8 de ago de 2015

Cap 52 - A Justiça e o Amor - Parte 6

NA ESPONTANEIDADE

“NÃO CUIDEIS QUE VIM DESTRUIR A LEI OU OS PROFETAS: NÃO VIM ABRROGAR, MAS CUMPRIR.” MATEUS 5:17

“O AMOR NÃO FAZ MAL AO PRÓXIMO. DE SORTE QUE O CUMPRIMENTO DA LEI É O AMOR.” ROMANOS 13:10

“IDE, PORÉM, E APRENDEI O QUE SIGNIFICA: MISERICÓRDIA QUERO, E NÃO SACRIFÍCIO. PORQUE EU NÃO VIM A CHAMAR OS JUSTOS, MAS OS PECADORES, AO ARREPENDIMENTO.” MATEUS 9:13

A justiça pede licença para atuar? Não! Ela chega quando tem que chegar. E quando chega, porque semeamos inadequadamente no terreno do destino, não pede licença. Ela simplesmente vem. E ponto final. Não diz a alguém: "Olha, seu fulano, você se prepara porque eu vou chegar. Não sei se você se lembra, mas lá atrás, em uma época tal, você fez isso, você fez aquilo..." Não tem nada disso. A gente assusta, já está encarnado com inúmeras dores, com inúmeras dificuldades, com inúmeros problemas. 

A justiça não é doce e romântica. Ela pode, inclusive, entrar em um processo de equações e projeções matemáticas, de forma a cobrar o valor devido. Ela impõe de fora para dentro e realmente pode precipitar acontecimentos. Não espera pedir.

Na hora em que tem que bater, bate, porque tem que se cumprir a lei. Ou seja, cumpriu o período, venceu a promissória, a pessoa enfrenta a situação, com choro ou seu foro. Isso é a justiça!

Por outro lado, amar, exercer a capacidade afetiva, trabalhar distribuindo sorriso, é uma condição que a lei ou a justiça não pode determinar de maneira fechada. A justiça opera de fora para dentro e o amor opera de dentro para fora.

Já falamos isso, amor é só o que sai. Então, o amor apresenta uma característica de espontaneidade. Ele tem que ser aceito. Quem pode insistir com qualquer um de nós para que a gente ame? Já pensou nisso? Não tem ninguém.

O amor não pode ser socado goela abaixo dentro da gente. Se justiça é imposição de fora para dentro, e vale a pena repetir, amor é uma questão manifesta de dentro para fora. A proposta superior em Deus a nosso respeito é a conquista do amor, porque ele é a nossa fundamentação de libertação definitiva, todavia, ele não pode conter nenhum elemento de coação, nenhum elemento de constrangimento. Porque não é por aí. Em se tratando de amor nenhum de nós pode ser forçado a amar. Ninguém pode ser obrigado a amar. Alguém pode sugerir que amemos, que é algo bem diferente. Amor é um processo que tem que ser ouvido na intimidade da alma, dentro do próprio coração. É preciso mais que manifestações vindas de fora, é preciso querer por dentro.

Se a justiça não espera, porque se bobear ela vem e cobra, sem pedir licença, o amor, por outro lado, não tem como ser socado dentro da gente. O amor é diferente, ele tem que aguardar, ele espera. Por apresentar característica de espontaneidade, ele tem que ser aceito. Faz-se necessária uma adesão interna.

Se a justiça impõe de fora para dentro, o amor espera de dentro para fora. E não age com inquietação. Basta analisar com tranquilidade que Jesus é efetivamente aquele que vem ao nosso encontro, porém só é capaz de nos ajudar se de nossa parte houver uma abertura no plano da percepção. Mas o que acontece é que se insistimos em rejeitar a escolha do amor a lei vem muitas vezes na sua dureza e pega os complicados. Quer dizer, vai repetir todo contexto da justiça.

A justiça ou lei exerce um jugo de fora para dentro, cerceando a manifestação íntima, mas guarde uma coisa da maior importância: justiça antecede a espontaneidade.

Isto é fato, todo crescimento se principia pela justiça. Então, o amor nos toca como justiça. Isso não é exagero, tudo o que a gente recebe ao nível do amor nos chega como justiça, chega para nós sob a forma de justiça. O amor de alguém direcionado para nós, no campo reeducacional, também é justiça, é desafio.

Será que está dando para acompanhar? O próprio evangelho escrito e contido nas páginas da bíblia é lei para nós e faz o mesmo papel da revelação de Moisés.

E tanto é a mesma coisa que ele nos intimida a princípio. Perdoar, amar ao inimigo, nos chega inicialmente como uma pressão velada de fora para dentro. Não se assuste com o que eu vou dizer, mas para nós a presença do Cristo em muitos momentos, especialmente no início, chega a nos incomodar. Em muitos momentos ela nos chateia, nos coage, como uma mãe muitas vezes é uma pedra no sapato do filho dentro de casa, embora ela despeça com um beijinho, com um abraço. Percebeu? Tem momentos que é uma dureza, incomoda de fato. E a gente sente que o evangelho começa a nos libertar quando começamos a aplicá-lo.

A nossa luta está centrada na interseção entre essas duas linhas. É uma questão de avaliar.

Se você já faz espontaneamente está com Jesus, se ainda faz dentro da lei, obrigado, está em Moisés.

Duas pessoas que deixaram cascas de banana caírem enquanto caminhavam pelo passeio de uma rua as afastam para o canto: o primeiro para livrar-se da culpabilidade em um processo egoísta, o segundo já pensando em alguém, no próximo que pode cair e que ele nem conhece. Dois funcionários públicos desempenham a mesma função: um está com os seus padrões mentais voltados para o pagamento a receber, o outro pode estar vibrando com o atendimento que está dando a alguém.

O aprendizado do amor não é fácil. Ele começa a se manifestar na medida em que passa a ter uma presença ao nível da oscilação da consciência. À primeira vista parece apenas uma filosofia bonita, de alta expressão, mas no fundo é uma dinâmica prática de crescimento. E quando nós trabalhamos um conhecimento que chega, quando analisamos de forma mais aprofundada as leis que nos regem, nós vamos observar que estamos tentando abrir o nosso coração.

O evangelho só vai se corporificar em nós em cima de uma base sólida de justiça.

O que isso significa? Que a palavra básica de nossa administração tem que ser a disciplina. Não tem outra, é a disciplina que antecede a espontaneidade. A disciplina é apenas um estágio de transição e de adaptação, já pensou nisso? Mas é ela que deve nortear as nossas mudanças comportamentais para melhor. Vamos repetir: é a disciplina que antecede a espontaneidade. Primeiro nós temos que fazer, mesmo que seja reclamando. Vai chorando, mas vai. Reclama, mas faz. Até chegar na condição de amar ou fazer bem àqueles que não nos amam, de cumprimentar aqueles que não nos saúdam vai demorar um bocadinho, mas nós temos que aprender desde já a necessidade de fazer. Vale lembrar, também, que a disciplina dura, inflexível, tem amarrado muita gente no mundo.

Um dos pontos mais difíceis e complexos da nossa vida tem sido a ampliação das nossas atitudes nas bases do amor. E nós temos que aprender a cultivar isso em todos os sentidos, desde as relações pessoais mais próximas até as faixas mais abrangentes e universalistas.

Repare para você ver, nós começamos a praticar os conceitos do evangelho debaixo da tutela da justiça: "Eu, como seguidor da religião tal, não posso fazer esse tipo de coisa. Eu até que queria fazer isso, mas não posso!" Não é assim? Começamos praticando a lei sem muitas noções de amor. Aliás, quando iniciamos no campo operacional do amor, que é o grande desafio nosso, nós entramos tentando acertar, mas ainda brigamos com as nossas manhas pessoais, com os nossos desejos infantis. Porque nós temos muitos desejos, manias, muitas inconformações. Fazemos certa atividade e reclamamos: "Oh, meu Deus, que sacrifício para fazer isso." Mas é dentro desse lance inicial que o amor se expressa.

Aí vem Jesus: "Misericórdia quero, e não sacrifício." Mas começa pelo sacrifício. E vai abrindo mão para cair na misericórdia.

Tem muitos pontos a serem analisados, pois a faceta relacionada com a irradiação do amor toma uma fisionomia bem mais abrangente do que podemos imaginar. 

O que é constrangido vai sendo trabalhado para se tornar espontâneo e na medida em que isso acontece nota-se que a vida não é tão complicada.

Vamos analisar o seguinte: quando os valores penetram em nosso campo interior dá-se a fecundação, certo? E acostumando com esses valores que nos chegam é como se a nossa personalidade gritasse. Nos sentimos melhores com os padrões essenciais do evangelho e vamos trabalhar para que saiam no plano aplicativo, na essência do amor. E começam esses padrões a saírem de nós. Ou seja, entra como justiça e sai como amor. E a felicidade brota não pelo envolvimento que vem de fora, mas pelo apaziguamento que nasce de dentro para fora. Deu uma ideia? Porque a justiça bloqueia, prende, constrange, e o amor abre, liberta.

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