7 de jul de 2015

Cap 51 - Entendendo o Evangelho (2ª edição) - Parte 10 (Final)

LETRA E ESSÊNCIA

“O QUAL NOS FEZ TAMBÉM CAPAZES DE SER MINISTROS DE UM NOVO TESTAMENTO, NÃO DA LETRA, MAS DO ESPÍRITO; PORQUE A LETRA MATA E O ESPÍRITO VIVIFICA.” CORÍNTIOS II 3:6

O evangelho é manancial e recurso inesgotável de ensinamentos. Não acaba. É eterno, abundante e contínuo.

A gente lê e muita dificuldade encontrada na leitura decorre dos próprios terrenos que temos que trabalhar, porque a linguagem do velho testamento e do novo testamento trabalha de uma forma simbólica. Geralmente, vigora uma tentativa de repassar a informação através de um elemento básico que é o símbolo. E o símbolo, sem dúvida, é uma forma de passar informação. Tem pontos que estão embutidos nessa linguagem figurada que o texto apresenta a cada um de nós.

O maior percentual de pessoas é cristã. Ótimo. Porém, infelizmente não estuda o evangelho, estuda a letra do evangelho. E a bíblia não pode ser trabalhada em cima da letra como muita gente propõe. A letra, sem dúvida alguma, é um instrumento que pode criar dificuldades para os nossos passos. Sabe porquê? Porque ela é material didático.

A letra não é a essência do conhecimento. A letra bíblica é material didático sem o qual não há aprendizado, mas ela não é a essência do conhecimento. Precisamos entender que toda transcrição, tanto do velho como do novo testamento, é instrumento didático. A letra é recurso didático por meio do qual a sapiência pedagógica de Jesus nos ensina a aprofundar no conteúdo. E equívocos na interpretação muitas vezes ocorrem ao tomar-se ao pé da letra expressões que são figuradas.

Por esta razão, todas as vezes que a gente leva o assunto para o plano literal nós costumamos ter problemas. Veja o que acontece em nosso mundo escolar. Nos primeiros movimentos do ensino fundamental, o que era tido antes como curso primário, no que reporta a instrução infantil, faz-se necessário a colaboração de figuras, não faz? Para que a criança inicie o despertar dos primeiros conhecimentos. E dentro de um lance de analogia, aquele que quiser estudar a bíblia em cima da periferia da letra vai ficar trabalhando contra a própria natureza, porque a gente sabe: a didática é uma coisa e o conteúdo é outra.

As  frutas, ou melhor, a parte essencial delas, é quase sempre envolvida por uma camada que é a casca. Certo? E esse envoltório externo serve para quê? Para conservar doce e saborosa a polpa dos frutos, preservando-as das contingências exteriores a que se acham expostas. Ou seja, se a natureza não tivesse protegido dessa forma os frutos o homem jamais chegaria a utilizar-se deles.

E com os ensinamentos do evangelho, que contém as verdades essenciais, o processo é o mesmo dos frutos. Porque para início de conversa, não há como transmitir as grandes verdades fora dos elementos de natureza metafórica ou simbólica. 

Se a sabedoria do maior instrutor e guia da humanidade não tivesse envolvido os seus sublimes preceitos no manto dos símbolos e das parábolas, com certeza eles não teriam chegado até nós. É só analisar com atenção, pois tudo o que é revelado para além do nosso contingente de capacidade perceptiva direta tem que ser direcionado em forma figurativa. É assim e sempre vai ser assim, o que explica porque estamos envolvidos com a necessidade interpretativa da mensagem bíblica. 

Sempre teremos que passar por isso!

Nos dias de hoje, ante os acontecimentos que nos chegam, ainda costumamos receber muita coisa em bloco, de forma compactada, sintetizada. E com nossa inaptidão e insensatez comumente não mantemos a paciência necessária para descompactar e metabolizar o conteúdo. Muitos, assim, desprezam o espírito que vivifica e ficam restritos à letra que mata. Em outras palavras, comem qualquer fruta com a casca. E o que é pior, procuram convencer os outros de que é assim que devem comê-la. 

Essa é a grande verdade, a grande massa de pessoas ingere o material didático como se fosse o conteúdo, a essência, e nem o mastiga. E por insistirem em comer qualquer fruta com a casca, não experimentam o legítimo paladar dos ensinamentos, cheios de doçura e aroma.

Sempre que fechava seus discursos com a frase "quem tem ouvidos de ouvir, ouça", Jesus sugeria que quem fosse capaz penetrasse o sentido essencial de suas palavras, porque o ensino dele não está na letra que mata, mas no espírito que vivifica.

Em todas as traduções dos ensinamentos divino é imprescindível saber separar da letra o espírito, buscando a essência para além da letra que a transporta.

Tem gente que alega que o uso de simbologia e de parábolas gera confusões e dificulta a aprendizagem da verdade. A estes nós podemos dizer o seguinte, praticamente não existe fruto sem casca. Todavia, não se vê alguém reclamar de ter que descascar a fruta. Concorda? Ninguém reclama disso, afinal de contas o trabalho de descascar é compensado pelo proveito que tiramos do alimento, portador de nutrientes essenciais à vida do corpo. Todo mundo concorda com a necessidade de um pequeno esforço. E, se para saborearmos os frutos temos que nos despojar dos seus respectivos envoltórios, para acessarmos as verdades maiores temos que despojá-los da letra que os envolve.

Tem gente que vai fazer uma palestra ou uma pregação sobre o evangelho e faz um poema para começar. Utiliza de desenhos, leva gravuras belíssimas. A cada período de tempo, uma música bonita envolve as pessoas. Se o assunto é a pesca maravilhosa começa falando da paisagem. Fala dos peixes, descreve os barcos, se emociona ao falar de Simão. Fica lindo. Muita gente emocionada bate palma no final: "Mas que beleza. Como fala!" Tudo muito bonito. Mas ficou apenas na periferia do assunto. De conteúdo e aprendizado que é bom, não teve nenhum. O orador fala bonito, mas se for questionado, se apertar um pouquinho, e nem precisa ser muito, não sai nada.

Jesus não transmitiu nenhuma lição ao acaso. No evangelho tudo tem uma razão de ser.

Todas as expressões contidas nele apresentam uma história viva entre nós. Todo ato do divino mestre e todo símbolo tem significação. Nada é superficial. O mestre serviu-se da forma, empregando-a para designar pensamentos transcendentes, dos quais a forma, em si mesma, não pode dar uma ideia precisa e clara. Isso é para ficar bem guardado. O que estamos falando aqui é muito mais importante do que parece. Nós temos que procurar dentro do material didático a mensagem que ele trouxe, porque atrás de cada simbologia que o texto apresenta sempre encontramos as mensagens de que precisamos. Outro detalhe: não sabemos o que podemos tirar ou colocar no evangelho, o que importa é que se está contido nele nós temos que encontrar alguma coisa positiva.

O que estamos falando é muito bonito. Estamos buscando analisar as partes básicas que o evangelho abre para nós. Porque o evangelho está repleto de símbolos e temos que compreender o símbolo e dele tirar a ressonância para a nossa caminhada de vida.

A linguagem de Jesus é toda espiritual. Aliás, evangelho é mensagem direcionada ao espírito em sua essencialidade. É roteiro das almas e com a visão espiritual deve ser lido. Isso é critério básico de estudo e interpretação do evangelho de Jesus. Saber retirar o espírito da letra e saber situar-se na mensagem, no tempo e no espaço. Tirando, inclusive, de cada cura de Jesus, a essência renovadora dentro de cada feito dele. Ficou claro? A parte de fora do evangelho é letra e o que nós estamos tentando é ver o que tem dentro da letra.

Quem tem estudado tem notado que dentro da letra está embutida a essencialidade. Então, continuamente temos que nos lembrar de buscar o conteúdo espiritual, que é o que dá vida, universalidade e eternidade. O estudo visa retirar das reentrâncias da letra a essência. É por isto que interpretar é pegar sempre a letra e ver o que tem lá dentro. Não tem outra, nós temos que ir além da forma, utilizar a letra, que é a vestimenta da linguagem, e buscar o espírito. Somente este é capaz de nos fazer penetrar a mente e coração do mestre.

A dica que deixamos é esta: quem quiser entender o evangelho de Jesus deve buscar sempre o sentido dos ensinamentos sob o prisma puramente espiritual.

O evangelho, todo ele, é simples na sua essência, logo, vai depender da nossa simplicidade e do nosso carinho para compreendermos a essência lá no fundo da letra. 

É preciso buscar na intimidade da letra o que Jesus quis apresentar, o que ele quis ensinar. Saber analisar os seus feitos ao nível, inclusive, dos padrões interiores. Sabe porquê? Postura toda postura física tem uma ligação íntima, é muito mais mental e psíquica do que a gente possa imaginar. E vale deixar mais um lembrete: não vamos deixar que o conhecimento novo que temos alcançando, e que às vezes falta por aí afora, venha a criar em nós algum tipo de presunção. Jamais!

Sejamos sempre simples, fraternos, solícitos, integrativos, alegres e humildes. E a vida continuará nos abençoando cada vez mais com entendimentos mais elevados.

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