19 de ago de 2015

Cap 52 - A Justiça e o Amor - Parte 9

AMOR COM CHEIRO DE JUSTIÇA

Eu não quero desanimá-lo, mas nós ainda não temos uma experiência nítida acerca do funcionamento fundamental do amor. O que ele representa, o que ele expressa, que mecanismo é esse que impulsiona a vida em toda a extensão do universo. Porque nós estamos trabalhando isso de forma lenta e gradativa.

Nós estamos lutando muito para entender o que é o amor. É possível observar que em nome de um objetivo muitas pessoas se distanciam da realidade das coisas. 

Como assim? Em nome de um objetivo muitas pessoas elegem uma determinada postura, fazem o que estabeleceram de forma acertada dentro daquele padrão que seria sugerido pelo amor, e até acreditam realmente que estão fazendo por amor quando, na verdade, o que elas estão fazendo não tem nada de amor. Simplesmente estão vivenciando o que é um suave equívoco. Quer dizer, acham que é amor, mas na realidade não tem nada do que pensam. Muitas delas, inclusive, quando adquirem conhecimentos mais aprofundados acabam por ter uma grande surpresa. Caem em si e percebem que o que faziam, embora pensassem que fosse, não tinha nada de amor.

O que acontece é que durante grande parte da existência nós temos lutado muito com o amor discriminatório? Concorda comigo ou acha que eu estou exagerando? Isso é a pura verdade. Nosso amor ainda está muito preso ao ser amado.

Infelizmente, muita gente espera o amor alheio para poder amar. Para ser ter ideia, em nome de uma paixão ou de um amor que elegemos de forma fechada nós somos capazes de marginalizar o interesse dos outros e até mesmo de prejudicar os outros.

Repare no abraço. Uma grande maioria dá o abraço, mas com certo distanciamento. Quer dizer, o abraço é dado, mas não tem tempo de olhar, de ver o outro, de observar.

E não é só isso. Sabe quando alguém dá um abraço caloroso em outra pessoa? Aquele abraço apertado, aconchegante, sentido? Pois é, não vamos nos iludir não. Em tantas ocasiões, sabe quando costumamos ter essa expansividade toda? Na verdade, costumamos ter esse entusiasmo todo de cumprimento diante de determinados quadros em que temos algo a tirar dessa relação. Não estou generalizando e dizendo que não exista uma afetividade genuína. Nada disso, mas essa empolgação é para segurar a pessoa abraçada do lado de quem abraçou para poder utilizá-la amanhã. A gente não tem que distorcer nem baratear os valores de emoção e sentimento, mas é preciso avaliar de forma tranquila.

Não é assim que acontece? Ou você acha que eu estou exagerando e que esse abraço nós damos porque objetivamos transferir afetividade e recursos para a outra criatura? O que você acha? O que sabemos é que na hora em que nos deparamos com alguém que está sofrendo ou que está com alguma necessidade nós nem abraçamos. Nos limitamos àquele tradicional tapinha no ombro: "Olha, fique com Deus. Vai em paz. Tudo vai dar certo. Jesus tem ampare." E pronto.

Vamos olhar a questão com um pouco de profundidade. Muitas vezes falamos aos quatro cantos e achamos que amamos muito uma pessoa, quando na verdade não amamos nada. Só estamos cultivando interesse. Ou seja, amamos em função do que ela nos proporciona.

Nossas concepções de ação do bem ainda tem uma faixa grande de interesse pessoal.

Se você acha que eu estou sendo exigente de falar assim, me desculpe. Não dá para esconder isso. Também não estou adotando uma postura pessimista. Estou é chamando a atenção para uma análise. Estou falando porque nós estamos aprendendo. Muito do nosso amor se baseia em relações de puro interesse. Nosso amor ainda não é aquele amor legítimo, mas um amor muito ligado ao ser amado, um amor que aguarda resposta, porque encontramos certa resistência ao amor incondicional. Na verdade, nós mercantilizamos o amor. Em nossas linhas de envolvimento afetivo mantemos um grau elevado de mercantilismo.

Quer um exemplo? Ao cair da tarde nós vemos a Cláudia cuidando com todo o carinho do seu João, uma pessoa simples. É algo bonito de se ver. Amor legítimo? Bem, acontece que atrás desse cuidado existem interesses sendo mantidos por parte da Cláudia. Seu João, que ela está cuidando, é quem sobe para tirar as goteiras da casa dela quando começa o período de chuva. É ele quem quebra a parede e conserta o vazamento da torneira no banheiro. Percebeu o sentido?

O que eu estou falando faz parte da nossa vida ou você acha que é uma fantasia da minha cabeça? Por enquanto isso faz parte. Outra pessoa diz a uma amiga enquanto conversam na varanda de uma casa: "Está vendo aquele rapaz ali? Puxa vida, eu adoro ele. Tudo o que eu preciso ele resolve para mim. É uma beleza. Você tem que ver. Capina o meu quintal, dá banho no cachorrinho, me ajuda a carregar as compras." E por aí, vai. Então, não é difícil avaliar. Dentro das relações pessoais vigora, tantas vezes de forma disfarçada, uma expressão viva de interesse.

O evangelho, sistematicamente, revela para nós a alegria de entendermos a grandeza da vida e de sentirmos o quanto temos que aprender. O quanto precisamos operar na seara do bem e o quanto nós temos que aprender a amar.

Isso mesmo. Precisamos aprender a amar. Porque não amamos de verdade. O amor na sua essencialidade crística plena ainda está sendo elaborado por nós. Mas já está bom, já é um grande começo. Está bom porque já estamos trabalhando a saída desse piso escravizante que tem nos mantido na retaguarda da evolução.

Entenda o que eu quero dizer. Tem muita gente auxiliando com as mãos porque bateu com as mãos lá atrás e machucou muita gente. Tem muita gente falando e ensinando muito mais em função de uma necessidade do que propriamente de um ideal.

Por isso, é que tem muito engenheiro que queria ser médico, e médico que não queria ser médico, queria ser outra coisa, mas aquilo foi embutido ali. Porquê? Porque ele está situado dentro de um processo que a misericórdia divina lhe encaminhou, não apenas para projetá-lo dentro de um crescimento mais harmônico, mas também fazendo uma linha de desintoxicação, de assepsia, de limpeza dessa individualidade. Não quer dizer que no que ele esteja fazendo não tenha amor lá dentro não. Não é assim. Tem sim. Tem aquela vibração gostosa de euforia por parte dele, mas o percentual de justiça é maior que o percentual de amor.

É igual o indivíduo que está aplicando passes em um grupo espiritual. Cada imposição, quem sabe é uma pancada lá atrás que está tirando da ficha dele. Percebeu? Então, nós temos que ter em conta esses ângulos. Às vezes, ele já está começando a sorrir, a ficar menos exigente, está começando a integrar-se. Está se recompondo pelo mecanismo do amor, mas que ainda é justiça. E pode acontecer dele ter que viver mais uma encarnação fazendo isto, resolvendo as situações complicadas que ele mesmo edificou em torno de si por ações menos felizes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...