17 de out de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 12 (Final)

AJUDAR, NÃO RESOLVER II

Quando envolvidos no plano da carne, muitas vezes nos inclinamos a verificar somente os efeitos sem a ponderação das origens. Entramos no terreno da cooperação, e isso que eu estou dizendo vale para todos nós, e costumamos querer resolver o problemas das pessoas de uma maneira totalmente esdrúxula e ineficiente.

Ficamos dando uma de papai do céu no contexto. Vemos a pessoa com um problema e logo já queremos resolver. O filho chega com um problema, não sabe como vai fazer, e o pai logo diz: "Não esquenta não, meu filho, que eu vou resolver. Deixa comigo, que eu dou um jeito!" Não é assim, ou eu estou exagerando? Talvez até mais por um impulso de sentimentalismo do que propriamente por uma condição educacional de amor. Quase sempre nós queremos avocar aquela posição do pai por excelência. Nós não nos atentamos muito para as mensagens intrínsecas das coisas, ainda olhamos de forma superficial, embalados pelo vapt-vupt dos acontecimentos.

É natural que a gente dê parcelas da nossa vida em favor dos outros, e queira aos outros aquilo que nos faz bem. A premissa é essa. Mas por causa dessa premissa de querer levar para os outros aquilo que é bom para nós, nós temos entrado em cada fria, em cada desajuste, que realmente não é fácil. Eu acho que a gente tem aprendido uma coisa, nós de fato temos buscado ajudar o semelhante, mas nem sempre vamos poder ajudá-lo na dimensão em que nós imaginamos.

O nosso grau de ansiedade é muito grande. Faz parte de nossa índole querer tudo de forma imediata.

Até na linha de cooperação nós queremos realizar a toque de caixa. Mas guarde o seguinte, não coloque o próximo como a razão de sua vida. Tentar resolver o problema do outro, se você não aprendeu ainda vai aprender, é utopia. Todos vamos aprender isso com o tempo.

Existe um plano de auxílio. O amor tem que ser amor na sua legitimidade. Com letra maiúscula. Não amor sentimentalismo. Percebeu? Nos círculos terrestres é comum viciarmos situações. A hipertrofia do sentimento é um mal comum em quase todos nós e o mecanismo de sentimentalismo é tão complicado quanto o sentimento totalmente fechado. Repare que, às vezes, embora estejamos envolvidos na melhor das intenções, a ansiedade de implementar o amor nos faz sofrer. Em tantas situações, com a nossa atuação baseada unicamente no sentimento exacerbado, nós precipitamos as respostas da lei e é preciso consultar a linha racional para não ficarmos suscetíveis a envolvimentos dessa ordem.

Como não temos um conhecimento muito nítido das condições intrínsecas ou espirituais daqueles com os quais convivemos, costumamos ficar entristecidos quando desejamos que as pessoas mais próximas a nós tenham uma mentalidade que elas ainda não estão preparadas para vivenciá-la. Conhecer informativamente elas já conhecem, mas a vivência do conteúdo é outra história.

E nós ignoramos que no plano natural da vida, tantas vezes a nossa solução para um problema alheio pode até mesmo significar colocar em risco a nossa estabilidade. Porque nós passamos a dificultar a manifestação da lei. Deu uma ideia? Então, vamos ter calma. Pode não parecer, mas está tudo debaixo da abrangência da visão superior em Deus. Vamos fazer o que pudermos, com carinho e sem precipitação, porque a precipitação tem levado muita gente às lágrimas.

Tem muita gente que em termos de auxílio fecha o circuito. "Eu estou cumprindo a minha parte. Ajudo mesmo! Faço o que tenho que fazer. É meu filho, minha mãe, meu tio, meu esposo, minha mulher." Faz tudo para o outro e acha que está dando seu recado. Só que pode não estar dando nada. O que essa pessoa pode é estar em desarmonia até na busca de sua própria segurança. 

Como também podemos encontrar indivíduos querendo ajuda e que são, entre aspas, verdadeiros parasitas. Não tem gente assim? Ele nota que alguém quer ajudá-lo e fica ali, sufocando de tudo que é jeito. Este se acomodou, dá uma de vítima e quer que algo seja sempre em favor dele. Cobra, pede, insiste. A pessoa que quer ajudá-lo pode fazer e soltar tudo para essa criatura. O ano inteiro ajudou, 364 dias. Um dia não fez. Sabe o que acontece? Todos os 364 dias que fez são jogados por terra, são desconsiderados, anulados na concepção errônea do que recebeu e não deu valor.

Nós estamos trazendo o assunto não para ditar normas, porque as normas tem que desaparecer. As normas nada mais são do que a adequação correta às leis. Agora, só se consegue penetrar além das normas quem as entende, absorve e as transforma em ponto estrutural da própria individualidade.

Tem muita gente por aí vivendo dramas dessa natureza: "Não sei se ainda tenho que continuar ajudando o meu filho ou se já está na hora de partir para outra". Não tem acontecido casos assim? "Até onde eu vou ter que aguentar aquela criatura?" Um outro chega e fala: "Quê isso? Você está fazendo demais. Se fosse comigo eu tinha feito isso, já tinha deixado, já tinha largado, ..." E por aí, vai. Só que "se fosse comigo" não é a solução, porque a situação envolve caracteres que apresentam abrangência maior do que parece para o que está envolvido.

Os questionamentos chegam e quando não se alcança o  discernimento abre-se para a criatura uma interrogação, levando-a a ter que aprender. Por isso, existe sempre um desafio para as novas faixas de aprendizagem, para que a lucidez e a intuição realmente funcionem de modo tranquilo e criterioso. E a pessoa vai notando que na medida em que ela começa a se preocupar com isso ela vai adquirindo uma condição bem mais favorável para discernir com segurança.

É preciso caminhar com tranquilidade e cooperar sem desespero pessoal. Quantas vezes a gente percebe a necessidade básica do semelhante, possui os instrumentos para essa criatura e temos que calar? Porque o processo não é resolver dificuldade da pessoa, tirá-la da dificuldade. Certo? Já aprendemos isso, a dificuldade é instrumento útil para fazer crescer.

O auxílio não pode ser por um sistema de manifestação de sentimento periférico não. 

É fundamental compreender, saber o que está acontecendo ali. Quase sempre os mais complicados, os mais sofridos, os mais desajustados, sabem porque eles estão nessa situação? Porque elegeram de maneira determinante o direito de ser feliz. Elegeram um método de forma fechada, fixaram o objetivo e simplesmente foram em cima dele. Então, para ajudar o criador tem que entrar toda a estrutura da mente: razão e sentimento. Pode acontecer de estarmos caminhando por um ponto e ter outros ângulos a mais que nós não temos acesso, que nós não visualizamos, não percebemos.

Quando começamos a querer ajudar nós temos que ter um fundamento nessa ajuda. Repare que se houve aprovação da sua consciência não tem problema. Acabou, você não vai levar remorso. Agora, se bater a ideia de que você poderia ter feito, poderia ter ajudado mais, aí é uma questão que começa a remoer na sua intimidade. O importante é ter calma e operar com naturalidade, que a gente nota que a vida acaba respondendo com carinho para nós.

O problema é mais uma questão de consciência. Até que ponto se deve ajudar, até onde enxergar a outra pessoa como sendo um parasita. Coisas desse tipo. Até que ponto fica a nossa consciência.

É muito comum nos dias atuais questionamentos dessa natureza: "Será que eu posso ajudar um pouquinho mais? Estou preocupado se não estou alimentando uma complicação, uma criminalidade". Não está acontecendo hoje? Precisamos avaliar com carinho as nossas ações, até onde acreditamos estar auxiliando e até onde estamos sendo coniventes com os erros e os disparates do outro. Nos trabalhos de auxílio é necessário ter o bom senso de saber quando se deva efetivamente investir. Não basta fazer ou não fazer e deixar a vida seguir. É fundamental entender que o que manda agora não é o ato de fazer ou não fazer, mas sim a tranquilidade e a serenidade de agir de maneira correta.

E notamos que usando desse equilíbrio, ligando sentimento e razão com inteligência, o nosso amor, por menor que ele seja, vai adquirindo uma moldura de sabedoria.

O desafio não é atender a vontade do semelhante, é pacificar a nossa postura no contexto. É estar bem. Deu uma ideia? Ter a consciência de que nós fizemos o que podíamos. 

Tem mãe que desencarna sem ter conseguido atingir o objetivo com o filho, não tem? E ela pode estar bem do outro lado porque olha, pensa e diz: "Eu fiz o que eu podia. O que eu pude fazer, eu fiz!" Ela está bem. Uma outra, com o mesmo caso, pode não estar bem. Desencarna, acha que fez e não fez. É por isso que entra o painel do conhecimento acerca do evangelho. Porque esse conhecimento vai criando liberdade e amplitude no nosso campo de análise.

A pessoa que está em uma situação melhor não pode ter pena da que está em uma situação pior. Eu falo pena naquele sentido negativo, de "coitado, puxa, eu estou aqui e ele está lá". Isso não pode existir. O que está aqui não pode ter pena, pois se tiver pena ele está demonstrando que não está entendendo o mecanismo da evolução. Ele pode ter compaixão do sofrimento do outro, e isto é diferente. Mas o sentimento de pena representa ainda dificuldades, que podem até dificultar a passagem do indivíduo que se tem pena para uma posição melhor.

Sem contar que por uma carga emotiva distorcida muita gente, e nós também nos incluímos, costuma se arrepender de muita coisa que fez para tirar obstáculos dos outros. E avalia depois se o indivíduo não deveria ter permanecido lá mais um pouquinho de tempo. Mas porque precipitou? O que faltava na época? Um visão de profundidade.

É por esta razão que até para ter misericórdia nós temos que conhecer. Ela não pode ser apenas por um simples processo de manifestação de sentimento periférico. 

Guarde isso: não se ajuda o criador somente por um impulso de sentimentalismo nosso. Tanto o sentimento doentio, como a frieza correta, não edificam o bem. Estamos investindo no evangelho para nos habilitarmos a ser servos fieis e o servo fiel não é o que chora ao contemplar as desventuras alheias ou tampouco as observa impassível a pretexto de não interferir na resposta da justiça. Aquele que quer auxiliar tem que estudar mesmo. Tem que mergulhar no plano do conhecimento, porque senão ele vira secretário, com muita boa vontade, mas apenas cheio de sentimento. E ao sentimento tem que associar o quê? A linha intelectiva da razão.

Deu uma ideia? É por isso que temos que conhecer. Operar sem permitir que os acontecimentos do mundo exterior nos precipitem nos aspectos negativos da emotividade.

Somente uma visão abrangente da realidade da vida, aliada ao sacrifício próprio, é capaz de redimir a nossa alma. Na hora que o auxiliador alcança uma visão clara da realidade divina, de que tanto ele é filho de Deus como o que está em uma situação abaixo, ele se asserena e trabalha sem a preocupação específica de querer resolver o problema alheio.

Todos nós mantemos os nossos interesses, os nossos objetivos e as nossas prioridades e, sem dúvida alguma, todos eles com uma ótica centrada no agora.

Continuamente nós temos batido nessa tecla, para se edificar em base de amor é preciso inicialmente conhecer. É fundamental a instrução para se ter a consciência do que está fazendo. Porque tem muita gente que opera sem conhecer e, às vezes, sabe o que acontece? Cai em grandes enrascadas. Não tem outra, nós temos que aprender a observar a marcha dos acontecimentos. O verdadeiro cooperador apresenta uma profunda capacidade de análise. Nos terrenos da cooperação e do auxílio, quanto mais valores nós tivermos em nossas mãos, quanto mais conhecimento dispormos, mais nós vamos ter que ponderar quanto à nossa ação em favor do semelhante, para que nós, na melhor das intenções, no exercício do amor e da caridade, não venhamos a torpedear o encaminhamento natural da evolução de quem quer que seja.

E tem mais, agir em nome do criador, como instrumento útil dele, exige uma ampla capacidade de abrangência de passado, futuro e conhecimento das leis divinas. 

Entre outras coisas, é indispensável identificar as causas. Nós possuímos um interesse e uma visão centrados no agora, no entanto, a misericórdia do alto visualiza tudo sob uma ótica que envolve o ontem e o amanhã a curto, médio e longo prazo do que vai se delinear. E, comumente, a resolução do problema do semelhante, sob a nossa ótica, significa a quebra da oportunidade sob a ótica divina para esse filho do criador. Será que deu para acompanhar? Então, vamos agir com prudência.

O bom trabalhador é aquele que ajuda sem fugir ao equilíbrio necessário, realizando todas as ações benéficas que estejam ao seu alcance consciente de que seu esforço traduz a vontade divina. E como a gente pode ajudar os outros, em nome da amplitude dos padrões do evangelho, sem estudar, sem conhecer, sem interessar-se num processo dessa ordem? Como é que nós vamos avançar no plano operacional da dinâmica divina, como instrumentos da misericórdia divina, sem esses conhecimentos que nós temos tido o ensejo de receber? À medida em que progredimos a nossa mente vai alcançando novos parâmetros, vai ficando mais elástica e mais ampliada. E o que é bonito, quando a gente conhece de maneira mais ampla os quadros visualizados tudo fica mais fácil. Bem mais fácil.

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