1 de out de 2015

Cap 53 - A Caridade (2ª edição) - Parte 9

AS PRIMEIRAS OBRAS

“4TENHO, PORÉM, CONTRA TI QUE DEIXASTE O TEU PRIMEIRO AMOR. 5LEMBRA-TE, POIS, DE ONDE CAÍSTE, E ARREPENDE-TE, E PRATICA AS PRIMEIRAS OBRAS; QUANDO NÃO, BREVEMENTE A TI VIREI, E TIRAREI DO SEU LUGAR O TEU CASTIÇAL, SE NÃO TE ARREPENDERES.” APOCALIPSE 2:4-5

É interessante essa questão. O versículo mencionado não fala tenho contra ti que pisaste na bola em tal época ou em tal lugar, que cometeste um deslize, que ti deixaste envolver com um certo problema ou com algum tipo de vício. Que falhaste descaracterizando sua personalidade no erro. Não. Nada disso.

O problema todo é um só, que você faltou com o amor aplicado. O tenho contra ti é que deixou a primeira caridade. Que você deixou de operar com aquilo que perante a sua consciência já é uma condição que não pode mais deixar de ser feita.

E se você não pratica o amor, tem que passar a praticar, porque a não prática vai detonar respostas negativas por parte da lei, como a retirada do castiçal, que vamos abordar em outro capítulo. Logo, começar por onde? A primeira caridade está bem clara e não é novidade: "amar a Deus acima de todas as coisas".

Só que o amar a Deus é amplo demais, é infinito, razão pela qual não é algo sistematizado, mecanizado. Quer dizer, de certa forma não dá para saber ao certo qual é a primeira caridade. Dá para saber? Não dá. E tanto não dá que o versículo nos sugere lembrar onde caímos (“Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras.” Apocalipse 2:4-5).

Ficou claro? Não está dimensionado qual a natureza da obra ou o tamanho da obra, e sim chamando ao campo realizador das obras que nos compete apresentar individualmente no contexto da vida. Fala da necessidade de fazermos um levantamento das possibilidades. E para isso é preciso lembrar onde caímos e nos reerguer, porque a primeira caridade vai se dar no âmbito da consciência de cada um. Essa primeira caridade nos primeiros movimentos de sensibilização para com o próximo, no seu sentido operacional, está muito ligada ao impulso da consciência. São aquelas almas ansiosas por refazerem o destino e que se acham nas primeiras esperanças, em meio a disputas mais ásperas por arrebentarem o casulo das paixões inferiores na aspiração de crescer.

"Lembra-te, pois, de onde caíste". Repare que quase sempre a nossa queda se dá pelo esquecimento. 

Se você analisar com carinho, vai notar que na maioria das circunstâncias de nossa queda nós esquecemos a lei divina, literalmente esquecemos a lei do criador. É um pouco esquisito, mas à medida em que se refinam os conhecimentos intelectuais parece que nós vamos tendo a impressão de que passa a existir no homem menos respeito com relação às dádivas sagradas. Então, não tem outra, toda queda nossa se dá em decorrência do esquecimento à lei divina, que toda ela objetiva uma ação positiva para o encaminhamento da redenção dos seres.

Por isso, a primeira obra vai depender de cada criatura. Lembrar de onde caiu é porque existem marcas dentro de nós. E nada mais lógico, porque é simplesmente impossível evoluir sem lembrar. Se, por um lado, a queda se dá pelo esquecimento, por outro a ascensão se faz pela lembrança. E a própria propaganda nos ensina que o que não é visto não é lembrado. Aquilo que a gente não exercita a gente tende a esquecer. Tem que lembrar para se reerguer.

E lembrar tem um sentido bastante aplicativo. Equivale a pessoa reter consigo mesma naquele sentido prático, de ação. Diz respeito à assimilação para a implantação de um sistema novo de vida. O primeiro estágio é lembrar. De modo que temos que fazer um trabalho de levantamento íntimo. Reconhecer o tipo de sentimento que nos fez penalizar, que serviu de base para a nossa queda. Não há como operar um crescimento consciente sem uma auto-análise. Temos que nos reciclar, olhar para dentro do nosso coração e tirar o ponto de referência para uma caminhada mais segura, mais tranquila. Avaliar nossas dificuldades e evidenciar nossos valores positivos. Muitas vezes voltar ao ponto de partida, voltar ao início, levantar nossos potenciais, nossas possibilidades e retornarmos às primeiras obras. Pois é assim que se cresce de maneira sólida e efetiva.

O fato é que não existe, em tese, uma redenção linear. Quer dizer, a elevação é como a subida a uma longa escada, com alguns tropeços. Cada um vai notar que nos primeiros passos de edificação no bem nós ficamos mesmo suscetíveis de cair.

Costumamos subir um degrau, descer dois, subir três, e por aí vai, subindo escada afora. Inicialmente, a consciência nos dá uma pancada leve, uma chamada de atenção. Que tem contra nós que deixamos de amar, para logo a seguir nos estimular convidando-nos à retomada. Daí se observa que é necessário partir no íntimo das primeiras obras para se adquirir força, ganhar autoridade na cooperação, identificar as propostas de cima, saber o que é bom cultivar e o que é preciso deixar de lado e não mais cultivar. E, acima de tudo, fazer.

Nós todos temos andado cheios de ansiedades e de desejos. E quando entramos nessa proposta de buscar o conhecimento, nessa proposta de estudar, na verdade não fazemos a mínima ideia do que vai nos aguardar na frente. Mas passamos a sentir algo se iniciando dentro da gente. Um chamado sutil, e até de forma velada e inconsciente, de que precisamos cooperar, que precisamos ser útil.

Não acontece assim? A criatura sente que precisa fazer alguma coisa lá fora para resolver a sua dificuldade. Percebe que precisa cooperar com o mundo para resolver o seu problema íntimo. Ela vai atuar, mas está vendo primeiro o seu interesse. Passa a auxiliar porque está preocupada com a sua situação, ela tem uma auto-adoração muito grande por si mesma. Está calçando, ainda, sapatos de chumbo, no sentido bastante acanhado, bastante egocêntrico, embora a cabeça já rode por aí, começando a ver coisas e a perceber sob uma ótica diferenciada. Ela vai auxiliar porque sente que precisa ficar numa boa, que precisa melhorar, ter mais saúde, melhorar nisso, melhorar naquilo. Fica entre a auto-adoração e o cultivo do amor a Deus. Então, vigora um mercantilismo nesse início. Seu interesse essencial não é auxiliar o próximo com as melhores possibilidades, mas está buscando salvar a própria pele na engrenagem da evolução. Está trabalhando a faceta do interesse.

É assim. Quando somos convocados a operar, quando nosso coração acha que temos que ajudar, o fazemos buscando limpar um verdadeiro território complicado de nosso espírito. Auxiliamos sim, mas por enquanto ao nível da justiça.

Percebeu? Não fazemos com aquele amor em plenitude, mas objetivando respaldar o espírito, o nosso próprio destino. Com isso, nós não queremos dizer que não tenha amor não. Tem, mas por enquanto não vibramos muito com o semelhante. É um amor muito ligado à justiça. Estamos saindo da massa, alterando as linhas de concepção, por enquanto estamos querendo matar o homem velho, resolver nossos problemas, mudar nossos conceitos, erguer novas propostas. É um trabalho que se faz com um amor relativamente sumido no contexto. Uma ação no bem com um certo peso voltado para o lado reeducacional.

Uma ligação muito forte com a justiça. Uma necessidade que sentimos de fazer alguma coisa ao outro para resolvermos a nossa dificuldade, o nosso problema.

E esse lance de quebrar a conveniência pessoal, quebrar a diretriz egoística que cultivamos para nos abrirmos ao trabalho efetivo em nome do amor é um desafio que estamos vivendo hoje. Muita gente entra para tirar a dor. Outros também entram para se resguardarem, porque estão vivendo debaixo de um regime de privilégios. Por esse motivo, fica difícil definir se agimos por justiça ou por amor. Mas como a justiça é parcela do amor, na medida em que vamos nos integrando e conhecendo mais acerca do mecanismo outros aspectos vão surgindo.

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