9 de out de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 11

AJUDAR, NÃO RESOLVER I

Se o assunto é cooperação, tem um ângulo importante a ser analisado. Nossa ação não pode impedir a caminhada de alguém. Não é muito fácil assimilar isto, mas não podemos nutrir o desejo de interferir de modo finalístico na edificação ou nas decisões de quem quer que seja. Isso tem que ficar claro. Nós simplesmente não podemos violentar ninguém.

Quanto mais valores nós tivermos em nossas mãos, quanto mais recursos, mais nós vamos ter que ponderar quanto à nossa ação em favor dos semelhantes, para que na melhor das nossas intenções, no exercício do amor e da caridade, não venhamos a torpedear o encaminhamento natural da evolução de alguém, seja quem for esse alguém.

É algo para ser levado em conta. A liberdade interior é prerrogativa de todos os filhos do criador e não é possível organizar precipitados serviços de socorro para todos os que caem nos precipícios dos sofrimentos por ação propositada, com plena consciência de suas atitudes. Nós não podemos interferir em um sistema de vida de alguém que ainda é o sistema de vida eleito por ele. Enquanto a vida de alguém for aquela que ele elegeu não há porque alterá-la. Não será caridade dar àqueles que não querem receber e ninguém pode ajudar aquele que se desajuda.

Não vamos querer depressa o que Deus está esperando acontecer. Não adianta atropelarmos o mecanismo evolucional. Ninguém está aqui para desativar o funcionamento da lei. Para se ter ideia, em muitas circunstâncias o companheiro que queremos ajudar se mostra sob o domínio de enganos tão extensos que a forma de ajudá-lo é esperar que a vida lhe renove o campo do espírito.

Tem pessoas que elegem a morte como um sistema de vida. E fazer o quê? Não podemos tirar alguém da vida que ele está vivendo, e que para nós é morte, para tentar colocá-lo em uma vida que é pseudo-vida para ele e que ele não vai se adequar, não vai se situar. Não podemos falar com esse alguém que ele está em um estado equivocado e que ele tem que sair daquilo. Sabe por quê? Porque aquilo é a vida dele. Enquanto alguém está na treva densa, e se deleita com ela, essa treva é luz para ele. Aquilo propicia vida plena para ele, embora seja um estado de morte para quem já alcançou um degrau acima. O problema é criado quando o indivíduo descobre a morte e mesmo assim se deleita nela.  

Temos que saber esperar o momento de definição de vida dessas pessoas, dessas criaturas.

Às vezes, o amor fala alto dentro de nós, o desejo de auxiliar, mas nem sempre aquele que pretendemos ajudar está preparado, e costuma vir com paus e pedras nas mãos, com reações duras de várias formas. Assim, em primeiro lugar nós temos que notar se ele já tem potencial para sair daquela treva. É por isso que quando um professor vai trabalhar ele tem que saber os potenciais do aluno. Não adianta você querer lançar luz num coração que na sua ótica está meio apagado, embora na ótica dele exista uma luz enorme lá. Não adianta. Você fica querendo clareá-lo de qualquer maneira. Às vezes, a pessoa não aguenta mais do que a luzinha de um palito de fósforo ou de uma lanterninha, mas não, você não se contenta com isso, chega com toda vontade, com todo o entusiasmo, predisposto a jogar um farol de caminhão no coração dele.

O estudo do evangelho visa, entre outras coisas, sensibilizar o nosso coração relativamente às pessoas. Mas o assunto é muito extenso e em nome de nossa adesão ao evangelho nós não podemos largar nossa vida, nosso piso de evolução, para ficar por conta dos problemas dos outros. Talvez a gente queira ficar dando uma de papai do céu, resolvendo o caso de todo mundo e descuidando da nossa própria proposta.

Vamos entender uma coisa, nem sempre nós vamos conseguir ajudar quem queremos.

Precipitando acontecimentos as situações não são alcançadas. Para se ter ideia, ficamos querendo ajudar, mas se o indivíduo complicado não tiver condições de descomplicar-se ele é retirado do nosso lado. Sabia disso? Já notou situações assim? Ninguém pode, em razão de um sentimentalismo ou de uma ternura, prejudicar a marcha do serviço divino. Cada espírito tem as suas contas a acertar com a justiça do eterno e não devemos contrariar os desígnios de Deus. Em muitos casos, é aconselhado até mesmo deixar a criatura entregue a si mesma durante algum tempo, a fim de que ela possa reconsiderar o passado e identificar os valores que desprezou. Lembre disso, as lágrimas e remorsos na solidão do arrependimento são portadores de calma no espírito irrefletido e ninguém, em hipótese alguma, pode carregar a cruz do outro.

Aprendemos que de nossa parte a cooperação, a atitude positiva no bem, tem que ser efetuada a todo momento. Temos que investir o que pudermos em favor de quem está precisando. Só que não podemos adotar a posição que muita gente adota, inclusive nós às vezes, de querer resolver o problema dos outros. Isso não dá.

Não fique chateado com o que eu vou dizer, mas Jesus não resolve o problema de ninguém. Ele mesmo disse: "vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei" (Mateus 11:28). Mas nós não, nós não queremos só isso. Em várias ocasiões queremos até ser mais do que Jesus. Não queremos aliviar, queremos é resolver. E entramos de cabeça nas dificuldades dos outros como se nós pudéssemos saná-las. E esse é um grande problema que tem nos feito sofrer muito. Preste atenção, quando começamos a colocar na cabeça aquela ideia de resolver problema alheio nós começamos a circular em zona de perigo.

De forma alguma você pode fazer para o outro o que é atribuição do outro. Ok? O processo não é resolver a dificuldade da pessoa, tirá-la da dificuldade, porque sabemos que a dificuldade é instrumento para crescer. É certo que nos cabe trabalhar tanto quanto esteja ao nosso alcance pelo bem do próximo, todavia não podemos exonerar os nossos semelhantes das obrigações contraídas.

Auxiliemos dando o melhor que pudermos, com o discernimento de fazer ao outro o que gostaríamos que nos fosse feito, mas vamos observar o seguinte: uma coisa é ajudar alguém a levantar a sua cruz e até dar alguns passos com ela, e outra coisa bem diferente é querer carregar a cruz do outro. É diferente cooperar com o outro e avocar o problema do outro. Portanto, ajude, mas leve a sua vida.

Não podemos querer viver em função da solução dos problemas dos outros. Precisamos servir, mas sem nos prender. É de muito bom senso, uma questão até mesmo lógica, que não venhamos a assinar promissórias de quem quer que seja.

Você entendeu o que eu estou querendo dizer, não entendeu? Nada de avocar o débito alheio, de avocar a dificuldade de outra pessoa. Do contrário, quase sempre que o fazemos costumamos enveredar por áreas que geram ressonâncias e que costumam nos levar a várias preocupações. Se ficamos apenas nos problemas alheios podemos vir a nos alienar, isso sem contar que se eu avoco totalmente a dificuldade do outro eu estou impedindo a caminhada dele. Então, guarde isto: não adianta querer sair resolvendo o problema do mundo, mas podendo criar dificuldades que vão emergir dentro da gente amanhã.

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