9 de jan de 2016

Cap 55 - O Valor do Trabalho (2ª edição) - Parte 1

LÁGRIMAS E FUGA

As pessoas se reúnem nos diversos núcleos religiosos e os espíritos superiores lhes trazem a visão celeste, ampliando o campo das esperanças. Os corações humanos se congregam para receber as mensagens vindas do céu, de forma extática e venturosa. É uma beleza. Dá-se a consolação sublime e o conforto desejado.

Mas se os emissários celestes revelam certas particularidades da vida espiritual, falando-lhes do valor do trabalho, da necessidade do esforço próprio, da responsabilidade pessoal, da luta edificante, da necessidade de estudo e do auto-aperfeiçoamento, a coisa muda. O interesse diminui, a desatenção aparece e fisionomias passam a revelar uma desagradável impressão.

Ao contrário das primeiras expectativas, muitos espantam-se e, de alguma forma, tentam o recuo, quando não enxergam o céu das facilidades, a região inerte dos favores divinos, não observam os acontecimentos milagrosos, tampouco o repouso beatífico. 

E quando escutam que o trabalhador não se eleva de mão beijada, mas sim à custa de si mesmo, o desânimo disfarçado se generaliza. Afinal, o que a grande maioria busca é um céu fácil depois da morte do corpo, um céu que seja conquistado apenas por afirmações doutrinárias.

E as desculpas? Quanto a estas, então, nem se fala. Sempre foram a porta de escape daqueles que abandonam as próprias obrigações. Se o assunto é colaboração, quanto pretextos inventados pelas criaturas terrestres para fugirem ao testemunho da verdade divina nas tarefas que lhe são próprias?! Os argumentos são os mais variáveis. Alegam excessos de deveres ("olha, eu até que queria ajudar outras pessoas, queria mesmo, mas você sabe, estou sem tempo"), afirmam falta de desejo ("não me sinto motivado ainda"), declaram-se muito jovens para cultivar as realidades divinas ("acho que ainda não chegou a minha hora"), afirmam-se inúteis para servi-las ("não sei se estou pronto"), reclamam que a família ocupa o tempo ("ando cheio de problemas, não tenho como fazer nada agora"), queixam-se da solidão ("preciso resolver umas coisas primeiro"), e por aí, vai.

Os doentes dizem que não podem, os que não estão doentes afirmam que não precisam. 

Enfim, muitos não querem contato com as dificuldades e vão arrumando desculpas.

E é desculpa para todo tipo e todo gosto. E o pior de tudo, algumas desculpas são elaboradas de forma tão contundente, e com tanta justificativa, que os ouvintes mais perspicazes chegam às vezes a se convencerem de que realmente se encontram diante de grandes sofredores ou de criaturas francamente incapazes de auxiliar, passando até mesmo a dar-lhes razão e sustentá-las na fuga.

Isso, sem contar a grande quantidade de indivíduos que buscam o encarceramento orgânico para fugir sem resgatar. Você conhece gente assim? Quase todos nós conhecemos. Apegam-se à própria desdita como falsa justificativa para prosseguirem no sofrimento que lhes agrada. Parece que gostam de sofrer. Cultuam o sofrimento e sentem um prazer velado nisso. Se analisarmos com profundidade a questão, enquanto sofrem ou alimentam a ideia de sofrimento sentem-se, de certa forma, desonerados de certos compromissos para com a própria vida.

Tem também outro grupo, dos que sofrem e buscam auxílio. Só que com um detalhe, engana-se quem pensa que querem o progresso. Querem nada. Querem livrar-se da doença e dos problemas, mas não querem se curar. Não querem mudar, não querem melhorar, não querem se reeducar. Buscam a solução das dificuldades sabe pra quê? Para fazerem quando melhorarem as mesmas coisas que faziam antes do estabelecimento da dificuldade. Nada mais.

Em todos os ambientes do mundo multidões imensas de seres humanos choram diante das mínimas contrariedades e dos menores dissabores que a vida lhes apresenta.

Quantas pessoas comumente ficam chateadas, frustradas, tristes e desesperadas por motivos que, se for analisar, nem são tão contundentes assim? Por qualquer motivo mais ou menos e já começam a chorar. Pode-se dizer que nós, sem dúvida, trazemos essa herança desde os primeiros dias de nossa existência corporal. É assim que crescemos, é assim que se dá com o bebê. Não é? Se ele sente frio, se sente sede, se está sujinho de cocô ou molhando de xixi, não espera um segundo para começar a chorar. O choro se faz imediato ao estabelecimento da necessidade. A plenos pulmões investe suas poucas energias no choro. Chora sem economias, e uma mão mágica surge de algum lugar para satisfazer a sua singular necessidade. Muitos crescem assim. Quer dizer, crescem, mas não amadurecem.

Deixam de ser bebês, todavia continuam exteriorizando suas decepções, mínimas contrariedades e desgostos com o choro, com o semblante fechado e com a cara de poucos amigos. Isto porque no fundo se consideram, ainda, aqueles bebês com as suas dificuldades externadas. Esperam, de maneira infundada, por mãos mágicas vindas de algum lugar para lhes suprirem os inconvenientes.

E tenho que confessar que faz pouco tempo eu ouvi de uma conhecida uma expressão interessante: "Marco, eu não sei se você já reparou, mas o mundo está cheio de bebezão!" Confesso mesmo que achei esta expressão interessantíssima. Interessante e bem humorada: bebezão!

O ponteiro do relógio gira, a gente cresce e descobre com o decorrer do tempo que a coisa não é tão assim.

Eu não tenho nenhuma pretensão de desapontá-lo no início deste capítulo, mas a verdade é que a natureza não se perturba para satisfazer os pontos de vista de quem quer que seja. E mais, a aflição não resolve problemas.

Uma pessoa entrou no quarto e se trancou por horas ou, quem sabe, dias. O que aconteceu? O namoro de cinco anos acabou, o projeto que cultivava por algum tempo se arruinou ou qualquer outra coisa aconteceu. Você que está lendo também pode criar outros motivos. E ela não quer saber. Acredita naquele instante que muito da sua vida perdeu o sentido e não pensa em mais nada, só em chorar. E olha que ela chora sem parar. 

E porquê eu estou criando este exemplo? Porque às vezes nós temos mesmo que chorar. Não há dúvida que o choro em certos momentos desonera, extravasa, saneia, limpa, desoprime. Mas em hipótese alguma o choro pode nos paralisar. Percebeu? A criatura pode chorar durante muito tempo, no entanto, o sol continuará nascendo, os pássaros continuarão cantando, as nuvens indo e vindo. E quando o choro acabar, porque uma hora vai ter que acabar, independente do tempo que durar, sabe onde a pessoa vai estar? Ela estará na mesma situação.

Daí, que a gente aprenda o seguinte: felicidade é construída com base no suor, não com lágrima.

Acontece de nós termos que chorar uma vez ou outra até para valorizarmos o suor e descobrirmos que o suor é o componente que propicia, porém vamos deixar de fazer das dificuldades um casulo. Lágrimas não substituem o suor. Não vale a pena manter uma chuva de lágrimas despropositadas diante da insatisfação ou da falta cometida, porque elas não substituem o suor que se deve verter em benefício da própria felicidade.

Uma coisa vale a pena aprender. Aprender, guardar e levar conosco pela caminhada da vida. É inútil ficar assentado lamentando-se dos infortúnios, sejam eles infortúnios reais ou imaginários (porque muitos são imaginários, só existem na nossa cabeça). 

Não é possível fugir do ego infeliz. Nós não estamos aqui com este estudo querendo sofisticar a nossa cabeça. Nada disso. Estamos buscando encontrar um caminho para a gente ter o direito de pegar o carro do nosso destino e ir caminhando da melhor maneira.

E podemos começar fazendo um balanço pessoal das horas gastas em lamentações prejudiciais. Mesmo sem uma contabilidade oficial podemos afirmar com certeza que não são poucas. Muitos amigos nossos tem fincado os pés nos aspectos da retaguarda e fazem de tudo para não enxergar a realidade do progresso. Mas uma frase importante para ouvir é que é preciso marchar com o tempo. Isso mesmo. Marchar com o tempo. Ninguém pode escapar dos problemas e fugir das obrigações indefinidamente. Então, preste atenção no que eu vou dizer. Não te percas na lamentação indébita. Multidões de convidados para lavoura de luz, engodados de si próprios, acordam para a verdade em momento tardio, atados às ruinosas consequências da própria leviandade e não encontram outra alternativa senão a de esperarem por outras reencarnações.

A inércia é ilusão. O tédio é deserção. E a preguiça é fuga que a lei sempre pune com as aflições da retaguarda.

Se nós não marcharmos com o tempo sabe quando vamos ser punidos? Das mais variadas formas vamos ser punidos pela vida lá na frente. Sabe porquê? Porque o progresso é um comboio de rodas infatigáveis que releva para trás todos aqueles que se rebelam contra os imperativos da frente. Sabe aqueles companheiros que exterminaram os intentos nobres e os votos edificantes? Tanto quanto aqueles que desprezaram os projetos superiores e abandonaram as obras? Sabe o que invariavelmente acontece com eles? Voltarão cedo ou tarde ao labor reconstrutivo. E o que é pior, retornarão ao serviço que a vida lhes assinala precisamente no ponto exato em que praticaram a deserção. Pense nisso.

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