26 de abr de 2016

Cap 56 - João Batista (3ª edição) - Parte 8

O ARREPENDIMENTO I

Pelo que temos aprendido, quando a pessoa chega ao arrependimento é porque normalmente ela já passou pelas causas e pelos trâmites do remorso. Ela está cheia de remorso. E só arrepende porque conseguiu sair do remorso.

Arrepender significa mais do que ter remorso. Cedo ou tarde surge a todo aquele que fez o que não devia ou andou por caminhos pouco aconselháveis. Essa proposta de arrepender-se faz parte do mecanismo de projeção da evolução para uma conscientização do ser e a espiritualidade acaba encaminhando os fatos para um redirecionamento seguro da caminhada. O indivíduo deu exemplos menos felizes, deixa o estado de remorso e entra no de arrependimento.

Em suma, o arrependimento define um estado além do remorso e aquém da obra de ressarcimento, resgate ou reparação. Representa o primeiro passo para a regeneração.

E arrepender é simplesmente fundamental. Sabe porquê? Porque o arrependimento vai criar um sistema de desvinculação. Ele chega mediante a confissão íntima da culpa e sem ele não existe reparação de forma consciente, muito menos a necessidade de mudança. O lance do arrependimento corresponde a uma proposta sem a qual vai ser muito difícil alguém ter êxito na nova disposição.

É por não buscarmos tantas vezes o arrependimento que o nosso caminho em muitos aspectos tem sido o caminho da dor. Negando o arrependimento a gente aciona a lei do retorno. Então, o recado que nós temos aprendido é que se não nos dispusermos a avocar o arrependimento para caminhar, ainda que com dores, tribulações e dificuldades, não avançamos e podemos entrar em complicações maiores.

O arrependimento implica em maior elasticidade dos componentes dentro da gente.

Cá para nós, ele é o processo inicial do crescimento. Mais do que remorso, o arrependimento aponta um sistema de crescimento consciente. Diante de um fracasso há sempre um recomeço e o arrepender nos indica uma dinâmica natural de crescimento.

Como energia que precede o esforço regenerador, implica em elasticidade, em visualização. Quem arrepende já está vencendo o remorso e pensando em como vai reparar dentro da lei. Logo, temos que saber abraçar o arrependimento que nos leva à reparação.

Sempre há a recuperação do pecador que se arrepende. E ninguém progride sem renovar-se. Sem que nos retifiquemos não corrigiremos o roteiro em que marchamos.

Quando começamos a idealizar a correção, a mudança de postura, tentando encontrar a humildade e sair da carência que nos dificulta, vamos notar que nos sentimos incapacitados a operar, um pouco resistentes ao trabalho, e permanecemos ainda selecionando padrões e presos a uma série de coisas. E isso é normal. É porque estamos tentando acertar, querendo encontrar aquela linha de crescimento, aquela trilha que realmente possa nos auxiliar de forma conveniente. E para isso é preciso ter essa presença do arrependimento. O arrepender-se é no sentido de preparar uma nova linha de ajustes. E não tem outra, para se abreviar o tormento que flagela a consciência de mil modos é fundamental realizar a renovação mental, aliás o único meio de recuperar a harmonia íntima.

Quando o arrependimento emerge sob as bases do remorso nós ficamos a um passo de começar a reparar a falta cometida. De fato ele traz uma vibração diferente dentro de si. Aquele que se arrepende se preocupa em como vai reparar aquilo dentro da lei, trabalha a preparação do caminho para o saneamento do erro.

O indivíduo passa a nutrir um processo de recomposição do destino relativamente ao que tem feito até agora. O arrependimento é uma sensibilização em que se observa que o que foi feito ou se está fazendo não é compatível com a nova linha de consciência. É este o seu significado. Pelo arrependimento, é como se a individualidade reconhecesse que ela se curva diante da lei de Deus e se projeta para a frente, e entra no campo da humildade. Através dele surge um conflito íntimo em que a pessoa percebe que não pode mais sequenciar aquilo. E se ela vinha descendo de erro em erro, para e deixa de se comprometer para iniciar o retorno pela mudança das próprias ações.

Agora tem um detalhe: a maioria das pessoas que se arrepende não avança. Quer dizer, faz aquele teatro de arrependido, entra na fossa, cai em depressão, daqui a pouco dá um jeito de sair dessa situação, aquilo passa e fica por isso mesmo.

Logo, essa coisa da criatura curtir arrependimento, mas continuar errando e dando pancada não quer dizer nada. Não significa nada. Não auxilia em nada. Afinal de contas, o que queremos com o arrependimento não é sair da fria em que entramos? 

No aspecto de projeção evolucional do ser o arrependimento envolve muita coisa. 

O bonito é quando nós entendemos a própria queda, a própria falha e esse entendimento se faz acompanhado de uma vontade de se lançar ao trabalho. A gente sente o arrependimento e busca implementar medidas saneadoras de reparação. No seu sentido fechado, puramente de quitação, arrepender equivale a primeira milha que você oferece ou vestido que você entrega no pagamento do seu débito.

20 de abr de 2016

Cap 56 - João Batista (3ª edição) - Parte 7

O REMORSO

Existe um determinismo divino que estabelece a evolução no universo. E criatura humana alguma consegue fugir à lei, tampouco fugir à consciência de si mesma, onde Deus escreveu os seus soberanos códigos.

Quando a individualidade envereda por situações menos felizes no campo moral, seguindo em linha contrária aos preceitos que o seu campo mental já aponta, e desvirtuando-se de um contexto aplicativo no qual já deveria estar nele, é como se ela tentasse recalcitrar dando passos diferentes aos que deveria estar dando. Daí, o que misericórdia do criador faz? Passa a agir para que o despertar dessa individualidade se faça em cima de um processo que se inicia com o remorso.

O remorso nós vamos entendê-lo como sendo o aspecto inicial de uma trilogia da redenção.

Vigora uma linha natural de remorso, arrependimento e reparação definindo uma proposta e sequência de fatos que determinam a projeção nossa para novas escalas, onde o remorso é a etapa inicial. Após a falta cometida, cedo ou tarde dá-se um processo que se inicia com o remorso. Percebeu? O início da ativação íntima da mudança começa pelo remorso. O remorso é o componente geratriz que antecede e prepara o arrependimento e o arrependimento é a energia ou força anterior à reparação.

O sentimento de culpa tem machucado muita gente, não tem? O sentimento de culpa é um grande fantasma na vida de muita gente por aí. Tem gente sofrendo demais porque está debaixo disto. O indivíduo entende que não devia ter feito aquilo que fez, ele assume que o seu ato foi inadequado e admite a culpa, identifica a sua culpa. Fica instituída uma culpa. E ao admitir a culpa ele parte para o processo de fixação da culpa que é o remorso. Ficou claro?

E surge o remorso.

O mundo está cheio de gente vivendo com remorso. Para ser ter ideia, muitas dificuldades das pessoas no campo do desajuste na área psíquica, na área mental, muitos pontos em que tantas pessoas estão aí tentando solucioná-los ao nível de psicoterapias ou coisa parecida, realizando até tratamentos com o uso de medicamentos, vigora em cima disto o remorso corroendo a criatura. O remorso apresenta múltiplas manifestações e tem a sua base no sentimento de culpa, iniciado lá atrás quando a pessoa fugiu ao dever que lhe competia. Tanto que ao avaliar com profundidade a questão, o grau de entristecimento varia de acordo com o que aconteceu na linha alimentícia das causas.

O remorso consiste na inquietação da consciência, originada pela culpa ou pelo crime cometido.

Em torno dessa inquietação a onda viva e contínua do pensamento passa a enovelar-se em um circuito fechado sobre si mesma, aprisionando o campo mental às faixas inferiores da retaguarda. É como se fosse um disco de música arranhado em que, não conseguindo avançar para a etapa seguinte se mantém retido naquela mesma repetição. Para resumir, o remorso funciona como uma prisão sem grades. Isso mesmo, uma prisão íntima edificada pela culpa.

A criatura não consegue fugir. E sabe porquê? Porque a consciência pessoal não libera culpado algum sem a conveniente regularização do delito.

Nos círculos carnais, tanto quanto nas esferas espirituais, a paisagem real do espírito não é outra senão a do campo interior. E cada qual vive com as criações mais íntimas de sua alma. A morte, naquela concepção antiga que a gente trazia lá do passado de forma errônea, como sendo uma coisa definitiva, de que "morreu, acabou, nada existe mais" já era. Isso é coisa ultrapassada.

Os infratores, no corpo físico ou fora dele, permanecem algemados às consequências de suas ações. 

Mesmo com a possibilidade de poder ausentar-se da paisagem do crime o pensamento do infrator se mantém preso ao ambiente e à própria substância da falta cometida. Você sabia disso? A gente não tem como fugir da gente. A gente pode fugir dos ambientes físicos, mas da gente mesmo, da nossa própria consciência, não tem como. Ninguém, preste atenção, ninguém foge da consciência culpada e os sofredores levam consigo, onde forem, o estigma dos erros deliberados a que se entregaram.

Você conhece aquela expressão muito usada no meio policial que diz que "o criminoso sempre volta ao local do crime?" É por aí. O criminoso, por mais que tente, não consegue fugir da justiça universal, porque carrega o crime cometido em qualquer parte. 

E a consciência culpada nunca esquece. Sem contar que toda dívida tem sempre os fantasmas da cobrança. Então, vamos repetir, porque isto é importante: a consciência pessoal não libera culpado algum sem a conveniente regularização do delito e a culpa somente desaparece quando se liberta aqueles que lhe sofreram o mal. Não raras vezes o doloroso inferno íntimo constitui a aflitiva condenação.

O remorso é uma posição puramente mental, não é? Sem maiores ressonâncias.

Pense bem, por ser uma prisão, embora sem grades, a criatura não consegue fugir. E é um estado estático, um intervalo embaraçoso, onde a individualidade se mantém em circuito fechado. E ele não ocorre à toa, significa a constatação da queda. E tem uma finalidade. Afinal, ficar centrado nele apenas complica a dificuldade. 

Quem cria a complicação tem, por si mesmo, que descomplicar. Está entendendo? Essa é a matemática da vida. É necessário que o agente assimile ideias novas com as quais passe a trabalhar, ainda que vagarosamente, melhorando a sua visão interior e estruturando um novo destino. A renovação mental é a renovação da vida e não existe regeneração de fora sem regeneração de dentro.

O estacionamento não resolve problema algum, da mesma forma que a fuga estimulada pelo remorso não auxilia quem quer que seja na solução das suas dívidas. 

Em outras palavras, o remorso é a força ou energia que prepara o arrependimento. Ao cair em remorso a criatura já começa a laborar um processo de arrependimento. E o arrependimento, por sua vez, define a visualização do reerguimento, constitui o estágio que antecede o esforço regenerador.

17 de abr de 2016

Cap 56 - João Batista (3ª edição) - Parte 6

O DESERTO

“E, NAQUELES DIAS, APARECEU JOÃO BATISTA PREGANDO NO DESERTO DA JUDÉIA.” MATEUS 3:1

Em seu aspecto espiritual, o deserto define para nós aquela área desprovida de edificação. É aquele terreno seco e com sentido de aridez que existe no interior de cada um de nós.

Ambiente que já não corresponde aos anseios mais íntimos que alguém cultivava. Ele surge e a criatura nele se identifica quando descobre que o que pensava ser a sua segurança vai acabar ou está sendo destruído, pois observa em redor e percebe que aquilo está acabando, aquilo já não tem mais substância mantenedora de vida.

Todos os sofrimentos são passagens nossas pelo deserto. E não há como buscar frutos dentro do deserto, não se pode buscar no deserto porque nele não há nada plantado.

Sempre que alguém sai de um contingente de valores, de reflexos e de interesses de sua vida, ele entra num deserto. Vamos gravar uma coisa com atenção: todas as vezes que a gente entra em um processo de transição, essa transição para quem quer mudar é deserto. O que é transição? É mudança de um estado para outro. Define um momento de novas edificações, é como se novos elementos pudessem emergir para novas posturas e posições no contexto do aprendizado.

Esse é o sistema evolucional. A transição mostra o outro lado, o outro ângulo, é mudança de um estado para outro. Estamos todos em uma fase de mudanças e o deserto é onde começa o mecanismo. Temos que ter a paciência indispensável para saber vivenciar esse momento de transição, que é um momento acentuadamente desconfortável. Toda transição é desconfortável, é o que está jogado na confusão.

É por isso que todo ângulo nosso para frente é deserto. Onde se situa o indivíduo é o terreno da sua segurança pessoal. Onde ele está é o seu habitat, é a área da sua construção, é algo sólido, tangível, concreto, seguro, e ele se sente à vontade com o que acontece ali. Mas quando ele investe para além ele nada tem, nada possui, nada pode, porque do outro lado é deserto. Deu uma ideia?

A visão do outro lado, a visão da frente, é uma visão esperançosa, porém é visão de deserto, porque não se está acostumado com isso. Para além é sempre deserto para quem estava do outro lado.

É por isso que é difícil mudar, é por isso que é difícil crescer. Mudar é entrar no deserto e entrar no deserto é se lançar num lugar que não se tem experiência. Muita coisa que nós ficamos pensando em fazer, laborar e levar adiante já nos incomoda diante do campo de nossa vida, já nos incomoda no plano mental de agora.

Tem gente que quer mudar alguma coisa e quando olha do outro lado não tem nada, é tudo diferente. A praia dele é onde ele está, o conforto e a segurança dele é do lado de cá. E por causa dessa dificuldade natural da mudança, quando começamos a jornada para conseguir nos firmar em uma nova posição é comum nós sermos visitados por vários temores. Como não é fácil mudar muitos ficam sem saber se devem ou não investir. Aliás, muitos optam por ficar onde estão mesmo, preferem ficar a vida toda desse lado de cá e abrem mão do investimento. Percebeu? Existe muita dificuldade em mudar, porque o negócio do outro lado é muito sério.

O resultado é que a ascensão não é tão fácil como parece. Para ser sincero, não tem nada de fácil.

Mas também não é tão complexa que vamos largar para lá e deixar de investir. De forma alguma. A verdade é que para se entrar no deserto é preciso pelo menos grande senso de coragem. Nesse deserto precisamos ter o cuidado e o equilíbrio a fim de valorizarmos a experiência com amor e paciência, porque é por aí que nós vamos dar os grandes passos trabalhando a nossa própria redenção.

O deserto define o ponto e aquele momento de acentuado desconforto e solidão. 

Até entrar nele vivemos muito bem assentados no mundo que elegemos, mas no deserto a gente perde a estabilidade, perde a segurança com que agimos, perde de certa forma o domínio do campo. Geralmente, nós sentimos uma necessidade grande de estar praticamente cem por cento do tempo envolvidos pelos outros, achamos que vamos ser aplaudidos pelos outros nessa nova área, porém no deserto passamos a ser criaturas completamente desconhecidas no contexto.

É assim mesmo. Podemos estar cercados por muita gente, vivendo numa cidade enorme, todavia passamos a ser grandes desconhecidos nesse terreno novo que se abre. 

O importante é não ficarmos tristes quando vivermos esse lance.

Todo mundo passa por um processo dessa ordem. Jesus, antes de começar o seu ministério, foi para o deserto e ficou lá quarenta dias. Paulo, quando recebeu o chamado na estrada de Damasco, o que aconteceu com ele? Você lembra? Ele ficou sozinho. E ficou perdido. E tanto ficou perdido que ele foi para o deserto, foi para lá e ficou três anos com Áquila e Prisca. Ficou criando condições e forças para alcançar as legítimas metas.

O deserto é onde qualquer estruturação em bases novas tem que se fundamentar. E não tem como ser diferente, no alcance aos objetivos mais altos da evolução é necessário o trânsito e a superação das intempéries desse ambiente difícil. É condição imperiosa para o verdadeiro progresso saber estar só. Quem não passar pelo processo da solidão não progride. Não se chega a Jesus sem passar por esse deserto. Para adquirirmos o equilíbrio e a segurança necessários nós estamos, cada um a seu tempo, passando por todos esses transtornos. Para quê? Para entendermos o semelhante no grande futuro, para aprendermos como ajudar e trabalhar com ele quando estivermos no campo do amor.

Sendo assim, não se entristeça quando você estiver vivendo essa fase de isolamento.

A vida traz momentos assim para o nosso engrandecimento. Quem estiver num deserto em determinadas facetas da vida, mantenha a calma e procure encontrar caminhos. Sabe porquê? Porque tem uma indicativa no meio disto. Quando nos encontramos só, aparentemente perdidos, tem algo a ser revelado. E isso não sou eu que estou falando, é da lei. Há algo a ser revelado. Não tem quem não passe por momentos desses na grande proposta de crescimento consciente.

São lances da própria vida. O que acontece é que em geral não mantemos a paciência e o equilíbrio indispensáveis de busca dentro dessa solidão e costumamos apelar para o desespero, o que faz a situação se enovelar, às vezes, por longo tempo.

Vamos ter calma. Em quantas situações, quando nos achamos tristes e sozinhos, não indagamos "meu Deus, porque está acontecendo isso comigo? porque é que eu estou tão só?". E não demora muito tempo a resposta naturalmente surge. Aí nos chega o evangelho com um painel amplo de medidas. De onde podemos concluir que a solidão na sua legitimidade não existe, o que existe é uma pseudo-solidão para que sintamos dentro de nós o amparo divino.

O deserto é o campo que se abre ao ser para que ele edifique uma nova mentalidade de vida e busque operar em novas bases. Ele aparece no momento em que a consciência se desperta e enxerga que algo existe para além da lei, do que lhe é cobrado. O deserto representa o plano que você vai ter que trabalhar.

João Batista visualiza que tudo o que se aprende tem que ser operado, porque o deserto é um espaço que precisa ser construído. Nós temos que trabalhar o deserto e fazê-lo produzir. Na hora que a individualidade descobre que algo existe para além da lei, em termos de amor, ela se coloca no deserto e é dentro do deserto que ela vai ter que edificar um novo padrão. O compromisso passa a ser a entrada em uma nova proposta. No deserto não existem construções e o que opera a construção, o que sedimenta a conquista, é o quê? É a ação, não a proposta.

Deu uma ideia? Nós estamos lidando com o evangelho e evangelho não é o edifício de redenção das almas? Pois então, edifício sugere construção. Tantas vezes é preciso fertilizar o deserto, fazê-lo produzir. O deserto é lugar árido que pode ser trabalhado, que pode ser fertilizado, mais ao nível da mente. Alguém, entre outras coisas, se identifica no deserto quando descobre um caminho novo a palmilhar.

9 de abr de 2016

Cap 56 - João Batista (3ª edição) - Parte 5

QUE ELE CRESÇA E QUE EU DIMINUA

“É NECESSÁRIO QUE ELE CRESÇA E QUE EU DIMINUA.” JOÃO 3:30

“E ESTE JOÃO TINHA AS SUAS VESTES DE PELOS DE CAMELO, E UM CINTO DE COURO EM TORNO DE SEUS LOMBOS; E ALIMENTAVA-SE DE GAFANHOTOS E DE MEL SILVESTRE.” MATEUS 3:4

O evangelho é muito claro: João Batista aparece no deserto. Unicamente nesse ambiente. Como ele é o inconformado que vem nos propor uma mudança, não existe razão para surgir em outro lugar. Ele não aparece para quem está na praia do reconforto e da satisfação. Aquele que não se acha no deserto da intimidade não se sente identificado com o chamamento e a inquietude manifestada por ele.

E não temos que nos preocupar com o seu nascimento em nós porque o ensinamento é claro: ele aparece dentro da gente. Entendeu esta questão? O ponto básico é esse aparecimento. Isto é fundamental e tem que ser bem entendido.

"E, naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judéia." (Mateus 3:1) O que significa esse aparecer? Que ele surge e se evidencia quando nos reconhecemos no deserto, o identificamos quando já se faz presente em nossa vida íntima. Em outras palavras, João Batista surge espontaneamente dentro da gente, originado por um estado nosso de indignação ou abandono.

Ele simboliza o ápice das linhas informativas que atendem nossos anseios. E vale a pena repetir, não temos que nos preocupar com o seu nascimento em nós. Muito pelo contrário, o que precisamos é substituir a sua presença pela capacidade nossa de realização com o Cristo. O Cristo íntimo, sim, nós temos que fazê-lo nascer conscientemente dentro da gente. É necessário que o Cristo cresça e que João Batista diminua. E o início das nossas atividades no campo operacional do amor representa o alcance finalístico que essa pregação sugere, que é a realização do testemunho; deixa de ser João Batista pregando, mas o Cristo realizando, não mais o chamado da justiça, mas a manifestação do amor.

Vamos imaginar um exemplo. Três pessoas estão engajadas em um grupo religioso e combinaram realizar uma tarefa externa. Programaram se encontrar na porta desse grupo em determinada hora. O primeiro veio porque alguém telefonou para ele ("Você vem?"). Ele não vinha não. O que ele queria mesmo era atender um programa que lhe surgiu de improviso. Mas veio. Desanimado, mas veio. Fez uma espécie de semi-sacrifício.

O segundo, nem se fala, veio no sacrifício total  ("Caramba, onde é que eu estava com a cabeça? Porque é que eu fui assumir esse compromisso?!") Veio amarrado, mas veio, sob a tutela da responsabilidade e do amor próprio dele. A bem da verdade, é o amor próprio que o está movimentando ("Eu não posso agir de forma diferente dos outros. Vontade eu não estou, mas eu tenho que ir. Tenho que mostrar que eu estou firme no propósito.") O terceiro, sim, veio disposto, alegre, radiante, veio com todo seu entusiasmo.

E o que a gente nota? Três tipos diferentes. O primeiro é um misto de João Batista com Jesus. O segundo, nem João Batista é ainda. Esse está na justiça pura. Só Deus é que sabe. E o terceiro já é capaz de fazer em nome do Cristo. Daí vamos ter em conta o seguinte, essas faixas dizem respeito ao que vigora nos corações das pessoas em todos os aspectos da vida. E na maioria das vezes João Batista somos nós hoje, porque não somos Jesus cem por cento. Nem de longe. E já começamos a pensar em outro nível quando ficamos na dúvida.

Enquanto o discípulo do evangelho é o irradiador da luz, Jesus é a luz do mundo. E para que esse discípulo irradie luz, ele tem que fazer o quê? Diminuir-se para que o Cristo apareça. "É necessário que ele cresça e que eu diminua." (João 3:30) Então, o que tem que crescer dentro da gente? O Cristo íntimo, a expressão crística dentro de nós. Tem que diminuir dentro de cada um de nós a inconformação para crescer o trabalho em conformidade aos preceitos do mestre que nos ensinou a expressão máxima do amor. O padrão íntimo comportamental vigorante em nossa vida tem que ter a sua manifestação reduzida para ceder lugar ao padrão novo que chega por meio da informação.

É preciso permitir que filosoficamente o componente da boa nova cresça e que os conceitos velhos que mantemos se reduzam. Na medida em que começamos a desativar a inconformação, nós temos que aprender a ter paciência e manter um sistema de conformação na aplicação dos novos valores.

E também não adianta a gente implementar isso e agir de modo entristecido ou complicado.

A gente tem que mudar, porém não quer dizer que tenhamos que ser duros na implementação da vontade. Esse, aliás, é um drama que muitas criaturas vivenciam. Tem muitas pessoas que entram num sistema reeducativo e adotam novos padrões, mas o fazem de uma forma muito rígida e dura até com elas mesmas. O indivíduo decide mudar e busca de todo jeito resolver em um ano o que levaria mais. E segue a vida sem rir, apenas dentro da postura fechada que ele mesmo adotou. E se ri é debaixo de uma tristeza íntima. Ninguém aguenta levar a vida toda assim, porque no fundo ele não usufrui da vida.

É preciso saber administrar essa mudança, usando a determinação, a paciência, o equilíbrio e a alegria, porque senão a nossa vida estiola. Percebeu? A gente muda, mas sem alegria de viver. E aí, de que adianta? Você entendeu o que eu estou querendo dizer? É por isso que João Batista se alimenta de mel.

O mel sugere doçura. O mel preceitua a paciência que a gente tem que ter também.

É preciso achar o ponto certo. Temos que investir? Sim! Mas usar a inteligência nessa sistemática. Usar o bom humor, a alegria, a fé, mudar fazendo crescer dentro de nós a simpatia no trato com as pessoas ao redor. Sem usar isso a gente pode até conquistar muitos valores externos, porém sem a manutenção do reconforto e da serenidade no íntimo. Portanto, lembre-se: você tem algo a realizar no dia de hoje, mas com expressões de revolta ou contrariedade tua atividade será negativa.

3 de abr de 2016

Cap 56 - João Batista (3ª edição) - Parte 4

A INCONFORMAÇÃO

“1E, NAQUELES DIAS, APARECEU JOÃO BATISTA PREGANDO NO DESERTO DA JUDÉIA, 2E DIZENDO: ARREPENDEI-VOS, PORQUE É CHEGADO O REINO DOS CÉUS. 3PORQUE ESTE É O ANUNCIADO PELO PROFETA ISAÍAS, QUE DISSE: VÓS DO QUE CLAMA NO DESERTO: PREPARAI O CAMINHO DO SENHOR, ENDIREITAI AS SUAS VERÊDAS.” MATEUS 3:1-2

“2E NÃO SEDE CONFORMADOS COM ESTE MUNDO, MAS SEDE TRANSFORMADOS PELA RENOVAÇÃO DO VOSSO ENTENDIMENTO, PARA QUE EXPERIMENTEIS QUAL SEJA A BOA, AGRADÁVEL, E PERFEITA VONTADE DE DEUS.” ROMANOS 12:2

Se você já assistiu algum filme sobre a vida de Jesus, ou pelo menos o início, com certeza já deve ter notado que João Batista é aquele personagem austero, de jeito um tanto rude, pouca conversa, severo, e o mais importante, inconformado. Esta é a parte mais importante. Porque não se sai de um ponto de carência e se entra em um território de abundância, como Jesus disse ("Eu vim para que tenha vida e a tenham em abundância"), sem passar pelos terrenos da inconformação.

Não há como. Então, a inconformação é um componente altamente positivo. Podemos até dizer mais, ela é fundamental, propõe a melhoria do ser, sem a qual não existe crescimento. Corresponde à área de intermediação entre um estado de carência que sugere necessidade e um estado melhor com base no suprimento.

A inconformação é necessária. Representa fator positivo e impulsionador para o nosso crescimento. Seu papel é de indutor, de impulsão do próprio mecanismo evolucional.

Inconformação significa a falta de conformação ou de resignação. É a não aceitação de um estado, circunstância ou situação. Denota contrariedade. Chega para nos falar de uma dificuldade e tem a finalidade de nos projetar para novas bases, para novas faixas, novos patamares. Sem medo de errar, podemos afirmar com toda a certeza que João Batista é esse inconformado que grita dentro da gente. 

Porque no fundo nós estamos aqui por causa da inconformação. Concorda? Estamos inconformados com o sistema de vida que estamos levando. Estamos aqui porque estamos inconformados com a maneira que estamos vivendo, inconformados com a forma como estamos interagindo com a vida, inconformados com a resposta que estamos recebendo. Então, sempre existe uma inconformação íntima que dita a mudança.

O evangelho está chegando para quem está saturado, para aquela criatura que já se encontra acentuadamente cansada de palmilhar territórios que estão perfeitamente superáveis pela sua individualidade. E não tem jeito, quem está matriculado no plano do crescimento espiritual, no firme propósito de melhoria e aperfeiçoamento, não pode ficar conformado com si próprio. Ele tem sempre que estar buscando alguma coisa, pois é esse buscar alguma coisa que define a linha que se estende e motiva a faixa operacional dele. Isto é muito importante de se ter em conta.

E que fique claro o seguinte: quando eu falo que ele não pode estar conformado com ele próprio eu não estou levantando a tese do inconformismo. Entendeu? Eu estou me referindo ao sentido de não estagnar, de não parar, não acomodar, de seguir em frente. E não se assuste, a vida é para os inconformados. Pelo menos a melhor parte dela.

Não tem como alguém manter no rosto um sorriso de satisfação em cima de uma coisa que está estagnada. Isso é uma grande verdade. Todo aquele que se encontra satisfeito no sentido de pronto, acabou, cheguei, está estagnado na evolução.

Nós estamos estudando o evangelho porque estamos inconformados, mas precisamos ficar atentos a uma questão. Quando esse processo de inconformação é trabalhado em conformidade com as leis superiores, nós crescemos. Saímos dela na busca de um padrão melhor e evoluímos. Seguimos em frente, progredindo, evoluindo, crescendo. Isto tem que ficar muito claro. Quer dizer, a inconformação tem que fazer o seu papel no mecanismo de progresso, que consiste exatamente em despertar a nossa disposição e nos lançar adiante.

Nós temos que passar por ela e avançarmos. Não podemos nos estancar nela. 

Ela não pode, em hipótese alguma, tomar conta da nossa estrutura íntima, não pode mandar no nosso eu. É por isto que é preciso um certo cuidado para que as posições transitórias não paralisem os vôos da alma. É fundamental saber distinguir uma inconformação positiva, que tem um sentido bastante sutil, de uma outra inconformação totalmente negativa, que apresenta na intimidade a característica de revolta ou resistência.

A inconformação, quando ela apresenta sentido positivo, se dá de forma bastante sutil. Mas se ela surge e nós não avançamos, não tomamos medidas para o progresso e nos colocamos na posição de inconformados com a vida que estamos levando, inconformados com as dificuldades e problemas, se vamos dando campo a ela no sentido de que "está tudo ruim, eu não aguento a minha família" ou coisas do tipo, daqui a pouco nós estamos revoltados. Percebeu? Se eu começar a lançar a inconformação no plano diário das manifestações, eu me torno uma pessoa difícil.

Ou seja, a inconformação surge, mostra os ângulos do superconsciente, convocando-me para alguma coisa, mas o meu ego fica resistindo. 

E vale ressaltar que ficar inconformado é diferente de estar debaixo de um plano de rebeldia. Aquela inconformação complicada, como sinônimo de rebeldia, é um tremendo desastre para qualquer indivíduo. Ela joga a criatura para baixo.

Tem pessoa que é muito inconformada. Está trabalhando, mas queria estar na praia. Foi pra praia, reclama que o calor está demais. Voltou da praia, reclama que o salário está baixo. Aumentou o salário, o problema é o chefe. O chefe mudou, reclama do colega. Não tem gente assim? Muda de religião, muda de mulher, muda de marido. Muda disso, muda daquilo, muda de casa. Muda para os Estados Unidos, volta para cá. E fica assim. Ela vive com a inconformação dentro de si. Tudo é motivo.

É duro viver com uma pessoa inconformada. Tem que ter muita paciência. Porque ninguém aguenta. Ela é um poço de reclamação e chatice. Está sempre irritada. Chora e esquenta a cabeça de qualquer um.

Aliás, grande parte dos desajustes de ordem psicológica, daquelas doenças catalogadas ao nível das chamadas psicopatias, são decorrentes de uma inconformação embutida. Você já pensou nisso? O elemento não pode fazer aquilo que queria, deter aquilo que desejava, operar com aquilo que ele gostaria. Olha para ele e não se percebe nada. No plano ético e social parece até estar tranquilo, pode não manifestar nada negativamente. Exteriormente ele está uma beleza, ele aparenta estar perfeitamente conformado com a sua realidade, todavia, lá na intimidade pode ter um vulcão em erupção, pode haver um componente fortíssimo de intranquilidade chamado inconformação de profundidade.

E eu não estou exagerando, a inconformação tem estado presente e tem sido um dos fatores mais ameaçadores na estabilidade de vida de muita gente. A questão surge muitas vezes de maneira velada. A criatura nem sempre manifesta esse procedimento com ostensividade. Esse padrão não é identificado de forma nítida, com claridade. Para se ter ideia, geralmente a pessoa não fala em inconformação. Ela fala "não me conformo". 

Ela não fala em inconformação, fala "eu não me conformo", para não perder essa linha do conformar. Geralmente diz assim: "Eu vivo bem. Aguento as paradas, mas não me conformo. Não me conformo com esse trabalho, não me conformo com um filho assim, não me conformo com esse problema da família, eu não me conformo com isso, não me conformo com aquilo...", e vai seguindo um rosário.

É por isto, meu amigo, minha amiga, que nós precisamos abrir o coração. Operar com tranquilidade os recursos que dispomos e tentar desbloquear essas tomadas difíceis, negativas. Saber identificar o que podemos e o que não podemos ainda. Saber o que podemos operar, o que nos é lícito, bem como o que é conveniente para nós e o que não é bom para nós. Temos que aprender a desativar a inconformação que muitas vezes mantemos, acabar com as ondas que estão revoltando o terreno ambiente e nos colocando em situações conflitantes e nebulosas.

Uma grande virtude nossa passa a crescer na proporção em que nós vamos sabendo operar os instrumentos e os recursos, identificando com tranquilidade onde podemos chegar e onde não devemos chegar. E isso significa algo valioso: maturidade.

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