22 de set de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 7

A CARIDADE PERIFÉRICA

O evangelho é código moral que visa adentrar e trabalhar a intimidade do ser, predispondo-o a um trabalho em favor dos que sofrem. E se ele vem trabalhar a intimidade ele chega para instaurar uma luta íntima. Luta esta que é de uma beleza extraordinária, porém que tem o seu preço. Preço, por sinal, que muitos não querem pagar.

É por isso que muitas pessoas, no exercício do amor aplicado, preferem fazer o bem lá fora.

Não acontece assim no âmbito das religiões? Tem muita gente nas diversas religiões que trabalha só para a assistência social. Não adianta querer mostrar outro lado, a importância do estudo, a importância de se renovar intimamente, a importância de ler. "Ler? Quê isso? Isso é perder tempo. Você tem é que ajudar o próximo!" Não é assim que elas falam? Investem na caridade periférica e costumam misturar o que é ação periférica com a proposta essencial.

Chegam mesmo a dizer que o que gostam na religião que afeiçoam é o trabalho social: as visitas, as campanhas, as atividades externas. Segundo esses companheiros afirmam, os trabalhos de natureza extrínseca são os melhores.

E para essa grande maioria, às vezes é melhor mesmo. É preferível as atividades dessa natureza do que ter que mexer na própria intimidade, ter que mexer dentro do coração, assimilar informações, rever conceitos, alterar concepções, reformar posturas. É claro que essa postura de buscar o extrínseco é válida e contém seus méritos, mas cá para nós, venhamos e convenhamos, se ficamos só nisso nos mantemos na condição mais fácil e tranquila, porque a luta reeducacional a gente sabe bem, não é uma luta fácil. O duro é ter que engolir e metabolizar tanta coisa no campo da proposta de mudança.

Assim, é muito comum a pessoa passar a vida inteira servindo e ajudando, aqui e ali, no entanto sem alterações íntimas. Quer dizer, a mesma pessoa que vai chegar ao plano espiritual quando do seu desencarne é a mesma que chegou aqui quando reencarnou. Percebeu? Ela trabalhou no campo exterior, mas não conseguiu dobrar determinadas estruturas que estão dentro dela há muito tempo.

Não utilizou a luz da religião para efetivar o clareamento do próprio coração. Sem contar que tem pessoas que dizem assim: "Não tem jeito, eu sou assim mesmo. Não vou mudar. Eu nasci assim e vou morrer assim." Fazer o quê? Não se abrem para mudar para melhor, não se esforçam no testemunho das mudanças.

Então, se fizermos muito lá fora e fizermos pouco dentro de nós mesmos, no sentido de melhoria,  vai haver resultado positivo, óbvio, mas de que natureza? Ganhamos amigos, mas continuamos às escuras. E, às vezes, continua o mesmo indivíduo por anos, com as mesmas trevas, as mesmas complicações, as mesmas emoções desvairadas. Isso não acontece? Sem contar que tem muita gente operando em termos de caridade e de amor e que é verdadeiro verdugo dentro de casa. Não tem? Eu disse em casa, mas você pode entender como sendo em outro ambiente também. O elemento complica demais, complica na administração do dinheiro, complica no ambiente familiar, complica no trabalho, no campo social, complica não sei onde, e ainda leva a virtude de ter dado pão para o necessitado.

Agora, cá para nós, não adianta a pessoa distribuir um caminhão de cesta básica e ficar indisposto com aquele que está ajudando a descarregar o caminhão. Ou, então, fazer distribuição no natal e durante a distribuição falar palavrão, ficar de cara fechada, reclamando com um, reclamando com outro, brigando com os meninos. O que você acha? Se faz dessa forma, de maneira endurecida, ele enche o estômago dos outros, mas não vibra e não chega a alcançar o plano de harmonia íntima. Ele mantém o coração voltado e entregue a um campo de cooperação, mas o seu plano educacional deixa muito a desejar.

Temos aprendido que para que a transferência vibracional se faça ao nível de caridade, precisamos transferir a essencialidade alimentícia que é o amor. Assim, pode acontecer do indivíduo ter feito amigos dando pão para os necessitados, mas não ter feito luz em seu interior. E esse é o desafio que nós estamos tentando apropriar aqui.

É fácil alguém chegar ao final da encarnação e falar: "lá embaixo eu fiz 500 campanhas de doação." Não pode acontecer? Ela pode chegar lá com a contabilidade em dia, todavia com a mesma luzinha íntima com a qual chegou aqui.

Precisamos ter essa questão em conta. Com isso eu não quero dizer que não houve mérito nas campanhas. De forma alguma. Houve, sim. Mas também falamos que é bem mais fácil lidar lá fora do que mexer dentro do coração. E o que podemos depreender disto? É que nós temos de certa forma que acabar com essa ideia de trabalhar somente na periferia. Tem muita gente que está trabalhando na periferia, e está fazendo o bem. Não está errado não. Mas vamos guardar o seguinte, o que manda é a nossa estruturação reeducacional. Ficou claro?

É preciso que a caridade expresse luz íntima, porque é a partir daí que realmente somos felizes na doação. Vamos tentar explicar melhor? O trabalho nosso em termos de cooperação deve ser um reflexo da luta íntima que nós estamos levando a efeito. O fundamental é a nossa luta íntima, a nossa reeducação e melhoria pessoal, pois na hora em que a gente se converte para as realidades maiores da vida a gente aguenta ficar sozinho? Ou ficar indiferente? O que você acha? Não tem jeito. Uma coisa grita dentro da gente: Vamos cooperar.

Imagine um cooperador do plano físico desencarnando, chegando ao mundo espiritual e dizendo: "Em minha experiência terrena eu estive vinculado a uma religião na qual eu realizei uma tarefa durante muitos anos, em que cuidei de aproximadamente duzentos necessitados. Cuidei deles." Ótimo. No entanto, esses atendidos podem continuar como necessitados até hoje. Não pode? Deu uma ideia? 

Está acompanhando o raciocínio? Nós podemos chegar ao final da tarefa e aqueles que atendemos continuarem às portas, pedindo, na posição de mesmos necessitados de antes. Provavelmente, quando não estivermos mais lá outros possam estar para atendê-los. E quando o núcleo ou grupo fechar vão para outro. Porque a vida deles é aquela, eles estão numa luta natural. Talvez sem progresso, sem crescimento, sem melhoria real. Podemos encontrar com alguns deles no futuro, fazermos amigos, mas com grande possibilidade de estarem na mesma situação.

Daí a gente observa que assistência social é um plano operacional bonito de amor, mas ineficiente quanto aos resultados. No mundo de expiações e provas em que estamos, e caminhando a passos largos para a regeneração, certos departamentos não deveriam mais limitar-se a assistência social, mas serem também de promoção social. Concorda? Ou seja, com uma sistemática em que se atende as necessidades materiais do pão, da água, da roupa e, simultaneamente, busca-se promover o auxiliado na luta de libertação da sua carência.

Em uma linguagem simbólica, oferta-se o alimento, mas também ensina quanto ao plantio do trigo e as técnicas de elaboração do pão. Auxilia de uma forma efetiva, completa, ajudando o indivíduo a crescer. Porque a caridade maior é a de iluminar as consciências humanas em dificuldade a aprenderem se libertar das próprias carências, aprenderem novo caminho, a não se comprometerem mais.

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