29 de ago de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 1

CONCEITOS INICIAIS

O que é o amor? É difícil dar uma definição dentro da nossa ótica perceptiva acanhada, mas de uma coisa sabemos: o amor é uma soma, é uma tônica no universo. É como se fosse o sustentáculo. Podemos dizer, sem medo de errar, que ele é a essencialidade que mantém e sustenta o equilíbrio de todo o universo.

É a energia, a vibração que a tudo circunda e envolve. Constitui a lei máxima no campo filosófico e abrangente universal. Dele derivam todas as virtudes, que nada mais são que modalidades e aspectos da sua abrangência. O amor é o sentimento por excelência e o criador não age represando e cerceando o amor. Não é isso? O criador não armazena o amor dele. O manto protetor do amor não é como a galinha, que mantém o seu envolvimento restrito aos pintinhos debaixo de suas asas. O universo inteiro é uma corrente de amor em movimento incessante. E o mais interessante, o amor foi feito para ser dinamizado.

E quando nós falamos no plano operacional do amor nós falamos sabe em quê? 

Em caridade. Ou seja, caridade é a manifestação do amor, a aplicação do amor. Representa a dinamização dessa energia sublime. Diz-se que caridade é a expressão tangível do amor. É o amor aplicado. O elemento operacional, a aplicação do amor, a materialização da teoria, a expressão crística. É a dinâmica do amor. E tanto é a dinâmica do amor que é muito comum as pessoas misturarem os termos. Ou seja, uma pessoa fala caridade, outra fala amor e ambas dizem a mesma coisa.

Mas um detalhe tem que ficar bem claro: caridade não é o amor total. Ok? De forma alguma ela é o amor como um todo. Ela é uma faceta do amor, parcela do amor aplicado. É como se fosse o campo ou terreno onde o amor está operando.

Daí alguém pode perguntar: "Espera aí, Marco Antônio. Você está me dizendo que amor e caridade são a mesma coisa?" Bem, para ser mais preciso existe uma distinção.

Se fizermos uma comparação, se analisarmos de forma mais aprofundada, nós vamos observar com tranquilidade que o amor é muito mais do que a caridade. Claro, afinal de contas nós acabamos de dizer que o amor é a essencialidade que mantém o equilíbrio do universo. Logo, ele é muito maior. E a caridade é o amor em sua faixa de aplicação e dinâmica. Até frisamos que a caridade não é o amor total.

Resultado: toda a caridade legítima traz o amor dentro de si (óbvio, pois a caridade é o plano aplicativo do amor), mas nem todo amor é caridade. Deu para entender? Vamos exemplificar. Imagine alguém dizendo: "Nossa, você não tem ideia de como eu amo essa pessoa. Faz quarenta anos que eu a acompanho, desde o seu nascimento." Tudo bem, nesse caso em questão ela pode realmente amar a criatura a quem se refere, mas ela pode nunca ter feito nada em favor dela.

O amor é que mantém o equilíbrio no universo. E o amor, em sua essência, em sua contingência total e abrangente universal, não é com a gente, é com o Pai. 

Não tem jeito, isto é fato. Amor não é conosco, pois perfeição, bondade, misericórdia são inerentes a Deus. Tanto é que Jesus não aceitou o título de bom.

Então, misericórdia é algo de Deus, mas nem por isso vamos ficar desanimados. Porque o plano dinâmico da divindade compete a nós, e não a Deus.

O universo inteiro é uma corrente de amor em movimento incessante e não podemos lhe interromper a fluência das vibrações. Em outras palavras, Deus é o pleno emissor, criativo, e nós as áreas operacionais.

E sabe qual é a nossa função nesse contexto todo? É nos ajustar ao terreno refletor desse amor. Se conosco não é amor, conosco é amar. Porque somos amor em potencial. E o desafio é expandir o amor, transformarmos o amor em amar, pelo exercício da bondade e da caridade. Se a dinâmica é a lei maior que impera em tudo, não há como dinamizar o amor sem passarmos pelo exercício de amar. O amor que já conseguimos visualizar e entender só é sublimado se for praticado. De forma que nós temos que operar o amor. Temos que ser misericordiosos para entendermos a misericórdia de Deus. Não há como apropriar do amor sem vivenciá-lo. Apenas amando aprendemos o que é o amor.

25 de ago de 2015

Cap 52 - A Justiça e o Amor - Parte 10 (Final)

AMOR DIVINO

“UM NOVO MANDAMENTO VOS DOU: QUE VOS AMEIS UNS AOS OUTROS; COMO EU VOS AMEI A VÓS, QUE TAMBÉM VÓS UNS AOS OUTROS VOS AMEIS.” JOÃO 13:34

O amor que Jesus trouxe é diferente dos amores conhecidos no planeta em todos os tempos.

Por isso, Ele o chamou de novo lá atrás: "Um novo mandamento vos dou". Quer dizer, era novo lá atrás e continua sendo novo ainda hoje. Porquê? Simples. Porque nós o ignoramos. Isso mesmo, aprendemos e não praticamos. E como saber e não fazer é não saber, nós temos que aprendê-lo. É tempo de aprendê-lo. É tempo de cultivar o amor, até adquirirmos o hábito de amar. A novidade neste ensinamento não está na necessidade de amar, mas na forma de amar. Você percebeu? Que o nosso amor não seja a exteriorização das nossas concepções, um amor humano, que escolhe, que discrimina, que espera retorno, mas um amor divino. Que a gente saiba amar como ele nos amou e ama.

O amor humano que a gente conhece nem de longe é a expressão do verdadeiro amor.

Você já pensou nisso alguma vez? Nosso amor permanece vinculado à capacidade de ser amado. Nosso amor espera resposta. E isso acontece porque ele se exterioriza sobre a influência da razão, obedece a motivos determinados. E cá pra nós, sempre que esse sentimento se manifesta sob o império da razão você por ter certeza de que ele é forçado e não é natural. É um amor artificial.

Preste atenção, dois mil anos já se passaram e nós ainda tentamos compreender porque Jesus veio aqui e se deixou sacrificar em favor de nosso crescimento.

E uma coisa a gente sabe: o amor divino se mantém infinitamente acima da razão. Ele desconhece os motivos e os raciocínios de qualquer espécie. Logo, meu amigo, minha amiga, podemos deixar um lembrete singelo? Se você busca a razão, a lógica ou raciocínio do amor, saiba que você anda perdendo o seu tempo.

A questão é de amplitude, mas simples. Pense comigo: Qual o argumento da razão nos aconselha a amar o inimigo? A orar pelos que nos maldizem e perseguem? Onde está a lógica do preceito que nos recomenda oferecer a face esquerda a quem nos bate a direita? Onde está o raciocínio de cedermos também a túnica a quem nos tira a capa? Percebeu? Nós estamos falando agora é do amor legítimo, amor na sua verdadeira essência, e o amor verdadeiro não tem lógica, não tem razão, não tem raciocínio. Ele simplesmente sobrepuja a todo entendimento. O amor legítimo não tem cheiro e nem sentido de justiça. Na sua ação opera à revelia de nossa razão.

Vamos ter em conta que amor é só o que sai. Já não falamos isto? O que entra é justiça, o que sai é amor. E ao sair o amor é como a luz, que se propaga em linha reta e em todas as direções. É como o sol, fonte máxima da luz que conhecemos. 

O sol não ilumina algumas regiões e se esquiva de iluminar outras. Não tem disso com ele. O sol não diz: "Opa, aqui eu tenho que fazer uma curva. Não posso tocar aquele ambiente porque ali tem indivíduos complicados." Não. O sol não se preocupa onde ou em quem vai chegar. O amor também é assim. Amor puro não se reduz às restrições da lógica e argumentos do raciocínio. Quem ama, ama, faz o bem sem olhar a quem, por amor ao bem.

Jesus, para vir até nós, aniquilou a si próprio ingressando no mundo como um filho sem berço.

Não foi assim? A tarefa tange amor, não sacrifício. E tanger amor é operar sem avaliação do sacrifício. Se a gente pensar bem, a gente nota que por amor nós não começamos a medir muito sacrifício. Quando se faz algo em nome do amor não existe contabilidade. Todo sacrifício feito em cima de um circuito de amor, no momento da sua implementação as lágrimas podem até vir aos olhos em decorrência da dor, mas lá na intimidade vigora uma ressonância de júbilo dentro do coração.

Temos observado nas obras literárias de natureza espiritual que nos chegam o carinho com que os espíritos envolvem e se lançam atrás de um ser. É comum atrás de um coração que está caído haver um punhado de espíritos em volta. Será que fazem assim só para atender o anseio pessoal no campo das almas que se amam entre si? Será apenas o mérito de uma amizade? A resposta é não. Tem algo mais.

Muitas pessoas podem encontrar dificuldade para entender, mas por trás de cada um desses atendimentos vigoram verdadeiras expressões de amor, verdadeiros testemunhos de um coração atrás de outro. Quando o amor está presente nós vamos em frente. O amor não se rompe com vinculação ou desvinculação e sai de uma linha acanhada e se universaliza. E quanto mais o ser universaliza seu amor mais ele ama, e mais usufrui do amor com os que estão com ele.

Na manifestação de amor é muito comum um espírito querer vir no plano reencarnatório para envolver-se num processo de forma a auxiliar. Vamos imaginar que um casal venha para receber quatro filhos. E esse agrupamento de espíritos, em razão do passado, vai passar por momentos aflitivos na jornada. Ou seja, desses quatro filhos três vão passar por expiação. E pode acontecer que um deles não tem praticamente nada que ver com o débito do grupo. Este é o que chega como o quarto filho ou o primeiro, não importa, importa que ele escolheu passar por aquela prova, mas sua vinda não tem natureza expiatória. Ele reencarna no grupo por amor. Deu para entender? Ele passa a ser aquele componente que vem para auxiliar o agrupamento ou mitigar as dificuldades nos momentos difíceis da vida. E isso acontece demais.

Então, repare para você ver, geralmente essas individualidades passam despercebidas e, às vezes, nem são notadas. Porque por mais complexo que seja o lar, geralmente se dá ênfase ou se dimensiona o elemento complicado da casa: "Aquele é a peça complicada." Percebeu? Mas no ambiente doméstico podem ter um ou dois que são verdadeiros pontos de segurança e que nem sempre são vistos. Pode ser um filho, a mãe, um tio que mora lá. E lá na frente é que se costuma dizer: "Nossa, se não fosse fulano eu não teria aguentado. Como ele me ajudou!"

Enquanto a maioria das pessoas segue a sua jornada sendo um peso para a ação dos outros, um outro grupo, embora ainda em número reduzido, e espero estarmos incluídos nele, já assume possibilidades de auxílio. Tem muita gente sofrendo interiormente por causa das dificuldades de terceiros. E na hora em que notarmos que o nosso grau de sofrimento, de apreensão, de tristeza, de dificuldade, de perda de tranquilidade é decorrente de outra pessoa que nós amamos e queremos ajudar, é bom sinal. Na hora em que percebermos que as nossas cargas de sofrimento estão sendo decorrentes de outros está se abrindo um caminho novo.

Isso é um ponto básico que está nos projetando para a nova era no campo da regeneração. Tem muita gente estudando conosco que está preocupada, que tem passado momentos difíceis em razão do outro. É do marido, da esposa, de um parente, de um colega que ela gosta. Inúmeras pessoas estão sofrendo em função do outro, e isso já é um bom sinal. Toda vez que trabalhamos em função de alguém da qual nós temos uma alta dose de estrutura íntima para operar é sinal positivo.

E debaixo de uma mesma situação existe uma grande diferença entre justiça e amor.

Nós não estamos aqui para medir a resistência (sofrimento) ou o grau de afetividade (amor) de ninguém, estamos estudando para aprender. Mas não é fácil avaliar até onde o amor de alguém por outrem é um amor legítimo ou se tem o sentido de respaldo deste que ama para com o seu passado.

Para se ter ideia, podemos encontrar duas pessoas vivendo um mesmo tipo de problema, sendo que uma delas pode estar vivenciando ao nível do amor, enquanto a outra pode se manter ainda no plano de justiça. Não dá para saber onde está a divisória, onde termina o que nós devíamos e começa o nosso crédito.

Por exemplo, uma pessoa pode ter sob a sua responsabilidade hoje alguém próximo que está enfermo e que, por sua vez, ela machucou na reencarnação passada. Não pode? Isso não é comum de acontecer? O próprio Jesus nos disse que "os inimigos dos homens serão os seus familiares". Daí, ela pode desabafar de forma melancólica e reclamar com o vizinho, com o amigo, com a irmã, com a tia: "É, vamos ver até onde eu vou aguentar. A barra está pesada. Está muito difícil de levar. Não sei se eu vou ter forças. Mas fazer o quê? Eu tenho que aguentar. Eu sou o pai, eu tenho que aguentar." Não tem gente assim? Está pagando debaixo da justiça, da coação. Está pagando por um processo de justiça.

Vai levando de uma forma arrastada: "Ah, meu Deus, o que foi que eu fiz no passado para passar por isso? Eu não estou aguentando, mas vou pagar." A gente nota que existe uma reação por parte dela, apesar de ser mãe, apesar de ser pai.

Agora, quando o amor fala mais alto, esse amor faz um trabalho de grande intimidade, de grande interiorização, por isso não gera dor. Nós podemos ter um caso semelhante, sob o mesmo quadro, em que a criatura fala: "Está difícil para meu lado, não está fácil, mas a gente vai levando. Deus é bom." E sorri. É bonito e gostoso encontrar gente assim, que demonstra evolução e sabedoria.

Nós olhamos uma mãe vivendo um sacrifício tremendo sem dormir direito durante várias noites por causa de um problema de saúde com o filho: "A senhora está passando um momento muito difícil, não está? Deve estar muito cansada." A gente fala desta forma para uma mãe que está a uma semana sem dormir com o filho. "Ah, mas eu vou indo. Deus não me falta com as forças. Este é um filho querido. Enquanto precisar sacrificar eu estou aí. Ele é meu filho. Eu estou pedindo a Deus a cada momento. Até que cansa um pouco, mas não estou preocupada, não." Viu a resposta que ela deu: "É meu filho." Quer dizer, não é fácil, mas ela não reclama, está alimentada no objetivo de superar o problema. Por ser filho não está sentindo. Vai até aonde for preciso.

19 de ago de 2015

Cap 52 - A Justiça e o Amor - Parte 9

AMOR COM CHEIRO DE JUSTIÇA

Eu não quero desanimá-lo, mas nós ainda não temos uma experiência nítida acerca do funcionamento fundamental do amor. O que ele representa, o que ele expressa, que mecanismo é esse que impulsiona a vida em toda a extensão do universo. Porque nós estamos trabalhando isso de forma lenta e gradativa.

Nós estamos lutando muito para entender o que é o amor. É possível observar que em nome de um objetivo muitas pessoas se distanciam da realidade das coisas. 

Como assim? Em nome de um objetivo muitas pessoas elegem uma determinada postura, fazem o que estabeleceram de forma acertada dentro daquele padrão que seria sugerido pelo amor, e até acreditam realmente que estão fazendo por amor quando, na verdade, o que elas estão fazendo não tem nada de amor. Simplesmente estão vivenciando o que é um suave equívoco. Quer dizer, acham que é amor, mas na realidade não tem nada do que pensam. Muitas delas, inclusive, quando adquirem conhecimentos mais aprofundados acabam por ter uma grande surpresa. Caem em si e percebem que o que faziam, embora pensassem que fosse, não tinha nada de amor.

O que acontece é que durante grande parte da existência nós temos lutado muito com o amor discriminatório? Concorda comigo ou acha que eu estou exagerando? Isso é a pura verdade. Nosso amor ainda está muito preso ao ser amado.

Infelizmente, muita gente espera o amor alheio para poder amar. Para ser ter ideia, em nome de uma paixão ou de um amor que elegemos de forma fechada nós somos capazes de marginalizar o interesse dos outros e até mesmo de prejudicar os outros.

Repare no abraço. Uma grande maioria dá o abraço, mas com certo distanciamento. Quer dizer, o abraço é dado, mas não tem tempo de olhar, de ver o outro, de observar.

E não é só isso. Sabe quando alguém dá um abraço caloroso em outra pessoa? Aquele abraço apertado, aconchegante, sentido? Pois é, não vamos nos iludir não. Em tantas ocasiões, sabe quando costumamos ter essa expansividade toda? Na verdade, costumamos ter esse entusiasmo todo de cumprimento diante de determinados quadros em que temos algo a tirar dessa relação. Não estou generalizando e dizendo que não exista uma afetividade genuína. Nada disso, mas essa empolgação é para segurar a pessoa abraçada do lado de quem abraçou para poder utilizá-la amanhã. A gente não tem que distorcer nem baratear os valores de emoção e sentimento, mas é preciso avaliar de forma tranquila.

Não é assim que acontece? Ou você acha que eu estou exagerando e que esse abraço nós damos porque objetivamos transferir afetividade e recursos para a outra criatura? O que você acha? O que sabemos é que na hora em que nos deparamos com alguém que está sofrendo ou que está com alguma necessidade nós nem abraçamos. Nos limitamos àquele tradicional tapinha no ombro: "Olha, fique com Deus. Vai em paz. Tudo vai dar certo. Jesus tem ampare." E pronto.

Vamos olhar a questão com um pouco de profundidade. Muitas vezes falamos aos quatro cantos e achamos que amamos muito uma pessoa, quando na verdade não amamos nada. Só estamos cultivando interesse. Ou seja, amamos em função do que ela nos proporciona.

Nossas concepções de ação do bem ainda tem uma faixa grande de interesse pessoal.

Se você acha que eu estou sendo exigente de falar assim, me desculpe. Não dá para esconder isso. Também não estou adotando uma postura pessimista. Estou é chamando a atenção para uma análise. Estou falando porque nós estamos aprendendo. Muito do nosso amor se baseia em relações de puro interesse. Nosso amor ainda não é aquele amor legítimo, mas um amor muito ligado ao ser amado, um amor que aguarda resposta, porque encontramos certa resistência ao amor incondicional. Na verdade, nós mercantilizamos o amor. Em nossas linhas de envolvimento afetivo mantemos um grau elevado de mercantilismo.

Quer um exemplo? Ao cair da tarde nós vemos a Cláudia cuidando com todo o carinho do seu João, uma pessoa simples. É algo bonito de se ver. Amor legítimo? Bem, acontece que atrás desse cuidado existem interesses sendo mantidos por parte da Cláudia. Seu João, que ela está cuidando, é quem sobe para tirar as goteiras da casa dela quando começa o período de chuva. É ele quem quebra a parede e conserta o vazamento da torneira no banheiro. Percebeu o sentido?

O que eu estou falando faz parte da nossa vida ou você acha que é uma fantasia da minha cabeça? Por enquanto isso faz parte. Outra pessoa diz a uma amiga enquanto conversam na varanda de uma casa: "Está vendo aquele rapaz ali? Puxa vida, eu adoro ele. Tudo o que eu preciso ele resolve para mim. É uma beleza. Você tem que ver. Capina o meu quintal, dá banho no cachorrinho, me ajuda a carregar as compras." E por aí, vai. Então, não é difícil avaliar. Dentro das relações pessoais vigora, tantas vezes de forma disfarçada, uma expressão viva de interesse.

O evangelho, sistematicamente, revela para nós a alegria de entendermos a grandeza da vida e de sentirmos o quanto temos que aprender. O quanto precisamos operar na seara do bem e o quanto nós temos que aprender a amar.

Isso mesmo. Precisamos aprender a amar. Porque não amamos de verdade. O amor na sua essencialidade crística plena ainda está sendo elaborado por nós. Mas já está bom, já é um grande começo. Está bom porque já estamos trabalhando a saída desse piso escravizante que tem nos mantido na retaguarda da evolução.

Entenda o que eu quero dizer. Tem muita gente auxiliando com as mãos porque bateu com as mãos lá atrás e machucou muita gente. Tem muita gente falando e ensinando muito mais em função de uma necessidade do que propriamente de um ideal.

Por isso, é que tem muito engenheiro que queria ser médico, e médico que não queria ser médico, queria ser outra coisa, mas aquilo foi embutido ali. Porquê? Porque ele está situado dentro de um processo que a misericórdia divina lhe encaminhou, não apenas para projetá-lo dentro de um crescimento mais harmônico, mas também fazendo uma linha de desintoxicação, de assepsia, de limpeza dessa individualidade. Não quer dizer que no que ele esteja fazendo não tenha amor lá dentro não. Não é assim. Tem sim. Tem aquela vibração gostosa de euforia por parte dele, mas o percentual de justiça é maior que o percentual de amor.

É igual o indivíduo que está aplicando passes em um grupo espiritual. Cada imposição, quem sabe é uma pancada lá atrás que está tirando da ficha dele. Percebeu? Então, nós temos que ter em conta esses ângulos. Às vezes, ele já está começando a sorrir, a ficar menos exigente, está começando a integrar-se. Está se recompondo pelo mecanismo do amor, mas que ainda é justiça. E pode acontecer dele ter que viver mais uma encarnação fazendo isto, resolvendo as situações complicadas que ele mesmo edificou em torno de si por ações menos felizes.

16 de ago de 2015

Cap 52 - A Justiça e o Amor - Parte 8

O CERCEAMENTO E A AFERIÇÃO

Você já se perguntou porque algumas pessoas na vida precisam reciclar experiências, fazer tudo de novo lá na frente, em um futuro mais próximo ou mais distante, ao passo que outras não precisam reciclar? Porque que algumas pessoas não conseguem avançar, parecem ficar presas a situações difíceis, enquanto outras avançam para a frente sem maiores impedimentos?

O que acontece é que dentro do contexto universal a proposta superior em Deus é a conquista do amor. Concorda? Nós estamos estudando o evangelho e na medida em que avançamos aprendemos que o evangelho nos propõe o quê? Que se pegarmos firmes nos ensinamentos que ele nos lança nós rumamos de maneira tranquila para novas bases. Essa é a grande realidade. Por outro lado, quer se acredite ou não, se não aceitarmos passamos a ficar debaixo de linhas repetitivas em outros estágios, às vezes demorados, no campo da experiência ou da reciclagem.

Daí a gente observa que é grande o número de criaturas que tem sofrido muito em razão de cerceamentos, de inibições e de cortes de certos valores que passam, inclusive, a serem as aspirações de uma vida inteira. Vamos notar com tranquilidade que estas situações representam um sinal evidente de débitos perante  lei.

Não dá para desconsiderar, tem certos impedimentos e cerceamentos que a vida nos impõe.

Em muitas situações o plano superior coloca pepinos e dificuldades como sendo elementos cerceadores das nossas manifestações. A espiritualidade maior faz uma série de cerceamentos para nos evitar dissabores.

Vamos dar exemplos para ilustrar? Uma mulher tem um desnível no campo das emoções, no campo da sensualidade, no campo da liberdade de vida. Em razão de ações desvirtuadas nesse terreno ela angariou para si determinadas complicações. É feito um levantamento no plano espiritual. Levantam-se questões, faz-se um diagnóstico e exame de onde estão os pontos difíceis. Resultado: ela reencarna com facilidade para operar em áreas novas, mas tem que ser cerceada em outras para que o automático dela, presente na sua estrutura mais profunda, não tome conta da sua vida e a lance em novas quedas, o que agravaria os débitos.

Percebeu? Então, o que acontece? Ela vem, por exemplo, numa família cujo pai é muito durão. Ela é adolescente e o pai já diz: "Não chega na janela". Se vai para uma festa duas ou três pessoas vão acompanhando. Se está namorando tem sempre dois ou três perto para segurar a vela. É assim a luta, até que ela se casa: "Ai, meu Deus, fiquei livre!" Mal sabe ela que aquele com quem se casou é mais durão do que o pai. Não tem caso assim? O pai é durão. A pessoa casa, às vezes até achando que vai ficar livre. Após o casamento o marido, que a princípio só parecia ser intempestivo, acaba virando um carrasco. Deu uma ideia?

Outro exemplo é do indivíduo que entrou para uma religião tradicional, seja lá por qual motivo for: "Não posso fumar, não posso falar palavrão, não posso fazer isso, não posso fazer aquilo." Está dando para entender? Muita gente está tendo que levar uma vida amarrada. Passa a vida amarrada. O religioso tradicional é uma criatura que está num processo educativo. O aprisionamento, sob qualquer forma, tem a finalidade de quê? De propor a harmonização do plano mental para a elaboração de uma nova postura para quando a liberdade for reconquistada.

Porque ninguém vai ficar preso para sempre em certa situação, ninguém vai ficar amarrado o tempo todo. 

Vai chegar um momento em que a criatura vai ter que ser solta ou se soltar, até para saber se aprendeu uma nova forma de agir. E para essas pessoas que estão amarradas está ótimo. Pelo menos estão diminuindo muitas complicações e não estão criando problemas.

Chega um companheiro para conversar com alguém: "Pois é, você não sabe, mas eu fui refreado desde cedo. Papai não me deixava fazer isso, não me deixava fazer aquilo." Chega traumatizado, cheio de marcas no psiquismo. E continua falando: "Agora descobri que tenho que ser independente. Quer saber? Chega. Vou dar um basta. Fiquei amarrado a minha vida inteira. Quarenta anos de amarra." E o ouvinte, de visão mais abrangente, pode pensar: "Se tivesse dado corda para ele lá atrás, provavelmente ele nem estaria aqui agora." Não pode acontecer? Se tivesse dado corda, puxa vida, nem dá para imaginar.

Tem muitos casos assim. Depois de crescido começa a soltar um pouquinho e já começa a fazer besteira. 

Solta. Daqui a pouco o casamento está acabando. A mulher não serve mais, os filhos estão dando muita confusão, emprego nenhum serve. A pessoa está noutra. Porquê? Porque desatarraxou. Percebeu? Não houve um processo de gradação na soltura. Então, o sistema de vida é algo que tem que ser pensado. Não dá para ser levado no vapt-vupt.

O caso da igreja que nós falamos a pouco, no sentido do indivíduo não poder fazer certas coisas, não poder falar palavrão, não poder beber, de ter que fazer isso, de ter que fazer aquilo, pra muita gente já ficou para trás. Representaram no passado orientações saneadoras do psiquismo para uma mudança. E os que ainda estão neste contexto, de forma gradativa irão sair dessa linha religiosa fechada para entrarem em um processo natural de libertação paciente no tempo.

O testemunho ao evangelho, por parte de muitos cristãos na época inicial do seu surgimento, se você pensar bem, não ocorreu propriamente no momento em que foram levados às feras nos circos romanos. Aquilo foi um ato extraordinário que as obras cinematográficas e a literatura revelam para nós, mas não vamos nos iludir com isso não. O que aqueles momentos vividos nas arenas fizeram foi definir posições. Os verdadeiros processos de aferição da conquista não vieram com esses valores. A capacidade operacional do amor vem à frente, quando as criaturas vivenciam o amor sem os lances da pressão exterior, quando elas começam a lidar de forma positiva e amável com aqueles que elas amam e que, às vezes, ainda são totalmente complicados ou estão cristalizados e indiferentes.

Se qualquer um de nós presente aqui, que está matriculado nessa escola de regeneração, quiser entrar no campo operacional do amor, vai lidar de verdade sabe com quem? Não se assuste. Com os indivíduos que, às vezes, nos maltrataram ou foram por nós maltratados ontem. Em muitas situações, os verdugos de ontem vão ser as pessoas que vamos atender hoje. O elemento que está veiculando o erro e o mal vai ser o componente operacional dos que estão se elegendo em novos conceitos e propostas. Nós vamos ampliando nosso campo de conhecimento e nos maravilhando com a grandeza e a beleza da misericórdia divina.

Nós, que éramos as feras no passado, que agredíamos e desbaratávamos valores, vamos trabalhar agora para desativar essa ferocidade e sedimentar virtudes mediante ações junto de muitos daqueles que foram as nossas vítimas de ontem.

E tem mais uma coisa. Uma criatura envolvida em um sistema de vida complicado, na hora em que ela resolve mudar o que acontece? Quase ninguém acredita nela. 

Resultado: vamos dar nosso testemunho hoje, mas muitos não vão acreditar na gente não. Mas é com esses que nós temos que lidar.

O indivíduo, às vezes, não tem nada que o faça mudar. Mas na hora que a vibração de alguém que tem muito amor vem ao encontro dele, e que traz algo que é diferente da pregação sistematizada que esse indivíduo conhece, penetra em sua intimidade e sensibiliza. Dá-se uma linha de interação entre eles. Pois existe um mecanismo de conexão vibracional vigorante que nós não entendemos ainda.

Então, preste atenção. Uma coisa é nós mudarmos a nossa vida porque a doença ou outra coisa nos machucou. Depois nós vamos ser testados não mais pela doença, e sim pela capacidade de amar, que já não tem nada sufocando ou cerceando a gente de fora para dentro, não tem nada pesando. Em outras palavras, nós efetivamos a conquista pela realização da nova proposta. Não somos aferidos por aquilo do qual saímos, mas principalmente em função daquilo que entramos. Essa é hora que representa a definição do ser. E costuma ser no momento dessa aferição que fraquejamos e somos levados a ter que reciclar experiências, deixando para um futuro mais distante a nossa legítima conquista.

12 de ago de 2015

Cap 52 - A Justiça e o Amor - Parte 7

O AMOR É A BASE

“DISSE-LHE TERCEIRA VEZ: SIMÃO, FILHO DE JONAS, AMAS-ME? SIMÃO ENTRISTECEU-SE POR LHE TER DITO TERCEIRA VEZ: AMAS-ME? E DISSE-LHE: SENHOR, TU SABES TUDO; TU SABES QUE EU TE AMO. JESUS DISSE-LHE: APASCENTA AS MINHAS OVELHAS.” JOÃO 20:17

O que Jesus perguntou a Simão Pedro? "Simão, filho de Jonas, amas-me?" Não pediu informações ao discípulo sobre raciocínios que lhe eram peculiares, não desejou inteirar-se dos conhecimentos do colaborador, não reclamou compromisso formal. Quis apenas saber se Pedro o amava, nada mais que isso.

Essa pergunta não ficou no passado. Ainda hoje continua sendo feita pelo cristo íntimo aos seguidores do evangelho. Ela nos deixa perceber, de forma clara e transparente, que com amor as dificuldades se resolvem. Temos que parar e pensar, as nossas conquistas intelectuais valem muito, e ninguém pode negar, no entanto, seremos efetivos e eficientes colaboradores do mestre somente se tivermos amor.

O amor é a base para tudo. Sem amor não se consegue guiar ou apascentar as ovelhas.

E com suficiente provisão dessa essência a tarefa mais dura se converte em apostolado de bênçãos.

Agora, existe uma diferença entre conhecer o amor filosoficamente falando e sentir o amor.

O amor tem que ser sentido. Para usufruir a intimidade de Jesus e senti-lo no coração é imprescindível amá-lo, compartilhando-lhe a obra a e a vida. Nós precisamos sentir o amor. Só a luz do amor é forte o bastante para converter a alma à verdade. O cristo amava naturalmente a sua gente e seu afeto tinha sido imensamente aumentado em função sabe de quê? Já pensou nisso? Em função da sua extraordinária devoção a eles. O que quer dizer? Que o amor mais cresce quanto mais se doa. 

Quanto mais nos interessarmos pelos nossos semelhantes tanto mais chegaremos a amá-los. 

Preste bastante atenção no que eu vou dizer. O momento que estamos vivendo é um dos momentos mais peculiares da nossa evolução. E quando o amor visita o coração da gente, quando nós pegamos essa chave essencial da caminhada, passamos a administrar os passos com naturalidade. Começamos a manter o sorriso no rosto que passa a nascer de maneira espontânea. A gente se harmoniza com a dinâmica da vida, não fecha a cara de vez em quando, não cria caso com os outros por causa de coisas bobas, não fica deprimido, não entra em angústia, não toma remédio para dormir ou para diminuir o estresse,...

O  amor sempre dispõe de recursos. 

Até pouco tempo a gente achava que a conversa era o componente básico e finalístico para reverter um coração no campo das estruturas espirituais. Hoje a gente sabe que a luz ilumina, dispensando longos percursos.

Não é isso? A luz irradiada por quem ama não ofusca e nem perturba, muito pelo contrário, propicia envolvimento e paz. Você já deve ter tido experiências assim. Quando alguém nos ama com aprofundamento esse alguém consegue penetrar terreno adentro de nossa personalidade e nos ajudar, nos auxiliar. Só o amor tem uma luz que atravessa os grandes abismos. Quem ama é capaz de emitir ondas sutilíssimas, ondas ultracurtas, que penetram território adentro de nosso ser.

A mensagem de Jesus, toda ela, é acentuadamente positiva. É na base do sim, enquanto a de Moisés é na base do não. Seu trabalho é positivo: o que fazer, não o que não fazer.

O mestre sempre empregou a forma positiva de exortação. Comumente fazia menção a ensinos antigos e ministrava novos, dava uma citação de Moisés, no seu aspecto cerceador, negativo, para depois falar o que se deve fazer. Passava a instrução do seu aspecto controlador, do não fazer, para o sentido revelador, positivo, do fazer. 

Nunca usava o modo negativo de ensinar. Seu método para educar era o estímulo positivo para que se fizesse o bem, em lugar do velho método judeu de proibir a realização do mal. Evitava colocar ênfase no mal proibindo-o, e exaltava o bem exigindo que fosse feito.

Nunca falou que não se podia fazer algo. Nunca. Chegou a falar que não se devia fazer, e não dever fazer é diferente de não poder. Em todos os lugares ele dizia que se deveria fazer isso ou aquilo. Esse era o critério que adotava. Jamais o encontramos abatendo o ânimo ou menosprezando o caráter de quem quer que fosse, seja de um pecador confesso ou de uma adúltera coagida pela multidão. Invariavelmente, agia sobre algo de puro e incorruptível que existe no espírito do homem.

Essa é a didática que tem que ser usada hoje. 

A mensagem de reeducação que objetivamos deve alicerçar-se numa postura acentuadamente positiva. Repare que se antes os educadores falavam do que não se devia fazer, agora já entendem que temos que nos basear em cima daquilo que se deve fazer. E lembre-se: Jesus e todos os grandes benfeitores operam com amor. Não trabalham respaldando, mas construindo. Não trabalham com justiça, mas com amor. E o amor orienta, esclarece, nada impõe.

8 de ago de 2015

Cap 52 - A Justiça e o Amor - Parte 6

NA ESPONTANEIDADE

“NÃO CUIDEIS QUE VIM DESTRUIR A LEI OU OS PROFETAS: NÃO VIM ABRROGAR, MAS CUMPRIR.” MATEUS 5:17

“O AMOR NÃO FAZ MAL AO PRÓXIMO. DE SORTE QUE O CUMPRIMENTO DA LEI É O AMOR.” ROMANOS 13:10

“IDE, PORÉM, E APRENDEI O QUE SIGNIFICA: MISERICÓRDIA QUERO, E NÃO SACRIFÍCIO. PORQUE EU NÃO VIM A CHAMAR OS JUSTOS, MAS OS PECADORES, AO ARREPENDIMENTO.” MATEUS 9:13

A justiça pede licença para atuar? Não! Ela chega quando tem que chegar. E quando chega, porque semeamos inadequadamente no terreno do destino, não pede licença. Ela simplesmente vem. E ponto final. Não diz a alguém: "Olha, seu fulano, você se prepara porque eu vou chegar. Não sei se você se lembra, mas lá atrás, em uma época tal, você fez isso, você fez aquilo..." Não tem nada disso. A gente assusta, já está encarnado com inúmeras dores, com inúmeras dificuldades, com inúmeros problemas. 

A justiça não é doce e romântica. Ela pode, inclusive, entrar em um processo de equações e projeções matemáticas, de forma a cobrar o valor devido. Ela impõe de fora para dentro e realmente pode precipitar acontecimentos. Não espera pedir.

Na hora em que tem que bater, bate, porque tem que se cumprir a lei. Ou seja, cumpriu o período, venceu a promissória, a pessoa enfrenta a situação, com choro ou seu foro. Isso é a justiça!

Por outro lado, amar, exercer a capacidade afetiva, trabalhar distribuindo sorriso, é uma condição que a lei ou a justiça não pode determinar de maneira fechada. A justiça opera de fora para dentro e o amor opera de dentro para fora.

Já falamos isso, amor é só o que sai. Então, o amor apresenta uma característica de espontaneidade. Ele tem que ser aceito. Quem pode insistir com qualquer um de nós para que a gente ame? Já pensou nisso? Não tem ninguém.

O amor não pode ser socado goela abaixo dentro da gente. Se justiça é imposição de fora para dentro, e vale a pena repetir, amor é uma questão manifesta de dentro para fora. A proposta superior em Deus a nosso respeito é a conquista do amor, porque ele é a nossa fundamentação de libertação definitiva, todavia, ele não pode conter nenhum elemento de coação, nenhum elemento de constrangimento. Porque não é por aí. Em se tratando de amor nenhum de nós pode ser forçado a amar. Ninguém pode ser obrigado a amar. Alguém pode sugerir que amemos, que é algo bem diferente. Amor é um processo que tem que ser ouvido na intimidade da alma, dentro do próprio coração. É preciso mais que manifestações vindas de fora, é preciso querer por dentro.

Se a justiça não espera, porque se bobear ela vem e cobra, sem pedir licença, o amor, por outro lado, não tem como ser socado dentro da gente. O amor é diferente, ele tem que aguardar, ele espera. Por apresentar característica de espontaneidade, ele tem que ser aceito. Faz-se necessária uma adesão interna.

Se a justiça impõe de fora para dentro, o amor espera de dentro para fora. E não age com inquietação. Basta analisar com tranquilidade que Jesus é efetivamente aquele que vem ao nosso encontro, porém só é capaz de nos ajudar se de nossa parte houver uma abertura no plano da percepção. Mas o que acontece é que se insistimos em rejeitar a escolha do amor a lei vem muitas vezes na sua dureza e pega os complicados. Quer dizer, vai repetir todo contexto da justiça.

A justiça ou lei exerce um jugo de fora para dentro, cerceando a manifestação íntima, mas guarde uma coisa da maior importância: justiça antecede a espontaneidade.

Isto é fato, todo crescimento se principia pela justiça. Então, o amor nos toca como justiça. Isso não é exagero, tudo o que a gente recebe ao nível do amor nos chega como justiça, chega para nós sob a forma de justiça. O amor de alguém direcionado para nós, no campo reeducacional, também é justiça, é desafio.

Será que está dando para acompanhar? O próprio evangelho escrito e contido nas páginas da bíblia é lei para nós e faz o mesmo papel da revelação de Moisés.

E tanto é a mesma coisa que ele nos intimida a princípio. Perdoar, amar ao inimigo, nos chega inicialmente como uma pressão velada de fora para dentro. Não se assuste com o que eu vou dizer, mas para nós a presença do Cristo em muitos momentos, especialmente no início, chega a nos incomodar. Em muitos momentos ela nos chateia, nos coage, como uma mãe muitas vezes é uma pedra no sapato do filho dentro de casa, embora ela despeça com um beijinho, com um abraço. Percebeu? Tem momentos que é uma dureza, incomoda de fato. E a gente sente que o evangelho começa a nos libertar quando começamos a aplicá-lo.

A nossa luta está centrada na interseção entre essas duas linhas. É uma questão de avaliar.

Se você já faz espontaneamente está com Jesus, se ainda faz dentro da lei, obrigado, está em Moisés.

Duas pessoas que deixaram cascas de banana caírem enquanto caminhavam pelo passeio de uma rua as afastam para o canto: o primeiro para livrar-se da culpabilidade em um processo egoísta, o segundo já pensando em alguém, no próximo que pode cair e que ele nem conhece. Dois funcionários públicos desempenham a mesma função: um está com os seus padrões mentais voltados para o pagamento a receber, o outro pode estar vibrando com o atendimento que está dando a alguém.

O aprendizado do amor não é fácil. Ele começa a se manifestar na medida em que passa a ter uma presença ao nível da oscilação da consciência. À primeira vista parece apenas uma filosofia bonita, de alta expressão, mas no fundo é uma dinâmica prática de crescimento. E quando nós trabalhamos um conhecimento que chega, quando analisamos de forma mais aprofundada as leis que nos regem, nós vamos observar que estamos tentando abrir o nosso coração.

O evangelho só vai se corporificar em nós em cima de uma base sólida de justiça.

O que isso significa? Que a palavra básica de nossa administração tem que ser a disciplina. Não tem outra, é a disciplina que antecede a espontaneidade. A disciplina é apenas um estágio de transição e de adaptação, já pensou nisso? Mas é ela que deve nortear as nossas mudanças comportamentais para melhor. Vamos repetir: é a disciplina que antecede a espontaneidade. Primeiro nós temos que fazer, mesmo que seja reclamando. Vai chorando, mas vai. Reclama, mas faz. Até chegar na condição de amar ou fazer bem àqueles que não nos amam, de cumprimentar aqueles que não nos saúdam vai demorar um bocadinho, mas nós temos que aprender desde já a necessidade de fazer. Vale lembrar, também, que a disciplina dura, inflexível, tem amarrado muita gente no mundo.

Um dos pontos mais difíceis e complexos da nossa vida tem sido a ampliação das nossas atitudes nas bases do amor. E nós temos que aprender a cultivar isso em todos os sentidos, desde as relações pessoais mais próximas até as faixas mais abrangentes e universalistas.

Repare para você ver, nós começamos a praticar os conceitos do evangelho debaixo da tutela da justiça: "Eu, como seguidor da religião tal, não posso fazer esse tipo de coisa. Eu até que queria fazer isso, mas não posso!" Não é assim? Começamos praticando a lei sem muitas noções de amor. Aliás, quando iniciamos no campo operacional do amor, que é o grande desafio nosso, nós entramos tentando acertar, mas ainda brigamos com as nossas manhas pessoais, com os nossos desejos infantis. Porque nós temos muitos desejos, manias, muitas inconformações. Fazemos certa atividade e reclamamos: "Oh, meu Deus, que sacrifício para fazer isso." Mas é dentro desse lance inicial que o amor se expressa.

Aí vem Jesus: "Misericórdia quero, e não sacrifício." Mas começa pelo sacrifício. E vai abrindo mão para cair na misericórdia.

Tem muitos pontos a serem analisados, pois a faceta relacionada com a irradiação do amor toma uma fisionomia bem mais abrangente do que podemos imaginar. 

O que é constrangido vai sendo trabalhado para se tornar espontâneo e na medida em que isso acontece nota-se que a vida não é tão complicada.

Vamos analisar o seguinte: quando os valores penetram em nosso campo interior dá-se a fecundação, certo? E acostumando com esses valores que nos chegam é como se a nossa personalidade gritasse. Nos sentimos melhores com os padrões essenciais do evangelho e vamos trabalhar para que saiam no plano aplicativo, na essência do amor. E começam esses padrões a saírem de nós. Ou seja, entra como justiça e sai como amor. E a felicidade brota não pelo envolvimento que vem de fora, mas pelo apaziguamento que nasce de dentro para fora. Deu uma ideia? Porque a justiça bloqueia, prende, constrange, e o amor abre, liberta.

4 de ago de 2015

Cap 52 - A Justiça e o Amor - Parte 5

A JUSTIÇA E O AMOR

“E JESUS, RESPONDENDO, DISSE-LHES: DAI POIS A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR, E A DEUS O QUE É DE DEUS. E MARAVILHARAM-SE DELE.” MARCOS 12:17

“40E, AO QUE QUISER PLEITEAR CONTIGO, E TIRAR-TE A TÚNICA, LARGA-LHE TAMBÉM A CAPA; 41E, SE QUALQUER TE OBRIGAR A CAMINHAR UMA MILHA, VAI COM ELE DUAS.” MATEUS 5:40-41

Nós temos leis que funcionam na linha da coletividade, que alcança a todos, indistintamente. Mas essas leis de forma alguma são estáticas. Quer dizer, nós vamos evoluindo e com a nossa evolução vai se alterando o sentido da lei. Assim, os dez mandamentos continuam a nos desafiar em uma dinâmica que se abre com o nosso crescimento.

Por exemplo, nós aprendemos lá atrás, na colocação mosaica, o não matar. Certo? O não matar é imperativo geral, funciona para todo mundo. Agora, a aplicação do não matar varia ao infinito. Quer dizer, a cada lance de crescimento que damos, no decorrer das reencarnações, vão se abrindo valores novos para nós e passamos a ver esse não matar em posições diversificadas.

Está conseguindo acompanhar? Esse não matar não é estático. Ele é dinâmico e vai se distendendo da linha literal para outras conotações, começamos a notá-lo em situações cada vez mais sublimadas. A pessoa pode já ter alcançado o escrúpulo de não matar qualquer ser, já não tira a vida física do semelhante, mas mata o tempo do outro, mata a esperança de alguém, mata a alegria, mata a euforia, elimina o júbilo. Tira o sorriso de alguém. É tudo não matar.

Você já imaginou se Deus tivesse organizado as suas leis de tal modo que somente a misericórdia se exercesse? O resultado não seria outro, senão a perpetuação e contínua manutenção do pecado. E com isso o homem não conseguiria se elevar acima dos vícios e das paixões humanas, mantendo-se como escravo destas, sem poder elevar-se nos caminhos do progresso. Permaneceria preso e cristalizado na animalidade. E se esse fosse o destino do homem, isso não seria de certa forma uma negação da própria misericórdia? Percebeu?

Então, vamos ter em conta que a misericórdia não anula a justiça ou o amor não anula a lei. Pelo contrário, representa o seu complemento. A lei ou justiça prepara o homem para viver na terra, a misericórdia ou amor ensina-lhe a alcançar o céu. A justiça desperta o raciocínio, o amor faz vibrar as cordas mais íntimas do sentimento. A lei fala a razão, o amor ao coração. A justiça mata o pecado, o amor gera a virtude. A justiça promete, mas é o amor quem dá. A lei chama para a saída da treva, mas o amor é quem leva para a luz. A lei convida para a vida transitória, o amor é quem garante a permanência na vida eterna.

O velho testamento é o alicerce de toda a revelação divina. O velho testamento é a fonte maior da revelação. Sem Moisés nós não teríamos Jesus.

Vamos explicar isso com calma, porque não é tão fácil. Jesus, com a revelação do amor, representa o edifício da redenção das almas. Afinal de contas, não é este o propósito de cada um de nós? Nosso objetivo não é edificar a nossa própria redenção? E isso é algo que cada qual tem que fazer de forma intransferível, ou será que alguém pode edificá-lo por nós mesmos? Não. Cada qual tem que erguer o seu próprio edifício. Ficou claro? Nós é que erguemos o nosso próprio edifício íntimo. Agora, você não eleva um edifício sem a fundamentação. Logo, a primeira revelação, na fisionomia da justiça, constitui o alicerce desse edifício. Ou seja, a lei constitui toda a base do edifício. É a justiça quem segura o edifício do amor, é ela que tem que formar a base do amor.

A justiça é a fonte geratriz do amor.

Para se poder penetrar com sabedoria nos territórios do amor é preciso passar pelo piso da justiça. Não tem outra, o amor decorre da aplicação da justiça ou da lei. Ele vem embutido na letra da justiça. O amor traz consigo, de forma implícita, a justiça, embora a justiça não abranja o amor. Deu pra perceber a relação?

Nós podemos estar na justiça e fora do amor, mas não tem como estarmos no amor e fora da justiça. Jesus é a fixação clara dos conceitos mosaicos, é a aplicação de Moisés. O evangelho é Moisés aplicado. Justiça é o que emerge. Justiça é a manifestação de fora para dentro, é o que é imposto de fora para dentro. De forma que nunca um componente de fora penetra com amor, mas como justiça. Enquanto a justiça opera de fora para dentro o amor é o que se exterioriza de dentro para fora. Ok? Amor é apenas o que sai. Agora, não há como sair algo de dentro para fora se primeiro não tiver entrado algo de fora para dentro.

Vamos ter na consciência que sem uma perfeita coerência com a justiça nós não vamos passar de meros atiradores no contexto do amor. Temos que ter uma noção nítida acerca da justiça, conhecer com segurança o regulamento, saber como funcionam as leis. Dessa forma, quanto mais nós nos projetamos no amor mais a justiça passará a vigorar em nosso coração de maneira mais clara e objetiva.

Isso mostra que a grandiosidade e a solidez do edifício de nossas almas que buscamos erguer vai depender de uma justiça nossa cada vez mais reta. Não precisamos ir longe, basta nos lembrarmos de Jesus. O Cristo trouxe uma justiça reta. Ele jamais derrogou as leis divinas. Tanto que ele chegou ao mundo para a sua missão debaixo da tutela de um decreto de César. Saiu da parte de César Augusto um decreto mandando que cada um procurasse a sua cidade. Não foi isso? Então, todo o trabalho dele foi em cima da lei. Era devido o tributo a César? Que fosse dado a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Jesus veio até nós e ensinou que o direito nasce do dever. 

Assim como Moisés antecedeu Jesus, a justiça antecede o amor. Assim também devemos, primeiramente, cumprir o dever para depois esperarmos o direito. Objetivar o direito sem o cumprimento do dever é o mesmo que esperar a germinação do grão que não foi semeado.

Dentro do amor tem que falar a justiça. Concorda? E passar da justiça para o amor tem sido um desafio para todos nós. O amor o que é, senão o que excede para além da justiça? Ele aparece quando o dever e a obrigação cessam.

O amor surge para além do que é exigido. Preste atenção, Jesus disse que não veio derrogar a lei, mas levá-la à perfeição. O que significa isso? Que o amor é o alargamento da justiça. Percebeu? Ele se inicia onde a lei ou a justiça se encerra. Ele é sempre a dose a mais que a gente oferece. Após Moisés outros valores surgem no encaminhamento da luz. E para podermos chegar até a grande descoberta que nos projeta a passos rápidos para a evolução nós vamos ter que aprender adotar o que está no evangelho de Mateus, capítulo 5:41 em diante, no sentido de amar ao inimigo, bendizer os que nos maldizem, fazer bem sem olhar a quem, e aí por diante. O amor, agindo diretamente no coração, chega para completar a obra de salvação iniciada pela lei. São posturas que a gente tem que vivenciar de modo a favorecer a chegada de providências eficazes. Se a justiça se baseia no humano, o amor surge onde começa o divino.

A estratégia de Jesus é diferente da estratégia da justiça. Como assim? A estratégia da justiça é assim: Se alguém te obrigar a andar uma milha você vai com ele. Se alguém entrar em litígio com você e te pedir o vestido, você dá o vestido.

E Jesus vai além: Se alguém te pede a capa você cede também a túnica. Se alguém te pede para andar mil passos, você vai mais uma milha, anda dois mil com ele. Está entendendo a profundidade do ensinamento? O que é que nós temos aprendido ao longo dos estudos? Que todos nós, em decorrência das nossas ações negativas levadas a efeito estabelecemos débitos com o destino. Certo? É assim que funciona. Afinal, quem não tem débitos pode lançar a pedra.

E circunstâncias menos felizes surgem no caminho de modo a fazer com que aquele que está devendo pague. Ou seja, o que deve, paga. A justiça não libera o infrator da lei sem a conveniente regularização do delito. No entanto, a proposta finalística da lei não é apenas fazer o devedor pagar, mas guindá-lo ao amor.

Então, aquele que fica restrito à milha ou ao vestido está dentro da lei e o que anda a outra milha e solta a capa penetrou nos territórios do amor. Acompanhou? Veja bem, vamos dar um exemplo para fim de esclarecimento. Um exemplo entre milhares que podem envolver a situação de dívida e crédito. Hoje eu obriguei alguém a andar uma milha comigo. Como o pagamento da dívida se dá ceitil por ceitil, amanhã alguém surge e me obriga a andar uma. O que eu faço? Se eu ando uma eu respaldo o débito, e se eu ando mais uma eu penetro pelo território do amor. Porque a segunda milha é que é o amor. Ficou claro? A capa, também, é que é o amor. Pense comigo, se você foi obrigado a andar uma milha e vai mais uma milha, você está angariando o quê? Créditos. E se você começa a ganhar créditos você começa a ficar absolutamente tranquilo. Para além daquilo que a lei sugere é que você começa a despertar-se de um mecanismo automático e entra em um processo de libertação plena.

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