27 de set de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 8

ONDE COMEÇA A CARIDADE

“E NÃO NOS CANSEMOS DE FAZER BEM, PORQUE A SEU TEMPO CEIFAREMOS, SE NÃO HOUVERMOS DESFALECIDO.” GÁLATAS 6:9

Não se assuste com o que eu vou dizer, mas aquele que está se esforçando e conseguindo eliminar o vício de fumar, se bobear está fazendo mais do que a gente em visitar sistematicamente uma casa para levar nosso plano de consolação. É nessa luta íntima que começa efetivamente o amor.

Mas, infelizmente, nós somos tão convictos de que o nosso amor é superior ao dos outros, que diminuímos o sorriso de alguém que fala: "Fulano, você não acredita, eu estou deixando de fumar." E o outro pensa consigo: "Grandes coisas. Já está largando tarde essa porcaria. Eu estou muito melhor. Nunca fumei."

Nessa hora, o amor do amigo que pensou dessa forma se apequena, retrai, é subtraído pela falta de compreensão, de entendimento, fraternidade e humildade. Porque a sua partícula de amor está envolvida pelo egoísmo e pela vaidade. Então, nós estamos falando isto para que possamos avaliar essas questões nos momentos de nossa intimidade, saber mais do que se passa em nosso coração.

Jesus esteve aqui. Fez o bem todo o tempo sem olhar a quem. Trouxe visão a cegos, consolidou a paz em tantos inquietos, deu a cura a uma enormidade de enfermos. E o que lhe deram em troca? Uma coroa de espinhos, açoites e a cruz do calvário. Não foi? Deram-lhe a "morte" enquanto ele veio trazer vida. No entanto, deram-lhe isso porque não podiam dar nada melhor. Concorda? É este precisamente o sentido do verbo dar: só podemos dar aquilo que temos. É impossível que alguém dê a outrem aquilo que não possui. Dar significa lançar de si, emitir, doar.

E para darmos qualquer coisa é fundamental que tenhamos, anteriormente, a sua propriedade. Como alguém pode dar amor quando não o tem? Como esperar a compreensão daqueles que ainda não a obtiveram? No mundo de hoje, como em todos os tempos, muitos apressados querem dar antes de possuir.

E, afinal de contas, onde deve começar a caridade? Já pensou nisso? Na verdade, não existe uma fórmula pronta, específica, fechada, mas com toda a certeza a caridade aos outros deve começar em nós próprios. A primeira providência, pelo que temos aprendido, é começar a ser menos oneroso para os outros, dar menos trabalho aos outros, dificultar menos a caminhada dos outros.

A caridade começa pelo peso que nós aliviamos em nossa área de atuação, seja em casa ou no ambiente de trabalho. Eu chego em casa e sou uma peça complicada para os meus familiares. Todo dia é a mesma coisa. Vou chegando e o pessoal vai saindo de fininho. No dia em que eu chegar e o pessoal não reclamar da minha chegada já está bom, está ótimo, eu já comecei a fazer caridade.

Percebeu? Na hora em que a gente começa a dar menos trabalho para os outros ou obstar menos a caminhada dos outros, sorrir um pouquinho mais e apegar-se com carinho ao sorriso, sentir alegria ao ver o semelhante melhor, a gente começa a sentir alguma coisa diferente, começa a sentir e a vibrar de maneira diferente. 

Esse esforço de iluminação deve iniciar-se pelo auto-domínio, pela disciplina dos nossos sentimentos inferiores, pelo trabalho silencioso com vistas à diminuição das próprias paixões. Calando a inquietação no campo íntimo, reclamando menos das coisas que nos desagradam, criticando menos e silenciando sempre onde não possamos agir em socorro do próximo.

"E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido." (Gálatas 6:9) Observou o ensinamento? "Não nos cansemos de fazer bem". Não tem o artigo (o), porque o grande desafio na nossa vida hoje não é fazer o bem, mas fazer bem. Não se trata de fazer o bem, e sim fazer bem.

Está dando para acompanhar? Isso aqui não é aula de português, mas se não tem artigo (o) não há objeto a especificar a natureza da ação. Daí, alguém pode perguntar: "Tudo bem, entendi, mas fazer bem o quê? O que nós devemos fazer bem?" Essa é exatamente a questão. A ausência do objeto já responde por si. A ausência do objeto define generalidade. Ou seja, o que devemos fazer bem? Resposta simples: tudo. Clareou? Temos que fazer tudo bem. O advérbio de modo (bem), de natureza positiva, sugere a maneira como esse fazer deve ser realizado, a forma como devemos fazer todas as coisas. Que devemos fazer tudo bem. Não importa se tratar-se de algo imposto, de uma obrigação ou de algo resultante da opção nossa no campo da escolha. Não existe essa distinção, porque fazer bem significa estar em plena linha de coerência com as forças que reinam no universo.

E "fazer bem" significa fazer bem feito, fazer com alegria, com entusiasmo, com dedicação, com disposição e bom ânimo. Aliás, o evangelho é claro ao nos dizer "misericórdia quero, e não sacrifício". Agora, nós sabemos que tudo o que fazemos bem, seja lá o que for, sempre podemos fazer melhor. Não é verdade? Isto nós temos aprendido, inclusive na prática. Logo, no fritar dos ovos fazer bem é aperfeiçoar-se. E aperfeiçoar-se não é criar um sistema de perfeccionismo, adotar um zelo extravagante ou caprichoso que tantas vezes não passa de manifestação da vaidade e do orgulho. Aperfeiçoar-se é tentar aproveitar com segurança e equilíbrio as engrenagens que a própria vida tem oferecido para nós. É aplicar com segurança, com método, com equilíbrio e discernimento aqueles melhores valores que nós temos aprendido. Em outras palavras, esse aperfeiçoamento é demonstrado e gratificante para nós próprios na medida em que colocamos no plano prático aquilo que conhecemos teoricamente, sem presunção, sem orgulho e sem achar que somos os melhores.

Nós sempre podemos e devemos nos aperfeiçoar, a definir que fazer "bem" é a capacidade nossa de auto-aperfeiçoamento, de auto-melhoramento. E vale a pena repetir, não é fazer o bem, é fazer bem.

Sabe porque não tem o artigo (o)? Porque fazer "o bem" pode muitas vezes ser uma atitude de exceção na vida de alguém, algo que a pessoa realiza de forma esporádica, ocasional, que faz circunstancialmente e que no fundo não constitui a síntese da sua vida.

De modo que o fazer bem, mas sem perfeccionismo, é o que nos projeta e sublima.

O importante é a gente se esforçar para fazer tudo bem, pois quando se persiste em fazer "bem" o fazer "o bem" surge como decorrência natural desse aperfeiçoamento.

Ficou claro? Agora, um detalhe é fundamental: a gente começa e não pode cansar. Ok?

"E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido" (Gálatas 6:9). Então, tem que seguir, tem que sequenciar, não pode parar. Se a porta é estreita (esforço para entrar) e o caminho é apertado (esforço para manter), não podemos nos cansar. Temos que manter, temos que persistir, sequenciar uma linha de ação condizente com a proposta adotada, afinal de contas a ceifa vai ser resultado dessa permanência.

Em razão do que lançarmos é que ceifaremos. E o bonito disso tudo é que se alcançarmos a consciência tranquila de que estamos fazendo "o bem" é porque atingimos de alguma forma o ponto de fazer "bem". Estamos efetivamente melhorando.

E quando o assunto são as obras não raro surgem as ideias megalomaníacas, aquela coisa de querer fazer grandezas: "Vou construir um grupo espiritual ou fundar uma igreja. A que eu frequentei cabia 150 pessoas, na minha eu vou colocar uma capacidade para 700." Olha, sinceramente, não é por aí. Não que isso não possa acontecer. De forma alguma. Até pode. Mas a questão não é tanto querer fazer acima daquilo que os nossos potenciais suportam. É começar a implementação de valores em nossa vida à partir das mínimas coisas.

A nossa dureza é no investimento de cada momento. Nas mínimas coisas. São as coisas mais simples que são capazes de nos promover e fazer com que se sublime em nossa intimidade o ponto natural de interação com a sociedade e a própria vida. O desafio é este. Identificar a forma como estou saindo de casa, se eu fechei o portão com educação ou se eu bati. Como é que eu bato a porta do carro. Como eu toco a campainha da minha casa quando chego lá. Qual a altura que eu estou colocando o som quando vou ouvir as minhas músicas. Como eu tenho cumprimentado as pessoas na rua, e se tenho cumprimentado. Como eu tenho atendido o chamado de um familiar. Como eu tenho atendido os telefonemas ultimamente. São esses tipos de coisas que somam.

Não há dúvida que a luta reeducacional tem seu preço. Felizmente, muitas pessoas são prestativas com o próximo em se tratando de necessidades materiais, todavia quase sempre continuam sendo menos boas para si mesmas.

Sabe porquê? Porque se esquecem da aplicação da luz do evangelho na vida prática.

Prometem muito com as palavras, operam pouco no campo dos sentimentos. Vez por outra, reafirmam os mais sadios propósitos de renovação, mas irritam-se facilmente diante das menores asperezas. Frequentam os templos católicos, as igrejas evangélicas, os grupos espíritas, no entanto voltam cada semana ao núcleo de preces nas mesmas condições em que estiveram na semana anterior, requisitando continuamente o conforto material e o auxílio exterior. Chegam a estudar o evangelho, ou pelo menos a letra do evangelho, e com grande dificuldade cumprem a promessa de cooperação com Jesus em si próprias, base fundamental da verdadeira iluminação. E não se atentam para o fato de que esquecidos da reeducação interior todos nós nos mantemos suscetíveis de cair nos mesmos lances que nos cercearam o crescimento. E quando o assunto é caridade, de nada adianta alguém colocar necessitados na sua frente e auxiliá-los agindo com a mesma irritação, com a mesma complicação e com as mesmas trapalhadas que cultiva.

A caridade o que é? Não é o que entra na gente, é o que sai. Caridade é amor. 

Então, vamos entender que é preciso transformação no plano interior para se poder atuar nos campos da cooperação. É por esta razão que estamos tentando convencer a nós próprios, pelo conhecimento racional, de que precisamos melhorar, que é converter o coração às verdades maiores. Se a caridade é a aplicação do amor, a gente precisa primeiro sentir o amor para depois aplicar.

O primeiro movimento da caridade efetiva se faz pela renovação nos terrenos do próprio coração. Percebeu? É preciso que a gente se esforce intimamente e lute na renovação. Neste caso, renovar-se passa a ser a caridade essencial que precisamos adotar. Ninguém saberá de fato o que significa fazer o bem sem olhar a quem enquanto não redimensionar de seu interior os sentimentos negativos.

É bacana a nossa decisão de querer fazer algo, a nossa decisão ao trabalho. Só que temos que alterar a ideia de sair fazendo caridade naquele sentido sistematizado que, às vezes, as próprias religiões nos induzem a fazer, e dentro daquele processo exclusivamente egoístico. Se muitas pessoas investem na caridade periférica, vamos adotar de nossa parte uma elaboração mais sólida, isto é, o trabalho como sendo o reflexo de nossa luta íntima. A evolução de alguém não se dá pelo número de pessoas que esse alguém atende, e sim pela natureza e condições de luz que ele forma dentro de si. Isso a gente tem que entender.

A luz é que projeta e não os elementos com os quais nós lidamos.

Os elementos com que nós lidamos são instrumentos projetores da evolução. O que efetivamente atesta o progresso é a luz. Em outras palavras, que o trabalho vertido em benefício dos outros seja um reflexo natural de nossa intimidade, de nossa melhoria. Que a capacidade de operar no amor represente uma atitude que já temos embutida em nosso psiquismo.

Porque é muito simples. Na hora em que a gente se converte para as realidades maiores da vida a gente não aguenta ficar sozinho ou indiferente. Aguenta? É muito difícil uma criatura com sensibilidade, amor e humildade conseguir mudar sem registrar alguma coisa em favor daqueles que se acham em volta. Não tem jeito. 

Esse amor que almejamos em escalas cada vez mais ampliadas deve traduzir-se em esforço próprio, em auto-educação, em cumprimento do dever, obediência às leis de realização e trabalho, perseverança na fé e desejo sincero de aprender com o único e maior mestre de todos, Jesus.

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