição de Lázaro, e você deve se lembrar, Jesus não retirou a pedra, certo? E porque ele não fez a pedra cair? Por acaso ele teria alguma dificuldade nisso? Não poderia fazer o menos quem fez o mais? Certamente poderia sim, no entanto determinou que os homens fizessem o que estava ao alcance deles fazer. Deu uma ideia? Jesus faz o que somente ele pode fazer. Nos acode no atendimento de nossas carências. No caso de Lázaro, os circunstantes tiraram a pedra que fechava o sepulcro e o desataram, e o Cristo operou a ressurreição. Agiu em seguida, no terreno em que os homens não podem intervir.

E o engraçado é que às vezes nós achamos que fazemos demais. Achamos que fazemos muito nos terrenos do amor operacionalizado, no campo da caridade, quando a nossa função primordial limita-se a chamar. Chamar o cego a multidão podia fazer.

Jesus sempre nos chama. Cabe a nós manter ouvidos para ouvir e captar sua mensagem.

Aproveitemos desse episódio a lição. Tiremos a pedra, chamemos o cego e depois aguardemos a intercessão superior. Esse é o papel desempenhado por pessoas que aparentemente surgem ao acaso diante da nossa vida, mas que nos impulsionam para a frente, realizando muitas vezes cooperação mínima, mas eficiente. No geral, são pessoas anônimas que nos indicam o momento propício para a nossa melhoria. Que sabem reconhecer Jesus passando perto de nós. E cada um pode dar o seu recado, desde os chamados mais simples aos mais complexos.

Em momento algum da caminhada, e independente dos problemas, nós não podemos nos curvar e nos deixar abater, especialmente diante do tanto que a misericórdia superior tem investido em nós. É fundamental cultivar o ânimo. Não desanime!

Reflita no que você tem de melhor. Pessoa alguma triunfa na vida sem um ânimo forte. Não é fugindo das dificuldades que se consegue vencê-las. É enfrentando-as.

Além do que, os grandes problemas da vida requerem ânimo forte e vontade irredutível para serem solucionados. Sem dúvida alguma, precisamos de um sacrifício maior para conquistar. O apóstolo Tiago é mais enfático. Ele fala em duplo ânimo ("Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós. Alimpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai os corações." Tiago 4:8) E sabe o que é interessante? É que sem essa postura a nossa vontade, em muitos casos, fica subordinada ao reflexo já condicionado dentro da gente. E para que ocorra sobreposição a esse bloco de registros íntimos, resultante de várias experiências lá de trás e dessa vida também, é preciso um duplo ânimo. Isso mesmo. É imperioso um ânimo dobrado, pois já existe impulsionado todo um sistema de vida que é o automatismo dos nossos reflexos, que se mantém engatilhado. Por isso, duplo ânimo é ânimo redobrado. Ante o automatismo irreverente que nos domina é preciso ânimo redobrado para que possamos enveredar por um processo diferenciado, laborando novos componentes para o nosso campo reeducacional. Será que deu para acompanhar? A primeira metade do ânimo neutraliza a insinuação do reflexo e a outra metade efetiva a conquista.

Para sair da condição de cego ele levantou-se. Porque é muito difícil ter uma parte no evangelho em que alguém dá a mão ou puxa outrem. Analisando melhor, puxar ou empurrar não tem. Vamos encontrar o "vem" de Jesus, que é uma espécie de estender a mão. E no versículo em questão nós temos o verbo levantar na voz ativa reflexiva (levantou-se), ou seja, a definir que o sujeito praticou a ação e recebeu a ação simultaneamente. Ele levantou ele mesmo. Repare que em várias ocasiões Jesus dá o comando e a individualidade realiza. O toque, não há dúvida, é vibracional, todavia o processo de aproximação é nosso.

Levantar-se é erguer-se, é dar-se mais altura, fator indispensável para se poder mudar de plano. É princípio de disposição íntima e confiabilidade. Uma atitude nascida dentro dele, sem a qual os objetivos não teriam como ser alcançados.

O que é capa? É aquilo que serve para cobrir. Em se tratando de vestuário, é a peça que usamos sobre a roupa para protegê-la ou para nos proteger contra a chuva.

Capa sugere exterioridade e proteção. Em sentido mais profundo, define a camada que nos envolve, envolvimento periférico resultante da marginalização e da acomodação a que nos ajustamos no decorrer dos séculos. Não é preciso ir longe para se constatar que as criaturas humanas exibem no mundo as capas mais diversas. Várias são as facetas do orgulho, da vaidade, da presunção, do egoísmo, das mágoas, da conveniência, dos interesses e dos desejos que formam pesada capa que impossibilita ver e estar com Jesus. Para justificá-las, muitos alegam que a luta humana segue repleta de variadas requisições e que é imprescindível atender à movimentação do século. Que é fundamental se adequar às conjunturas e manter posturas diversificadas em face de várias situações.

O que nos interessa, por agora, é que o cego de Jericó define um cidadão novo no campo do espírito.

Largando de vez a máscara que o fazia enfermo, destituindo-se das amarras que o prendiam, e usando da melhor forma o seu livre-arbítrio, levantou-se e foi ao encontro do mestre. Deixou a aparência, mostrou-se tal qual é e foi estar com o ele. E lançar a capa é algo essencial se buscamos saúde e paz no coração.

Lançar a capa é deixar os velhos envoltórios da ilusão. É despir-se dos valores que nos prendem à retaguarda.

Pense com carinho nessa questão. Se você deseja receber a bênção sagrada da divina aproximação identifica a necessidade de desvestir-se, aliviando a carga para buscar Jesus. Lança fora de ti tua capa correndo ao encontro do mestre, como fez o personagem do estudo, que agindo assim alcançou novamente a visão para seus olhos tristes e apagados. Se deseja sinceramente a aproximação com Jesus para receber benefícios duradouros, lança fora de ti a capa do mundo transitório. Deixa de lado a ilusão e os vários envolvimentos e apresenta-te ao senhor como realmente você é. Sem a preocupação de querer mostrar títulos efêmeros, fortuna material ou um exagerado grau de sofrimento.

Lembra que manter falsas aparências diante do Cristo ou de seus mensageiros de nada ajuda, pelo contrário, só complica a situação. Seja você mesmo. Apenas despe tua capa mundana e apresenta-te a ele como é. Por inteiro. Sem mais, nem menos.

24 de mar de 2015

Cap 49 - O Cego de Jericó (2ª edição) - Parte 4

CLAMAR E DIZER

“47E, OUVINDO QUE ERA JESUS DE NAZARÉ, COMEÇOU A CLAMAR, E A DIZER: JESUS, FILHO DE DAVI! TEM MISERICÓRDIA DE MIM. 48E MUITOS O REPREENDIAM, PARA QUE SE CALASSE; MAS ELE CLAMAVA CADA VEZ MAIS: FILHO DE DAVI! TEM MISERICÓRDIA DE MIM.” MARCOS 10:47-48

O cego Bartimeu tinha danificada apenas a faculdade de ver, isto é, ele ainda era capaz de ouvir.

O que significa isso? Que em muitas ocasiões, quando nos achamos incapacitados da vivência de certos recursos, a misericórdia divina nos possibilita a utilização ampla de outros. É como aquele ditado que diz que quando uma porta se fecha outra se abre. Trata-se de ensinamento valioso. Não podemos ficar parados no tempo, chorosos, diante de certos impedimentos que se nos apresentam. Diante das pressões que sofremos, e que apresentam caracteres impeditivos, precisamos ter a paciência necessária e implementar a ação em outras áreas. É algo que precisa ficar bem claro para cada um de nós.

Vamos exercer essa capacidade, quando necessária, de direcionar os acontecimentos na vida sem sermos criaturas indiferentes aos problemas que nos ocorrem.

Às vezes, nós não podemos operar em certa área, mas com certeza podemos operar em outras. Se você fizer um levantamento das suas possibilidades provavelmente irá descobrir que os seus espaços vazios, não preenchidos, são muito mais ampliados do que os espaços que estão marcados por caracteres no campo cármico ou no campo de encaminhamento da vida. Deu para entender?

Bastou ouvir que era Jesus para começar a clamar. Interessante. Tudo começou pela audição, ou seja, pela utilização do recurso que ele possuía. Não utilizou recurso de outrem, mas seu próprio. Isso ensina que quando nos predispomos a ir além, quando nos mantemos atentos e interessados, conseguimos identificar oportunidades que chegam. Conseguimos identificar as emoções, os fatos e as circunstâncias suscetíveis de nos encaminhar para o bem. Mais do que isso, obtemos melhor condição de aproveitar as oportunidades.

Em primeiro lugar, se queremos crescer, se queremos mesmo, nutrindo uma vontade lá no fundo do coração, uma vontade que não é só da boca pra fora, temos que aprender a ouvir. Ouvir, e ouvir a gente aprende e aperfeiçoa, é fundamental.

Significa a capacidade de identificar a nível auditivo, a capacidade de sensibilização.

Ele ouviu porque estava atento. Queria sair daquela situação. É ensinamento da maior validade. Em meio aos barulhos e alaridos de um mundo conturbado em que vivemos não podemos nos manter indiferentes às questões espirituais. Precisamos saber detectar o chamamento para os terrenos vibratórios da imprescindível reeducação moral. Primeiro nós vamos ouvir, para depois querer ver, porque o ver já pressupõe um passo além, uma etapa à frente. Ver já define aplicabilidade. E tanto define aplicabilidade que após ver ele não ficou mais assentado à beira do caminho como antes. O evangelho é claro ao afirmar que ele seguiu Jesus pelo caminho. Mais uma vez temos um verbo no gerúndio. E a gente sabe que gerúndio sugere continuidade. Logo, ouvir quando? Sempre!

Você já pensou nessa palavra clamar? Pois é. Pedir é uma coisa, clamar é outra.

Não é mesmo? Imagine uma pessoa pedindo alguma coisa. Imaginou? Agora imagine ela clamando. Não é muito diferente? Clamar é muito mais que pedir. Pedir, você pode pedir baixinho, mas clamar é em voz alta. Em outras palavras, clamar é gritar. É implorar. Nas estradas mais diversas da paisagem terrestre o que não falta é gente clamando. Dentro dos metrôs, no aperto dos ônibus urbanos, em todos os locais, imagináveis e inimagináveis, gritos de socorro ecoam a todo instante. Às vezes, o nosso telefone toca, a gente atende, e do outro lado tem uma pessoa clamando. Você não escuta? É porque na maioria das vezes esses gritos são inaudíveis aos ouvidos humanos. Eles são percebidos é na alma.

Esse grito do cego é inaudível e ecoa a todo tempo e em todos os ambientes. É um grito que parte da profundidade do ser, revestido de sentimento. Indica a manifestação exterior da nossa necessidade íntima. É a exteriorização nítida, embora na maioria das vezes muda, do que vai dentro de nós. Acontece da criatura não dizer uma palavra, mas os seus olhos expressarem uma tristeza danada. Ela está perto de nós, não fala nada, mas os seus olhos definem muito.

E vamos reparar que bastou apenas identificar a presença de Jesus para o cego operacionalizar sua fé.

Não foi que o aconteceu? Se reconheceu necessitado e suplicou auxílio, revelando humildade. Humildade é o que o tornou receptivo para receber, pois para me fortalecer, antes de tudo, tenho que reconhecer que sou fraco. O doente só se coloca a caminho do restabelecimento quando admite a própria doença.

Nós já estamos todos pisando em um território novo chamado trilha da regeneração. Preste atenção, não é a trilha ou o caminho que Jesus trilhou. Não, nada disso. Dessa nós estamos muito longe ainda. Nós estamos falando é da trilha da disposição de crescer, da disposição de vencer a nós mesmos, de nos auto-aperfeiçoarmos. E toda a margem dessa trilha está ocupada, sabe de quê? De criaturas que estão muito próximas, porém que não tem coragem e determinação de fazer. De criaturas que fazem planos, prometem, reafirmam compromissos, mas não realizam.

Então, qual o recado que esse clamar deixa para nós? Que é um grito íntimo. E se não gritar, não chega. Esse clamar está mostrando para nós que é preciso atestar que se quer. É por isso que ele não ficou só no clamar. Foi além. Ele também disse, e o dizer já exprime ação. Todos os novos que chegam às margens precisam lutar na linha do atendimento, senão ficam onde estão. Porquê? Porque estão inseridos na vida que elegeram, na vida que evolutivamente é a deles.

E para mudar de patamar tem que fazer por onde. Deu uma ideia? E outra coisa, ele clamou pelo quê mesmo? Por misericórdia. Entendeu a beleza do ensinamento? Não clamou por justiça, porque a justiça estava se cumprindo. A cegueira não era de graça. Ninguém paga uma dívida que não tem. Demonstrando compreender o processo pelo qual passava, que havia um motivo para passar pelo que estava passando, ele não clamou pela justiça da lei. Clamou por misericórdia.

E vamos analisar outro detalhe juntos. O cego começou a clamar, e nós entendemos até aí. Mas o que aconteceria se ele voltasse a clamar? Antes de responder, vamos imaginar o seguinte. Você foi visitar hoje seu tio que está internado no hospital. Ok? Se amanhã você for ver de novo o seu tio, você irá fazer o quê? Rever. Outro exemplo: Você tem um filho pequeno em idade escolar que acabou de fazer o dever de casa. Depois de conferir e constatar que não está correto, você diz: "Paulinho, meu filho, preste atenção. Não está certo. Não foi isso que a professora pediu." O que ele vai ter que fazer? O dever está feito. Ele terá, então, que refazer. Percebeu? Esse "re" denota uma repetição do fato anterior. Daí, nós temos recomeçar, reformar, reviver, refazer, entre tantos, inclusive o que está na nossa pauta de estudo: reclamar. Se o cego voltasse a clamar, ele já não estaria no clamar, ele passaria a reclamar.

Aliás, o interessante é que ele não se limitou a clamar. Foi além disso. Disse algo também.

Porque a sucessão do clamar já não é clamar, é reclamar. E reclamar é outra coisa. É manifestar descontentamento, é opor-se, é manifestar contrariedade.

Agora, cá entre nós, como é que vamos nos inconformar com a vida se a vida sempre nos retorna segundo o que lançamos? Conseguiu perceber? Pelo que nós temos aprendido, um componente que dilui as nossas energias, sem dúvida, é a reclamação. Isso quando ela não tange a revolta. De forma que vamos parar de reclamar. Vamos parar de transformar a nossa linha ambiente num plano de reclamação e de inconformação, porque senão acabamos perdendo valores da maior importância no campo da resistência e da segurança.

Quanto menos nós reclamarmos mais eficiente e mais fácil vai se tornando o processo de administração. Vamos notar que se nós começarmos a não reclamar dos fatos, já é um bom começo. Na medida em que começamos a conquistar isso nos sentimos mais fortes.

E mesmo após essa atitude ele foi repreendido por muitos. E repreensão a gente sabe, é censura com palavras enérgicas. Tem sentido enérgico, é feita de forma mais imperiosa. Ela se dava porque as pessoas que passavam não viam a necessidade do cego. Nenhuma novidade nisso. Muitas vezes nós somos obstáculo também para que alguém se aproxime de Jesus na busca de seus benefícios.

Já pensou nisso? E essa repreensão define um alerta para todos nós que buscamos a edificação: sempre iremos encontrar obstáculos no caminho para uma vida redentora.

E o que ele fez não foi desistir. Pelo contrário. Por isso, meu amigo, minha amiga, toda a vez que a individualidade se desperta e quer conquistar ela tem que lutar.

A misericórdia funciona distribuindo dádivas em todo o universo, porém essas dádivas não chegam de graça. Não caem de paraquedas a esmo. Nós temos que insistir e perseverar, que é a palavra básica da conquista. Temos que manter firmes as nossas propostas, especialmente quando queremos ver alguma coisa que não conhecemos. Para a criatura entrar em um terreno novo ela precisa atestar que quer de verdade. Não pode desistir à toa diante das primeiras dificuldades e dos menores problemas. E, principalmente, fazer as coisas sem reclamar.

Você já deve ter observado: quando começamos a fazer as coisas sem nos sentir machucados, sem reclamar, sem mudar o nosso humor, sem mudar o nosso semblante, sem fechar a cara, a gente percebe que as coisas melhoram. O que vigorava dentro do cego? Humildade e disposição germinativa. Mas ele tinha que atestar a sua disposição. E nós estamos aqui para aprender isso.

17 de mar de 2015

Cap 49 - O Cego de Jericó (2ª edição) - Parte 3

O CEGO SOMOS NÓS

“DEPOIS, FORAM PARA JERICÓ. E, SAINDO ELE DE JERICÓ COM SEUS DISCÍPULOS E UMA GRANDE MULTIDÃO, BARTIMEU, O CEGO, FILHO DE TIMEU, ESTAVA ASSENTADO JUNTO DO CAMINHO, MENDIGANDO.” MARCOS 10:46  

Essa passagem do evangelho tem importância singular. Note que o evangelista Marcos fez questão de mencionar o nome do cego (Bartimeu) e do seu pai (Timeu). E para início de conversa, a cegueira do cego de Jericó era decorrente de quê? Porque nós sabemos que não existe efeito sem causa. A cegueira era decorrente da cristalização dele no ambiente, da sua permanência constante naquele campo vibracional de materialidade reinante que oblitera a capacidade visual.

A bem da verdade, o cego que vivia da esmola e da caridade dos transeuntes revela as nossas dificuldades de visão no campo da alma, e isso é interessante de se ter em conta.

Cabe a cada um de nós, individualmente, saber se a cegueira é uma cegueira resultante apenas do desconhecimento, ou se foi originada pelas nossas ações menos felizes, cultivada através dos tempos pela nossa condição egocêntrica ou egoística. Saber que tipo de cego somos no que reporta aos valores essenciais da vida.

É interessante observar, também, como se encontrava o cego antes de Jesus e como ele passa a estar depois desse contato. E por falar nisso, como ele estava inicialmente? O texto nos afirma que estava "assentado junto do caminho, mendigando". Três aspectos relevantes que não podem passar em branco.

É só a gente pensar que nos assentamos para quê? Para nos acomodar. E mais, quando a gente se acomoda a gente se aquieta, relaxa. Nós estamos nos referindo ao sentido intrínseco, claro. Assentado define aquela atitude mental de inoperância, em que a criatura se reveste de uma acomodação face aos imperativos de trabalho pela edificação da vida imortal. Percebeu? No mundo de correria em que vivemos encontramos pessoas de todas as idades, de todos os lugares, de todas as posições sociais, envoltas nas mais diversas atividades, que estão trabalhando muito, correndo para não chegarem atrasadas nos compromissos profissionais, que estão se movimentando de tudo quanto é jeito, fazendo aulas de dança, praticando esportes, mas que estão realmente assentadas no que reporta a ação de edificação para os aspectos da vida espiritual.

E ele não estava no caminho. Estava junto. É diferente. Estar junto é estar próximo, mas não estar efetivamente. Não é isso? Em primeiro lugar, ele estava assentado à beira do caminho e caminho a gente sabe, não comporta acomodação.

Caminho propõe movimento. E o caminho é Jesus, a definir que estava à margem da verdadeira estrada de edificação. Em outras palavras, estava próximo, mas ainda fora dos valores espirituais. De algum modo ele estava fora de foco.

Mas tem coisa positiva nisso aí. Por outro lado, junto do caminho ou à beira do caminho, embora assentado, significa próximo. Indica uma postura pessoal de querer se desvincular do ambiente menos feliz. Define a representação do deslumbramento ou a percepção de uma nova claridade. Concorda? O cego não estava enxergando, nós o temos preso aos planos de retaguarda, porém já se abrindo para o amor na sua grandiosidade. Essa postura de proximidade já o fazia sentir os primeiros raios do sol surgindo. Ele estava se abrindo para a vida mais abrangente.

Queria luz. Queria enxergar. E essas primeiras linhas perceptivas da personalidade dele foram o que lhe fez ir de encontro à luz plena. Para se atingir esse patamar novo a individualidade precisa sentir que o terreno em que ela está já não está mais dando para ela. Que esse terreno já está saturado, não atende mais. Agora, ao mesmo tempo em que ela se esforça para alcançar o novo piso, pela implementação de esforços novos, ela também precisa entender que nem todos à sua volta querem abandonar o patamar de origem.

Ou seja, muitos querem mudar, querem fazer. Alegam propósitos, definem planos, elegem estratégias, todavia ficam apenas em um querer da boca pra fora.

Mendigar é pedir esmolas. Não é? O mendigo oferece alguma coisa à vida? Pense bem.

Não, não é preciso nem pensar muito para responder. Mendigo é aquele que não oferece nada à vida. É mero recebedor de recursos, se posiciona como pedinte.

A gente estuda esse texto do evangelho e percebe que o cego não é o Bartimeu de ontem, somos nós agora. Nós estamos analisando é a nossa própria vida hoje. Se você pensar bem, os recursos materiais e os valores amoedados que o mundo oferece são verdadeiras esmolas diante das bênçãos incomensuráveis estendidas pela misericórdia na infinita dimensão do espírito, quando insistimos em nos manter fora do caminho, quando permanecemos assentados e dissociados da linha do amor. 

Mas a situação que o cego vivia não o agradava. Tanto não o agradava que os valores recebidos do mundo não se sobrepuseram ao interesse que ele nutriu por Jesus. E ele fez por onde mudar sua história.

14 de mar de 2015

Cap 49 - O Cego de Jericó (2ª edição) - Parte 2

DEPOIS FORAM PARA JERICÓ

“46DEPOIS, FORAM PARA JERICÓ. E, SAINDO ELE DE JERICÓ COM SEUS DISCÍPULOS E UMA GRANDE MULTIDÃO, BARTIMEU, O CEGO, FILHO DE TIMEU, ESTAVA ASSENTADO JUNTO DO CAMINHO, MENDIGANDO. 47E, OUVINDO QUE ERA JESUS DE NAZARÉ, COMEÇOU A CLAMAR, E A DIZER: JESUS, FILHO DE DAVI! TEM MISERICÓRDIA DE MIM. 48E MUITOS O REPREENDIAM, PARA QUE SE CALASSE; MAS ELE CLAMAVA CADA VEZ MAIS: FILHO DE DAVI! TEM MISERICÓRDIA DE MIM. 49E JESUS, PARANDO, DISSE QUE O CHAMASSEM; E CHAMARAM O CEGO, DIZENDO-LHE: TEM BOM ÂNIMO; LEVANTA-TE, QUE ELE TE CHAMA. 50E ELE, LANÇANDO DE SI A SUA CAPA, LEVANTOU-SE, E FOI TER COM JESUS. 51E JESUS, FALANDO, DISSE-LHE: QUE QUERES QUE EU TE FAÇA? E O CEGO LHE DISSE: MESTRE,  QUE EU TENHA VISTA. 52E JESUS LHE DISSE: VAI, A TUA FÉ TE SALVOU. E LOGO VIU, E SEGUIU A JESUS PELO CAMINHO.” MARCOS 10:46-52

À partir do momento que nós compreendemos a representatividade da cidade de Jericó, o seu significado espiritualmente falando, nós já podemos começar a analisar o texto, partindo de um ponto interessante: o advérbio de tempo (depois). Ele é fundamental para entendermos todo o conteúdo. Para se ter ideia, ele apresenta relação com a natureza do ambiente. Ou seja, quando é que Jesus vai a Jericó? Vai depois. E se ele vai depois a Jericó, é porque ele vai antes a outras regiões.

Está dando para entender? Vai depois a Jericó porque a misericórdia divina se direciona antes àqueles que estão levantando a bandeira da reparação. Afinal de contas, quem está em Jericó está vibrando com padrões específicos, e de ordem transitória, e enquanto a vida de alguém for aquela que ele elegeu porque alterá-la? Sabemos que a salvação só é importante para as criaturas que querem salvar-se.

O verbo "foram" define o direcionamento do auxílio junto aos aflitos e necessitados.

Quer dizer, o amparo superior comumente vem a nós, não fica apenas aguardando a nossa ida. Agora, o que a gente precisa entender é que esse amparo não objetiva precipitar a evolução, e sim acolher os que já estão à beira do caminho.

Onde o Cristo entra ele arregimenta corações, e existe alguma dúvida quanto a isso? Todavia, esse entrar não é para precipitar a evolução, mas sim para atender, e vamos repetir, os que estão à beira do caminho, isto é, os que estavam com a luz e a luz apagou. Objetiva atender as criaturas já predispostas a receberem o auxílio, que já buscam entrar em novas faixas de vibração. É por isso que o cego foi curado à saída de Jericó, e não dentro de Jericó.

A luz se direciona para as trevas e isso não é novidade para ninguém. É uma característica da luz se propagar em todas as direções. Agora, o que nem todos sabem é que os espíritos de luz não entram no abismo para precipitar a evolução.

Ninguém pode desativar o funcionamento da lei. Eles entram, sim, para acolher os que lá se encontram em predisposição de receber. Então, não se assuste, é razoável que as missões de auxílio nos abismos recolham apenas os predispostos a receber o socorro elevado. Quanto aos demais? Bem, aí é outra questão. Aos outros não faltarão as providências da misericórdia em outra parte.

Muitas vezes, não há outro recurso para certas criaturas senão deixá-las nos precipícios das trevas, onde serão naturalmente compelidas a se reajustarem, dando ensejo a pensamentos dignos. Enquanto isso, a misericórdia não se perturba e espera a adesão das individualidades em mudar. Nós já sabemos, onde Jesus entra ele arregimenta corações. Repare que entra Jesus e discípulos e sai Jesus, discípulos e uma grande multidão ("Depois, foram para Jericó. E, saindo ele de Jericó com seus discípulos e uma grande multidão"). Nesse texto fica claro que o cordeiro angaria os que buscam ter visão, e podemos tirar uma grande lição a princípio: o que nos capacita a estar com o maior amigo da humanidade não é lugar onde, é estado de alma. Ele sempre entra na Jericó de nossas almas, na busca por aqueles que já querem ver a vida sob uma nova feição. 

3 de mar de 2015

Cap 49 - O Cego de Jericó (2ª edição) - Parte 1

JERICÓ

“E, TENDO JESUS ENTRADO EM JERICÓ, IA PASSANDO.” LUCAS 19:1  

“E, RESPONDENDO JESUS, DISSE: DESCIA UM HOMEM DE JERUSALÉM PARA JERICÓ, E CAIU NAS MÃO DOS SALTEADORES, OS QUAIS O DESPOJARAM, E ESPANCANDO-O, SE RETIRARAM, DEIXANDO-O MEIO MORTO.” LUCAS 10:30  

A cidade de Jericó, na província da Judéia, ao tempo de Jesus era bem importante. Ao lado oriental do Jordão, situava-se a 23 quilômetros de Jerusalém, perto do mar Morto. 

Era próspera por sua economia e agricultura. Produzia palmeiras, árvores balsâmicas e figueiras. Sempre mereceu a atenção dos viajantes por ter um dos maiores oásis da região, pelas suas fontes de águas medicinais, pelos palácios construídos e pela beleza e luxo das suas moradias, erguidas pelas famílias ricas de Jerusalém.

E como a mensagem do evangelho é uma mensagem direcionada ao espírito em sua essencialidade, a Jericó que nos interessa não é essa do passado, física, literal, erguida de pedras, mas a de hoje, para muito além do seu aspecto físico. A Jericó que realmente nos interessa é a Jericó em seu sentido puramente espiritual.

A gente sabe, e temos batido continuamente nessa tecla: vida é um processo de eleição pessoal. O que quer dizer? Que os valores e os interesses que nós elegemos, a nível mental, nos situam em territórios diversificados que o evangelho apresenta. Afinal de contas, toda a Palestina está onde? Dentro de nós mesmos. O resultado é que cada cidade nos apresenta um ponto interessante, está presente no âmago do nosso piso vibracional, está no nosso território íntimo.

Conhecida como via de intensa movimentação comercial, a cidade de Jericó simboliza o campo dos nossos interesses materiais e transitórios. Vamos explicar?

Jericó era cidade preferida dos comerciantes em busca do cobiçado lucro material. 

Apresentava comércio bastante desenvolvido, inclusive com a sua população habituada à circulação de dinheiro. À partir desse ponto, nós podemos concluir o quê? Que em se tratando de vida mental ela é a província psíquica vinculada aos interesses materiais. Ficou claro? É a região mental baseada no apego aos valores de natureza imediatista. Aquela faixa vinculada aos interesses de natureza transitória, onde os valores espirituais são deixados de lado em favor dos transitórios.

Nós a identificamos mediante a eleição de vida nos parâmetros de natureza tangível, onde elegemos como prioritários uma soma de valores relacionados aos aspectos da vida efêmera. De forma que aqueles que estão em Jericó estão vibrando com o sistema materialista reinante.

Nós precisamos das questões materiais. Elas são imprescindíveis, e disso não se discute. Agora, a questão é que muitas pessoas estruturam suas vidas em Jericó. Nela fixam as suas residências mentais, por vibrarem exclusivamente com as faixas de padrões efêmeros, e não abrem mão de jeito nenhum. Não abandonam esse terreno de forma alguma, faça sol ou faça chuva. Porque esse ambiente, em razão dos seus habitantes elegerem como prioritários os interesses passageiros, proporciona-lhes a segurança e a razão de ser. Mas vamos ver daqui a pouco o que acontece com quem não se predispõe a sair de lá.

Em se tratando de altitude, é uma das cidades mais baixas da Terra, a 272 metros abaixo do nível do mar. Isso mesmo. Enquanto Jerusalém, que simboliza as conquistas do espírito e o direcionamento da mente aos padrões superiores da vida fica a 760 metros acima, Jericó está a 272 metros abaixo do nível do Mediterrâneo.

Agora, pense comigo. Como o nosso campo psíquico engloba todo o ambiente da Palestina, você acha que Jericó está mais para o superconsciente ou para o subconsciente? 

A parábola do bom samaritano, e você se lembra dela, nos ajuda a responder, quando nos diz que "descia um homem de Jerusalém para Jericó". Daí nós podemos concluir que em Jericó eu tenho o meu pensamento vibrando com as faixas inferiores, com a parte baixa da minha vida mental. Situada a 272 metros abaixo do nível do Mediterrâneo, nos aspectos mais íntimos Jericó está mais para o subconsciente. 

Segundo a parábola do bom samaritano, descer para Jericó é descer das faixas superiores da vida mental mediante a queda no subconsciente, onde se cai na mão de salteadores. Em suma, essa descida revela o estado de queda moral do ser humano que vive à cata de aventuras em planos vibratórios inferiores, e que em razão disso que se submete aos ataques das trevas por conta e risco próprios.

A cidade de Jericó retrata o plano de sensações imediatistas que nós devemos abandonar.

A bem da verdade, ela nos mantém reclusos à retaguarda da evolução em razão do nosso cultivo aos aspectos da vida transitória, onde aprisionamos os melhores valores importantes ao progresso. Isso é algo para ser analisado com muito carinho. Jericó é ambiente psíquico que nos prende à retaguarda.

Outra narrativa do evangelho, a que descreve o encontro de Jesus com Zaqueu, o chefe dos publicanos, é objetiva nesse ponto. Ela menciona que Jesus não fica em Jericó, passa por Jericó. 

E, para ser mais preciso, a forma verbal usada nem é passa, é passando: "E, tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando." (Lucas 19:1) Você já pensou no porquê disso? É muito simples, a felicidade legítima não pode ser encontrada nesse território, nos valores tangíveis que ele nos proporciona. 

Essa passagem (porque gerúndio transmite essa ideia de continuidade) busca atrair a nossa atenção, despertando-nos a necessidade de deixarmos o ambiente menos feliz onde insistimos em nos manter inseridos por muito tempo. Jesus vem passando pela Jericó de nossa intimidade para atrair a nossa atenção para novas faixas de vibração. E tudo quanto que é capaz de movimentar o espelho de nossa mente na direção dos valores elevados consubstancia essa passagem. Mas a questão é que permanecemos ainda desinteressados, não damos o devido valor, desconsideramos de pronto o chamado. E perdemos com isso oportunidades pela cristalização em que nos mantemos.

Agora, preste atenção no detalhe: Jesus passa para nos convidar a sair pela espontaneidade.

Ficou claro? Somos todos convocados a deixar a Jericó de nossas almas, porque esse ambiente é um terreno transitório. Eu digo transitório porque essa cidade vai ser destruída. Deu para entender? A cidade de Jericó é destruída, e em razão disso nossa permanência nela é temporária. Ensina para nós que os valores materiais onde fixamos a nossa confiança serão derrubados para propiciar uma edificação efetiva de natureza espiritual. Porque a segurança real não vem de fora, a segurança verdadeira a encontramos dentro de nós mesmos pela nossa capacidade de operar.

E o desejo de sair desse terreno surge quando os benefícios que ele nos oferece deixam de atender os nossos anseios e passamos a buscar identificar algo novo que nos felicite mais amplamente.

Jericó era cidade antiga, cercada por muralhas praticamente intransponíveis. Inclusive trombetas foram usadas em grande número, e de forma uníssona, para derrubar essas muralhas. E que muralhas são essas hoje? Bem, são as barreiras. Definem os valores que trazemos conosco e que cerceiam a nossa afirmação no bem.

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