10 de set de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 4

A BENEFÍCIO PRÓPRIO

Em todos os núcleos religiosos, sem exceção, fala-se em caridade e na necessidade de se praticá-la.

Os espíritos de luz comumente nos recomendam a sua prática. Até podemos dizer que o fazem com certa insistência. E não é à toa. Assim fazendo eles estão nos orientando no sentido de nossa própria evolução, e isto é importante de se ter em conta. Felizmente, muitos já entendem o sentido científico que a caridade representa em nossa vida em termos de bem viver. E é o que precisamos saber: o porque de exercê-la, o que ela pode nos propiciar de bom, porque temos que fazê-la, o que ela nos propicia de positivo, qual o seu significado prático em nossa vida.

Para início de conversa, caridade é um exercício espiritual e quem pratica o bem coloca em movimento forças da alma.

Outro ponto da maior importância é que auxiliamos os outros a benefício de nós mesmos. Quer dizer, no exercício da caridade eu estou para resolver o meu problema.

Isto precisa ficar bem claro. Na essência do amor cada qual dá a si próprio, não dá ao outro. Assim, quando aderimos as atividades dessa ordem nós vamos na busca de alívio para as nossas dores, fazemos na esperança de superar os nossos problemas, buscando um piso de maior equilíbrio e segurança. É óbvio que com essa atitude nós estamos dando um passo grande à frente, alcançando um patamar acima, mas vamos notar que estamos ali para salvar a nós mesmos. É bonito a gente entender que se tivermos mérito e disposição de trabalho nós visitamos um ambiente de necessidade para atender a nossa necessidade.

Isto ocorre porque nas leis de cooperação cada criatura transporta consigo questões essenciais e necessidades intransferíveis. E não vai ser o meu auxílio, o seu auxílio ou de quem quer que seja, que vai resolver o campo cármico de alguém. 

Percebeu? Não tem nenhum de nós que seja capaz de mudar as linhas cármicas de alguém. O serviço do próprio resgate é simplesmente pessoal e intransferível. No plano da estrutura evolucional cada um tem que passar a sua dificuldade. A sementeira é livre, cada qual semeia da forma que quer, mas a colheita é obrigatória.

Vamos tentar dar uma ilustração disso agora. Veja bem, o que nos chega (de fora para dentro) vem como justiça. Certo? Já tivemos a oportunidade de trabalhar isto no capítulo anterior (A Justiça e o Amor). É um instrumento de toque, de indução, componente de sensibilização, de despertamento. E o que sai é amor.

Está dando para acompanhar? Assim, o que chega é informação, ou seja, a informação vem antes da formação. Ela não modifica a minha estrutura interna, não forma nada, não altera, não muda, apenas prepara, potencializa. E o que sai, o que eu faço, o que eu realizo, o que eu aplico, aí sim, produz formação. Tanto é dessa forma que o simples conhecimento intelectivo, a simples arregimentação de valores informativos, não altera em nada o meu ser. Ok? Apenas me prontifica para a mudança. Resultado: no exercício da caridade, onde A→ auxilia → B, repare que B é o auxiliado, o que recebe, ao passo que A é o auxiliador, o elemento que oferece. Deu uma ideia? A caridade de A é efetuada em seu benefício próprio, embora seja capaz de auxiliar o B de alguma forma.

O processo de cooperação não consiste em resolver a dificuldade do outro, tirá-lo da dificuldade, pois a dificuldade é instrumento para o crescimento. Logo, toda caridade tem o objetivo de auxiliar o recebedor, o auxiliado, no despertamento da necessidade de seu reajustamento íntimo e intransferível, porque na vida a lei preceitua que cada um semeia e colhe na medida do que lançou.

Será que ficou claro? Eu terei condições um dia de chegar perto de uma criatura que está com um problema na perna e dizer para ela: "Você vai andar!" Nós vamos ter esse poder. Com certeza. Isso não sou eu que estou dizendo, porque eu posso ser muita coisa, mas louco eu não sou. Foi Jesus quem falou isso. Mas nós podemos fazer isso agora? A espiritualidade, às vezes, pode colocar alguém sem andar durante dez anos para ela não fazer muita bobagem e com dois anos a gente coloca ela de pé?! Pode uma coisa dessa? Tem lógica a gente fazer andar agora quem não pode estar andando? Pense bem. A gente coloca para andar e ela começa a aprontar. Quem você acha que é o responsável? Somos nós.

Alguém pode dizer: "Espera aí, Marco Antônio, deixa ver se eu entendi. Você quer dizer, então, que quem sofre, sofre porque precisa. Logo, eu não preciso ajudar, certo? Não preciso e não devo fazer nada!" Não. Não é isso. Vamos clarear.

Cada pessoa na vida tem o seu compromisso e as nossas obrigações são sagradas. Ok? Eu não posso interferir no processo evolucional dos outros, mas eu também não posso viver fora do contexto de aproximação dos seres com interdependência. A sociedade em muitos ângulos exige praticidade e nós temos aprendido continuamente que para muitas questões nós temos mesmo que ser práticos. Mas também não podemos ser indiferentes e insensíveis. É aí que está a legítima chave da nossa felicidade. Na busca por nossas conquistas nós não podemos manter nenhum sentimento de isolamento, pois é impossível edificar a felicidade sem sensibilização quanto ao semelhante. Em outras palavras, não podemos ignorar fazer alguma coisa na extensão da felicidade comum a nosso próprio benefício.

Logo, seja pela clareza ou pela lógica que o nosso raciocínio já alcança, seja pela nossa indiferença pessoal, pela neutralidade ou frieza do nosso sentimento, não importa, simplesmente não podemos marginalizar alguém ao sofrimento e à dor.

A vida não reclama o meu sacrifício integral em favor dos outros, mas eu não posso esquecer do minuto de apreço aos outros. Eu não posso deixar a minha vida para viver uma vida exclusiva em função do semelhante, e está certo. Isso eu não devo fazer, porque senão eu me alieno. Mas eu tenho que pensar nas necessidades do outro. Ficou Claro? Então, vamos. Façamos o bem e sem ansiedade.

Façamos o melhor que pudermos, mas sem aquela pretensão de querer resolver os problemas alheios. Semeemos sempre e em toda parte, e nada de estacionarmos na exigência de resultados. Para isso, vamos nos lembrar que o lavrador pode espalhar sementes à vontade e onde quer que esteja, todavia precisa reconhecer que a germinação, o crescimento e o resultado pertencem a Deus.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...