18 de set de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 6

A ESSÊNCIA DA CARIDADE

“DAI ANTES ESMOLA DO QUE TIVERDES.” LUCAS 11:41

“E DISSE PEDRO: NÃO TENHO PRATA NEM OURO; MAS O QUE TENHO ISSO TE DOU. EM NOME DE JESUS CRISTO, O NAZARENO, LEVANTA-TE E ANDA.” ATOS 3:6

Eu não sei se você já parou para avaliar, mas o nosso amor ao próximo por enquanto é um amor todo convencional. Todo sistematizado, todo enquadrado, todo mecanizado. Um exemplo para clarear é o seguinte: Imagine um casal de uma cidade grande passeando em uma cidadezinha do interior. Um lugar bem pobre, um lugarejo como se costuma dizer. O casal elegante desce do carro luxuoso e começa a caminhar por uma estradinha singela, quando se depara com um menino descalço. Cabeça baixa, roupinha simples e sujo de poeira, que fala ao homem bem vestido:

- Moço, me dá um trocado?
- Quê isso, menino. Sai pra lá.
- Oh, moço, só um trocado. É que eu estou com fome. Só um trocado, pra eu comprar um pão na venda do seu João.
- Sai pra lá, menino. Já falei. Não tenho dinheiro não!
- Eduardo Alberto (diz a esposa, a essa altura indignada com a insensibilidade e frieza do marido), para com isso! Não vê que o menino está com fome?! Dá logo um trocado pra ele.
E o homem enfia a mão no bolso, remexe os dedos e tira de lá algumas moedas, que dá ao garoto:
- Toma, menino.

Aí a gente pergunta, a nível de esclarecimento. Neste caso em questão, houve caridade? O que você acha? A resposta é simples e nem precisa pensar muito: Não! De modo algum. Caridade é que não houve.

Veja bem, nós já tivemos a oportunidade de entender que caridade é o amor na sua faixa de aplicação. Certo? Então, o indivíduo deu a esmola, mas a caridade não circulou. Ele deu para ficar livre. E a gente observa que ali ocorreu apenas uma transferência de valores, nada mais do que isso. Aliás, daí nós podemos notar que em certas situações pode acontecer da própria moeda dada significar um grande desastre para nós, ao invés de fazer o papel esperado.

E como resultante da lei de equilíbrio que preside o movimento das trocas no organismo da vida, nas relações entre pessoas o pedido de providência material tem o sentido e a utilidade oportuna. Sendo assim, nossa caridade surge em cima da esmola. A prática do bem exterior é um ensinamento e apelo para que cheguemos à prática do bem interior. Quer dizer, a esmola trabalha a intimidade do ser, razão pela qual as obras da caridade material somente alcançam aquela feição divina quando propiciam a espiritualização do cooperador, renovando-lhe os valores íntimos. E é a partir desse ponto o grande começo, pois quem não exercita dar alguma coisa dificilmente chegará um dia a doar-se.

A grande verdade é que a caridade não depende da bolsa. Sabe porquê? Porque ela é fonte nascida no coração. A caridade legítima traz amor em sua essencialidade, saímos de nós e cedemos em favor do próximo. É a luta que estamos tentando aprender. Por isso, não espere sobras na carteira para cooperar e atender aos planos da caridade. Se você acha que somente as providências materiais e o dinheiro são a base corrente da caridade, lembra que Jesus enriqueceu a terra inteira sem possuir uma pedra sequer onde repousar a cabeça.

Os instrumentos materiais funcionem como elementos canalizadores, todavia não são os valores de sustentação finalística. Em outras palavras, é comum a gente achar que a transferência de um componente tangível que ofertamos representa a efetiva doação para alguém, quando no fundo esse componente não representa o valor transferido. Quer dizer, o valor material transferido foi apenas o condutor da essência canalizada. Nossa, complicou? Será que falei grego?

Fique tranquilo, que vamos clarear. Nós temos frisado o tempo todo que caridade é a aplicação do amor, é a dinâmica do amor. Certo até aí? E para que isso ocorra nós vamos pegar essa essência e vamos transferi-la por meio do pão, por meio de uma roupa, de um dinheiro, de um conselho, de um abraço.

Então, é preciso saber separar o que é o componente tangível da beneficência do que é a essência sutil da caridade. Percebeu? Separar o instrumento didático do conteúdo didático. A pessoa, às vezes, vem com o dinheiro e o dinheiro não é a caridade. O pão dado também é o instrumento da caridade, é o veículo da caridade, mas não é a caridade. Isto é extremamente importante e tem que ser entendido. Esses dois componentes representam instrumentos canalizadores da caridade, que vão servir para direcionar a caridade, que na sua essência não é material. Eles vão ser apenas os instrumentos usados para transferir a essência que é a vibração do amor veiculada naquele ato. Conseguir perceber agora? O dinheiro e o pão, entre outros, não são elementos de sustentação finalística, mas elementos canalizadores do amor.

E essa essência, que é a parcela de amor dinamizada, vai ser transferida através do dinheiro, do pão, de um abraço, de um conselho, etc. Conclusão: o valor vibracional, a carga de emoções e de vibração veiculada na ação no bem, é que vai determinar o grau que tange a linha qualitativa, que premia e eleva a criatura, ou a entristece e onera. 

O evangelho chega a ser claro e objetivo ao nos convidar a dar do que temos. Afinal de contas, dar o que temos (propriedade) é diferente de dar o que detemos (posse). Ninguém pode dar a outrem aquilo que ainda não possui no coração.

Na prática, é imperioso dar do que somos, descerrar a própria intimidade e espalhar os bens do espírito. Dar de nós mesmos em tolerância construtiva, divina compreensão e amor fraternal. E todos nós, em qualquer ambiente, sem exceção, podemos distribuir das riquezas que fluem de nós próprios, cuja aquisição é inacessível à moeda comum. Só não podemos nos esquecer, como disse o mestre Jesus, que dar a quem pede é muito diferente de dar o que se pede.

E para dar, para transformar o que recebemos de cima em recursos capazes de nos projetar para uma linha mais feliz, nós simplesmente temos que utilizar os padrões que estão ao nosso alcance, os recursos com os quais nos é possível agir.

Então, não se iluda com grandezas. Ninguém no mundo é tão pobre que nada possa dar a outro de si mesmo. E nenhuma atividade nos campos do amor é insignificante.

Pessoa alguma pode avaliar a importância das pequeninas doações, onde toda migalha de amor dada está registrada na lei maior em favor de quem a emite. As árvores mais altas nascem de sementes minúsculas e o menor gesto de bondade, segundo Jesus, dispensado em seu nome, será sempre considerado no mundo maior como uma oferenda endereçada a ele próprio. Isso é reconfortante.

O bem mais humilde é parcela sagrada e a repercussão da sua prática é inimaginável.

Uma lágrima que console e esclareça um coração atormentado vale mais que mil moedas. Já pensou nisso? Os talentos da fé, o conhecimento superior, o dom de consolar e a capacidade de servir, embora sejam conquistas obtidas por nosso esforço, são bênçãos do criador em nosso coração singelo de criatura. E propicia muita felicidade íntima ver brotar um sorriso em um coração que está precisando de força e de segurança e nós o auxiliamos de alguma forma com as nossas possibilidades.

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