24 de mar de 2015

Cap 49 - O Cego de Jericó (2ª edição) - Parte 4

CLAMAR E DIZER

“47E, OUVINDO QUE ERA JESUS DE NAZARÉ, COMEÇOU A CLAMAR, E A DIZER: JESUS, FILHO DE DAVI! TEM MISERICÓRDIA DE MIM. 48E MUITOS O REPREENDIAM, PARA QUE SE CALASSE; MAS ELE CLAMAVA CADA VEZ MAIS: FILHO DE DAVI! TEM MISERICÓRDIA DE MIM.” MARCOS 10:47-48

O cego Bartimeu tinha danificada apenas a faculdade de ver, isto é, ele ainda era capaz de ouvir.

O que significa isso? Que em muitas ocasiões, quando nos achamos incapacitados da vivência de certos recursos, a misericórdia divina nos possibilita a utilização ampla de outros. É como aquele ditado que diz que quando uma porta se fecha outra se abre. Trata-se de ensinamento valioso. Não podemos ficar parados no tempo, chorosos, diante de certos impedimentos que se nos apresentam. Diante das pressões que sofremos, e que apresentam caracteres impeditivos, precisamos ter a paciência necessária e implementar a ação em outras áreas. É algo que precisa ficar bem claro para cada um de nós.

Vamos exercer essa capacidade, quando necessária, de direcionar os acontecimentos na vida sem sermos criaturas indiferentes aos problemas que nos ocorrem.

Às vezes, nós não podemos operar em certa área, mas com certeza podemos operar em outras. Se você fizer um levantamento das suas possibilidades provavelmente irá descobrir que os seus espaços vazios, não preenchidos, são muito mais ampliados do que os espaços que estão marcados por caracteres no campo cármico ou no campo de encaminhamento da vida. Deu para entender?

Bastou ouvir que era Jesus para começar a clamar. Interessante. Tudo começou pela audição, ou seja, pela utilização do recurso que ele possuía. Não utilizou recurso de outrem, mas seu próprio. Isso ensina que quando nos predispomos a ir além, quando nos mantemos atentos e interessados, conseguimos identificar oportunidades que chegam. Conseguimos identificar as emoções, os fatos e as circunstâncias suscetíveis de nos encaminhar para o bem. Mais do que isso, obtemos melhor condição de aproveitar as oportunidades.

Em primeiro lugar, se queremos crescer, se queremos mesmo, nutrindo uma vontade lá no fundo do coração, uma vontade que não é só da boca pra fora, temos que aprender a ouvir. Ouvir, e ouvir a gente aprende e aperfeiçoa, é fundamental.

Significa a capacidade de identificar a nível auditivo, a capacidade de sensibilização.

Ele ouviu porque estava atento. Queria sair daquela situação. É ensinamento da maior validade. Em meio aos barulhos e alaridos de um mundo conturbado em que vivemos não podemos nos manter indiferentes às questões espirituais. Precisamos saber detectar o chamamento para os terrenos vibratórios da imprescindível reeducação moral. Primeiro nós vamos ouvir, para depois querer ver, porque o ver já pressupõe um passo além, uma etapa à frente. Ver já define aplicabilidade. E tanto define aplicabilidade que após ver ele não ficou mais assentado à beira do caminho como antes. O evangelho é claro ao afirmar que ele seguiu Jesus pelo caminho. Mais uma vez temos um verbo no gerúndio. E a gente sabe que gerúndio sugere continuidade. Logo, ouvir quando? Sempre!

Você já pensou nessa palavra clamar? Pois é. Pedir é uma coisa, clamar é outra.

Não é mesmo? Imagine uma pessoa pedindo alguma coisa. Imaginou? Agora imagine ela clamando. Não é muito diferente? Clamar é muito mais que pedir. Pedir, você pode pedir baixinho, mas clamar é em voz alta. Em outras palavras, clamar é gritar. É implorar. Nas estradas mais diversas da paisagem terrestre o que não falta é gente clamando. Dentro dos metrôs, no aperto dos ônibus urbanos, em todos os locais, imagináveis e inimagináveis, gritos de socorro ecoam a todo instante. Às vezes, o nosso telefone toca, a gente atende, e do outro lado tem uma pessoa clamando. Você não escuta? É porque na maioria das vezes esses gritos são inaudíveis aos ouvidos humanos. Eles são percebidos é na alma.

Esse grito do cego é inaudível e ecoa a todo tempo e em todos os ambientes. É um grito que parte da profundidade do ser, revestido de sentimento. Indica a manifestação exterior da nossa necessidade íntima. É a exteriorização nítida, embora na maioria das vezes muda, do que vai dentro de nós. Acontece da criatura não dizer uma palavra, mas os seus olhos expressarem uma tristeza danada. Ela está perto de nós, não fala nada, mas os seus olhos definem muito.

E vamos reparar que bastou apenas identificar a presença de Jesus para o cego operacionalizar sua fé.

Não foi que o aconteceu? Se reconheceu necessitado e suplicou auxílio, revelando humildade. Humildade é o que o tornou receptivo para receber, pois para me fortalecer, antes de tudo, tenho que reconhecer que sou fraco. O doente só se coloca a caminho do restabelecimento quando admite a própria doença.

Nós já estamos todos pisando em um território novo chamado trilha da regeneração. Preste atenção, não é a trilha ou o caminho que Jesus trilhou. Não, nada disso. Dessa nós estamos muito longe ainda. Nós estamos falando é da trilha da disposição de crescer, da disposição de vencer a nós mesmos, de nos auto-aperfeiçoarmos. E toda a margem dessa trilha está ocupada, sabe de quê? De criaturas que estão muito próximas, porém que não tem coragem e determinação de fazer. De criaturas que fazem planos, prometem, reafirmam compromissos, mas não realizam.

Então, qual o recado que esse clamar deixa para nós? Que é um grito íntimo. E se não gritar, não chega. Esse clamar está mostrando para nós que é preciso atestar que se quer. É por isso que ele não ficou só no clamar. Foi além. Ele também disse, e o dizer já exprime ação. Todos os novos que chegam às margens precisam lutar na linha do atendimento, senão ficam onde estão. Porquê? Porque estão inseridos na vida que elegeram, na vida que evolutivamente é a deles.

E para mudar de patamar tem que fazer por onde. Deu uma ideia? E outra coisa, ele clamou pelo quê mesmo? Por misericórdia. Entendeu a beleza do ensinamento? Não clamou por justiça, porque a justiça estava se cumprindo. A cegueira não era de graça. Ninguém paga uma dívida que não tem. Demonstrando compreender o processo pelo qual passava, que havia um motivo para passar pelo que estava passando, ele não clamou pela justiça da lei. Clamou por misericórdia.

E vamos analisar outro detalhe juntos. O cego começou a clamar, e nós entendemos até aí. Mas o que aconteceria se ele voltasse a clamar? Antes de responder, vamos imaginar o seguinte. Você foi visitar hoje seu tio que está internado no hospital. Ok? Se amanhã você for ver de novo o seu tio, você irá fazer o quê? Rever. Outro exemplo: Você tem um filho pequeno em idade escolar que acabou de fazer o dever de casa. Depois de conferir e constatar que não está correto, você diz: "Paulinho, meu filho, preste atenção. Não está certo. Não foi isso que a professora pediu." O que ele vai ter que fazer? O dever está feito. Ele terá, então, que refazer. Percebeu? Esse "re" denota uma repetição do fato anterior. Daí, nós temos recomeçar, reformar, reviver, refazer, entre tantos, inclusive o que está na nossa pauta de estudo: reclamar. Se o cego voltasse a clamar, ele já não estaria no clamar, ele passaria a reclamar.

Aliás, o interessante é que ele não se limitou a clamar. Foi além disso. Disse algo também.

Porque a sucessão do clamar já não é clamar, é reclamar. E reclamar é outra coisa. É manifestar descontentamento, é opor-se, é manifestar contrariedade.

Agora, cá entre nós, como é que vamos nos inconformar com a vida se a vida sempre nos retorna segundo o que lançamos? Conseguiu perceber? Pelo que nós temos aprendido, um componente que dilui as nossas energias, sem dúvida, é a reclamação. Isso quando ela não tange a revolta. De forma que vamos parar de reclamar. Vamos parar de transformar a nossa linha ambiente num plano de reclamação e de inconformação, porque senão acabamos perdendo valores da maior importância no campo da resistência e da segurança.

Quanto menos nós reclamarmos mais eficiente e mais fácil vai se tornando o processo de administração. Vamos notar que se nós começarmos a não reclamar dos fatos, já é um bom começo. Na medida em que começamos a conquistar isso nos sentimos mais fortes.

E mesmo após essa atitude ele foi repreendido por muitos. E repreensão a gente sabe, é censura com palavras enérgicas. Tem sentido enérgico, é feita de forma mais imperiosa. Ela se dava porque as pessoas que passavam não viam a necessidade do cego. Nenhuma novidade nisso. Muitas vezes nós somos obstáculo também para que alguém se aproxime de Jesus na busca de seus benefícios.

Já pensou nisso? E essa repreensão define um alerta para todos nós que buscamos a edificação: sempre iremos encontrar obstáculos no caminho para uma vida redentora.

E o que ele fez não foi desistir. Pelo contrário. Por isso, meu amigo, minha amiga, toda a vez que a individualidade se desperta e quer conquistar ela tem que lutar.

A misericórdia funciona distribuindo dádivas em todo o universo, porém essas dádivas não chegam de graça. Não caem de paraquedas a esmo. Nós temos que insistir e perseverar, que é a palavra básica da conquista. Temos que manter firmes as nossas propostas, especialmente quando queremos ver alguma coisa que não conhecemos. Para a criatura entrar em um terreno novo ela precisa atestar que quer de verdade. Não pode desistir à toa diante das primeiras dificuldades e dos menores problemas. E, principalmente, fazer as coisas sem reclamar.

Você já deve ter observado: quando começamos a fazer as coisas sem nos sentir machucados, sem reclamar, sem mudar o nosso humor, sem mudar o nosso semblante, sem fechar a cara, a gente percebe que as coisas melhoram. O que vigorava dentro do cego? Humildade e disposição germinativa. Mas ele tinha que atestar a sua disposição. E nós estamos aqui para aprender isso.

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