27 de set de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 8

ONDE COMEÇA A CARIDADE

“E NÃO NOS CANSEMOS DE FAZER BEM, PORQUE A SEU TEMPO CEIFAREMOS, SE NÃO HOUVERMOS DESFALECIDO.” GÁLATAS 6:9

Não se assuste com o que eu vou dizer, mas aquele que está se esforçando e conseguindo eliminar o vício de fumar, se bobear está fazendo mais do que a gente em visitar sistematicamente uma casa para levar nosso plano de consolação. É nessa luta íntima que começa efetivamente o amor.

Mas, infelizmente, nós somos tão convictos de que o nosso amor é superior ao dos outros, que diminuímos o sorriso de alguém que fala: "Fulano, você não acredita, eu estou deixando de fumar." E o outro pensa consigo: "Grandes coisas. Já está largando tarde essa porcaria. Eu estou muito melhor. Nunca fumei."

Nessa hora, o amor do amigo que pensou dessa forma se apequena, retrai, é subtraído pela falta de compreensão, de entendimento, fraternidade e humildade. Porque a sua partícula de amor está envolvida pelo egoísmo e pela vaidade. Então, nós estamos falando isto para que possamos avaliar essas questões nos momentos de nossa intimidade, saber mais do que se passa em nosso coração.

Jesus esteve aqui. Fez o bem todo o tempo sem olhar a quem. Trouxe visão a cegos, consolidou a paz em tantos inquietos, deu a cura a uma enormidade de enfermos. E o que lhe deram em troca? Uma coroa de espinhos, açoites e a cruz do calvário. Não foi? Deram-lhe a "morte" enquanto ele veio trazer vida. No entanto, deram-lhe isso porque não podiam dar nada melhor. Concorda? É este precisamente o sentido do verbo dar: só podemos dar aquilo que temos. É impossível que alguém dê a outrem aquilo que não possui. Dar significa lançar de si, emitir, doar.

E para darmos qualquer coisa é fundamental que tenhamos, anteriormente, a sua propriedade. Como alguém pode dar amor quando não o tem? Como esperar a compreensão daqueles que ainda não a obtiveram? No mundo de hoje, como em todos os tempos, muitos apressados querem dar antes de possuir.

E, afinal de contas, onde deve começar a caridade? Já pensou nisso? Na verdade, não existe uma fórmula pronta, específica, fechada, mas com toda a certeza a caridade aos outros deve começar em nós próprios. A primeira providência, pelo que temos aprendido, é começar a ser menos oneroso para os outros, dar menos trabalho aos outros, dificultar menos a caminhada dos outros.

A caridade começa pelo peso que nós aliviamos em nossa área de atuação, seja em casa ou no ambiente de trabalho. Eu chego em casa e sou uma peça complicada para os meus familiares. Todo dia é a mesma coisa. Vou chegando e o pessoal vai saindo de fininho. No dia em que eu chegar e o pessoal não reclamar da minha chegada já está bom, está ótimo, eu já comecei a fazer caridade.

Percebeu? Na hora em que a gente começa a dar menos trabalho para os outros ou obstar menos a caminhada dos outros, sorrir um pouquinho mais e apegar-se com carinho ao sorriso, sentir alegria ao ver o semelhante melhor, a gente começa a sentir alguma coisa diferente, começa a sentir e a vibrar de maneira diferente. 

Esse esforço de iluminação deve iniciar-se pelo auto-domínio, pela disciplina dos nossos sentimentos inferiores, pelo trabalho silencioso com vistas à diminuição das próprias paixões. Calando a inquietação no campo íntimo, reclamando menos das coisas que nos desagradam, criticando menos e silenciando sempre onde não possamos agir em socorro do próximo.

"E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido." (Gálatas 6:9) Observou o ensinamento? "Não nos cansemos de fazer bem". Não tem o artigo (o), porque o grande desafio na nossa vida hoje não é fazer o bem, mas fazer bem. Não se trata de fazer o bem, e sim fazer bem.

Está dando para acompanhar? Isso aqui não é aula de português, mas se não tem artigo (o) não há objeto a especificar a natureza da ação. Daí, alguém pode perguntar: "Tudo bem, entendi, mas fazer bem o quê? O que nós devemos fazer bem?" Essa é exatamente a questão. A ausência do objeto já responde por si. A ausência do objeto define generalidade. Ou seja, o que devemos fazer bem? Resposta simples: tudo. Clareou? Temos que fazer tudo bem. O advérbio de modo (bem), de natureza positiva, sugere a maneira como esse fazer deve ser realizado, a forma como devemos fazer todas as coisas. Que devemos fazer tudo bem. Não importa se tratar-se de algo imposto, de uma obrigação ou de algo resultante da opção nossa no campo da escolha. Não existe essa distinção, porque fazer bem significa estar em plena linha de coerência com as forças que reinam no universo.

E "fazer bem" significa fazer bem feito, fazer com alegria, com entusiasmo, com dedicação, com disposição e bom ânimo. Aliás, o evangelho é claro ao nos dizer "misericórdia quero, e não sacrifício". Agora, nós sabemos que tudo o que fazemos bem, seja lá o que for, sempre podemos fazer melhor. Não é verdade? Isto nós temos aprendido, inclusive na prática. Logo, no fritar dos ovos fazer bem é aperfeiçoar-se. E aperfeiçoar-se não é criar um sistema de perfeccionismo, adotar um zelo extravagante ou caprichoso que tantas vezes não passa de manifestação da vaidade e do orgulho. Aperfeiçoar-se é tentar aproveitar com segurança e equilíbrio as engrenagens que a própria vida tem oferecido para nós. É aplicar com segurança, com método, com equilíbrio e discernimento aqueles melhores valores que nós temos aprendido. Em outras palavras, esse aperfeiçoamento é demonstrado e gratificante para nós próprios na medida em que colocamos no plano prático aquilo que conhecemos teoricamente, sem presunção, sem orgulho e sem achar que somos os melhores.

Nós sempre podemos e devemos nos aperfeiçoar, a definir que fazer "bem" é a capacidade nossa de auto-aperfeiçoamento, de auto-melhoramento. E vale a pena repetir, não é fazer o bem, é fazer bem.

Sabe porque não tem o artigo (o)? Porque fazer "o bem" pode muitas vezes ser uma atitude de exceção na vida de alguém, algo que a pessoa realiza de forma esporádica, ocasional, que faz circunstancialmente e que no fundo não constitui a síntese da sua vida.

De modo que o fazer bem, mas sem perfeccionismo, é o que nos projeta e sublima.

O importante é a gente se esforçar para fazer tudo bem, pois quando se persiste em fazer "bem" o fazer "o bem" surge como decorrência natural desse aperfeiçoamento.

Ficou claro? Agora, um detalhe é fundamental: a gente começa e não pode cansar. Ok?

"E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido" (Gálatas 6:9). Então, tem que seguir, tem que sequenciar, não pode parar. Se a porta é estreita (esforço para entrar) e o caminho é apertado (esforço para manter), não podemos nos cansar. Temos que manter, temos que persistir, sequenciar uma linha de ação condizente com a proposta adotada, afinal de contas a ceifa vai ser resultado dessa permanência.

Em razão do que lançarmos é que ceifaremos. E o bonito disso tudo é que se alcançarmos a consciência tranquila de que estamos fazendo "o bem" é porque atingimos de alguma forma o ponto de fazer "bem". Estamos efetivamente melhorando.

E quando o assunto são as obras não raro surgem as ideias megalomaníacas, aquela coisa de querer fazer grandezas: "Vou construir um grupo espiritual ou fundar uma igreja. A que eu frequentei cabia 150 pessoas, na minha eu vou colocar uma capacidade para 700." Olha, sinceramente, não é por aí. Não que isso não possa acontecer. De forma alguma. Até pode. Mas a questão não é tanto querer fazer acima daquilo que os nossos potenciais suportam. É começar a implementação de valores em nossa vida à partir das mínimas coisas.

A nossa dureza é no investimento de cada momento. Nas mínimas coisas. São as coisas mais simples que são capazes de nos promover e fazer com que se sublime em nossa intimidade o ponto natural de interação com a sociedade e a própria vida. O desafio é este. Identificar a forma como estou saindo de casa, se eu fechei o portão com educação ou se eu bati. Como é que eu bato a porta do carro. Como eu toco a campainha da minha casa quando chego lá. Qual a altura que eu estou colocando o som quando vou ouvir as minhas músicas. Como eu tenho cumprimentado as pessoas na rua, e se tenho cumprimentado. Como eu tenho atendido o chamado de um familiar. Como eu tenho atendido os telefonemas ultimamente. São esses tipos de coisas que somam.

Não há dúvida que a luta reeducacional tem seu preço. Felizmente, muitas pessoas são prestativas com o próximo em se tratando de necessidades materiais, todavia quase sempre continuam sendo menos boas para si mesmas.

Sabe porquê? Porque se esquecem da aplicação da luz do evangelho na vida prática.

Prometem muito com as palavras, operam pouco no campo dos sentimentos. Vez por outra, reafirmam os mais sadios propósitos de renovação, mas irritam-se facilmente diante das menores asperezas. Frequentam os templos católicos, as igrejas evangélicas, os grupos espíritas, no entanto voltam cada semana ao núcleo de preces nas mesmas condições em que estiveram na semana anterior, requisitando continuamente o conforto material e o auxílio exterior. Chegam a estudar o evangelho, ou pelo menos a letra do evangelho, e com grande dificuldade cumprem a promessa de cooperação com Jesus em si próprias, base fundamental da verdadeira iluminação. E não se atentam para o fato de que esquecidos da reeducação interior todos nós nos mantemos suscetíveis de cair nos mesmos lances que nos cercearam o crescimento. E quando o assunto é caridade, de nada adianta alguém colocar necessitados na sua frente e auxiliá-los agindo com a mesma irritação, com a mesma complicação e com as mesmas trapalhadas que cultiva.

A caridade o que é? Não é o que entra na gente, é o que sai. Caridade é amor. 

Então, vamos entender que é preciso transformação no plano interior para se poder atuar nos campos da cooperação. É por esta razão que estamos tentando convencer a nós próprios, pelo conhecimento racional, de que precisamos melhorar, que é converter o coração às verdades maiores. Se a caridade é a aplicação do amor, a gente precisa primeiro sentir o amor para depois aplicar.

O primeiro movimento da caridade efetiva se faz pela renovação nos terrenos do próprio coração. Percebeu? É preciso que a gente se esforce intimamente e lute na renovação. Neste caso, renovar-se passa a ser a caridade essencial que precisamos adotar. Ninguém saberá de fato o que significa fazer o bem sem olhar a quem enquanto não redimensionar de seu interior os sentimentos negativos.

É bacana a nossa decisão de querer fazer algo, a nossa decisão ao trabalho. Só que temos que alterar a ideia de sair fazendo caridade naquele sentido sistematizado que, às vezes, as próprias religiões nos induzem a fazer, e dentro daquele processo exclusivamente egoístico. Se muitas pessoas investem na caridade periférica, vamos adotar de nossa parte uma elaboração mais sólida, isto é, o trabalho como sendo o reflexo de nossa luta íntima. A evolução de alguém não se dá pelo número de pessoas que esse alguém atende, e sim pela natureza e condições de luz que ele forma dentro de si. Isso a gente tem que entender.

A luz é que projeta e não os elementos com os quais nós lidamos.

Os elementos com que nós lidamos são instrumentos projetores da evolução. O que efetivamente atesta o progresso é a luz. Em outras palavras, que o trabalho vertido em benefício dos outros seja um reflexo natural de nossa intimidade, de nossa melhoria. Que a capacidade de operar no amor represente uma atitude que já temos embutida em nosso psiquismo.

Porque é muito simples. Na hora em que a gente se converte para as realidades maiores da vida a gente não aguenta ficar sozinho ou indiferente. Aguenta? É muito difícil uma criatura com sensibilidade, amor e humildade conseguir mudar sem registrar alguma coisa em favor daqueles que se acham em volta. Não tem jeito. 

Esse amor que almejamos em escalas cada vez mais ampliadas deve traduzir-se em esforço próprio, em auto-educação, em cumprimento do dever, obediência às leis de realização e trabalho, perseverança na fé e desejo sincero de aprender com o único e maior mestre de todos, Jesus.

22 de set de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 7

A CARIDADE PERIFÉRICA

O evangelho é código moral que visa adentrar e trabalhar a intimidade do ser, predispondo-o a um trabalho em favor dos que sofrem. E se ele vem trabalhar a intimidade ele chega para instaurar uma luta íntima. Luta esta que é de uma beleza extraordinária, porém que tem o seu preço. Preço, por sinal, que muitos não querem pagar.

É por isso que muitas pessoas, no exercício do amor aplicado, preferem fazer o bem lá fora.

Não acontece assim no âmbito das religiões? Tem muita gente nas diversas religiões que trabalha só para a assistência social. Não adianta querer mostrar outro lado, a importância do estudo, a importância de se renovar intimamente, a importância de ler. "Ler? Quê isso? Isso é perder tempo. Você tem é que ajudar o próximo!" Não é assim que elas falam? Investem na caridade periférica e costumam misturar o que é ação periférica com a proposta essencial.

Chegam mesmo a dizer que o que gostam na religião que afeiçoam é o trabalho social: as visitas, as campanhas, as atividades externas. Segundo esses companheiros afirmam, os trabalhos de natureza extrínseca são os melhores.

E para essa grande maioria, às vezes é melhor mesmo. É preferível as atividades dessa natureza do que ter que mexer na própria intimidade, ter que mexer dentro do coração, assimilar informações, rever conceitos, alterar concepções, reformar posturas. É claro que essa postura de buscar o extrínseco é válida e contém seus méritos, mas cá para nós, venhamos e convenhamos, se ficamos só nisso nos mantemos na condição mais fácil e tranquila, porque a luta reeducacional a gente sabe bem, não é uma luta fácil. O duro é ter que engolir e metabolizar tanta coisa no campo da proposta de mudança.

Assim, é muito comum a pessoa passar a vida inteira servindo e ajudando, aqui e ali, no entanto sem alterações íntimas. Quer dizer, a mesma pessoa que vai chegar ao plano espiritual quando do seu desencarne é a mesma que chegou aqui quando reencarnou. Percebeu? Ela trabalhou no campo exterior, mas não conseguiu dobrar determinadas estruturas que estão dentro dela há muito tempo.

Não utilizou a luz da religião para efetivar o clareamento do próprio coração. Sem contar que tem pessoas que dizem assim: "Não tem jeito, eu sou assim mesmo. Não vou mudar. Eu nasci assim e vou morrer assim." Fazer o quê? Não se abrem para mudar para melhor, não se esforçam no testemunho das mudanças.

Então, se fizermos muito lá fora e fizermos pouco dentro de nós mesmos, no sentido de melhoria,  vai haver resultado positivo, óbvio, mas de que natureza? Ganhamos amigos, mas continuamos às escuras. E, às vezes, continua o mesmo indivíduo por anos, com as mesmas trevas, as mesmas complicações, as mesmas emoções desvairadas. Isso não acontece? Sem contar que tem muita gente operando em termos de caridade e de amor e que é verdadeiro verdugo dentro de casa. Não tem? Eu disse em casa, mas você pode entender como sendo em outro ambiente também. O elemento complica demais, complica na administração do dinheiro, complica no ambiente familiar, complica no trabalho, no campo social, complica não sei onde, e ainda leva a virtude de ter dado pão para o necessitado.

Agora, cá para nós, não adianta a pessoa distribuir um caminhão de cesta básica e ficar indisposto com aquele que está ajudando a descarregar o caminhão. Ou, então, fazer distribuição no natal e durante a distribuição falar palavrão, ficar de cara fechada, reclamando com um, reclamando com outro, brigando com os meninos. O que você acha? Se faz dessa forma, de maneira endurecida, ele enche o estômago dos outros, mas não vibra e não chega a alcançar o plano de harmonia íntima. Ele mantém o coração voltado e entregue a um campo de cooperação, mas o seu plano educacional deixa muito a desejar.

Temos aprendido que para que a transferência vibracional se faça ao nível de caridade, precisamos transferir a essencialidade alimentícia que é o amor. Assim, pode acontecer do indivíduo ter feito amigos dando pão para os necessitados, mas não ter feito luz em seu interior. E esse é o desafio que nós estamos tentando apropriar aqui.

É fácil alguém chegar ao final da encarnação e falar: "lá embaixo eu fiz 500 campanhas de doação." Não pode acontecer? Ela pode chegar lá com a contabilidade em dia, todavia com a mesma luzinha íntima com a qual chegou aqui.

Precisamos ter essa questão em conta. Com isso eu não quero dizer que não houve mérito nas campanhas. De forma alguma. Houve, sim. Mas também falamos que é bem mais fácil lidar lá fora do que mexer dentro do coração. E o que podemos depreender disto? É que nós temos de certa forma que acabar com essa ideia de trabalhar somente na periferia. Tem muita gente que está trabalhando na periferia, e está fazendo o bem. Não está errado não. Mas vamos guardar o seguinte, o que manda é a nossa estruturação reeducacional. Ficou claro?

É preciso que a caridade expresse luz íntima, porque é a partir daí que realmente somos felizes na doação. Vamos tentar explicar melhor? O trabalho nosso em termos de cooperação deve ser um reflexo da luta íntima que nós estamos levando a efeito. O fundamental é a nossa luta íntima, a nossa reeducação e melhoria pessoal, pois na hora em que a gente se converte para as realidades maiores da vida a gente aguenta ficar sozinho? Ou ficar indiferente? O que você acha? Não tem jeito. Uma coisa grita dentro da gente: Vamos cooperar.

Imagine um cooperador do plano físico desencarnando, chegando ao mundo espiritual e dizendo: "Em minha experiência terrena eu estive vinculado a uma religião na qual eu realizei uma tarefa durante muitos anos, em que cuidei de aproximadamente duzentos necessitados. Cuidei deles." Ótimo. No entanto, esses atendidos podem continuar como necessitados até hoje. Não pode? Deu uma ideia? 

Está acompanhando o raciocínio? Nós podemos chegar ao final da tarefa e aqueles que atendemos continuarem às portas, pedindo, na posição de mesmos necessitados de antes. Provavelmente, quando não estivermos mais lá outros possam estar para atendê-los. E quando o núcleo ou grupo fechar vão para outro. Porque a vida deles é aquela, eles estão numa luta natural. Talvez sem progresso, sem crescimento, sem melhoria real. Podemos encontrar com alguns deles no futuro, fazermos amigos, mas com grande possibilidade de estarem na mesma situação.

Daí a gente observa que assistência social é um plano operacional bonito de amor, mas ineficiente quanto aos resultados. No mundo de expiações e provas em que estamos, e caminhando a passos largos para a regeneração, certos departamentos não deveriam mais limitar-se a assistência social, mas serem também de promoção social. Concorda? Ou seja, com uma sistemática em que se atende as necessidades materiais do pão, da água, da roupa e, simultaneamente, busca-se promover o auxiliado na luta de libertação da sua carência.

Em uma linguagem simbólica, oferta-se o alimento, mas também ensina quanto ao plantio do trigo e as técnicas de elaboração do pão. Auxilia de uma forma efetiva, completa, ajudando o indivíduo a crescer. Porque a caridade maior é a de iluminar as consciências humanas em dificuldade a aprenderem se libertar das próprias carências, aprenderem novo caminho, a não se comprometerem mais.

18 de set de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 6

A ESSÊNCIA DA CARIDADE

“DAI ANTES ESMOLA DO QUE TIVERDES.” LUCAS 11:41

“E DISSE PEDRO: NÃO TENHO PRATA NEM OURO; MAS O QUE TENHO ISSO TE DOU. EM NOME DE JESUS CRISTO, O NAZARENO, LEVANTA-TE E ANDA.” ATOS 3:6

Eu não sei se você já parou para avaliar, mas o nosso amor ao próximo por enquanto é um amor todo convencional. Todo sistematizado, todo enquadrado, todo mecanizado. Um exemplo para clarear é o seguinte: Imagine um casal de uma cidade grande passeando em uma cidadezinha do interior. Um lugar bem pobre, um lugarejo como se costuma dizer. O casal elegante desce do carro luxuoso e começa a caminhar por uma estradinha singela, quando se depara com um menino descalço. Cabeça baixa, roupinha simples e sujo de poeira, que fala ao homem bem vestido:

- Moço, me dá um trocado?
- Quê isso, menino. Sai pra lá.
- Oh, moço, só um trocado. É que eu estou com fome. Só um trocado, pra eu comprar um pão na venda do seu João.
- Sai pra lá, menino. Já falei. Não tenho dinheiro não!
- Eduardo Alberto (diz a esposa, a essa altura indignada com a insensibilidade e frieza do marido), para com isso! Não vê que o menino está com fome?! Dá logo um trocado pra ele.
E o homem enfia a mão no bolso, remexe os dedos e tira de lá algumas moedas, que dá ao garoto:
- Toma, menino.

Aí a gente pergunta, a nível de esclarecimento. Neste caso em questão, houve caridade? O que você acha? A resposta é simples e nem precisa pensar muito: Não! De modo algum. Caridade é que não houve.

Veja bem, nós já tivemos a oportunidade de entender que caridade é o amor na sua faixa de aplicação. Certo? Então, o indivíduo deu a esmola, mas a caridade não circulou. Ele deu para ficar livre. E a gente observa que ali ocorreu apenas uma transferência de valores, nada mais do que isso. Aliás, daí nós podemos notar que em certas situações pode acontecer da própria moeda dada significar um grande desastre para nós, ao invés de fazer o papel esperado.

E como resultante da lei de equilíbrio que preside o movimento das trocas no organismo da vida, nas relações entre pessoas o pedido de providência material tem o sentido e a utilidade oportuna. Sendo assim, nossa caridade surge em cima da esmola. A prática do bem exterior é um ensinamento e apelo para que cheguemos à prática do bem interior. Quer dizer, a esmola trabalha a intimidade do ser, razão pela qual as obras da caridade material somente alcançam aquela feição divina quando propiciam a espiritualização do cooperador, renovando-lhe os valores íntimos. E é a partir desse ponto o grande começo, pois quem não exercita dar alguma coisa dificilmente chegará um dia a doar-se.

A grande verdade é que a caridade não depende da bolsa. Sabe porquê? Porque ela é fonte nascida no coração. A caridade legítima traz amor em sua essencialidade, saímos de nós e cedemos em favor do próximo. É a luta que estamos tentando aprender. Por isso, não espere sobras na carteira para cooperar e atender aos planos da caridade. Se você acha que somente as providências materiais e o dinheiro são a base corrente da caridade, lembra que Jesus enriqueceu a terra inteira sem possuir uma pedra sequer onde repousar a cabeça.

Os instrumentos materiais funcionem como elementos canalizadores, todavia não são os valores de sustentação finalística. Em outras palavras, é comum a gente achar que a transferência de um componente tangível que ofertamos representa a efetiva doação para alguém, quando no fundo esse componente não representa o valor transferido. Quer dizer, o valor material transferido foi apenas o condutor da essência canalizada. Nossa, complicou? Será que falei grego?

Fique tranquilo, que vamos clarear. Nós temos frisado o tempo todo que caridade é a aplicação do amor, é a dinâmica do amor. Certo até aí? E para que isso ocorra nós vamos pegar essa essência e vamos transferi-la por meio do pão, por meio de uma roupa, de um dinheiro, de um conselho, de um abraço.

Então, é preciso saber separar o que é o componente tangível da beneficência do que é a essência sutil da caridade. Percebeu? Separar o instrumento didático do conteúdo didático. A pessoa, às vezes, vem com o dinheiro e o dinheiro não é a caridade. O pão dado também é o instrumento da caridade, é o veículo da caridade, mas não é a caridade. Isto é extremamente importante e tem que ser entendido. Esses dois componentes representam instrumentos canalizadores da caridade, que vão servir para direcionar a caridade, que na sua essência não é material. Eles vão ser apenas os instrumentos usados para transferir a essência que é a vibração do amor veiculada naquele ato. Conseguir perceber agora? O dinheiro e o pão, entre outros, não são elementos de sustentação finalística, mas elementos canalizadores do amor.

E essa essência, que é a parcela de amor dinamizada, vai ser transferida através do dinheiro, do pão, de um abraço, de um conselho, etc. Conclusão: o valor vibracional, a carga de emoções e de vibração veiculada na ação no bem, é que vai determinar o grau que tange a linha qualitativa, que premia e eleva a criatura, ou a entristece e onera. 

O evangelho chega a ser claro e objetivo ao nos convidar a dar do que temos. Afinal de contas, dar o que temos (propriedade) é diferente de dar o que detemos (posse). Ninguém pode dar a outrem aquilo que ainda não possui no coração.

Na prática, é imperioso dar do que somos, descerrar a própria intimidade e espalhar os bens do espírito. Dar de nós mesmos em tolerância construtiva, divina compreensão e amor fraternal. E todos nós, em qualquer ambiente, sem exceção, podemos distribuir das riquezas que fluem de nós próprios, cuja aquisição é inacessível à moeda comum. Só não podemos nos esquecer, como disse o mestre Jesus, que dar a quem pede é muito diferente de dar o que se pede.

E para dar, para transformar o que recebemos de cima em recursos capazes de nos projetar para uma linha mais feliz, nós simplesmente temos que utilizar os padrões que estão ao nosso alcance, os recursos com os quais nos é possível agir.

Então, não se iluda com grandezas. Ninguém no mundo é tão pobre que nada possa dar a outro de si mesmo. E nenhuma atividade nos campos do amor é insignificante.

Pessoa alguma pode avaliar a importância das pequeninas doações, onde toda migalha de amor dada está registrada na lei maior em favor de quem a emite. As árvores mais altas nascem de sementes minúsculas e o menor gesto de bondade, segundo Jesus, dispensado em seu nome, será sempre considerado no mundo maior como uma oferenda endereçada a ele próprio. Isso é reconfortante.

O bem mais humilde é parcela sagrada e a repercussão da sua prática é inimaginável.

Uma lágrima que console e esclareça um coração atormentado vale mais que mil moedas. Já pensou nisso? Os talentos da fé, o conhecimento superior, o dom de consolar e a capacidade de servir, embora sejam conquistas obtidas por nosso esforço, são bênçãos do criador em nosso coração singelo de criatura. E propicia muita felicidade íntima ver brotar um sorriso em um coração que está precisando de força e de segurança e nós o auxiliamos de alguma forma com as nossas possibilidades.

13 de set de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 5

MELHOR CAMPO

“MAS, SOBRETUDO, TENDE ARDENTE AMOR UNS PARA COM OS OUTROS; PORQUE O AMOR COBRIRÁ A MULTIDÃO DE PECADOS.” PEDRO I-4:8

Quem está querendo crescer, quem está buscando seguir adiante, mudar o rumo da caminhada e encontrar uma parcela maior de reconforto pessoal, isolado da caridade e do interesse de cooperação vai ter uma grande frustração. Este é o conceito que a gente tem aprendido e a opinião que temos recolhido.

Nós estamos hoje em dia aprendendo a cultivar uma sementeira nova e a identificar recursos para trabalhar no lenitivo das nossas próprias dificuldades. É assim que as coisas funcionam. O trabalho realizado no bem é o melhor campo para se resolver problemas. Muitos tem aprendido e muitos ainda irão aprender.

O criador, com a sua misericórdia fantástica, quer de nós o trabalho do amor e não o estigma do pagar. De forma que ninguém precisa esperar reencarnações futuras envoltas em dores e lágrimas e em ligações expiatórias para diligenciar a paz com os inimigos do pretérito e a consciência denegrida. Toda ação pela felicidade geral é concurso na obra divina. Em tantas ocasiões nós temos que trabalhar com a aflição de muitos para resolvermos a nossa. Lidando com aqueles que sofrem os nossos problemas começam a desaparecer, atendendo o necessitado talvez consigamos administrar pontos necessários em nosso íntimo.

E o melhor de tudo: isto não é filosofia, é ciência!

Porque o próximo é a nossa ponte de ligação com Deus, e não se chega efetivamente a Deus sem obras realizadas junto aos seus filhos. Sendo assim, se buscamos o Pai, precisamos, de nossa parte, ajudar seus filhos e nossos irmãos.

Qual é a grande proposta que o evangelho traz para nós? Ao invés de você ficar contabilizando as suas dificuldades, você abre o parâmetro e vai cooperar. Pelo menos, uma grande massa de criaturas encarnadas está fazendo isto hoje.

O processo ascensional não se encontra no fechar, mas no abrir. Definitivamente não temos como resolver problemas íntimos dentro de um sistema fechado em nós mesmos, em uma luta fechada conosco em um quarto fechado. Como servidores do evangelho, somos compelidos a sair de nós próprios a fim de beneficiarmos corações alheios. Sair de nós mesmos como fez o indivíduo na parábola do semeador. Segundo os registros atestam, o semeador não agiu através do contrato com terceiras pessoas, ele mesmo saiu a semear. Compete a nós fazer o mesmo, lançando sementes de amor junto dos corações que transitam no mundo em dificuldades maiores que as nossas.

Se na extinção dos nossos problemas pequeninos costumamos solicitar o máximo de proteção ao Senhor, é natural que o Senhor nos peça o mínimo de concurso na supressão das grandes dores que abatem o próximo. É da lei que não se recebe sem dar.

Quando passarmos efetivamente a dar, seremos aos poucos perfeitamente atendidos dentro de um suprimento da misericórdia. Por cooperação ao próximo atraímos simpatias valiosas com intervenções providenciais a nosso favor. Quando conseguirmos superar as nossas aflições para criarmos a alegria dos outros a felicidade alheia nos buscará onde quer que estivermos para improvisar a nossa ventura. Mas não significa que nós temos que sair por aí procurando os outros, os outros chegam à nossa porta a toda hora.

Quando nos lançamos nessa faixa, entendemos o amor como sendo uma boia que nos é oferecida para que consigamos atravessar o imenso mar de dificuldades que pode nos levar a sucumbir. E como disse Simão Pedro, em uma de suas cartas, "o amor cobre a multidão de pecados". Em algumas versões o verbo é cobrirá, a definir com muita tranquilidade que o amor teórico cobrirá quando se transformar em caridade, ou seja, quando for aplicado. Ao dizer que o amor "cobre" (ou cobrirá) ele quer dizer amar, pois a ação no bem atenua ou, quem sabe, até liquida e cobre os impositivos da justiça. Deu uma ideia?

Porque conforme a contabilidade do amor, o bem que se faz sempre diminui o mal que já se fez. O amor dinamizado sempre cobre essa multidão que nos acompanha ao longo do destino. Ajudando os outros estamos resolvendo nossos problemas. Aquele que muito faz tem praticamente saneados muitos dos seus problemas. Quando nós cooperamos com alguém de maneira positiva aquilo pesa como um lastro em nossa estrutura de harmonia e projeção de vida.

O amparo aos outros cria amparo a nós mesmos. Todo esforço no bem, por menor que seja, retorna invariavelmente a favor de quem o realiza. O bem realizado, com quem for e onde for, constitui recurso vivo atuando em favor de quem o exercita. Guarde isto. Junto dos corações que temos auxiliado é que encontramos o respaldo interior da segurança, a força para a nossa caminhada.

Todo o bem que se faz aos outros propicia linha de simpatia, e ainda que o auxiliado não entenda e não compreenda, o seu amigo espiritual fica amigo da gente porque auxiliamos o tutelado dele. O bem constante por nós realizado gera sempre o bem constante. E mantida essa movimentação infatigável no bem, todo o mal por nós amontoado se atenua gradativamente, desaparecendo ao impacto das vibrações de auxílio nascidas a nosso favor em todos aqueles aos quais dirigimos a mensagem de entendimento e amor, sem a necessidade expressa de recorrermos ao concurso da enfermidade para eliminar os resquícios de treva que eventualmente se incorporam em nosso fundo mental.

10 de set de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 4

A BENEFÍCIO PRÓPRIO

Em todos os núcleos religiosos, sem exceção, fala-se em caridade e na necessidade de se praticá-la.

Os espíritos de luz comumente nos recomendam a sua prática. Até podemos dizer que o fazem com certa insistência. E não é à toa. Assim fazendo eles estão nos orientando no sentido de nossa própria evolução, e isto é importante de se ter em conta. Felizmente, muitos já entendem o sentido científico que a caridade representa em nossa vida em termos de bem viver. E é o que precisamos saber: o porque de exercê-la, o que ela pode nos propiciar de bom, porque temos que fazê-la, o que ela nos propicia de positivo, qual o seu significado prático em nossa vida.

Para início de conversa, caridade é um exercício espiritual e quem pratica o bem coloca em movimento forças da alma.

Outro ponto da maior importância é que auxiliamos os outros a benefício de nós mesmos. Quer dizer, no exercício da caridade eu estou para resolver o meu problema.

Isto precisa ficar bem claro. Na essência do amor cada qual dá a si próprio, não dá ao outro. Assim, quando aderimos as atividades dessa ordem nós vamos na busca de alívio para as nossas dores, fazemos na esperança de superar os nossos problemas, buscando um piso de maior equilíbrio e segurança. É óbvio que com essa atitude nós estamos dando um passo grande à frente, alcançando um patamar acima, mas vamos notar que estamos ali para salvar a nós mesmos. É bonito a gente entender que se tivermos mérito e disposição de trabalho nós visitamos um ambiente de necessidade para atender a nossa necessidade.

Isto ocorre porque nas leis de cooperação cada criatura transporta consigo questões essenciais e necessidades intransferíveis. E não vai ser o meu auxílio, o seu auxílio ou de quem quer que seja, que vai resolver o campo cármico de alguém. 

Percebeu? Não tem nenhum de nós que seja capaz de mudar as linhas cármicas de alguém. O serviço do próprio resgate é simplesmente pessoal e intransferível. No plano da estrutura evolucional cada um tem que passar a sua dificuldade. A sementeira é livre, cada qual semeia da forma que quer, mas a colheita é obrigatória.

Vamos tentar dar uma ilustração disso agora. Veja bem, o que nos chega (de fora para dentro) vem como justiça. Certo? Já tivemos a oportunidade de trabalhar isto no capítulo anterior (A Justiça e o Amor). É um instrumento de toque, de indução, componente de sensibilização, de despertamento. E o que sai é amor.

Está dando para acompanhar? Assim, o que chega é informação, ou seja, a informação vem antes da formação. Ela não modifica a minha estrutura interna, não forma nada, não altera, não muda, apenas prepara, potencializa. E o que sai, o que eu faço, o que eu realizo, o que eu aplico, aí sim, produz formação. Tanto é dessa forma que o simples conhecimento intelectivo, a simples arregimentação de valores informativos, não altera em nada o meu ser. Ok? Apenas me prontifica para a mudança. Resultado: no exercício da caridade, onde A→ auxilia → B, repare que B é o auxiliado, o que recebe, ao passo que A é o auxiliador, o elemento que oferece. Deu uma ideia? A caridade de A é efetuada em seu benefício próprio, embora seja capaz de auxiliar o B de alguma forma.

O processo de cooperação não consiste em resolver a dificuldade do outro, tirá-lo da dificuldade, pois a dificuldade é instrumento para o crescimento. Logo, toda caridade tem o objetivo de auxiliar o recebedor, o auxiliado, no despertamento da necessidade de seu reajustamento íntimo e intransferível, porque na vida a lei preceitua que cada um semeia e colhe na medida do que lançou.

Será que ficou claro? Eu terei condições um dia de chegar perto de uma criatura que está com um problema na perna e dizer para ela: "Você vai andar!" Nós vamos ter esse poder. Com certeza. Isso não sou eu que estou dizendo, porque eu posso ser muita coisa, mas louco eu não sou. Foi Jesus quem falou isso. Mas nós podemos fazer isso agora? A espiritualidade, às vezes, pode colocar alguém sem andar durante dez anos para ela não fazer muita bobagem e com dois anos a gente coloca ela de pé?! Pode uma coisa dessa? Tem lógica a gente fazer andar agora quem não pode estar andando? Pense bem. A gente coloca para andar e ela começa a aprontar. Quem você acha que é o responsável? Somos nós.

Alguém pode dizer: "Espera aí, Marco Antônio, deixa ver se eu entendi. Você quer dizer, então, que quem sofre, sofre porque precisa. Logo, eu não preciso ajudar, certo? Não preciso e não devo fazer nada!" Não. Não é isso. Vamos clarear.

Cada pessoa na vida tem o seu compromisso e as nossas obrigações são sagradas. Ok? Eu não posso interferir no processo evolucional dos outros, mas eu também não posso viver fora do contexto de aproximação dos seres com interdependência. A sociedade em muitos ângulos exige praticidade e nós temos aprendido continuamente que para muitas questões nós temos mesmo que ser práticos. Mas também não podemos ser indiferentes e insensíveis. É aí que está a legítima chave da nossa felicidade. Na busca por nossas conquistas nós não podemos manter nenhum sentimento de isolamento, pois é impossível edificar a felicidade sem sensibilização quanto ao semelhante. Em outras palavras, não podemos ignorar fazer alguma coisa na extensão da felicidade comum a nosso próprio benefício.

Logo, seja pela clareza ou pela lógica que o nosso raciocínio já alcança, seja pela nossa indiferença pessoal, pela neutralidade ou frieza do nosso sentimento, não importa, simplesmente não podemos marginalizar alguém ao sofrimento e à dor.

A vida não reclama o meu sacrifício integral em favor dos outros, mas eu não posso esquecer do minuto de apreço aos outros. Eu não posso deixar a minha vida para viver uma vida exclusiva em função do semelhante, e está certo. Isso eu não devo fazer, porque senão eu me alieno. Mas eu tenho que pensar nas necessidades do outro. Ficou Claro? Então, vamos. Façamos o bem e sem ansiedade.

Façamos o melhor que pudermos, mas sem aquela pretensão de querer resolver os problemas alheios. Semeemos sempre e em toda parte, e nada de estacionarmos na exigência de resultados. Para isso, vamos nos lembrar que o lavrador pode espalhar sementes à vontade e onde quer que esteja, todavia precisa reconhecer que a germinação, o crescimento e o resultado pertencem a Deus.

5 de set de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 3

AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO II

“PORTANTO, TUDO O QUE VÓS QUEREIS QUE OS HOMENS VOS FAÇAM, FAZEI-LHO TAMBÉM VÓS, PORQUE ESTA É A LEI E OS PROFETAS.” MATEUS 7:12

O estudo do evangelho é fundamental, todavia não podemos nos prender apenas à renovação espiritual.

Temos que operar também, porque é na operação que nós fixamos efetivamente os recursos aprendidos. Não basta apenas ficarmos nos transformando por dentro, mudando por dentro. E o laboratório que vai formar os caracteres dessa mudança? Percebeu? Não basta ficarmos só na mudança de propósito, essa mudança tem que ser fundamentada na prática. Temos que nos reeducar.

Voltar-se para a caridade pode ser uma colocação filosófica para muitas pessoas, mas representa reverter o mecanismo de nossos desejos e interesses. Todos nós iremos aprender, mais dia ou menos dia, que a prática do bem constitui simples dever, quando saímos daquela massa dos atritos, dos movimentos naturais de vinculação à retaguarda, e entramos numa proposta de melhoria espiritual. E entendermos isto, a compreensão do funcionamento desse sistema de interação, nos leva a encontrar um estado de maior equilíbrio interior.

Quando chegamos em algum núcleo espiritual para participar dos estudos, das reuniões, o que acontece? De princípio nós vamos para resolver os problemas do nosso mundo interior. 

Não é isso? Tem muita gente que vai para buscar conforto para si própria, tentar encontrar solução para um problema qualquer, buscar socorro para um filho doente, e por aí vai. E começa a notar devagarzinho que o assunto é mais ampliado. Assim, muitas vezes a pessoa foi para buscar um auxílio e de repente se vê visitando um hospital, integrando alguma equipe de assistência daquele grupo, dando passe em doentes, auxiliando de alguma forma. Não acontece?

A grande verdade é que nós não podemos alterar a nossa estrutura intrínseca, resolver os nossos problemas interiores, sejam eles quais forem, apenas com a assimilação de conhecimento, apenas informativamente. Qualquer lance de natureza formativa na mudança de caracteres, na mudança de estrutura pessoal, implica necessariamente em uma linha de inter-relação com as pessoas.

Ficou claro? Não tem como evoluir sem interagir. Não tem como caminhar sozinho. Sozinho você caminha, mas não vai longe. É preciso esse entendimento. Quanto mais nós formos crescendo em termos de percepção, mais nós vamos ficando envolvidos por pessoas, por situações e coisas. Por isso, não vamos ter medo dos envolvimentos a que estamos sujeitos, no contexto da nossa oportunidade de trabalho nós vamos lidar com muitas pessoas.

No começo, a gente nota a presença de registros muito sutis de acentuado teor egoístico, o que é normal.

Mas enquanto essa posição se mantém por parte da grande massa de criaturas, um grupo menor já passa a expressar uma visão com maior discernimento e inteligência. Como assim? Passa a notar que está ali em função do investimento que o plano maior está exercendo sobre cada um delas.

Vale a pena ter isso em conta. A luta de redenção exige cooperação e o amor, essa faixa operacional que se estende para além da justiça, espera um pouco mais de cada um de nós. Enquanto não levantarmos a bandeira da mudança e fazermos alguma coisa nós ficamos como mendigos da evolução. Isso mesmo. Mendigos. Cheios de informação, cheios de conhecimento e reclamando disso, reclamando daquilo. Que o mundo está errado, que isso está errado, que aquilo não presta, e daí em diante. Nós temos batido muito nessa tecla, estamos estudando o evangelho e nos elegendo companheiros interessados a cooperar. E as pessoas à nossa volta são componentes que nós precisamos delas e elas precisam de nós. 

E na medida em que vamos definindo nossa posição pessoal, hoje ou amanhã, passamos a ser convocados a cooperar.

Se o evangelho é o código perfeito do amor, e o amor é apenas aquilo que exteriorizo, enquanto eu não coloco a interação como algo efetivo em minha vida o meu dar fica desativado, fica estiolado na base. Conseguiu acompanhar? Vamos repetir. O evangelho propõe o amor e amor é somente aquilo que sai, certo?

Então, eu tenho que doar. Mas doar para quem? Para quem eu vou oferecer? Para quem eu vou dar?

É nessa hora que eu observo que não posso me manter fechado, que não posso viver sozinho no meu mundo, eu tenho que interagir com as pessoas e os valores em minha volta. O laboratório que vai me dar acesso efetivo a um estado melhor vai depender dessa interação com os outros, com as coisas, com os fatos e situações, com o mundo em si.

É por esta razão que a humanidade inteira cresce hoje na área da comunicação e a internet se expande para todos os cantos e para todos os setores. Às vezes, em cinco minutos a pessoa atende quatro telefonemas, responde a sete chamadas virtuais e, se bobear, fazendo algo enquanto interage. O momento é este.

A gente acha que vai fazer campanha de arrecadar ou doar alimentos para resolver o caso dos necessitados do estômago, ou que vai visitar hospital por causa dos doentes, mas não é nada disso. A gente vai porque está precisando treinar. Treinar ser dócil, ser amável, ser solidário. E assim nós começamos a alterar.

Nós que estudamos o evangelho estamos tentando adotar uma postura de profundo amor ao semelhante.

A caridade que se desenvolve nos grupos espirituais, a nível sistematizado, tem esse papel fundamental. Muita gente acha que está fazendo um bem excelente para os outros, ele integra a equipe tal de algum grupo. Essa fase vamos entendê-la como sendo o início. Mas qual é o objetivo dele estar na equipe de visita a hospital? Qual é? Dar conforto ao interno do hospital, mas acima desse objetivo é a sua integração no campo da sensibilização, do atendimento e da compreensão.

A gente não cresce sozinho. Ninguém cresce sozinho. Isso tem que ser levado em conta.

Deus nos espera nos outros. Se de um lado há os que nos canalizam recursos de cima, de outro estão os que se encontram abaixo esperando nossa cooperação. E olha que a cada instante somos chamados a exercer o amor ao próximo.

Se eu dissociar o meu interesse das pessoas à minha volta eu fico trabalhando em um plano de egocentrismo e o egocentrismo leva à perda da vida no seu sentido essencial de reconforto íntimo. Ou seja, passamos a não viver bem, pois a felicidade não consegue se multiplicar quando o amor não sabe dividir. O mundo dá muitas voltas e uma infinidade de indivíduos se esquece hoje de que amanhã serão, talvez, os necessitados e os réus, carentes de perdão e de socorro.

E quando começamos a fazer iniciamos o cumprimento da parte que nos compete na grande luta.

1 de set de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 2

AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO I

“36MESTRE, QUAL É O GRANDE MANDAMENTO NA LEI? 37E JESUS DISSE-LHE: AMARÁS O SENHOR TEU DEUS DE TODO O TEU CORAÇÃO, E DE TODA A TUA ALMA, E DE TODO O TEU PENSAMENTO. 38ESTE É O PRIMEIRO E GRANDE MANDAMENTO. 39E O SEGUNDO, SEMELHANTE A ESTE, É: AMARÁS O TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO.” MATEUS 22:36-39

Porque existe uma proposta ou um sentimento egoísta muito grande dentro de nós? Isso é uma coisa para se pensar. É porque quando o primeiro mandamento sintetiza "amar a Deus e ao próximo como a ti mesmo" nos foram concedidas experiências milenares para que a gente aprendesse a nos valorizar. Valorizar a nós mesmos, sabendo buscar aquilo que a gente realmente quer.

De fato, para poder amar ao próximo nós temos que ter aprendido nos amar muito.

Nós temos que ter uma identidade de amor a nós mesmos muito elevada. Nós temos que nutrir um amor muito grande por nós próprios. Afinal, se eu não me amo, como é que eu vou amar o próximo? Nós temos o direito de zelar por nós mesmos.

O próprio fato de estarmos estudando, tentando aprender, já demonstra isso. Podemos ter ótimos planos e ideias, querer resolver problemas e ajudar a muitas pessoas, mas lá no fundo nós temos que nos amar. Amar com muito carinho mesmo. Porque sabemos que se nos amarmos, dentro do que o evangelho propõe, nós seremos instrumentos mais dignos e mais úteis nas mãos da espiritualidade superior em favor dos que necessitam.

Eu sei que pode parecer estranho e até meio esdrúxulo de falar, mas o amor fraterno e universal que nós almejamos tanto, e que temos por meta alcançar na intimidade do coração, se embasa no grande egoísmo que nós já tivemos.

Então, no primeiro mandamento, "amarás o senhor teu Deus de todo o teu coração e ao próximo como a ti mesmo", esse "como a ti mesmo" já define que somos acentuadamente amantes de nós mesmos. Não resta dúvida que muitos extrapolam esse amor para entrar no egocentrismo, no egoísmo. Sabemos que na aplicação desse sentimento, tanto no amor a Deus e ao próximo, temos que trabalhar com a nossa instrumentalidade, todavia costumamos entrar em terreno adentro do processo egoístico, passando a amar a nós mesmos bem mais do que ao próximo. De fato, a nossa linha egocêntrica ao favorecimento pessoal ainda é o grande grito da nossa personalidade. E o amor não tem nada a ver com egoísmo. Aliás, egoísmo ou egocentrismo é uma coisa muito triste. É uma exaltação complicada, uma vibração distorcida que instaura problemas e dilui a nossa paz.

E por nutrir esse sentimento egoísta por longo tempo nós aprendemos a querer o melhor para nós, o que é normal.

Vamos notar que até nos momentos de fazer alguma coisa que vise o bem alheio mantemos uma certa sombra de egoísmo. Quer dizer, em muitas situações costumamos querer fazer alguma coisa de bom porque estamos muito ligados a nós. 

Assim é quando assinamos lista de natal ou manifestamos cooperação de alguma forma. Não raras vezes alguém dá uma coisa a outro pensando no céu que vai lhe ser assegurado. E não tem jeito, nós temos que nos amar muito mesmo. Às vezes, até de maneira distorcida para podermos valorizar o que pode ser bom para o semelhante. E isto nós já aprendemos. Concorda? Nós temos uma capacidade muito grande de saber o que é bom, de querer o melhor para nós. Essa parte nós sabemos muito bem, estamos escolados, tiramos de letra.

O amor universal se embasa no amor egoísta que já tivemos e o amar a nós mesmos não significa a vulgarização de uma nova teoria de auto-adoração. De forma alguma, pois se pensarmos bem o egoísmo está com os seus dias contados.

E uma coisa é fato: quanto mais uma criatura ama a si própria mais expectativa surge em relação a ela por parte da espiritualidade, no sentido de que quando essa tônica mudar ninguém a segura. Percebeu? O amor ao próximo como a nós mesmos é uma extensão do primeiro mandamento. Significa que se nós trabalharmos no parâmetro do amor, do trabalho e da realização com base naquilo que a gente sabe que é bom para nós, que se resolvermos fazer ao próximo aquilo que nós sabemos que nos agrada, você já pensou? Ninguém vai segurar a gente. Vamos ser verdadeiros baluartes no amor, porque a dificuldade toda está nessa reversão. Estamos custando demais a escapar da velha concha do individualismo. Mas não precisamos nos entristecer ou apavorar porque a gente chega lá.

Nós todos vivemos em bloco. Não adianta se isolar disso, porque é da lei. Os seres vivem num contexto universalista. A lei de interdependência ou cooperação funciona na extensão de todo universo. É tônica no universo, ponto de maior realce e importância. Não estamos mais naquele processo de cada qual viver por si.

Simplesmente não podemos evoluir de modo personalístico. O personalismo, se a gente pensar bem, tem sido um componente que trava o processo evolucional.

Então, um recado que fica para nós hoje é de que sem dúvida não podemos evoluir de modo isolado. Nós vivemos em função dos outros porque a interdependência mora na base de todos os fenômenos da vida. Não há o que discutir, a vida é interação.

Todos nós dependemos uns dos outros na desoneração dos compromissos que nos competem. 

Queiramos acreditar, ou não, nos achamos magneticamente associados uns aos outros e é um erro lamentável despender as nossas forças sem proveito para ninguém, sob a medida de nosso egoísmo, vaidade ou limitação pessoal.

Receber da vida nós sempre recebemos e continuamos recebendo. O momento agora é de doar.

Estamos aqui estudando o evangelho, de certa forma juntos, a conta gotas, e o evangelho está sendo trabalhado para nos ensinar que acabou o período de cada qual viver para si. Definitivamente. E isso não é apenas uma teoria ou filosofia bonita. Quem quiser ser feliz daqui para a frente tem que fazer algo pelos outros, abrir-se no interesse dos outros. É preciso abrir se quiser ser feliz.

Quem quiser estar bem consigo próprio tem que fazer algo no campo universalista, tem que colocar as suas possibilidades, de alguma forma, ao dispor dos outros.

Não há mais como encontrar a felicidade plena envolto nas amarras do egocentrismo. Não tem como evoluir esquecido dos outros. Daqui para frente nossa felicidade depende muito em fazer os outros felizes. Não dá mais para encontrar a felicidade encasulando-se num processo egocêntrico. Não tem como encontrar a sustentação de felicidade naquela regra egoísta antiga. Hoje ninguém mais é feliz por si próprio. Não tem jeito, necessitamos uns dos outros.

Porque ninguém vive só. Alguém pode até viver só, mas não viver bem!

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